quinta-feira, 5 de março de 2009

Projecto EPIS na ES/3.º D. Egas Moniz*

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DE SINALIZAÇÃO DE FACTORES DE RISCO


Em resposta ao apelo do Presidente da República para um compromisso cívico para a inclusão social, lançado no discurso de 25 de Abril de 2006, um grupo de empresários constituiu em Setembro desse ano a associação EPIS (Empresários para a Inclusão Social) com o objectivo de contribuir, em parceria com o Ministério da Educação e autarquias, para o sucesso educativo, privilegiando os alunos do 3.º ciclo. Em 15 de Outubro do mês passado, foram anunciados os primeiros dados relativos à escola D. Egas Moniz, cujo projecto foi objecto de um protocolo de parceria com a Câmara Municipal de Resende, assinado em Novembro de 2007.

O que é a EPIS

É uma associação com o estatuto de utilidade pública, que conta entre os seus associados e entidades parceiras com mais de uma centena de grandes empresas, as quais correspondem a cerca de 35% do PIB e de 80% do principal Índice da Bolsa Portuguesa (PSI-20). Na sua génese está um apelo do Presidente da República para responder aos problemas da exclusão social. Como concretização da sua missão prioritária, os dez empresários fundadores estabeleceram a Educação como objecto central da sua actividade e, especificamente, o combate ao insucesso e abandono escolar, na convicção que este é o ponto de partida para o desenvolvimento individual dos jovens e consequente inclusão social.

Para a definição de metodologias e abordagens de intervenção, supervisão, formação de técnicos, acompanhamento da Direcção e Equipa de Gestão da EPIS e monitorização dos resultados, foi criado um Conselho Científico, constituído por doze elementos, a maioria dos quais são professores universitários.

Presentemente, estão a ser implementados projectos-piloto em onze concelhos pioneiros. Os mesmos deverão ter uma duração de 3 anos para permitir o trabalho de intervenção com jovens de risco do 7.º ano até ao final do 3.º ciclo. Estes projectos-piloto serão integralmente apoiados pela EPIS em termos metodológicos, mas financiados pela associação apenas em 25%, sendo o restante suportado pelas autarquias e/ou comunidades empresariais locais.

O que faz e como faz

Os dois primeiros projectos-piloto tiveram início no último trimestre de 2007 (Paredes e Odivelas), tendo, nos dois primeiros meses de 2008, sido lançados mais 9 projectos (Matosinhos, Resende, Lousada, Vila Franca de Xira, Aljezur, Tavira, Amadora, Setúbal e Santarém), sendo que estes três últimos são objecto de um acordo específico com o Ministério da Educação. A primeira fase, de sinalização e de avaliação de factores de risco, que envolveu 88 escolas e cerca de 20.000 alunos dos 7.º e 8.º anos, decorreu até às férias da Páscoa. No terceiro período, até final do ano lectivo 2007/08, os projectos entraram na fase de capacitação dos alunos do 7.º ano considerados em risco. Esta intervenção inclui um conjunto de metodologias de tipo educacional direccionadas para quatro grupos (aluno, família, escola e território), a qual se desenvolve com base em planos individuais de acompanhamento em proximidade e continuidade por mediadores EPIS, constituídos por técnicos especializados e experientes, com formação e treino no âmbito da metodologia do projecto. Para facilitar a intervenção e mais facilmente alcançar os resultados desejados, foi estabelecido um conjunto de critérios e regras: um baixo rácio de alunos (à volta de 70) por técnico, uma frequência de contacto elevada, estabilidade da relação pessoal técnico-aluno e apoio potencial ao longo de todo o 3.º ciclo. São excluídos do acompanhamento directo as situações em que se requeira intervenção clínica, jurídica ou ao nível da segurança social, privilegiando-se nestes casos a colaboração com as entidades especializadas já a actuar a nível local ou nacional.

Como metodologia de capacitação para o sucesso escolar e para um percurso de 12 anos de escolaridade, o projecto integra também um plano de formação em empreendedorismo (“Economia para o Sucesso”) para alunos e famílias, em parceria com a Júnior Achievement, já devidamente testado.

Para além desta vertente, a EPIS tem em desenvolvimento um segundo grande projecto, a nível da escola enquanto organização, que tem por objectivo aportar novas competências de gestão empresarial às lideranças de escola e aos docentes, tendo para isso subscrito uma parceria com o Ministério da Educação e com a Mckinsey &Company, com vista à codificação das boas práticas nas escolas portuguesas e estrangeiras para futura aplicação à rede de escolas públicas. Nesta sequência, já lançou um inquérito aprofundado a todas as escolas com 3.º ciclo, cujos dados ajudarão a elaborar, implementar e dinamizar um “manual de boas práticas de gestão nas escolas”.

Alguns resultados da triagem de alunos para o programa de capacitação em Resende

Segundo dados fornecidos pelo Gabinete de Estatística e Planeamento de Educação (GEPE) do Ministério da Educação, a percentagem de retenção e desistência no 3.º ciclo e, designadamente no 7.º ano, no conjunto dos dois estabelecimentos de ensino de Resende é deveras elevada. Assim, no ano lectivo de 2005/06, as percentagens de retenção e desistência no 7.º ano e no conjunto do 3.º ciclo foram, respectivamente, 37,2% e 26,4%, tendo descido, em 2006/07, para 20,8% e 18,8%. Perante estes dados, que ultrapassam a média nacional, a Câmara Municipal de Resende, na pessoa do seu presidente, Eng. António Borges, não quis perder a oportunidade de aderir ao projecto EPIS e à sua metodologia de intervenção, na perspectiva de alteração deste estado de coisas na escola secundária/3.º ciclo D. Egas Moniz.

Os dados de sinalização de alunos em risco, com vista à implementação de um programa estruturado de capacitação, foram apresentados no Auditório do Museu Municipal de Resende, no passado dia 13 de Outubro, pela equipa nacional da EPIS (Eng. Diogo Simões Pereira, Eng.ª Ivone Lima Miranda e Dra. Paula Cabral). Nesta sessão, estiveram presentes o Eng. António Borges, presidente da Câmara Municipal, Silvano Moura, vice-presidente da Câmara e representante da mesma no programa EPIS, o Dr. José Dias Gabriel, presidente do Conselho Executivo da escola D. Egas Moniz, os Drs. Jorge Xavier e Patrícia Pinto, mediadores do projecto, e a comunidade educativa da escola em apreço.

O programa teve início em Janeiro de 2008 com o pedido de autorização aos pais dos alunos dos 7.º e 8.º anos para a análise dos resultados escolares, passagem de questionários e instrumentos de avaliação de factores de risco. Cumpre assinalar que as respostas positivas a este pedido (87,5%) ultrapassaram a média nacional das onze escolas abrangidas, a qual foi de 80,49%. Relativamente a resultados escolares, 30,5% dos alunos apresenta resultados positivos em todas as disciplinas, em contraponto com 13,51% com notas negativas em mais de 50% das disciplinas. A nível nacional, estas percentagens são, respectivamente, 33,81% e 14,95%.

À pergunta “Até que ano de escolaridade gostarias de estudar?”, as respostas demonstram pouca ambição, pois 27,03% fica-se pelo 9.º ano e 49,03% pelo 12.º ano. Só 22,39% tem como perspectiva tirar um curso superior, enquanto a percentagem a nível nacional é de 52,32%. As respostas dos alunos relativamente à percepção desta questão por parte dos pais (“Até que ano de escolaridade achas que os teus pais gostariam que tu estudasses?” ) não acompanham, infelizmente, os dados nacionais. Só 41,04% acha que os respectivos pais gostariam que tirassem um curso superior, 43,03% responde que já ficariam satisfeitos com o 12.º ano e há mesmo 8,37% que se fica pelo 9.º ano. Estes resultados estão longe dos dados nacionais, pois 64,28% dos alunos pensa que os pais ambicionam para os filhos um curso superior e apenas 16,86% e 1,75% se resigna, respectivamente, ao 12.º ano e 9.º ano.

Relativamente às inter-relações com a família (ajuda, conversa, decisões conjuntas…), os resultados dos alunos de Resende aproximam-se, de uma maneira geral, dos dados nacionais.

Boa imagem da escola

No que respeita à apreciação da escola, há um conjunto de respostas lisonjeiras para a mesma. Assim, à questão “Consideras a escola degradada?”, 70,66% responde negativamente; 81,85% acha que o conjunto das actividades extra-escolares é adequado; 52,12% refere que a escola tem suficiência de recursos; 89,1% pensa que os professores se interessam pelos percursos escolares dos alunos; e 84,94% tem a percepção que os professores estão disponíveis. Por sua vez, para 55,6% a escola é exigente em termos de rendimento escolar e para 70,27% é exigente em termos de disciplina e ordem. E por último, 98,46% considera que os conteúdos aprendidos são importantes.

Há dois resultados relativamente a duas áreas (violência na escola e abuso de substâncias), que têm de ser devidamente interpretados. Assim, à pergunta “Há violência na escola?” e “Há abuso de substâncias?”, as respostas afirmativas são, respectivamente, 67,57% e 81,47%. É bom referir que estes resultados reflectem a percepção dos alunos e não a realidade do que se passa. A ocorrência de algum acontecimento significativo no âmbito destas áreas, dentro ou mesmo fora do contexto escolar, e a sua consequente interiorização como objecto de preocupação podem ser factores explicativos para estas percentagens elevadas.

Os resultados a nível de Resende puderam ser comparados com os dados nacionais e de Odivelas, constatando-se, em muitos itens, percentagens próximas às deste concelho.

Conhecer para intervir

Os dados recolhidos relativamente aos alunos, famílias, escola e território permitiram elaborar um plano individual de capacitação para os alunos em risco e respectivas famílias. O programa de intervenção junto do aluno envolve técnicas individuais (entrevista motivacional, autocontrolo…) e técnicas ministradas em grupo (métodos de estudo, treino de competências sociais, gestão da crítica…). Por sua vez, as estratégias para intervir na família podem implicar um trabalho individual com uma família, seminários, acções para professores com o objectivo de reforçar o papel dos pais junto da escola ou trabalho com grupos de pais em risco. Para pais e famílias está prevista também formação em empreendedorismo. O plano envolve ainda várias acções junto da escola/território, como a avaliação/acompanhamento dos casos com os directores de turma, acções de formação (sobre mediação de conflitos e gestão comportamental do aluno em sala de aula. Por ex.) e diagnóstico da rede social.

O plano de intervenção, iniciado no último período do ano passado com os alunos do 7.º ano, está a ter continuidade no presente ano lectivo. Por sua, está previsto para breve o começo do processo de selecção dos alunos que iniciaram recentemente o 7.º ano, criando-se, assim, condições para alargar o projecto EPIS a todo o percurso escolar do 3.º ciclo.


Nota: Agradeço à Dra. Ana Lino, da equipa nacional EPIS (http://www.epis.pt), a disponibilidade manifestada para responder aos pedidos de informação e esclarecimento com vista à elaboração deste apontamento.

*Apontamento de minha autoria, escrito para o Jornal de Resende e publicado em Novembro de 2008

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Escritores da ASEL: P. Joaquim Correia Duarte*

Ao Homem, Padre, músico, historiador e romancista.

Nunca é tarde quando, mesmo já fora de tempo, ainda se chega a tempo. O problema e a dificuldade neste caso são outros: Que falar ou dizer de quem já tantos e tão autorizados disseram e falaram?

Escrever é um dom e publicar é uma coragem a que devem dar resposta e seguimento quem esses predicados possuir e tiver preparação e sabedoria para o fazer, sendo até quase um dever de quem o faz, se aceitarmos como direito da comunidade o partilhar do saber dos outros numa linha de crescimento do bem estar intelectual e progresso da humanidade.

Quem escreve fala para os outros e partilha em permanência futura com a comunidade o seu saber, experiência e sentimento.

Da comunicação escrita à falada, qual delas a mais bela e encantadora, vai no entanto uma diferença entre a eficaz permanência futura da 1ª e a volatilidade da 2ª, a qual subsiste somente enquanto os ouvidos da memória retiverem o que os ouvidos físicos apreenderam.

No direito e dever de comunicar cada um tem na sociedade o seu lugar com o seu papel.

Quem escreve e publica doa à comunidade a riqueza do seu pensamento, o sentir das suas apreensões e o encanto do seu estilo, inconfundível e pessoal.

Vem isto, e não sei porquê, a propósito de Joaquim Correia Duarte, de quem eu hoje queria falar e quase me desviava do tema.

Não gosto e é difícil falar de pessoas, quando a amizade ou a limitação de dados nos rodeia (e pior ainda, quando há junção das duas), porque constrange por defeito a eficaz exposição do pensamento e a merecida adjectivação da forma.

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Nascido em 1940 na freguesia de Paus do concelho de Resende, bebeu não sei em que data nem em que rio o imperativo interior de falar e escrever:- notas e letras, música e palavras, composições e textos.

No meio da encosta entre a serra e o Douro com entremeada oxigenação na quinta da Assoenga, quis em jovem pensar em grande e dedicar-se às causas perenes do espírito no meio da sociedade que o mundo lhe dispensou, sobrando-lhe em vontade e riqueza espiritual o que em bens materiais não superabundou na juventude.

Ordenou-se sacerdote em de Agosto de 1963, após 12 anos de intensa preparação nos seminários de Lamego.

O múnus sacerdotal em paróquias da diocese constituiu a sua acção apostólica em simultâneo com a dedicação ao ensino nas escolas públicas para cujo fim se preparou também com uma licenciatura em Ciências Históricas pela Universidade do Porto.

É na gestão qualitativa do tempo dedicado ao apostolado e ensino que o mesmo lhe sobrou ainda para se dedicar também ao estudo aturado do concelho de Resende de que resultou levantamento histórico do mesmo em obras de rara qualidade que lhe valeram em 2007 a rara distinção e honrosa nomeação para membro da «Academia Portuguesa de História» título grande que recompensa interiormente todo o trabalho a esse campo dedicado, perpetua para os anais do conhecimento este filho de Resende e enobrece a Igreja de Lamego.

Para descansar da sua incursão qualificada e laboriosa nos escaninhos da História volta-se para o romance e saem-lhe da gaveta, quase em 3 tempos, três apreciados romances, com sabor a história das encostas do rio Douro, entre o Bestança e o Balsemão, misturando os rodeios e enleios do estilo com personagens de nome composto mas de existência real.

Apraz-me neste campo da literatura comentar, (sem seleccionar ou escolher um melhor que o outro) e revelar que no seu 1º romance foi possível com gosto descobrir na vida e vestes do Pe. Alfredo o verdadeiro Pe. Rosas que na minha paróquia de Santiago de Piães, há anos atrás, 1940 também e um mês após o meu nascimento, me aspergiu com a agua benta do baptismo e que depois de um percurso pela África voltou a Resende, sua terra, para aí morrer à espera de

«Uma Carta que chegou Tarde Demais».

Elencar somente a sua produção literária não é ocupar espaço nem elogio vão e por isso a seguir se indicam as suas obras publicadas, não referindo a sua larga intervenção em conferências, guias turísticos e artigos em vários jornais da região cujo começo fértil e qualificado teve início conhecido em 1958:

-1966- Missa da Família Paroquial - música

- 1994 – Resende e a sua História - 1º volume

- 1996 - Resende e a Sua História - 2º volume

- 2001 - Resende na Idade Média

- 2004 - Resende no séc. XVIII.

- 2005 - Uma Carta que Chegou Tarde Demais - (romance)

- 2007 - As Meninas da Comenda - (romance)

- 2008 – As Monjas de Portejães - (romance)

- 2008 - Casas e Brasões de Resende

E porque a quem muito trabalha sobra sempre tempo para mais, aceitou, em 2006 e 2007, integrar a equipa coordenadora da Edição da - «Antologia - Estrela Polar» numa responsabilidade a que não poupou o seu melhor esforço e dedicação.

Dr. Correia Duarte não é uma revelação recente, um produto de ocasião ou um meteorito inesperado; basta retroceder aos fins da década de 1950 e princípios de 1960 e vê-lo activo e dinâmico como Director da Estrela Polar ou Presidente da Congregação Mariana.

Dos 19 artigos conhecidos (e publicados no jornal - Estrela Polar) nessa época, os 4 primeiros são do ano de 1958 a que deu os expressivos títulos: «Liberalismo e Igreja», «Caminho de Luta», «Cristo nas Conferências de Alto Nível», «Natureza e Arte» deixavam já antever em potência o que hoje conhecemos do Homem e do Padre, no apostolado e nas Letras.

E agora que do ensino pediu já o retorno do seu trabalho no descanso de uma aposentação merecida, bom tempo lhe vai sobrar para nos surpreender no futuro com mais do melhor que aí virá, saído da pena de Correia Duarte.

*Apontamento escrito pelo Dr. Adão Sequeira, publicado n' "A Voz de Lamego".

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Casa de S. José*

Durante 150 anos, a Casa de S. José foi um centro de acolhimento de raparigas órfãs ou pobres e de formação na área de lavores e lides domésticas. Orientada por directoras de grande preparação e sensibilidade e assistida por capelães dedicados, destacou-se por ministrar uma educação sólida, assente nos princípios e valores da época. As ex-alunas recordam ainda hoje com saudade e afecto esses tempos e vivências.


Resenha histórica

A quinta de S. José tem uma longa história de formação, ligada à Igreja. A mesma foi comprada, no século XVI, a Álvaro Coelho pelo Bispo D. Manuel de Noronha, tendo sido anexada à capela de S. Nicolau, em Lamego, cujos rendimentos tinham como objectivo custear as despesas com um colégio de preparação de candidatos ao sacerdócio, precursor do primeiro Seminário da Diocese, que viria a ser institucionalizado na segunda metade do século XVIII. Com a criação do Seminário por D. José Píncio, este Bispo, por decreto de 10 de Agosto de 1791, anexou ao mesmo a quinta do Bairro, extinguindo a capela e o colégio de S. Nicolau.

Nesta quinta, veio mais tarde, nos princípios do século dezanove, a ser fundada por Frei António da Santíssima Trindade uma instituição benemérita, que ficou conhecida por Casa de S. José, em virtude de a capela ter como patrono aquele santo. Deve ter sido no segundo decénio desse século que a obra arrancou, tendo aí aplicado os bens herdados de seu pai, Tomás Freire de Andrade, e canalizado empréstimos da Ordem Terceira de S. Francisco de Lamego.

Frei António, falecido em 1876, cujos restos mortais jazem em campa rasa na capela, ingressou na Ordem de S. Francisco de Lamego. A lei de 30 de Maio de 1834, de autoria de Joaquim Augusto de Aguiar (“o mata frades”), que criou um ambiente hostil à Igreja, extinguindo as ordens religiosas, atingiu-o directamente, pois foi perseguido, tendo andado fugido na região. Esta situação contribuiu para que viesse a dedicar-se em exclusivo à obra de beneficência por si fundada, que ainda hoje é uma referência no concelho. Como continuadores e assistentes espirituais marcantes, são de referir os padres Manuel Barbosa, José Pereira Dias , pároco de S. Martinho que faleceu em 1948, e Antonino Pinto Duarte, nascido em 10-10-1910, em S. João de Fontoura, tendo estado à frente da paróquia de 1946 a 1976, e vindo a falecer em 1992.

Para a direcção da casa eram escolhidas senhoras de muita dedicação, experiência e saber. A Superiora que ficou mais recordada foi a D. Prazeres (Maria dos Prazeres Machado), a quem a população chamava “Menina Prazeres” e as meninas que frequentavam a casa tratavam por “madrinha”, e que faleceu nos primeiros anos da década de quarenta do século passado. Veio-lhe a suceder a Sra. D. Piedade (Piedade do Carmo Botelho), natural da Talhada, tendo sido auxiliada por Maria José, de nome completo, a quem as meninas chamavam “Gé”, constituindo também duas figuras de referência.

Data de 1970 a entrada da última criança na instituição, tendo vindo ao longo desta década a decrescer progressivamente o número de internas. No ano de 1981, saiu a última jovem, tendo a D. Piedade e Maria José permanecido na instituição até 1984, em “apagada e vil tristeza”. Nesse ano, a D. Piedade, já doente, foi para a Talhada, sua aldeia natal, onde pôde beneficiar do apoio de familiares, tendo falecido meses depois. Nesse mesmo ano, Palmira dos Santos Pinto, uma figura de referência pelo seu estatuto e percurso, que não esqueceu o passado, pois foi aqui acolhida com 10 meses por morte da mãe, trouxe a Maria José para a sua casa, em Viseu, estando hoje com 93 anos e com graves problemas de saúde.


Prodígios de Frei António

Tendo em conta a importância que a obra fundada por Frei António da Santíssima Trindade teve na região, ainda hoje correm histórias curiosas a seu respeito. Conta-se que, aquando das perseguições pelos apaniguados do “mata frades”, para poder escapar aos guardas, se refugiou numa casa, tendo sido metido num cesto que foi coberto com roupas, o que foi possível devido à sua baixa estatura. Quando revistavam a casa, um dos guardas, vendo o cesto, ficou desconfiado. Puxou do floreto (meia espada) e enfiou-o por entre as vergas, mas nada aconteceu. Após os guardas terem desaparecido, destapado o cesto, saiu de lá Frei António sem qualquer mazela.

Já em pleno funcionamento da casa, por alturas da festa de S. José, em que se juntaram muitos sacerdotes, a cozinheira verificou que não havia nada para comer, expressando grande inquietação junto de Frei António. Este respondeu calmamente que tivesse fé em Deus. Inesperadamente, no meio de um sermão, bateram à porta. Era um velhinho com um burrito, que disse trazer umas coisinhas para a Casa de S. José, pedindo para descarregar o animal. De facto, trazia mantimentos para uma semana (azeite, sal, pão, batatas, etc.). Descarregado o burro e após terem levado tudo para cozinha, procuraram o velhinho para lhe agradecerem e saberem a proveniência de tamanha dádiva. Mas não viram ninguém. Viram apenas as pegadas do burrito viradas para a entrada, não descortinando as da saída.


A menina de Porto de Rei

Na capela além da sepultura de Frei António, há uma outra: a menina de Porto de Rei. Dizem que, aquando do seu funeral daquela localidade para S. José, foi acompanhada por um bando de pombas brancas, que desapareceram após o cortejo. Há cerca de 70 anos, em obras de soalho, os trabalhadores descobriram três caixões encaixados entre si (um de chumbo, outro de pinho e um outro de cerdeira), que resolveram abrir, tendo sido necessário para tal um ferro de assento. Nesta operação, fizeram um rasgo na face da menina, da qual brotou sangue, segundo se conta, tendo os trabalhadores encontrado o corpo intacto. Nessa altura, fizeram um túmulo em pedra, tendo colocado lá o caixão, onde ainda permanece. Ainda hoje, muitas pessoas que visitam a capela de S. José afirmam que da sepultura sai de vez em quando um cheiro a rosas.


A instituição há 50 anos

Chegou a ter cerca de 40 crianças/jovens internas. Contudo, o seu número nos finais dos anos cinquenta do século passado era de cerca de 12. A maioria eram crianças órfãs e/ou provenientes de famílias muito pobres. Mas também havia algumas originárias de famílias remediadas cujos pais pretendiam dar, para alem da escola primária, uma educação mais esmerada e completa às suas filhas, pois lá aprendia-se costura, meia, bordados, renda e outras formações de vida doméstica. Para comparticipar nas despesas, estes pais pagavam uma mensalidade à volta de 80/100 escudos. Havia também algumas meninas das redondezas que frequentavam a instituição em regime de semi-internato, indo jantar (cear) e dormir a suas casas. O ambiente era acolhedor, onde se procurava promover uma educação integral cristã, em que estavam presentes as orações, a reza diária do terço e o ensino do catecismo.

O dinheiro não abundava. Viviam de algumas ofertas e do cultivo da quinta. Esta chegou a ter dois trabalhadores diários até aos anos sessenta. Seguidamente, foi entregue a um caseiro, José Coelho (conhecido por José Bento), actualmente com 77 anos. Além das batatas, cereais e fruta, a quinta criava porcos, galinhas e coelhos e tinha um rebanho de ovelhas e algumas cabras.

As meninas frequentavam a escola cujas instalações pertenciam à Casa de S. José, em conjunto com as outras crianças das aldeias vizinhas, cuja frequência chegou a atingir 60 alunos. As professoras de longe ficavam hospedadas na instituição. Só uma das alunas, a Palmira Pinto, muito acarinhada pela D. Piedade e Maria José, continuou a estudar, completando o antigo 9.º no Externato de Resende, tendo trabalhado a seguir na antiga biblioteca da Fundação Gulbenkian e na delegação de saúde de Resende. Após ter tirado o curso de técnica de análises clínicas no Porto, deixou a instituição aos 24 anos para ir para Viseu, onde ainda reside e trabalha.

Normalmente, as alunas saiam entre os 15/20 anos, para trabalhar ou para ir viver para junto de familiares.


Papel do Cónego Pinto Duarte

Com a saída das últimas utentes, a morte de D. Piedade e a ida de Maria José para Viseu, e na falta de adaptação para responder às novas necessidades e carências sociais, a instituição morreu. A partir de 1990, o Cón. António Pinto Duarte, de Fonseca, então director da Casa do Gaiato de Lamego, decidiu recuperar as casas e a quinta com o objectivo de ali fazer um lar com várias valências (infância, juventude e terceira idade). Incompreensões locais e a não aprovação e financiamento por parte da Segurança Social fizeram com que o projecto não saísse da gaveta. Ainda tentou a sua transformação num centro de recuperação de toxicodependentes, tendo o P. Feitor Pinto mostrado interesse pela iniciativa, mas dissensões várias a nível local vieram inviabilizá-la.

Fica como sua herança a recuperação das casas, onde foram gastos cerca de 500 mil euros, provenientes da generosidade de muitos anónimos, muitos deles sensibilizados a partir de uma campanha feita na Rádio Renascença. Actualmente, as instalações são utilizadas por grupos de jovens, em férias, provenientes de instituições, designadamente do Porto.


Restauro da capela

Uma das primeiras tarefas do Sr. Cón. Manuel Esteves, após tomar conta da paróquia de S. João de Fontoura, foi restaurar a degradada capela de S. José. Com obras orçamentadas em 70.000 euros, elaborou um projecto de candidatura a um programa governamental, tendo sido aprovado no montante de 70% deste valor. Contudo, o montante final das obras subiu para cerca de 100.000 euros. Para fazer face às despesas, a Fábrica da Igreja contou com dádivas de particulares, o contributo da Câmara Municipal de Resende através da comparticipação de 10.000 euros e a disponibilização de máquinas e o apoio da Junta de Freguesia de S. João de Fontoura em mão de obra e serviços. Faltam ainda 25.000 euros para liquidação de todas as despesas.

A inauguração decorreu no passado dia 27 de Julho, em cerimónia que contou com a presença do Bispo de Lamego, 12 sacerdotes e 2 diáconos, tendo sido abrilhantada com o Grupo Coral de Resende. A festa registou grande afluência à qual compareceu uma expressiva delegação da Câmara Municipal. A terminar o programa, foi oferecido um lanche/convívio a toda a população pela Junta de Freguesia

Após 7 meses de obras, nasce uma capela nova. Exceptuando as pedras das paredes, tudo é novo ou foi restaurado.


Nota: Além da consulta da monografia “Resende e a sua História” do Dr. Joaquim Correia Duarte, este apontamento baseou-se num trabalho de 1998 da escola do Bairro, que integrou o projecto “preservação do património local”, e na recolha de informações junto do Cón. Manuel Esteves Alves e de pessoas que colaboraram e frequentaram a Casa de S. José, designadamente Palmira dos Santos Pinto.

*Apontamento de minha autoria escrito para o Jornal de Resende (número de Outubro de 2008)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Seminário de Resende em Cinfães*

A criação dos seminários como escola de preparação e formação sacerdotal pelo Concílio de Trento (1545-1563) veio trazer à igreja um instrumento de selecção qualificado para encontrar em cada época e conforme as suas necessidades os elementos mais adequados e em dedicação exclusiva ao serviço de Deus, dispondo também e ao mesmo tempo dos meios actualizados para sensibilizar nas comunidades os filhos que deveriam seguir o caminho do sacerdócio como suporte da hierarquia eclesiástica, mensageiros da palavra e ministros do Sacrifício.
A esta preocupação tridentina veio o Vaticano II (1962-1965) proclamar «a grandíssima importância da formação sacerdotal», definir os seminários menores como essenciais «para cultivar os germes da vocação», afirmar que «o dever de fomentar as vocações pertence a toda a comunidade cristã» e que a sua formação específica evoluirá «sob a direcção paternal dos superiores, com a cooperação oportuna dos pais».
Sugere ainda este Concílio que se «promova com zelo e descrição uma geral acção pastoral para fomentar as vocações» utilizando as vias «tradicionais de cooperação» nomeadamente os «vários meios de comunicação social pelos quais se faça conhecer a necessidade, a natureza e a excelência da vocação sacerdotal».
Sabedor profundo desta realidade, possuidor de princípios e estratégias aplicadoras desta doutrina e conhecedor atento dos meios a seguir ou passos a dar, o Sr. Vice-reitor do Seminário de Resende Pe. Paulo Alves, dinamizou no arciprestado de Cinfães, um programa promocional de vocações de modo a manter na actualidade e garantir no futuro a ocupação dos bancos do seminário e a ordenação necessária de sacerdotes para a igreja diocesana.
Com início em Setembro, semana a semana, aí vai ele à frente dos seus alunos e equipa formadora, de terra em terra, de povo em povo, como o «semeador a semear a sua semente» qual Paulo de Tarso, (o Paulo do mundo), na igreja nascente há 2000 anos. Nalgumas paróquias já esteve e outras se seguirão.
Hoje é a vez da freguesia de Cinfães, sede do concelho e centro aglutinador de todo o arciprestado, receber o seminário de Resende e a sua mensagem. Não obstante a chuva intensa e frio persistente, a paróquia de Cinfães recebeu entusiasticamente os jovens alunos e a equipa formadora do seminário.
No sábado, dia 6 o Pe. José Fernando e Pe Marcos Alvim com mais 12 seminaristas estiveram em convívio fraterno e troca de experiências com as equipas de catequese e acólitos num diálogo de aprendizagem mútua que dá vida e coragem aos cristãos na sua cooperação de leigos e entusiasmo à juventude para o lugar que o futuro lhe reserva.
O dia por excelência deste encontro foi a 7 de Dezembro, 2º domingo do advento e véspera da imaculada Conceição.
O Pe Marcos Alvim e o diácono Ponciano mais 12 outros seminaristas, logo pela manhã e após a celebração eucarística fizeram um encontro no Casal com jovens e pais dessa povoação.
Pelas 10 horas, com o salão paroquial cheio e sob a orientação do Sr. Vice-reitor realizou-se um encontro especial de jovens, catequistas e pais onde foi dada uma visão da vida no seminário e feita a apresentação de um pequeno filme. O Sr. Pe Francisco, pároco da freguesia, apoiado também pelo Sr. Cónego Acácio Soares, foi incansável na preparação ambiental deste acto que até o mau tempo teve dificuldade em ofuscar.
A chave da verdade, e o epílogo da mensagem centrou-se à volta do altar no momento da celebração da eucaristia.A concelebração presidida pelo Sr. Vice-reitor teve no mesmo altar o Sr. Pe Francisco, o Sr. Cónego Soares e o Pe Marcos Alvim, à responsabilidade de quem esteve também o muito bem organizado grupo coral.
No momento da palavra o presidente da celebração realçou valor da oração, importância do contacto e os efeitos da mensagem, como suporte e caminho do futuro cristão numa preparação de vida interior para o nascimento de Cristo no seu Natal, deixando ao seminarista Carlos, natural de Fornelos, o espaço e tempo necessários para o seu testemunho vocacional, também ele ouvido atentamente por uma comunidade de fiéis atentos e disponíveis numa igreja repleta onde o peso do silêncio evidenciou a recepção da mensagem e mostrou a disponibilidade do terreno para a semente lançada.
Antes da bênção e mensagem final, a Raquel, com voz timbrada e em nome de toda a paróquia saudou e agradeceu ao seminário com vida e alegria nos seguintes termos:
« - A nossa comunidade sente-se particularmente feliz, por ter vivido este fim de semana mais próxima do nosso seminário. Ficamos enriquecidos com a alegria que nos foi transmitida pelos seminaristas e superiores (…). Que o Natal que se aproxima permita que todos possamos voar bem mais alto no caminho de servir (…).
Vamos pedir a Deus para que também da nossa comunidade haja vocações sacerdotais. Agradecemos, do fundo do coração a vossa visita e aguardamos pela próxima. Até sempre.»
Após a celebração seguiu-se a refeição convívio para repor as energias dispendidas.
Assim culminou esta deslocação do seminário à vila de Cinfães, terreno fértil para o despertar de novas vocações que vão manter a vida no seminário e garantir o sacerdócio na diocese nos próximos 20 anos, sendo que os primeiros 10 já estão assegurados pelos jovens actuais em formação vocacional, fruto já de um caminho descrito e visível nos planos de actividades anuais consistentemente pensado e seguido nos últimos anos pelo seminário de Resende, numa estratégia de « comprometimento do povo de Deus na vocação dos futuros servidores», em resposta positiva ao «autor do chamamento»,num contributo para «a edificação dos homens e sacerdotes de amanhã», semente e fruto vivo de um «processo de crescimento e discernimento vocacional».
Na qualidade de ex-aluno do seminário, vizinho próximo da freguesia de Piães, representante da ASEL e residente no Porto, estive presente neste encontro que me deixou encantado e maravilhado com as maravilhas que neste campo também vai ser o futuro.
Ao completar esta reportagem fiquei a discutir comigo e a perguntar-me porquê e para que tantas palavras, quando eu somente queria dizer: continua Seminário de Resende porque estás no caminho certo e parabéns Cinfães porque sabes tão bem receber, absorver e responder.
*Nota: Apontamento da autoria do Dr. Adão Sequeira, escrito para a "Voz de Lamego".
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