quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Carlos Coelho/Autor de letras e produtor musical de festivais da canção

Meio familiar e escolar

Filho de Manuel Coelho e de Maria Elisa Ferreira, nasceu em 1981 na vila de Resende, integrando uma família numerosa. Tem mais dois irmãos e três irmãs, uma delas sua irmã gémea. O pai, conhecido por Sr. Coelho, reformado da Câmara Municipal, é uma figura popular, sobretudo nos meios ligados ao Grupo Desportivo local. A mãe é funcionária no Externato D. Afonso Henriques. À excepção de um irmão, oficial de justiça do Tribunal de Baião, que vive em Resende, os restantes quatro (dois médicos, uma enfermeira e uma jornalista) vivem actualmente no Porto.

Guarda óptimas recordações da meninice e adolescência. Enquanto os pais trabalhavam, ficava em casa dos avós paternos. O avô era detentor de uma pedagogia especial no tocante ao acompanhamento dos trabalhos escolares, o que lhe permitiu consolidar bem as aprendizagens do 1.º ciclo. Só guarda uma mágoa dos primeiros anos da escolaridade: a pouca importância dada ao desenho, de que tanto gostava.

Frequentou a então chamada Escola Preparatória, onde fez o 5.º e 6.º ano, mudando-se a seguir para o Externato, onde frequentou o 3.º ciclo e o ensino secundário. Em todas as turmas ao longo da escolaridade, teve sempre por colega a sua irmã gémea.

Embora muito bom aluno em todas as disciplinas, nunca foi considerado um “marrão”. Sempre fez questão em participar, desde o 5.º ano, em jogos florais, saraus, festas de escola, concursos e outras iniciativas lúdicas e culturais. Pintava cartazes, fazia cenários, escolhia poemas e músicas e até escrevia peças de teatro. Gostava de inventar jogos. Contudo, a representação em palco nunca foi o seu forte, preferindo escolher os colegas certos para o efeito.


Prémios escolares

Além dos estudos que não descurava, sempre cultivou um interesse especial pelo desenho, fotografia, escrita e música, embora reconheça não ter dotes vocais. A participação em concursos nacionais valeu-lhe ter ganho vários primeiros lugares. Assim, aos 13 anos, consegue arrebatar o 1.º prémio num concurso de banda desenhada, aos 14 anos, vence um concurso literário em língua inglesa e, aos 16 anos, fica em primeiro lugar num concurso de fotografia para jovens.

Hesitações e opção por psicologia

Como tinha boas notas a todas as disciplinas, a escolha do curso superior tornou-se difícil. Como possibilidades, foi colocando arquitectura, psicologia, biologia e física. A inscrição em arquitectura na Universidade do Porto exigia a disciplina de geometria descritiva, que não integrava a oferta disponibilizada pelo Externato na área de estudos científico-naturais. Por isso, na falta de certezas, e para não perder oportunidades, fez esta disciplina de forma autodidacta no 12.º ano. No fim desse ano, talvez para justificar o esforço dispendido, candidatou-se ao curso de arquitectura, tendo feito o 1.º ano. Após esta experiência, devido à natureza muito solitária da profissão de arquitecto (não se imaginava uma vida inteira num gabinete a fazer projectos), resolveu abraçar o curso de psicologia, cuja opção também sempre o acompanhou. Em 2005, termina o respectivo curso na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. O estágio curricular e profissional na Junta de Freguesia de Baguim do Monte (Gondomar) permitiu-lhe a articulação de saberes e o contacto com problemas sociais, tendo a sua intervenção passado por problemas de aprendizagem e de comportamento de crianças, abandono escolar e educação familiar. Esta experiência foi decisiva na opção profissional pela intervenção nesta área sob a perspectiva clínica, tendo para isso aberto um gabinete de psicologia no Porto há cerca de um ano.

Cursos de língua gestual e psicologia do amor

Sempre a fervilhar de ideias, dedica também algum do seu tempo a organizar cursos que respondam às necessidades das pessoas, dotando-as de determinadas ferramentas, como a aprendizagem da língua gestual, ou às exigências culturais de alguns estratos profissionais e sociais da população, através da oferta do aprofundamento de temas como psicofarmacologia, psicologia da timidez, psicologia do dinheiro, psicologia do amor, psicologia da religião, psicologia da morte…O seu objectivo é pegar em muitos dos assuntos de “café”, muito apelativos, mas debatidos na base de evidências, lugares comuns e palpites, apresentando-os sob a perspectiva do registo e do discurso científico.

Autor de letras e produtor musical para festivais da canção

O seu gosto por festivas da canção vem de longe. A capacidade para a escrita foi desde os primeiros anos de escola um dado adquirido. Foi, por isso, alimentando o sonho de escrever poemas para canções. Ainda estudante de psicologia, em 2004, achou que era tempo de concretizar esta ideia. Foi compondo canções para as quais ia concebendo a respectiva música que cantarolava para amigos, que procuravam fazer a respectiva tradução e composição no plano musical. Nesse mesmo ano, procurou concorrer ao Festival RTP da Canção, mas o prazo tinha terminado. Como na Lituânia as candidaturas ainda estavam abertas, apresentou uma canção em inglês, tendo ganho o Prémio do Olympic Casino de Vilnius para a melhor canção.

A partir daí, nunca mais parou, escrevendo e traduzindo canções em inglês, castelhano, francês e português. Ainda em 2004, é convidado pela banda letã Fomins & Kleins para escrever a versão portuguesa da sua canção “Dziesma par laimi”, que seria a representante da Letónia no Festival da Eurovisão desse ano. Em 2005, volta a participar como autor e produtor no Festival da Canção da Lituânia, ganhando o Prémio da Rádio Nacional deste país para a melhor canção a concurso. Em 2006, começa a trabalhar com Andrej Babic (compositor croata que já viu 3 temas seus no Festival da Eurovisão) e a produzir para vários intérpretes de vários países. Em 2007, produz e assina com Andrej Babic o tema que ficaria em 2.º lugar na selecção da canção de Andorra para a Eurovisão. Ainda em 2007, faz parte da equipa que produziu a canção da Eslovénia na Eurovisão, assinando também a versão castelhana da canção. Além das parcerias mencionadas, já trabalhou com mais artistas desses e de outros países, como a Finlândia, Moldávia e Itália.

Convite da RTP e percurso para o êxito

Sabedor das regras do jogo, isto é, que as dez canções a concurso ao Festival da Canção decorriam mediante convite, apresentou previamente o seu currículo à RTP. Insistindo e realçando os seus pergaminhos junto da equipa responsável, o convite chegou. Depois foi o que se sabe. Com a canção “Senhora do Mar”, com música de Andrej Babic e interpretação de Vânia Fernandes, vence de forma confortável a 44.ª edição do certame de entre um conjunto de dez canções, através do processo de tele-voto. Em Belgrado, ficou em 2.º lugar na 2.ª semi-final (em concurso estavam 43 países) e na final, na qual Portugal estivera pela última vez em 2003, ficou em 13.º lugar no conjunto de 25 países. Foi a canção favorita da imprensa, tendo obtido o 1.º lugar na votação dos cerca de 3.000 jornalistas presentes. Venceu, pois, uma canção com um tema estruturalmente português e lastro de evocação épica, que evoca o mar, a saudade e o fado.

Perguntas e Respostas

Foi objecto de alguma homenagem em Resende?

Recentemente, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade um voto de louvor pelos sucessos alcançados por este nosso conterrâneo.

Que se entende por produtor musical?

No caso vertente do Festival da Canção, é o responsável pela apresentação da letra e música (inéditas) e pela escolha do respectivo intérprete. Carlos Coelho indicou também o tipo e cor do vestido de Vânia Fernandes ( vestido preto evocando o fado e com brincos em filigrana em estilo bem português) e a roupa dos elementos do coro (vestes brancas a fazer lembrar a bruma e espuma das ondas do mar) e outros adereços, fazendo questão de a canção integrar instrumentos e sons portugueses. No fundo, o produtor funciona como o arquitecto do espectáculo.

Qual é o projecto/sonho de Carlos Coelho?

Sem prejuízo da dedicação à psicologia (que pretende repartir com um outro colega), pretende abrir uma casa criativa de canções, oferecendo “fatos por medida” aos clientes. Serão disponibilizados aos cantores as letras e músicas que mais se adaptem aos respectivos estilos, responsabilizando-se também pela produção de CD’s, espectáculos e gestão de carreiras.

Contacto:

Telefone: 222 012 572 (Centro de Psicologia do Norte)

E-mail: carlos_alberto_coelho@hotmail.com

Nota: Este apontamento, de minha autoria, foi escrito para o Jornal de Resende (Julho de 2008)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

ESCOLA SECUNDÁRIA/3.º CICLO DE RESENDE*

Através de uma aposta forte nos cursos e ofertas formativas das Novas Oportunidades, a Escola Secundária com 3.º Ciclo D. Egas Moniz está a contribuir para uma profunda alteração do panorama dos baixos níveis de escolaridade e de qualificação profissional da população do concelho. Estas opções formativas respondem também às necessidades dos alunos que não queiram prosseguir estudos superiores, constituindo simultaneamente o melhor antídoto no combate ao insucesso e abandono escolar.

Introdução
A Escola Secundária de Resende foi criada oficialmente em 31 de Dezembro de 1986 através da Portaria n.º 791/86, tendo sido inaugurada em 7 de Outubro de 1987 e entrado em funcionamento em 13 de Outubro do mesmo ano. Arrancou com 444 alunos do 7.º ao 10.º ano.
Por sugestão conjunta da Câmara Municipal e da Escola, que mereceu a concordância do Ministério da Educação, por despacho de 15 de Outubro de 1991, foi designado seu patrono D. Egas Moniz. É uma homenagem ao aio de D. Afonso Henriques, com raízes familiares na nossa região e dono de um vastíssimo património, incluindo a Quinta do Paço, onde se encontra situada a Escola e onde teve um dos seus palácios.

Breve caracterização da população escolar
É frequentada actualmente por 634 alunos, provenientes fundamentalmente do concelho de Resende e de algumas freguesias confinantes, pertencentes aos concelhos de Cinfães e Baião. Integra alunos oriundos de famílias dos diferentes estratos sociais, com predominância da classe média-baixa. A elevada percentagem (67,92%) de alunos apoiada pela acção social escolar expressa esta realidade. Outro índice diz respeito aos baixos níveis de escolaridade dos pais/encarregados de educação, pois a maioria tem apenas a 4.ª classe ou o 6.º ano (45% e 30%, respectivamente), havendo somente 15% com o 9.º ano, 8% com o 12.º ano e 2% com um curso superior.
A grande maioria dos alunos não dispõe de livros não escolares, enciclopédias, revistas e jornais em casa, nem tem acesso às novas tecnologias, sendo a Escola o espaço para a respectiva consulta e a Resende Digital, sob a orientação e gestão da Câmara Municipal.
Estas situações reflectem-se no percurso escolar dos alunos, embora as taxas de retenção tenham vindo a diminuir.
Os casos de diversidade cultural e étnica são pontuais. Acolhe também alguns alunos que nasceram ou residiram no estrangeiro, filhos de emigrantes, que se têm integrado razoavelmente bem na Escola.

Dinâmica da Escola
Funciona das o8h30 às 24h00. Dispõe de 85 professores, sendo 50 do quadro (58,82%) e 35 contratados (41,18%), incluindo 4 formadores externos. Um número considerável tem residência fora de Resende, de onde e para onde se desloca diariamente.
O Conselho Executivo privilegia o modelo de gestão de recursos humanos baseado no equilíbrio de consensos, auscultando a opinião dos docentes e as suas preferências, nomeadamente em matéria de continuidade de turmas e/ou disciplinas e desempenho de cargos, o que tem produzido bons resultados.
No âmbito da Escola a tempo inteiro, está a resultar o objectivo proposto para o presente ano lectivo, em que se pretende que o número de aulas previstas seja igual ao número de aulas dadas pelos professores e recebidas pelos alunos. Para isso, aos docentes é-lhes proposto que optem, em caso de falta, prioritariamente, pela permuta e reposição da(s) aula(s) e, só em última instância, pela justificação de falta ao abrigo dos normativos legais. É dada especial importância ao trabalho de articulação, pelo que está prevista uma tarde por semana sem aulas para que os elementos das estruturas de orientação educativa possam reunir.
O pessoal não docente integra 34 funcionários, sendo de assinalar a sua dedicação e assiduidade, o que tem permitido a concretização atempada das várias tarefas administrativas, a manutenção cuidada de espaços verdes, a limpeza interior e exterior, o apoio a festas de convívio, etc.
São desenvolvidas actividades e eventos geradores de um bom clima entre toda a comunidade educativa, tais como: festa de finalistas, dia do teatro e das artes, festa de Natal, miss e mister Egas, dia do estudante, sarau gímnico, programa de acolhimento aos novos professores e recepção aos alunos do 7.º ano.
Tendo em vista a melhoria das várias estruturas da Escola, encontra-se institucionalizado, desde o ano lectivo de 2006/07, um sistema de monitorização, concretizado através de um processo de auto-avaliação com recurso a inquéritos aos vários elementos da comunidade educativa.

Novos Cursos/Novas Oportunidades
Além do ensino regular no 3.º ciclo e no ensino secundário (curso de ciências e tecnologias), a Escola Secundária/3.º Ciclo oferece novos cursos e alternativas vocacionados para a entrada no mundo do trabalho. Assim, no ensino secundário tem em funcionamento dois cursos profissionais (de técnico de turismo e de técnico de termalismo), sendo frequentados por 59 alunos. Também, no âmbito das Novas Oportunidades, a Escola tem em funcionamento quatro turmas de cursos de educação e formação (Cursos CEF), que conferirão aos respectivos alunos o 9.º ano e uma qualificação profissional (na área de electricidade de instalações e na área de jardins e espaços verdes, respectivamente). Oferece também um curso do programa de integração de educação e formação (Curso PIEF) para 14 alunos, com o objectivo de lhes conferir o 9.º ano. Por fim, destinados a maiores de 18 anos, disponibiliza cursos de educação e formação de adultos (EFA), em regime pós-laboral, tendo em funcionamento uma turma do 3.º ciclo e duas do ensino secundário.
No presente ano lectivo, encontram-se a frequentar no conjunto dos Novos Cursos/ Novas Oportunidades (Cursos Profissionais, CEF, PIEF e EFA) 189 alunos, o que representa 29,81 % da população escolar. Estes alunos em formação encontrar-se-ão aptos a integrar o mercado de trabalho no fim dos respectivos cursos. Devido à aposta nas Novas Oportunidades, o número de turmas aumentou, relativamente ao ano passado, de 25 para 32.

Novas Oportunidades de qualificação para quem trabalha
A Escola celebrou um protocolo de parceria com o Centro de Novas Oportunidades, sedeado no Agrupamento de Escolas de Moimenta da Beira, possibilitando a quem tenha mais de 18 anos a obtenção do 9.º ano, do 12.º ano ou de uma qualificação profissional. Dependendo das situações, os candidatos são encaminhados para a realização de um processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), para um Curso de Educação e Formação de Adultos (Cursos EFA) ou para outro percurso educativo e formativo que se revele mais adequado. Neste momento, há mais de 190 inscritos que desejam valorizar-se, aumentando as suas habilitações académicas e as suas qualificações profissionais. Para quem trabalha ou trabalhou serão tidos em conta os ganhos e mais-valias adquiridos ao longo da vida. Caso sejam diagnosticadas necessidades de formação no processo de reconhecimento de competências, os interessados serão encaminhados para uma formação complementar. Por sua vez, caso o adulto, em fase de informação inicial, não evidencie as condições necessárias ao desenvolvimento de um processo RVCC, será reencaminhado para uma oferta educativa e formativa adequada às suas necessidades e condições específicas.
Está, pois, em curso um processo de transformação qualitativa e de valorização substancial dos recursos humanos do concelho.

Nota: Este apontamento baseou-se na legislação e normativos relativos às Novas Oportunidades, em documentação cedida pelo Dr. José Dias Gabriel e na recolha de informações junto do mesmo, a quem agradeço a disponibilidade para o efeito.

Perguntas e Respostas

Quem é o Presidente Conselho Executivo?
É o Prof. José Dias Gabriel, que se encontra à frente dos destinos da Escola desde a sua abertura, perfazendo 20 anos em Outubro próximo. Transitou da então Escola Preparatória, onde também incluiu o respectivo órgão de gestão.
É também o actual Provedor da Santa Casa da Misericórdia. De entre os projectos de que foi responsável ou dinamizador, é de destacar o seu contributo na formação e direcção artística do Rancho de Anreade.

Qual a ligação da Escola à Comunidade?
Para além da articulação com os encarregados de educação, da participação em projectos nacionais e da cooperação com a Câmara Municipal, a Escola, por força dos Novos Cursos/Novas Oportunidades, tem protocolos negociados ou em vias de negociação com 13 instituições, serviços e empresas, sem contar com as de construção civil e instalações eléctricas.

O que distingue os Cursos Profissionais?
São um dos percursos do nível secundário, em que a aprendizagem realizada nestes cursos valoriza o desenvolvimento de competências para o exercício de uma profissão, em articulação com o sector empresarial local.

O que pretendem os Cursos de Educação e Formação (CEF)?
Pretendem proporcionar aos jovens a partir dos 15 anos um conjunto de ofertas diferenciadas que permitam o cumprimento da escolaridade obrigatória e a obtenção de qualificações profissionais devidamente certificadas.

Qual o objectivo do Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF)?
Tem como objectivo favorecer o cumprimento da escolaridade obrigatória a menores e conferir a certificação escolar e profissional de menores a partir de 15 anos, em situação de exploração de trabalho infantil.

O que são Cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA)?
São uma oferta integrada de educação e formação pós-laboral, para públicos adultos, com idade igual ou superior a 18 anos, que possuam baixos níveis de escolaridade e de qualificação profissional, proporcionando dupla certificação (escolar e profissional).

*Artigo de minha autoria, publicado no Jornal de Resende (Abril de 2008)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

"Conferência Internacional para o diálogo" (Artigo de Anselmo Borges no DN de 26-07-2008)

1. Realizou-se em Madrid, na semana passada, com a presença de muçulmanos, cristãos (o cardeal J.-L. Tauran representou o Vaticano), judeus, budistas, hindus e membros de outras religiões, uma conferência sobre o diálogo inter-religioso. Inédito: a iniciativa partiu do rei da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdulaziz Al Saud, guardião dos lugares santos do islão em Meca e Medina, após um encontro, também ele inédito, com Bento XVI no Vaticano.
Na sessão de abertura, o rei Abdullah apelou ao diálogo para fazer frente à “perda de valores” e “confusão de conceitos”, frutos, no seu entender, do “vazio espiritual”. O islão “é a religião da moderação, da ponderação e da tolerância." Para o monarca saudita, a diversidade de religiões há-de ser um meio para a “felicidade” dos humanos, porque se Deus tivesse querido outra coisa, “teria imposto uma só religião à Humanidade.” “As tragédias vividas não foram causadas pelas religiões, mas pelos extremismos adoptados por alguns dos seus seguidores e pelas crenças políticas.”Também o rei de Espanha, Juan Carlos, defendeu o diálogo inter-religioso e intercultural, fazendo votos para que a Conferência contribua para um mundo “mais justo, mais próspero e solidário” e “que acabe com a inaceitável barbárie terrorista, lute contra a fome, a doença e a pobreza, respeite os direitos do ser humano e promova a defesa do meio ambiente.” A Conferência concluiu com uma Declaração, que afirma que “as mensagens divinas rejeitam o extremismo, o fanatismo e o terrorismo” e recomenda que “se promova uma cultura de tolerância e compreensão”. Para isso, convida a Assembleia Geral das Nações Unidas a “impulsionar o diálogo entre os seguidores de todas as religiões, civilizações e culturas, organizando uma sessão especial para o diálogo.”
2. Simultaneamente, em La Coruña, promovido pela Universidade Internacional Menéndez Pelayo, realizou-se um encontro sobre “Cristianismo e Islão em Diálogo”, em que participei. Foram também três dias de reflexão sobre temas fundamentais, tratados por peritos cristãos e muçulmanos: a situação actual do cristianismo e do islão, relação homem-mulher, experiência de Deus, o poder, justiça e solidariedade.Entre os peritos islâmicos, encontrava-se Tariq Ramadan, figura densamente polémica, Professor em Oxford e um dos intelectuais muçulmanos mais influentes no Ocidente.
Convoquei-o para o debate sobre a laicidade. E ele, num discurso ágil, foi declarando que no islão há a autoridade que vem de cima, de Deus – o credo, com os cinco pilares do islão, que se impõem àqueles que quiserem pela fé aceitá-los – e a autoridade da razão, uma racionalidade negociada nos domínios da ciência, da ética, da justiça, uma negociação da humanização. Enquanto houve esta separação assistiu-se a uma efervescência intelectual no mundo islâmico. Hoje, há uma perversão por causa da não separação destas autoridades e poderes. Mas, por outro lado, não se pode esquecer o profundo trauma no mundo islâmico por causa da colonização, de tal modo que, quando se fala em laicidade e secularização, pensa-se em ocidentalização e colonização. E culminou: “Eu próprio estou proibido de entrar na Arábia Saudita e de ir a Meca.” À margem do encontro, Xabier Pikaza, teólogo católico de renome, também disse, referindo-se à intolerância radical da Arábia Saudita, onde os não muçulmanos são considerados “infiéis”, não lhes sendo permitido praticar a sua religião: “Como pode promover fora uma reunião impossível na Arábia? Imaginem que iam à capital da Arábia Saudita milhares de cristãos e judeus e celebravam missas e cultos sagrados segundo as suas tradições e que falavam abertamente com as pessoas da rua, pedindo sinagogas e igrejas, e que perguntavam pelas lapidações e pela situação das mulheres e pelos assassinatos dos homossexuais...”
3. De todas as formas, o diálogo, mesmo no quadro de uma eventual operação de marketing, é sempre bem-vindo. Mas, como disse David Rosen, membro do Comité Judaico Americano, espera-se que a Conferência de Madrid não seja apenas “uma oportunidade fotográfica.”

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Agrupamento de Escolas de Resende*

Tendo como sede a escola do 2.º ciclo, abarca o Centro Escolar de S. Martinho de Mouros e todos os estabelecimentos da educação pré-escolar e do 1.º ciclo do concelho. Aproximar rapidamente as taxas de sucesso educativo da média nacional, melhorando as competências em Língua Portuguesa e Matemática dos seus alunos, é o grande objectivo desta comunidade educativa.

Breve resenha histórica
Só a partir de 1963, com o início do funcionamento do Externato D. Afonso Henriques, foi possível a alguns jovens completar em Resende o antigo 5.º ano (actual 9.º ano). Até então, a maioria das crianças frequentava apenas a chamada escola primária, já que só uma minoria endinheirada podia encaminhar os seus filhos para os colégios ou para os liceus da Região. Após o 25 de Abril de 1974, tornou-se efectivo o alargamento a todo o país do 6.º ano de escolaridade. Assim, em 4 de Janeiro de 1977, começou a funcionar o 1.º e 2.º ano do Ciclo Preparatório e o 7.º ano do Curso Unificado, que foi alargado, no ano seguinte, ao 8.º e 9.º ano. Com a entrada em funcionamento, em Outubro de 1987, da Escola Secundária, recebendo alunos do 7.º ao 12.º ano, houve um redistribuição da população escolar, ficando desde então afectos à então Escola Preparatória o 5.º e o 6.º anos.
Com o fim das Direcções e Delegações Escolares, os Jardins de Infância e as Escolas do 1.º Ciclo foram agrupados, ficando abrangidos pelas normas de organização e gestão escolar dos restantes estabelecimentos de ensino. Assim, em 2002/03, entrou em funcionamento o Agrupamento Vertical de Escolas de Resende, com sede na escola do 2.º ciclo, englobando todos os Jardins de Infância e Escolas do 1.º Ciclo do Concelho.

O Agrupamento em números
A educação pré-escolar funciona em 10 estabelecimentos, encontrando-se matriculadas nos mesmos 231 crianças. A vertente pré-escolar do Centro Escolar de S. Martinho de Mouros é frequentada por 75 crianças, divididas por 5 salas, tendo sido extintos os Jardins de Infância das quatro freguesias orientais do Concelho. Os dois Jardins de Infância da Vila, com 25 crianças cada um, são os que apresentam maior número de inscrições. No fim da tabela aparece o de S. Romão com apenas 10 crianças.
O 1.º Ciclo tem assistido a uma diminuição progressiva do número de crianças. Assim, no ano lectivo de 2005/06 havia 624 alunos neste nível de ensino, diminuindo para 613 em 2006/07 e para 581 no presente ano lectivo. Nos últimos anos e com a entrada em funcionamento do Centro Escolar de S. Martinho de Mouros, ocorreu uma grande reestruturação da rede escolar, passando de 30 escolas, em 2004/05, para 15, em 2007/08. A vertente do 1.º Ciclo deste Centro Escolar tem inscritos 165 alunos. A Escola do 1.º Ciclo mais frequentada é a da Vila, com 151 alunos, por contraste com a de Aregos, onde apenas estão inscritos 5 alunos.
Também a população escolar do 2.º ciclo tem vindo a diminuir, pois, em 2004/05, havia 340, enquanto, no presente ano lectivo, estão inscritos 317 alunos.
Para o conjunto da população (1.129 crianças/adolescentes) o Agrupamento disponibiliza 106 docentes, assim distribuídos: 14 para a educação pré-escolar, 50 para o 1.º ciclo, 39 para o 2.º ciclo e 3 para a educação especial.

Alguns dados relevantes
A maioria da população residente é analfabeta ou só tem o 1.º ciclo (69%), de acordo com os dados do censo de 2001, e o poder de compra no concelho é cerca de metade da média nacional, havendo ainda muitas famílias que vivem em regime de subsistência. Esta situação é patente na percentagem dos alunos subsidiados a nível dos apoios sócio-educativos, atingindo 75% no 1.º ciclo e 79% no 2.º ciclo, situando-se a esmagadora maioria no escalão A, isto é, o rendimento per capita destes agregados familiares, de acordo com os critérios do Ministério da Educação, é de €172, 63.
Apesar dos dados sócio-familiares serem desfavoráveis, tem havido uma melhoria progressiva no que toca ao combate do insucesso escolar. Assim, reportando-nos ao ano lectivo de 2003/04, a taxa de insucesso no 1.º ciclo foi no Agrupamento de Resende de 11,6%, enquanto a nível nacional, foi de 6,7%. Por sua vez, em 2006/07, no nosso concelho, a taxa de insucesso foi de 7,2%, enquanto, a nível nacional, se situou em 3,9%. Outra boa notícia diz respeito às provas de aferição do 1.º ciclo, cujos resultados, em 2006/07, se situaram num nível próximo da média nacional, embora com disparidades entre as várias escolas.
Relativamente ao 2.º ciclo, a taxa de insucesso (somatório da retenção e abandono) situa-se dentro da média nacional, havendo, contudo, um diferencial em desfavor da escola do 2.º ciclo de Resende no que toca aos resultados das provas de aferição nas disciplinas de Língua Portuguesa e de Matemática.

Aposta na inovação
O projecto educativo para o triénio 2007/2010 apresenta como primeiro e grande objectivo aumentar o sucesso escolar dos alunos, aproximando os resultados do 1.º ciclo da média nacional, incluindo os resultados das provas de aferição da Língua Portuguesa e da Matemática, e manter a taxa de sucesso do 2.º ciclo na média nacional, desenvolvendo um esforço para a convergência dos resultados das provas de aferição.
Para levar a bom porto este desiderato, dar-se-á continuidade à “política educativa” do actual Conselho Executivo no que se refere à utilização de novas tecnologias na gestão pedagógica e administrativa das escolas do Agrupamento e no processo de ensino aprendizagem.
Desde há três anos que a escola sede (do 2.º ciclo) adoptou o sistema GIAE (Gestão Integrada de Administração Escolar), o que permite a automatização, entre outras funções, do controle de acessos e pagamentos através de cartão multiusos, postos de venda para bufete, papelaria, etc., venda de senhas, controle de assiduidade de pessoal docente e não docente e elaboração de sumários electrónicos. É intenção do actual Conselho Executivo disponibilizar a toda a comunidade educativa, incluindo encarregados de educação, através de uma password individual, informações úteis como a assiduidade, saldos, convocatórias, etc.
Nos últimos anos, houve também uma aposta forte nos “Kit Sala de Aula” (computador, projector e quadro interactivo). Através de adesão a programas vários e a uma gestão rigorosa, a escola do 2.º ciclo tem presentemente instalado 18 quadros interactivos, potenciando pela sua versatilidade uma verdadeira revolução no suporte didáctico das várias disciplinas. Refira-se que todas as salas do 1.º ciclo do Centro Escolar de S. Martinho de Mouros têm disponíveis estes equipamentos.
Quem visitar a escola do 2.º ciclo apercebe-se da opção pela via irreversível das novas tecnologias, pois depara-se com 15 computadores na sala de informática, 2 na biblioteca e 3 na sala de docentes, todos com ligação à Internet. Disponíveis para toda a comunidade escolar existem ainda 14 portáteis.
Todos os jardins de infância e escolas do Agrupamento têm ao seu dispor a plataforma digital moodle, onde todos poderão aceder a legislação, documentação, notícias e jornal da escola, partilhar materiais e experiências, responder a inquéritos, inscrever sumários, participar em fóruns, receber e dar formação, etc.
A fim de sustentar, rentabilizar e dar consistência a esta opção pelas novas tecnologias de informação, existe uma equipa TIC para garantir o apoio a todos os utilizadores e outras possibilidades de formação.

Nota: Este apontamento baseou-se no Projecto Educativo do Agrupamento e na recolha de informações junto do Eng. Manuel Tuna a quem agradeço a disponibilidade demonstrada para o efeito

Perguntas e Respostas.

Por quem é constituído o Conselho Executivo?
Por Manuel Luís da Silva Pereira Tuna, que preside desde 2002/03, tendo já integrado anteriores conselhos executivos durante 7 anos, e por três vice-presidentes: Fátima Maria Rocha Soares, Ana Maria da Conceição Sequeira Magalhães e Excelso Carlos dos Santos Ferreira. Tem também uma assessora, Maria Isabel Pires Costa Moreira, que é também a representante do Ministério da Educação junto da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Resende.

Qual a participação dos pais na vida da escola?
Na maioria dos casos, a sua participação limita-se a tomar conhecimento da situação escolar dos seus filhos/educandos e a assistir a actividades em que os mesmos participam. Os actuais responsáveis desejam envolver mais activamente os pais na vida da escola, apostando, para isso, na melhoria e no aumento dos circuitos de comunicação, através do recurso aos meios tradicionais e das novas tecnologias (correio electrónico, serviço de mensagens por telemóvel, plataforma moodle, programa GIAE/gestão integrada de administração escolar…), e estando nos seus projectos a promoção de uma escola de pais. O actual conselho executivo está empenhado na revitalização da associação de pais, com núcleos em S. Martinho de Mouros, escola-sede e conjunto dos restantes estabelecimentos do concelho, tendo para isso dinamizado várias reuniões no início deste mês.

Irão ser tomadas iniciativas para a promoção da leitura entre os alunos?
Sim. Tendo em conta o baixo nível sócio-cultural de uma grande percentagem da população, uma das grandes preocupações deste Conselho Executivo é a aproximação dos alunos aos livros como instrumento de aprendizagem e de desenvolvimento cultural. Complementando o trabalho e as actividades da Biblioteca Municipal e a sua dinamização no campo da leitura, o Agrupamento ambiciona o aumento em 15% ao ano do número de livros requisitados nas bibliotecas, tendo como referência o ano de 2007/08.

*Artigo de minha autoria, publicado no Jornal de Resende (Março de 2008)

domingo, 29 de junho de 2008

Anselmo Borges conversa com "O Diabo"

De que forma avalia a crise social que está a afectar Portugal?
É uma situação muito grave. Ela já existia – não se pode esquecer que Portugal é o país da União Europeia em que o fosso entre ricos e pobres é mais fundo. Agora a crise acentuou-se com o aumento do crude e dos outros bens, nomeadamente, alimentares. Pode vir aí uma conflitualidade social séria.

Está preocupado?
É evidente que sim. Só quem andasse completamente desatento ou seja sadomasoquista é que se não preocuparia. Há em Portugal dois milhões de pobres e há pessoas com fome. É uma vergonha nacional.

O Governo está a ser capaz de dar respostas aos problemas da área social que estão a afectar os portugueses?

Queria dizer-lhe que a situação é complexíssima, porque a crise é nacional, europeia e global. Portanto, o Governo também está limitado, por causa de toda esta interdependência da economia e da finança. Por exemplo, o próprio Presidente da República já chamou a atenção para o escândalo dos salários de certos gestores. Mas não podemos esquecer que também os gestores hoje fazem parte do mercado global e isso limita o poder do Governo. Impostos sobre as fortunas seria outra medida necessária. Mas já Marx dizia o que hoje se tornou mais evidente: o capital não tem pátria...
As respostas do Executivo têm sido muito parciais. É necessária mais justiça social e espero que o Governo pense bem nas obras faraónicas que aí vêm e que, pelo menos, evite a todo o custo as famosas derrapagens orçamentais.

Que conselhos deixa ao Governo?

Não tenho competência para isso. Mas sempre lhe digo que um dos dramas de Portugal é a falta de formação e qualificação. Na devida altura, não se tomaram medidas de fundo nesse sentido. Então, que o Governo aposte na formação e qualificação. Mas numa formação e qualificação a sério e não para simples estatísticas, o que está a constituir mais uma intrujice nacional.

Que resposta tem a Igreja para dar às populações mais carenciadas?

Penso que a Igreja vai fazendo o que pode, tanto a nível institucional, nas paróquias, nas instituições particulares de solidariedade social, como individualmente. Há muitos cristãos que, generosamente e sem dar nas vistas, contribuem para aliviar as necessidades dos mais carenciados.
Penso, por outro lado, que a Igreja poderia e deveria ajudar também a reflectir sobre o sentido do dinheiro. Quero com isto dizer que frequentemente os portugueses perderam o sentido da moderação no uso dos bens. Julgo, por exemplo, que não é razoável ir de férias a crédito, como ainda hoje vi em publicidade nos jornais.

Na sua opinião, as instituições da Igreja católica, com a ajuda prestada, estarão muitas vezes a substituir funções e apoio que deveriam caber ao Estado?
A Igreja deve denunciar as injustiças e propor caminhos de justiça. Mas cabe-lhe também, mesmo que seja em substituição, ajudar os mais carenciados. Neste caso, fazendo a Igreja muitas vezes melhor e mais barato do que o Estado, não percebo porque é que o Estado não há-de apoiar financeiramente.

sábado, 21 de junho de 2008

SANTA MARIA DE CÁRQUERE, EM RESENDE:

Santa Maria de Cárquere, em Resende: A "cura milagrosa" do nosso primeiro rei e os "primeiros passos" da nossa história


(Comunicação na Academia Portuguesa da História, pelo Pe. Dr. Joaquim Correia Duarte, em 09 de Abril de 2008)

Ex. ma Senhora Presidente da Academia

Senhores Académicos e ilustríssimos confrades

Minhas Senhoras e meus Senhores

Como São Paulo aos Coríntios, também eu subo pela primeira vez a esta tribuna ansioso e “a tremer deveras” [1]. Tenho consciência das minhas humildes raízes, pois nasci e sempre tenho vivido nas encostas do Douro, entre o rio húmido e a serra agreste, sem grande tempo para frequentar Bibliotecas e Arquivos e sem condições para o trabalho intelectual de investigação, como se espera dum membro da Academia Portuguesa da História.
No entanto, ocupo hoje este lugar, porque há pouco mais de um ano, exactamente a 14 de Fevereiro de 2007, fui eleito Académico Honorário por votação unânime dos senhores Académicos de Número então presentes, na sequência do parecer favorável do Conselho Académico e depois de feita a apresentação do meu currículo pelo P. Henrique Pinto Rema, meu honrado conterrâneo, que muito estimo e profundamente admiro.
É uma honra que muito prezo e um privilégio que nunca poderei olvidar.
A única promessa que lhes posso fazer, e que é também sinal da minha enorme gratidão, é que irei tirar das minhas fraquezas força, para honrar e prestigiar a nossa ilustre e aureolada Academia, em todos os lugares e em todas as circunstâncias.

Bem hajam!

Minhas senhoras e meus senhores:

De novo ao jeito de Paulo de Tarso, quando chegou à culta Atenas e subiu ao alto estrado do Areópago, venho falar-lhes hoje de uma ”terra desconhecida” [2], não obstante a sua riqueza em história, a sua cópia de lendas e tradições, a sua generosidade em proveitos e em bens e a sua exuberância em belezas naturais.
Refiro-me a Cárquere, a Santa Maria de Cárquere, no meu muito querido concelho de Resende.

Situação Geográfica e antiguidades de Cárquere

Cárquere é uma das quinze freguesias do actual concelho de Resende e uma das 217 paróquias da diocese de Lamego.
Situada na meia encosta, entre a doçura e a pacatez actual do Douro e aspereza da serra do Montemuro, a 520 metros de altitude, a freguesia tem oito quilómetros quadrados de área geográfica e habitam-na cerca de mil almas.
O “Medorno” ou “Medorro” de Cárquere – assim se denomina um outeiro situado nas proximidades da igreja e do mosteiro – tem todos os sinais indicativos da existência de um antigo castro pré-celta.
Os romanos, chegados aqui no século II a. C., terão aproveitado a referida “citânia” para aí estabelecerem um “oppidum”.
Dos tempos da colonização romana os vestígios são tão abundantes em Cárquere, que bem se pode considerar o local uma das mais ricas estações arqueológicas do noroeste português.
Os vestígios mais ricos, mais notáveis e mais abundantes são as moedas e as lápides funerárias.
O jesuíta Eugénio Jalhay deslocou-se a Cárquere em 1950, a fim de estudar essas lápides. Num opúsculo (separata da revista Brotéria) o competente investigador refere ter visto nas cercanias da igreja 12 estelas funerárias com inscrições em latim. Comunicado o achado à Junta Nacional de Educação, Eugénio Jalhay e o seu companheiro Afonso do Paço receberam ordens para voltarem a Cárquere, estudarem melhor o assunto e encaminharem as 12 estelas para o Museu Etnológico Português, onde já estavam depositadas 42, provenientes também de Cárquere [3].

Para além das lápides, o P. Jalhay refere ainda que, na sua visita a Cárquere, o pároco lhe mostrara “mais de cem moedas romanas”, quase todas do Baixo-Império.
Esta abundância de vestígios da romanização em Cárquere não é difícil de explicar. Segundo Gil Mantas, nas proximidades de Cárquere passava a famosa “Via Caurium”, que subia de Mérida para Braga, seguindo pelas Caldas de Aregos que fica logo a seguir a Cárquere, e, já a norte do Douro, por Tongóbriga, actual lugar do Freixo, em Marco de Canavezes [4].
Mais importante ainda, para o tema que hoje nos ocupa, é uma estatueta de Diana que Frei Teodoro de Melo, em manuscrito de 1733, nos diz ter sido achada por uns “rústicos” nos passais dos padres Jesuítas em Cárquere.

Dando-nos referência da inscrição que nela havia, diz-nos Teodoro de Melo que numa das duas partes que resultaram da fractura se podia ler DIANA SACOELO FLAVA e na outra, CARCAV F. A. LXXV.

A interpretação do religioso foi então a seguinte:

…e sendo ambas uma pedra da altura de cinco palmos e dois de largo, em que se deixa ver de relevo, ainda que um pouco polida, a figura de Diana que estava no seu pequeno templo ou capela sem tecto, que é o que significam as primeiras palavras, significando as segundas Carcavellus a fez anno de 75” [5].

Sendo assim, temos nessa estatueta uma importante referência ao culto de Diana em Cárquere e à existência de um pequeno e rude templo, erguido em honra da deusa das florestas e da caça.

Os princípios do Cristianismo
Embora o primeiro anúncio do Evangelho e as primeiras adesões ao Cristianismo tenham acontecido na Península Ibérica nos finais do século I ou princípios do século II da nossa era[6], eu penso que a organização intensa das comunidades cristãs rurais no noroeste peninsular, e mais concretamente na região de Resende, só terão acontecido ao longo do século VI, já no domínio dos Suevos convertidos à fé cristã por São Martinho de Dume.
A atestar esta hipótese, há a presença de Sardinário - o primeiro bispo de Lamego com existência documentada - no II Concílio de Braga, em 572, assinando as actas [7].

Ora, parece que a principal actividade e preocupação do referido bispo na diocese consistiu na multiplicação das paróquias com administração própria, algumas de carácter monástico [8].
Tudo isto nos ajuda a suspeitar que a primeira comunidade cristã organizada em Cárquere e a construção do primeiro templo cristão se devam situar na época suevo-visigótica.

Porque não substituir então aí o culto de Diana, filha de Júpiter, uma das mais perfeitas divindades do Olimpo e a mais pura e mais casta das divindades, pelo de Maria, a Imaculada, a Eleita de Deus e a Mãe do Redentor?

O orago da igreja é Santa Maria de Cárquere

A corroborar tudo o que fica dito, note-se a existência em Cárquere de minúscula e preciosíssima escultura em marfim, de 29 mm de altura e 14 de base, cujas formas e expressões denunciam um trabalho de muita antiguidade. A escultura representa uma Senhora com o Menino sentado sobre o joelho esquerdo, de coroa encordoada e denticulada. O Menino segura um livro na mão esquerda e abençoa com a direita.
Vergílio Correia que viu a imagem em 1929, pergunta se não estamos perante uma imagem visigótica, e comenta assim:

“Como nos sentimos impressionados sob as arcadas de uma igreja primitiva, perante uma imagem vista e adorada por reis, richomens e povo de séculos remotos, que foi talvez levada como talisman, no seu minúsculo relicário de prata, para o meio das refregas contra os mouros, que correu por ventura as sete partidas do mundo, de um mundo que nós não conhecemos, nem conheceremos nunca?·9]

A Igreja e o Mosteiro

Cárquere insere-se no contexto do actual concelho de Resende, local que teve uma singular importância nos primórdios da nacionalidade, nomeadamente os três maiores centros populacionais do nosso tempo.
São Martinho de Mouros recebeu foral de Fernando Magno em 1057, depois de o célebre monarca ter reconquistado o seu castelo aos Mouros, juntamente com o de Lamego. Tal foral, renovado por Afonso VI de Leão, veio a ser confirmado pela Condessa D. Teresa, em 1121, nas vésperas da sua contestada e irregular união com Fernando Peres de Trava. A famosa “Honra de Resende”, que abrangia Cárquere em grande parte, recebeu privilégios de Honra e Couto logo depois da Batalha de São Mamede; Caldas de Aregos, antiquíssimo julgado medieval que abrangia então alguns lugares de Cárquere, foi contemplado com uma preciosa Carta de Foral, assinada por D. Afonso Henriques em 1183, dois anos antes da sua morte, por interferência do “alvasil” Nuno Sanches, então “tenente” da “terra” de Aregos por nomeação do próprio Fundador.
Da igreja actual de Cárquere, que tem capela-mor gótica e corpo quase todo manuelino, fazem parte três importantes estruturas com sinais indiscutíveis do românico: o Conventinho, a torre sineira que abunda em siglas, e a capela funerária dos senhores de Resende, descendentes de Egas Moniz de Ribadouro e seus sucessores na posse da famosa Honra do mesmo nome. Esta última, fria e arcaica, tem no seu interior quatro arcas tumulares de granito, rudes, pesadas, trapezoidais, com as armas dos “Resendes” esculpidas nos tampos.
Entre parêntesis, não resisto a lembrar-lhes que Eça de Queirós, escolhendo Resende para cenário de quatro das suas mais conhecidas obras, se refere a estes túmulos, na “Ilustre Casa de Ramires”, nos seguintes termos:

“Para os fundos do vale, clara também no luar, era a igrejinha de Craquede – Santa Maria de Craquede – resto do antigo mosteiro em que jaziam, nos seus rudes túmulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Afonsinos”
[10].
Muitos autores, observadores atentos de estruturas tão arcaicas e conhecedores das Crónicas do século XVI e XVII, afirmam que a igreja e o mosteiro são obra de Egas Moniz ou mesmo do Conde D. Henrique; e dizem que estes as terão mandado construir em agradecimento à Senhora de Cárquere, pelo milagre que Ela fez em favor de Afonso Henriques, quando ele era ainda um pequeno infante de quatro ou cinco anos.
Chegamos assim ao ponto central e mais importante desta humilde e despretensiosa comunicação.

É tradição local, que vem correndo de pais a filhos ao longo dos séculos, sem nunca se ter perdido, que o filho do Conde D. Henrique, sendo ainda criança, fora curado por Nossa Senhora de Cárquere.

Diz o povo que D. Egas Moniz, preocupadíssimo com a deficiência congénita do príncipe (que lhe fora entregue pelo Conde seu pai para ele o criar e educar), rezava fervorosamente à Virgem Mãe, a pedir a cura do menino. Até que um dia, estando o aio no seu Paço de Resende, a Senhora lhe apareceu em sonhos e lhe disse que subisse a Cárquere, pusesse o príncipe em cima do Seu altar e Lhe acendesse duas velas. Cansados da subida e adormecendo na vigília, só o Príncipe se deu conta de que uma das velas, caindo, pegara o fogo às toalhas e ao altar. Tendo-se esforçado ele próprio por evitar o incêndio, e erguendo-se para o conseguir, sentiu-se logo curado e chamou alegremente pelos demais, e todos deram graças a Deus pelo sucedido.

Sempre em Cárquere e em Resende os pais e os avós contaram esta história aos filhos e aos netinhos. A tradição não se perdeu, e julgo que nunca se perderá.

Para além desta constante tradição do povo, o “milagre” encontra-se referenciado em diversos cronistas do século XVI e XVII, nomeadamente Duarte Nunes de Leão na “Crónica do Conde D. Henrique” [11] , Faria e Sousa em “Europa Portuguesa” [12], Baltazar Teles na “Crónica da Companhia de Jesus” [13] , Agostinho de Santa Maria no “Santuário Mariano” [14], Nicolau de Santa Maria na “Crónica dos Cónegos Regrantes de S. Agostinho” [15], Pais Viegas na “Vida de El-Rei D. Afonso Henriques” [16], António de Vasconcelos na “Descriptione Regni Lusitanni” [17], Duarte Galvão, na “Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques” [28], Frei Leão de S. Tomás na “Benedictina Lusitanna”[19], Frei Bernardo de Brito na “Crónica de Cister” [20] e Frei António Brandão na “Monarchia Lusitana” [21].

Todos os citados relatos do “milagre” têm sido postos em causa.
E
fectivamente, (pese embora o seu pioneirismo de tentarem pela primeira vez em Portugal redigir uma história geral da nação, ultrapassando os historiógrafos dos séculos XV e XVI que se limitavam a escrever as crónicas dos acontecimentos ligados a uma ilustre personalidade), quer os épicos seiscentistas, quer os historiadores de Alcobaça, motivados pelo seu amor à pátria (que então se encontrava humilhada e mesmo amordaçada), e influenciados pelo mito sebastianista que augurava para Portugal um destino glorioso e eterno, caíram frequentemente na tentação de misturar a história com as lendas, e mesmo de inventar documentos ou apresentar como factos o que não passava de produto de imaginações exuberantes.

Os autores que põem em questão o “milagre” e o negam em absoluto baseiam-se nos seguintes argumentos:

1.º Os textos que referem o “milagre” foram escritos nos séculos XVI e XVII, quatro ou cinco séculos depois do suposto milagre ter acontecido;

2º As crónicas que narram o “milagre” foram redigidas por frades ou monges pertencentes a famílias monásticas que estiveram na posse do Mosteiro de Cárquere;

3º É muito estranho que um facto tão importante na História de Portugal não tivesse sido anotado nos documentos da época, já que dele dependia de certo modo o futuro da Nação: um rei com uma deficiência tão incapacitante nunca poderia levar Portugal à independência e muito menos afastar a moirama e alargar o território até ao sul.

4º Tanto a narração dos cronistas como o relato oral do povo envolvem algumas contradições de datas, tais como a afirmação de que o príncipe foi curado aos cinco anos e que o seu pai levantou a igreja em memória do milagre, quando a “Crónica dos Godos” atesta que o Conde D. Henrique faleceu quando o filho tinha apenas dois anos.

5º Alguns autores, valendo-se de outro recurso, negam que Egas Moniz tenha sido senhor de Resende e que o Príncipe aí tivesse estado alguma vez.

Com base nos argumentos que acabo de enumerar, os estudiosos concluem que a narração do famoso “milagre” se deve atribuir apenas à fecunda imaginação dos monges do mosteiro, interessados no engrandecimento da Ordem e no desejo de atrair peregrinos e romeiros ao lugar.

Face a tudo isto, analisemos atentos e desapaixonados os seguintes dados:

1º Não encontrei nenhum estudioso (mesmo os que contradizem o milagre em absoluto) que negasse a deficiência do príncipe, o que é verdadeiramente notável. Como souberam de tal deficiência? Porque razão nela acreditam?

2º Não era de esperar que o milagre, a ter acontecido, fosse logo passado a escrito, em tempos tão remotos, difíceis e conturbados. Sabemos que, ao tempo, não havia ninguém incumbido de escrever as crónicas do reino. Tal só aconteceu em 19 de Março de 1434, quando o rei D. Duarte encarregou Fernão Lopes “ de poer em caronyca as estorias dos Reys que antigamente em Portugal foram”…[22]

3º Ninguém nos garante que algum relato escrito do milagre tivesse existido e se perdesse com o tempo, como aconteceu com tantos outros documentos de grande interesse.

4º Muito (ou quase tudo) do que nós sabemos sobre os primeiros tempos da nossa história vem-nos pela mesma via do “milagre”: Nobiliários, hagiógrafos e cronicões do século XIV e cronistas dos séculos XVI e XVII.

5º Se as crónicas do século XVII não merecem todo o crédito (o que é verdade), a veracidade dos Livros de Linhagens e dos Cronicões de trezentos não é maior. Nem sequer a dos “cronistas por ofício” de quinhentos é assim tão indiscutível, se considerarmos que eram remunerados pelo seu trabalho e que foram diversas vezes cumulados de honrarias por aqueles cujos feitos narraram ou cujas personalidades exaltaram. Pelo menos, em boas condições de serem verídicos, não estavam seguramente.

E, já agora, quanto ao crédito dos historiadores de Alcobaça da era de seiscentos, não podemos medi-los a todos por igual. Se Bernardo de Brito não merece grande crédito como historiador, o mesmo não acontece com António Brandão, geralmente considerado um homem cuidadoso na investigação da verdade. Ele próprio, no prólogo dos seus trabalhos, depois de dizer que “a verdade he a alma da Historia” e de atestar que, em matéria de factos históricos, se não deve admitir coisa alguma sem a conferir com os documentos, afirma ter gasto perto de dez anos “em buscar e & ler as Doaçoens, Privilegios, Escrituras, & Livros dos principaes Archivos das Sés, & Mosteiros deste Reyno, e alguns das Cidades, & Villas delle, & principalmente o Chartório da Torre do Tombo que he o Archivo Real & está no Castello de Lisboa” [23].

Aliás, como todos sabemos, Alexandre Herculano, para redigir a sua História de Portugal, serviu-se dos trabalhos de Frei António Brandão, a quem chama “um ilustre restaurador da história pátria”, e a respeito do qual afirma que foi “o homem que mais atingiu o espírito da ciência histórica, exceptuando António Caetano do Amaral e João Pedro Ribeiro”[24]. Já não diz o mesmo em relação a Bernardo de Brito, caracterizando a sua obra como “altamente ridícula.”[25].

6º António Brandão, quando se refere ao “milagre de Cárquere”, cita duas antiquíssimas “Comemorações” em louvor de D. Afonso Henriques que ele próprio teve em mão e que eu reputo da maior importância neste caso: uma, escrita em pergaminho, viu-a no Mosteiro de Lorvão; a outra, no Mosteiro de Alcobaça.

Diz textualmente o cronista: “Deste milagre temos notícia (além do dito nas nossas Chronicas, & da tradição recebida) em hua commemoração antigua do Mosteyro de Alcobaça, ordenada pelos Padres daquelle Convento em louvor do gloriofo Rey Don Afonso Henriquez…com as palavras seguintes: “Qui mox a puero in fide beatae Virginis Matris Dei, dominae nostrae susceptus, cujus oraculo et patrocinio tibiarum sanitatem recepisti”. Querem dizer: que el Rey Dom Afonso Henriquez, logo desde Menino, foy posto debaixo do amparo da Bemaventurada Virgem May de Deos Senhora Nossa, por cuja revelação e intercessão alcançou a saude das pernas”[26].

Ora, o argumento aduzido quanto à hipótese dos monges de Santa Cruz terem “forjado” o milagre para dar notoriedade ao mosteiro e atraírem mais romeiros, cai assim por terra, já que, nem Lorvão nem Alcobaça tinham alguma coisa a ver com Cárquere; e até pode perguntar-se, com alguma pertinência: Como é que em Lorvão e em Alcobaça se sabia do “milagre”, tantos anos antes de ele ter sido “inventado” pelos cronistas? Aliás, a tal “Comemoração” de Alcobaça tinha de ser muito, muito antiga, sabendo-se que o “culto” a D. Afonso I cedo começou a morrer, sendo portanto muito anterior às Crónicas do século XVII.

7º Pergunta-se: o pretenso “milagre”, a ser verdadeiro, teria acontecido por volta de 1114, tendo o Conde D. Henrique morrido dois anos antes, ou seja, em 1112? A ”Crónica Gothorum” diz que, à data da morte de seu pai, o Infante tinha dois ou três anos [27]. As datas que acabo de referir, a serem verdadeiras e indiscutíveis, punham em questão os últimos conselhos e as derradeiras recomendações do Conde ao Infante seu filho na hora de morrer, e que constam do Nobiliário de D. Pedro [28] e das “Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra” [29].

Sabendo D. Henrique que o menino era bebé, doente, enfezado e incapaz (a acreditar nas Crónicas, o “milagre” ainda não acontecera nessa altura), como lhe confiou tarefas tão nobres e tão complicadas?
Sobre esta questão, eu ouso perguntar: Quem nos garante que o príncipe tinha apenas dois ou três anos quando o Conde faleceu e que o milagre só aconteceu quando o pequeno já tinha cinco anos? Não havendo documentos coevos, todas essas datas são discutíveis.

Não sendo nenhum dos documentos contemporâneo dos factos, e sabendo-se que “quem conta um conto lhe acrescenta sempre um ponto”, quem nos diz que a cura do menino não aconteceu pouco depois de ter sido desmamado por D. Ausenda e que, à hora de o conde falecer, não seria já um pequeno adolescente capaz de entender as falas e de apreender, aceitar e guardar a mensagem do conde moribundo?

Duarte Galvão diz-nos na sua “Chronica” que, à morte do Conde, era o príncipe “já de tal idade que nas guerras e fadigas supria os carregos de seu pai.”[30] Camões, n’ Os Lusíadas, referindo-se ao Conde D. Henrique, escreve assim: “quando chegado ao fim da sua idade, o forte e famoso húngaro estremado….o s’prito deu a quem lho tinha dado, ficava o filho em tenra mocidade…” [31] E quem nos garante também que tais recomendações do ilustre pai são mesmo verdadeiras e não foram inventadas?

Eu penso que o ocorrido é uma coisa - que se foi transmitindo de geração em geração - e que os pormenores de datas, de ditos e de idades são outra coisa bem diferente, que se foi imaginando e inventando a gosto de cada um. Daí as contradições. Basta confrontar os investigadores que escreveram sobre D. Afonso I, para encontrarmos as maiores divergências, praticamente em tudo o que a ele se refere, nomeadamente a data e o lugar do nascimento, e quem foi o seu “criador” e “educador”.

Quanto à data do seu nascimento e ao local onde terá nascido, optarei por 1109 e pela cidade de Guimarães, preferidos pela maior parte dos actuais investigadores. [32] Ora, por volta de 1109, “o honrado e bem-aventurado D. Egas Moniz de Ribadouro” (assim o caracterizam os Nobiliários medievais), a mando do Conde D. Henrique, teria dominado e controlado algumas revoltas da população árabe na região de Lamego, onde o futuro aio possuía grandes bens patrimoniais. Parece que foi também a partir daí que o fidalgo se tornou o homem da confiança do Conde e da sua mulher, adquirindo na corte um papel primordial, sendo-lhe inclusivamente entregue um pouco mais tarde o príncipe, para ele o criar e educar·[33].

Terá sido nessas circunstâncias que Egas Moniz o recebeu em sua casa, deslocando-se frequentemente com ele e com a sua família para os seus “paços” ou “quintãs” do Douro, nomeadamente, Cresconhe (no actual concelho de Cinfães), Britiande (junto a Lamego) e Resende, o meu concelho, onde também tinha o seu “Paço”.

A estadia do príncipe em Resende, posta em causa por alguns estudiosos, é afirmada por Frei António Brandão, [34] por Frei Leão de S. Tomás, [35] por Rodrigo Mendes da Silva, [36] por Frei Teodoro de Melo [37] e, muito recentemente, por Freitas do Amaral e Augustina Bessa –Luís. [38]

A ser verdadeira a estadia de Afonso Henriques em Resende, no Paço de Egas Moniz, mais razoável é toda a tradição do povo que refere a difícil e íngreme subida de Egas Moniz de Resende a Cárquere, depois de a Virgem lhe ter aparecido em sonhos.

9º Vários cronistas do século XVII estabelecem relação entre a fundação do Mosteiro em Cárquere e o tão discutido “milagre.

Gonçalves da Costa, que foi um ilustre membro desta Academia e escreveu a “História do Bispado e Cidade de Lamego”, em 6 volumes, diz que a primeira comunidade religiosa se deve ter instalado em Cárquere ainda durante a monarquia suevo/visigótica e que, depois da Reconquista destas terras aos Mouros, se deve ter reorganizado sob a direcção de um prior à maneira dos Monges de Santa Cruz de Coimbra, começando então a designar-se por Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, por viverem debaixo da sua Regra. [39]

Esta afirmação parece-me bastante provável, já que, seguindo-a, conseguimos encaixar, como num “puzzle” perfeito, diversas realidades de Cárquere que passo a expor sucintamente:

a) Antes de mais, a minúscula e preciosíssima imagem da Senhora de Cárquere, em marfim, que já atrás referenciei, e a história popular que fala do seu casual achamento na altura da Reconquista. Havendo em Cárquere um centro tão intenso de espiritualidade, é compreensível que tal imagem da Virgem ali fosse venerada com especial devoção e a tivessem escondido algures, na confusão das invasões sarracenas.
b) Da nave da igreja de Cárquere faz parte uma velha parede de granito que separa o templo do antigo Conventinho, tipicamente românica como a torre, enquanto tudo o mais é do século XVI, de características claramente manuelinas, o que não é difícil de compreender: quatrocentos anos depois, bem podia a nave do templo apresentar sinais de degradação ou de ruína.
Bem ao contrário, toda a capela-mor é gótica dos séculos XIII/XIV, o que já não é tão fácil de explicar: não é plausível que, sendo a igreja toda uma construção do século XII, cem anos depois já fosse preciso substituir ou remodelar toda a capela-mor. A explicação razoável parece estar mesmo na existência de um pequeno templo suevo-visigótico dos séc. VI/VII que, setecentos anos depois, fosse substituído pela capela-mor que ali se vê.

E com esta explicação se coaduna perfeitamente a preciosa imagem da Senhora com o Menino. Além disso, os pilares da capela-mor me parecem de estrutura e gosto muito mais antigos que o próprio gótico.

c)
Quando, em 1994, se desmontou o retábulo barroco do altar-mor para limpeza e recuperação da talha com subsídio da Secretaria de Estado da Cultura através do IPAR, ficou à vista uma enorme pedra em forma de mesa, rude, chanfrada nos dois ângulos frontais, com uma espécie de cofre cavado na parte superior, a meio, e coberto com uma pequeno naco de madeira. O cofre estava vazio, mas aquela grande pedra bem pode ter sido a mesa do altar da igreja primitiva (porque não do templo suevo-visigótico?), altura em que não se fundava nenhum lugar de culto sem a presença das relíquias dos mártires. E, se assim for, esse pequeno templo visigótico bem pode ter sido aquele que, embora muito degradado e talvez abandonado, existia em Cárquere quando D. Egas ali trouxe o Infante. E não nos será permitido imaginar até, que aquela mesa tosca de granito agora descoberta possa ter sido também o altar referido nas crónicas, onde o menino foi colocado como Nossa Senhora mandou?
Estou quase a concluir. Não o farei, porém, sem antes fazer uma referência a uma estranha hipótese que se divulgou rapidamente pelo país, sendo hoje conhecida e usada por muito boa gente, para contradizer o milagre. Refiro-me a um artigo escrito por Santana Dionísio n “O Primeiro de Janeiro” de 12 de Janeiro de 1969, que passo a transcrever nos seus três últimos parágrafos, que são os que nos interessam:

“À distância de quase nove séculos desse prodigioso evento, que poderemos nós, homens ressequidos deste século duro, pensar ou dizer acerca do mesmo?

É caso para profunda e tácita meditação.

A única palavra que talvez nos seja lícito pronunciar é a de que a estranha transmutação da criança enfermiça e sem porvir, na predestinada criança rosada e fortíssima que iria ser fraterno companheiro de correrias e diabruras do futuro Espadeiro (fraterno e quem sabe se irmão sanguíneo?) é um intrigante mistério que bem poderia ser objecto de discreto debate num possível Symposium ecuménico dos mais argutos detectives do mundo, tendo talvez como tema esta simples legenda: “A estranha incógnita de um presumível infanticídio, bem intencionado e perfeito
”. [40]
No texto, como é fácil de ver, pretende levantar-se um véu de muitos séculos, para, a medo (e para negar o “milagre”), sugerir que o príncipe deficiente foi eliminado num abrir e fechar de olhos e habilmente substituído por um qualquer saudável e robusto filho de Egas Moniz, sendo o “milagre de Cárquere”, neste caso, apenas uma invenção artificiosa para encobrir tal substituição.
Depois de Santana Dionísio, outros lhe seguiram o encalço. Omitindo propositadamente o título dum livro publicado em 2007 e o nome do seu autor (por me parecer mal escrito e demasiado indecoroso, a raiar até as fronteiras da obscenidade), anotarei apenas o que Augustina Bessa-Luís escreveu para “Fama e Segredo na História de Portugal[41].

Cito apenas três passagens da “2ª ópera” da referida brochura:

“A criança raquítica, embora bela e prendada de muitas graças, deu lugar a um guerreiro como não houve outro na nossa História. Dá para pensar que Egas Moniz o fez substituir por um dos seus próprios filhos ou pelo filho de algum rico-homem de pendão e caldeira, como se dizia.”

“Uma nota arrepiante fica no rodapé da História. Que foi feito da criança aleijada que Egas Moniz levou nos braços, arrebatando-a à sua ama D. Ausenda?”

A versão que agora corre, e a mais vulgarizada, fala apenas de uma habilidosa troca de crianças, ficando D. Egas com o enfermiço do Conde, e o Conde com um possante rebento de D. Egas.
A minha opinião é a seguinte: Mesmo que ponhamos em causa todas as crónicas e relatos do milagre (e é compreensível, legítimo e razoável que o façamos), muito mais podemos e devemos pôr em causa esta estranha hipótese de Sant’Ana Dionísio e de todos os que a aceitaram e a usam depois dele, pela simples razão de que as crónicas dos séculos XVI e XVII têm atrás de si e a seu favor uma tradição oral passada de pais a filhos através de incontáveis gerações, podendo os cronistas ter-se limitado a passá-la a escrito na hora em que dela tiveram conhecimento (admitamos que, com algum exagero de pormenores), enquanto a recente hipótese, que vem apenas de 1969 (segundo eu sei), nada tem atrás de si, parecendo-me por isso mesmo inteiramente falaciosa e gratuita, para além de vir contrariar a proverbial honestidade de Egas Moniz nunca posta em causa por ninguém. Não me parece razoável e credível que homens tão honestos e honrados como foram Egas Moniz e o Conde Henrique, trocassem os filhos um com o outro, e muito menos se prestassem a matar uma inocente criança que acabava de nascer, fosse pelo que fosse.
Para além de que, não sendo fácil tal crime ou falcatrua passarem despercebidos, podem imaginar-se as reivindicações do poder que não haveria por parte de outros filhos de D. Henrique, e sobretudo por parte de D. Teresa, que obviamente sabia de tudo. Como podemos acreditar que a Condessa se calasse na ocasião do recontro de S. Mamede, sabendo que o porta-bandeira da revolta não era o filho verdadeiro de D. Henrique, mas tão só um dos filhos de D. Egas? E também não é difícil imaginar como seria aproveitada uma tal fraude por bobos e jograis para tema de cantigas e romances, que haveriam de correr de terra em terra e de chegar até nós como chegaram os relatos dos “milagres”.

Nos tempos que correm, não sei se por snobismo se por desejo de protagonismos ou lucros fáceis, usa-se levantar suspeitas de tudo e em relação a quase tudo, parecendo pretender-se ás vezes “descobrir a pólvora”, contradizendo tudo o que se disse ou ensinou ao longo de séculos e que foi considerado como verdade por muitas e sucessivas gerações. Basta pensarmos de relance nos temas da morte do papa João Paulo I, da virgindade e da ressurreição de Jesus, e em todos os best-sellers relacionados com tais questões, procurados e devorados com alguma sofreguidão pela nossa sociedade, na sua avidez insaciável de novidades, escândalos e sensacionalismos.

Não digo que se não devam pôr outras hipóteses, por mais afastadas ou contraditórias que sejam do que sempre nos foi dito. A ciência começa por aí. Tais hipóteses, entretanto, não passam disso mesmo, enquanto se não conseguirem provar, com exames sérios, documentos credíveis e argumentos insofismáveis.

Uma tradição, mesmo que não suficientemente provada, não pode ser destruída de um dia para o outro por uma mera hipótese baseada em suspeições e desprovida de qualquer prova razoável. Inventar suspeições e formular hipóteses, é o que há de mais fácil. E, pelos vistos, em nossos tempos, até é rentável. Altamente rentável, em fama e em proveito.

Vou concluir:

No nosso caso, por tudo o que hoje sabemos, ninguém pode afirmar o milagre, mas também ninguém o pode negar.

Como vimos, os argumentos a favor ainda parecem ser os mais credíveis. Só que a história faz-se com documentos autênticos e indiscutíveis…e esses não existem, sobretudo por não serem contemporâneos dos factos que estão em causa. Não existem neste caso, mas também em muitos outros relacionados com os primeiros tempos da nossa existência como povo livre e como nação independente, e que nós, afinal, até aceitamos sem grande reserva.

Efectivamente, nós não podemos dar como indiscutivelmente falsas todas as informações que chegaram até nós por via dos nobiliários, dos cronicões ou dos cronistas. Algumas podem ser (e são por certo) fruto da invenção de feitos maravilhosos muito do gosto dos escritores de todos os tempos e muito mais dos cronistas de seiscentos. Mas também nada se opõe a que sejam fruto de uma tradição segura e continuada (ainda que enriquecida com pormenores pouco credíveis), de que se perdeu a fonte documental.

Entre parêntesis, e apenas para ilustrar o que agora afirmei, refiro o famoso feito de Martim Moniz na tomada de Lisboa aos Mouros, mencionado no Nobiliário de D. Pedro [42] e negado em absoluto por Alexandre Herculano,·43] por não haver documentos contemporâneos do mesmo. Ora, Alfredo Pimenta, em “Fontes Medievais da História de Portugal”, [44] fala-nos de uma escritura em pergaminho encontrada por ele nos Arquivos da Torre do Tombo, com a data de 1258, onde se dá como referência de uma propriedade a “porta da cidade de Lisboa que dizem de Martin Moniz”, o que nos mostra que, 111 anos depois da conquista de Lisboa, já era tradicional o povo chamar-lhe assim. Consequentemente, conclui o referido investigador, o autor do Nobiliário não inventou o feito ou a façanha, mas apenas captou e registou uma tradição que já tinha mais de duzentos anos.
A minha opinião sobre o ”milagre de Cárquere” é a seguinte: Pode não ter havido um milagre assim tão claro, tão aparatoso, tão radical e tão rápido; pode e deve haver ampliação e exagero, tanto no que aconteceu como no modo como as coisas ocorreram, mas alguma coisa se passou, e muito séria, e com isso se relaciona Cárquere, a sua Igreja e o seu Mosteiro. E o povo, indiferente a provas e documentos, sempre contará a história do milagre que vem de longe, de muito longe, e vai permanecer pelos séculos fora. Uma coisa é certa: se reduzirmos os nossos conhecimentos e os nossos informes a factos cientificamente provados com suportes documentais indiscutíveis e exames laboratoriais evidentes, a nossa vida pode vir a tornar-se demasiado glacial e insípida, para não dizer prosaica, monótona, e até desengraçada. Quando o maravilhoso (mesmo que o seja) já não tiver lugar em nossas vidas e na vida das nossas crianças, deixaremos todos de sonhar, de recordar e de viver. Se não tivermos a certeza do que afirmamos por não poder provar-se documentalmente (e excluindo naturalmente publicações de carácter científico) julgo que devemos continuar a dizer e a repetir: “Conta-se que, um certo dia, já lá vão muitos anos…”
Aliás, foi assim que procedeu Freitas do Amaral no seu livro “D. Afonso Henriques”, que, avisadamente, se limitou a transcrever sobre o assunto o texto de Duarte Galvão, sem negar nem afirmar o que quer que fosse. [45]

Não me é proibido, além disso, pensar que os relatos do “milagre”, escritos nos séculos XVI e XVII, possam ser apenas o registo escrito de uma tradição que vinha dos primórdios e que nunca se perdeu. E a tradição, não sendo absolutamente válida como fonte histórica, é, mesmo assim, um canal de transmissão de factos e de verdades que não podem ser simplesmente ignorados ou desprezados por quem faz investigação.

Aliás, é bem interessante a alusão de António José Saraiva, quando, no seu curioso estudo sobre a IV Crónica Breve de Santa Cruz, defende que existiu, sem qualquer dúvida, uma tradição épica sobre Afonso Henriques, quiçá um poema jogralesco, que pode remontar ao último quartel do século XII, cantado talvez pelos jograis nas praças das vilas e nos festins dos castelos, baseada em testemunhos orais contemporâneos ou um pouco posteriores aos acontecimentos que faziam o seu tema. E o mesmo historiador afirma ainda que os cronistas se habituaram a citar os relatos dos jograis, apontando-os algumas vezes como fontes históricas. E a verdade é que, na “Crónica Geral de Espanha” de Afonso X, escrita no século XIII, se dá um largo acolhimento a histórias tradicionais, entre elas a dos “Sete Infantes de Lara”, ocorridos em 974. [46]

Os historiadores que negam os milagres narrados nas “Crónicas” (o de Cárquere e o de Ourique) e lhes chamam invenções devotas, explicam tais invenções dizendo que foram escritas numa época em que a moral do povo português se encontrava de rastos (época do domínio filipino) e era necessário erguer bem alta a bandeira dum povo eleito e predestinado pela Providência Divina, desde o seu início, para cumprir um destino de glória, na independência, na liberdade e no êxito. Mas afinal, mesmo que assim tenha sido, o nosso imortal Herculano, dois séculos mais tarde, no seu famoso romance histórico “O Bobo”, também explica a nossa vitória em S. Mamede como um êxito messiânico e providencial. Diz o romancista: “No progresso da civilização humana, nós tínhamos uma missão a cumprir. Era necessário que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de actividade e vigor…um povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envolto em temporal, e cujos destinos era conquistar para o cristianismo e para a civilização três partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a glória.”…”Que sejam agora as memórias da pátria, que tivemos, o Anjo de Deus que nos reboque à energia social e aos santos afectos da nacionalidade”. …”No meio de uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral, é uma espécie de sacerdócio”. “Exercitem-no os que podem e sabem, porque não o fazer é um crime”. [47]
Assim sendo, e por todas as razões que apontei, Resende e Cárquere têm muito a ver com Portugal, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Com milagre ou com uma simples graça de recobro na saúde, foi em Cárquere que, na pessoa do seu primeiro líder e do seu mais forte cabouqueiro, Portugal começou a dar os seus “primeiros passos” e se desenvencilhou duma paralisia congénita que nunca o deixaria ser livre e construir o seu futuro.
Permitam-me que eu conclua estas desajeitadas palavras, citando o tomarista Teodoro de Melo, no seu gongórico manuscrito de 1733:

“Podendose gloriar Rezende de ser nas nossas Espanhas o venturoso principio, e manancial fonte, e inexhausta origem de toda a sua ou quase toda a mais qualificada e melhor Nobreza, e mais avultada; e sendo grande glória esta para uma terra tão pequena, não é menos gloria para a mesma, o haverse nella creado, e milagrosamente feito apto, não o sendo por nascimento, e saindo della para o Reyno, o primeiro, e o mais valleroso Rey dos Portuguezes”.

“E jactese muito embora Guimaraens de lhe dar o nascimento, mais que em júbilos envolto em lágrimas, pello seu nativo defeito que lhe concedemos com racional inveja das mais terras não pequena, que em Rezende, sem jactância, foi o jubilo perfeito, as lágrimas gostoso agradecimento do remédio, e toda a esperança da bárbara expulsão que nelle se fez complecta na mesma terra; da qual saindo vigoroso, e prodigiosamente sem o impedimento com que nascera, o mayor prodígio em armas daquelles e de outros muitos tempos, a todos, e a todo o mundo por sy, e por seus descendentes, encheu de triunfos e victórias, de Coroas, Ceptros e Diademas”. [48]
Termino, exprimindo um desejo sincero e formulando um voto fervoroso: Gostaria que alguma vez esta Ilustríssima Academia se deslocasse a Cárquere, a Santa Maria de Cárquere, para apreciar “in lo-co”, ao menos uma vez na vida, o que acaba de ser dito e que eu logro felizmente todos os dias, sempre com a mesma surpresa e igual encantamento.
Muito obrigado
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Nota: Omitimos listagem da longa bibliografia.
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