Ela é o abismo sem fim e sem fundo. Diante dela, todas as palavras se apagam e o silêncio é todo. Houve um tempo em que ela conviveu naturalmente com os homens e estes com ela: era quase familiar. Agora, tornou-se tabu. Até alguns amigos meus me dizem que não fale nem escreva sobre ela, porque as pessoas não gostam. É preferível ignorá-la. Cada um fará com ela, só, como puder.
De qualquer forma, é dela que também nasce a filosofia, como disseram os grandes. Sem ela, talvez também não houvesse religião nem religiões. Se hoje o pensamento é débil e a religião navega em vago consolo sentimental, a razão é que ela foi afastadada meditação dos homens. De facto, em luta com ela, é-se obrigado a ir sempre mais fundo e mais longe. Porque ela é o impensável que obriga a pensar, impossibilitando a vulgaridade falaz e oca da sofreguidão da imediatidade do aqui e agora.
Ela é a morte. Se já não se pensa nela, não é por já não ser problema. É o contrário: de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente não tem solução que a única solução é não falar dela e fazer dela tabu.
O filósofo Max Scheler já tinha chamado a atenção para isso, no início do século XX. Se cada vez menos o Homem europeu acredita na sobrevivência, é porque “já não vive face a face com a morte”, mas do seu recalcamento. Este Homem já não frui de Deus e a natureza também já não é a terra natal acolhedora, provocando admiração e espanto, mas apenas o espaço do seu domínio. Para o Homem moderno, pensar é calcular e dominar e, assim, como vive como se não tivesse de morrer, isto é, como já não sabe que tem de morrer a sua própria morte, quando ela aparece, só lhe pode aparecer como catástrofe. Para o Homem tradicional, a morte constituía um poder formador e director, que dava configuração e sentido à vida. Agora, vive-se no dia-a-dia, até que de repente, estranhamente, “já não há mais um novo dia”.
No quadro de um mundo matematizado e calculável, as qualidades, as formas e os valores de ordem moral, porque não calculáveis, são remetidos para o domínio do subjectivo, do arbitrário e até da irrealidade. Diante da morte não há cálculo possível. Fica-se atenazado: impossível pensar que tudo acaba ali, impossível pensar um depois e um além. Mas, sem eternidade, o que vale ainda, o que tem realmente valor? Se tudo desembocar no nada, ainda há, pensando até ao fundo e ao fim, diferença real e última entre bem e mal, verdade e mentira, justiça e injustiça?
Mesmo assim, nestes dias, no mundo cristão, é-se convidado a lembrar um crucificado. Jesus morreu na cruz como blasfemo religioso – pôs em causa a religião dos interesses – e subversivo social – ameaçou a ordem estabelecida da injustiça. Testemunhou até ao fim a verdade, a justiça e o amor.
Com a sua morte, aparentemente foi o fim. Mas, aos poucos, os discípulos voltaram a reunir-se e testemunharam que ele, o crucificado, está vivo em Deus. E foi essa fé, testemunhada até ao martírio, que mudou o mundo.
Como disse em 1964, num diálogo com Theodor Adorno, o filósofo ateu religioso Ernst Bloch -- esse que esperava que a última música a ouvir não fossem as pazadas de terra na sepultura --, “o cristianismo, na concorrência com outros profetas da imortalidade e da sobrevivência, venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. Não propriamente através do Sermão da Montanha. No século primeiro depois do acontecimento do Gólgota, a ressurreição foi referida ao Gólgota de uma forma inteiramente pessoal, de tal modo que pelo baptismo na morte de Cristo se experiencia a ressurreição com ele. Imperava então um desespero apaixonado, que hoje nos parece incompreensível e representa um acentuado contraste com a nossa indiferença. Mas nada impede que dentro de cinquenta ou cem anos (porque não dentro de cinco?) volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?”
*Artigo de Anselmo Borges, publicado no DN de 11-04-2009
Criada há quatro anos, esta associação, além da promoção de actividades de convívio, pretende tirar partido da situação privilegiada da freguesia de Felgueiras,que se estende pelas encostas e planuras de S. Cristóvão, e do seu rico património paisagístico, cultural e arqueológico, disponibilizando e apoiando percursos pedestres e outras iniciativas, como passeios motorizados.
Amigo de S. Cristóvão/Nota pessoal
É um local de fascínio. Como miradouro pede meças aos seus congéneres da região. Os seus horizontes deslumbrantes aprisionam a imaginação mais ousada e libertam o espírito para a infinitude. Só aqui se distinguem melodias inaudíveis e se ouvem os silêncios longínquos do firmamento.
Subi a este monte vezes sem conta. A maioria para contemplar os sempre indescritíveis espectáculos do pôr do sol, muitas para divisar o panorama sempre irrepetível daquém e dalém Douro, várias para perscrutar a proximidade das estrelas e algumas para assistir à magia do nascer do sol.
O percurso era feito a pé, por carreiros, pelos caminhos de carros de bois e a corta-mato. Era uma oportunidade para ver manadas de gado a pastar, ouvir o chiar dos carros com feno, vindos das tapadas, e descobrir fortuitamente algum coelho ou raposa. Ainda agora descortino e sinto as cores e os cheiros das giestas, piornos, urzes e tojos de então. Revejo as concorridas feiras de 25 de Julho, onde havia aguadeiras e vendedoras de fruta, e as animadas lutas de bois, onde se dirimia a esbeltez e a força rude dos animais.
Para usufruir do ambiente bonançoso das tardes de Primavera ou de Verão, foram várias as vezes que almocei junto a tapadas e de correntes de água, com refeições pré-cozinhadas em casa, onde o ritual de arranjar lenha, acender o lume e efectuar o apuramento da comida emprestavam mais sabor ao repasto.
A última vez que desci monte abaixo, após um pôr de sol, aconteceu num mês de Setembro. Resolvi vir a corta-mato até ao fundo do vale de Paus. A meio do percurso, a noite ficou escura como breu, não se vislumbrando nada à frente. O único recurso era acender um isqueiro de vez em quando para evitar muros e quedas em silvados. Chegado a um cruzeiro e perante a chama intermitente do isqueiro, uma voz ecoou do fundo de um dos quatro caminhos:”quem vai lá?”. Feitas as identificações, o meu interlocutor avançou a medo. Do frente-a-frente pude verificar o seu alívio por confirmar que estava perante um terráqueo conhecido.
Por tudo isto, por estas e outras memórias, sempre fui e serei um dos amigos de S. Cristóvão.
Actividades e projectos da AASC /Associação dos Amigos de S. Cristóvão
Com existência legal desde 26 de Novembro de 2004, esta associação tem como principal objectivo oferecer programas e actividades de convívio e promover iniciativas que tirem partido das potencialidades e dos recursos da encosta serrana e do património cultural e arqueológico da freguesia de Felgueiras.
Como actividades de convívio, organiza, ao longo do ano, jogos tradicionais e várias modalidades desportivas no campo de futebol local, que decorrem sobretudo nas tardes de domingos e nas férias. No último verão, promoveu um torneio de futebol de 5, a que será dada continuidade no próximo ano.
No âmbito de iniciativas de convívio, é seu propósito realizar um passeio/excursão anual a locais de interesse. Em 2007, levou a efeito uma visita a Fátima e Mafra e, em 2008, a selecção recaiu na serra da Estrela. Ainda na esfera convivial, organiza uma consoada de Natal.
Relativamente a eventos ligados à valorização da encosta serrana, promoveu, em 24 de Maio passado, o primeiro passeio em moto 4/2, que, embora com tempo muito chuvoso, teve uma grande adesão, tendo incluído muitos participantes provenientes de outros concelhos, o que serviu para divulgar a nossa terra e as suas potencialidades para a prática deste tipo de desporto. Devido ao êxito que obteve, a associação pretende integrar este evento na agenda do seu programa anual.
No quadro da divulgação do património cultural, mais concretamente dos usos e costumes agrícolas, faz parte dos projectos da associação desenvolver três recriações, a saber: uma vessada, uma ceifa de trigo e/ou centeio e uma cozedura de pão. Estas actividades pretendem dar a conhecer os rituais relacionados com o trabalho dos campos, incrementando o convívio entre gerações e a ocupação de tempos livres e de férias para residentes e emigrantes
A grande aposta, tendo em conta as características, a beleza e a diversidade paisagística, a fauna, a flora e o património arqueológico da encosta e do planalto do Montemuro, centrar-se-á na organização de percursos pedestres. A prática desportiva, a sensibilização ambiental e o contacto com as raízes e a herança do passado são objectivos que podem ser simultaneamente alcançados. É intenção da associação concretizar quatro percursos anuais, correspondendo a cada uma das estações do ano, podendo haver alterações aos traçados dos mesmos e/ou conteúdos temáticos a explorar (lendas, moinhos, canastros, artefactos, fornos, etc.).
Primeiro percurso pedestre
No passado dia 4, realizou-se o primeiro percurso pedestre com base num itinerário previamente estudado e testado. Teve início na sede da APROLIF (Associação Pró-Linho de Felgueiras) e contemplou a passagem pela aldeia, a visita de canastros, a observação da actual igreja matriz e informação dos respectivos antecedentes históricos, a subida pelo trilho de carro de vacas até ao miradouro junto do lugar de Corva, onde os caminhantes foram obsequiados com um lauto farnel, a travessia a corta-mato até à estrada municipal, nova subida até ao penedo Quelhoso, que muitos teimaram em subir, e caminhada final até à capela de S. Cristóvão.
O percurso pedestre, que contou com 43 participantes, entre os quais o Sr. Vice-Presidente da Câmara, Silvano Moura, teve início às 09h45 e terminou às 13h15, tendo sido andados cerca de 6 quilómetros. Efectuaram-se várias paragens para elucidações acerca da fauna e flora, fornecidas pelo biólogo de serviço (Dr. Albano Soares) , edo património cultural e arqueológico, cujas explicações estiveram a cargo do Eng. Jorge Oliveira. E registaram-se várias surpresas. A primeira foi a recriação do junguer das vacas e do atrelar do carro, tendo os presentes tido a possibilidade de assistir à colocação das molhelhas, ao assentar do jugo e ao amarrar das sogas. Puderam ainda percorrer parte da aldeia em cima deste meio de transporte e conduzir a respectiva junta de vacas. Também foi dada a oportunidade de assistir à luta e marradas de dois carneiros.
O percurso terminou, num clima de grande satisfação,com um almoço/convívio num dos restaurantes da Gralheira,ao qual se associou a Prof. Dulce Pereira, Vereadora da Câmara de Resende. À despedida, foi oferecido um CD com todas as informações do itinerário e dos locais visitados.
Aprender caminhando
Nesta caminhada aprendeu-se muito acerca de Felgueiras e Montemuro. Logo no início, as pessoas ficaram a saber da existência da APROLIF, uma associação que teve agregada a si uma empresa de inserção social, actualmente desactivada, por onde passaram cerca de 60 trabalhadore(a)s, tendo ainda em stock e para venda muitos artigos de linho (colchas, tapetes, toalhas de mesa, etc.). Já em plena encosta serrana, pudemos ver uma borboleta nocturna, uma borboleta azul (plebejus argus), um louva-a-deus (manthis religiosa) e uma rela/rã (hyla arbórea). Por sua vez, as plantas que mais nos chamaram a atenção foram a orquídea,a arméniae o merendeiro.
A algumas dezenas de metros da capela de S. Cristóvão, pudemos ver o “observatório astronómico” pré/proto-histórico, commais de quatro mil anos, constituído por quarenta monólitos erectos e alinhados, que permitiam ajudar os nossos antepassados a determinar os períodos em que ocorriam os equinócios e solstícios. E nos terrenos envolventes do local onde se realiza a feira anual, contactámos com uma das cinco mamoas já identificadas, assim designadas por serem antas encobertas por terra, apresentando uma forma arredondada. E, quase a finalizar, observámos a ara sacrificial, um penedo que os povos primitivos pagãos utilizavam para matar animais em honra das suas divindades.A caminhada terminou com uma visita ao interior da capela, que foi pretexto para a direcção da AASC manifestar a sua disponibilidade para colaborar em manter este espaço e estrutura de apoio abertos ao público nos fins de semana do próximo Verão.
Perguntas e Respostas
Quem são os elementos que constituem os órgãos sociais da AASC?
Direcção: Nuno Filipe Almeida Pereira, motorista de transportes colectivos (presidente), Rui Manuel R. Rocha, empresário (secretário), José Fernando Matos Talhada, carpinteiro (tesoureiro) e Nelson Duarte Proença, empresário (1.º vogal); Assembleia Geral: José Carvalho da Silva, empresário (presidente), Alberto António B. Pereira, carpinteiro (1.º secretário) e Vítor Gabriel D. Pereira (2.º secretário); Conselho Fiscal: Humberto Eduardo C. Silva, médico dentista (presidente), Manuel Almeida M. Talhada, empresário (relator) e Albino Rodrigues Rocha, reformado (vogal)
Tem sede própria?
Não. As reuniões são efectuadas rotativamente em casa dos membros dos órgãos sociais.
A associação presta apoio a quem desejar visitar e fazer percursos pedestres na zona de Felgueiras?
Sim. A associação está preparada para responder a pessoas e grupos que desejem conhecer os diversos locais de interesse da freguesia e da encosta serrana, disponibilizando documentação para os visitantes e prestando apoio logístico e dois monitores para caminhadas.
Em tarde solarenga, realizou-se mais um desfile de Carnaval pelas principais artérias de Resende, que atraiu várias centenas de pessoas. Oito carros alegóricos, integrando oitenta figurantes, um grupo de bombos e um outro de sambistas marcaram o ritmo e encheram de colorido o trajecto do percurso.
Durante a manhã, entraram em acção vários animadores de rua, preparando e criando um ambiente de festa. Cerca das 15h00, chegaram junto da sede dos bombeiros os primeiros foliões e carros alegóricos, devidamente decorados. Após percorrerem as ruas principais, os mesmos começaram a avistar-se do largo em frente ao edifício da Câmara Municipal quando eram cerca de 16h00, altura a partir da qual Miguel Ângelo Pinto foi explicando, através da instalação sonora, o enredo do cortejo, subordinado ao tema “Portugal, o País das Maravilhas”.
A primeira viatura pretendia retratar o fenómeno do carjacking, fazendo o contraponto da actualidade com os tempos pré-históricos em que os nossos antepassados (concebidos à maneira dos Flinstones ) usavam a pedra lascada como arma. O segundo carro dizia respeito à prestação de Portugal nos recentes Jogos Olímpicos, em que se destacavam dois atletas medalhados e se ironizava com Marco Fortes, o da afirmação “de manhã é para estar na caminha”. O terceiro dizia respeito ao êxito do “Magalhães” e ao seu grande aficionado e “construtor” Sócrates. A quarta e quinta viaturas faziam humor com a mudança da presidência da Câmara Municipal (Dinossauro e Special One). A sexta retratava as burlas e fraudes no BPN e a prisão do Oliveira e Costa. A sétima homenageava o génio futebolístico de Cristiano Ronaldo. E a última figurava um enterro, procurando transmitir o mal estar que se está a viver entre os docentes nas escolas.
Após desfrutarem deste espectáculo, que já faz parte do programa da terça-feira de Carnaval do nosso concelho e das aldeias de concelhos vizinhos, as pessoas tiveram oportunidade de se dirigir ao Largo da Feira, onde decorreu um baile, abrilhantado pela Banda Raio de Sol, oferecido pela Câmara Municipal de Resende.
Em jeito de fim de festa, a comissão organizadora ofereceu aos participantes no desfile e a todos os foliões um lanche-convívio, onde foi grelhada carne correspondente a dois porcos previamente adquiridos.
A organização agradece a todas as pessoas e instituições que contribuíram para o êxito do desfile, designadamente a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, casas comerciais, Luís Loureiro (pela disponibilização das garagens onde se arranjaram os carros alegóricos), Silvano Moura (filho) e aos vários “artistas” de expressão plástica.
Associação Cultural Amigos de Loureiro e Ermida na origem e organização do desfile
Tudo começou há cerca de dez anos, quando por divertimento e informalmente um grupo de pessoas de Loureiro aproveitou o Carnaval para chamar a atenção dos responsáveis locais para obras a efectuar ou para necessidades a que era necessário fazer face, no quadro da boa disposição e da criatividade subjacentes a esse período. Em 2001 e anos seguintes, o atrevimento de alguns fez com que os foliões desfilassem pela vila, mostrando as máscaras, decorações e deixas reivindicativas. A experiência acumulada e a evolução na maturidade do grupo permitiram que se fosse consolidando o projecto de organização de um desfile de Carnaval na vila, através da criação de carros alegóricos com sátiras e humor inspirados em temas e motivações de ordem local e nacional. Em 2005, teve lugar o primeiro desfile devidamente organizado, anunciado através de cartazes pelo concelho, tendo esta iniciativa sido repetida nos anos seguintes. A fim de permitir solicitar apoios da Câmara Municipal, estabelecer protocolos, receber donativos e garantir a continuidade do projecto, houve necessidade de formar uma associação, que foi registada em 14-09-2007 e designada por Associação Cultural Amigos de Loureiro e Ermida.
Esta é a sua principal iniciativa, cuja organização é levada muito a peito. A título de exemplo, basta dizer que a escolha do tema e o “enredo” do desfile deste ano foram efectuados logo em 10 de Janeiro e os ensaios e trabalhos de preparação começaram no dia 17 do mesmo mês. A partir desse dia, um grupo variável de entre 5 a 7 pessoas trabalhou sempre de segunda a sexta-feira, das 21h às 24h, e aos sábados, da parte da tarde, concebendo e fazendo caricaturas ou contribuindo com trabalho de carpintaria, design, pintura e outras artes para o “puzzle” do desfile. Este grupo multidisciplinar, que integra os órgãos sociais, é formado, entre outros profissionais, por professores (com apetência para as expressões plásticas), pintores, carpinteiros, mecânicos e bate-chapas.
Outras actividades desenvolvidas pela Associação
Sobretudo a partir do início do ano passado, tem desenvolvido um programa variado de actividades. Pelo dia de Reis, cantou as Janeiras em Loureiro e junto das casas comerciais da vila, onde teve óptima recepção. Organizou uma sardinhada pelos santos populares, o tradicional magusto pelo S. Martinho e a festa de reveillon. Levou a efeito torneios de jogos da malha e da sueca, uma prova de carros de rolamentos e um concurso de pesca. Estas actividades ou a maioria delas são para ter continuidade no futuro, podendo ser consultadas no seu blogue (http://acale.blogspot.com).
A sede da instituição funciona na ex-escola do 1.º ciclo de Loureiro, apetrechada com um bar, que normalmente está aberto aos sábados e domingos à tarde. Por estrear encontra-se uma cozinha, devidamente equipada, que poderá fornecer refeições para eventos internos e para festas e comemorações, como despedida de solteiros.
É de referir que a associação tem cerca de 200 sócios, que pagam uma quota anual de 5 euros.
*Texto de minha autoria, publicado no Jornal de Resende (número de Março de 2009)
Até à década de sessenta do século passado, várias aldeias de Paus, com especial destaque para Córdova, levavam a preceito o despique entre raparigas e rapazes na manufactura da comadre e do compadre, cujos bonecos deveriam estar prontos, respectivamente, na “quinta-feira das comadres” e na “quinta-feira dos compadres”. Nestes dias ocorriam as primeiras escaramuças entre os dois sexos, cabendo às raparigas acirrar, na respectiva quinta-feira, os rapazes com o “compadre”, por vezes exposto em cima de burros, sendo permitido utilizar todos os estratagemas na defesa do valioso estandarte. Quando este recolhia a lugar seguro, um dos modos de dissuadir os mais corajosos de o tentar raptar era atirar penicos de urina sobre os adversários. Passados quinze dias, ocorria a inversão de papéis, cabendo agora aos rapazes incitar os elementos do sexo oposto e defender a todo o custo a sua dama, neste caso, “a comadre”. A repetição destas contendas ocorria com mais animação no chamado sábado e domingo gordo, na segunda-feira imediata e no dia de Carnaval, sempre seguidas de bailaricos, em que as pessoas, pintadas de carvão, se apresentavam mascaradas, usando lençóis e roupas antigas. A respectiva captura transformava-a(o) num troféu valioso, pois aos elementos do grupo do sexo vencido era-lhes retirada autoridade para lerem o respectivo testamento, inibindo-os de rebaixarem com dichotes os elementos do sexo oposto. Estas leituras e deixas, versando ocorrências merecedoras de crítica, comportamentos e anúncios de namoros e casamentos, eram feitas normalmente de noite nos cimos das povoações, utilizando funis. Contudo, as mesmas podiam ocorrer em pleno dia. Aliás, um dos últimos e mais célebres testamentos foi feito em cima de um carro de vacas, que percorreu várias povoações da freguesia.
Um outro ritual da época dizia respeito aos chamados “cus novos”. Durante o fim de semana anterior ao Carnaval e no dia de Carnaval, as raparigas tinham de tomar muitas precauções nas suas deslocações ou ficar em casa para não “apanhar um cu novo”. Se surgisse alguma nos caminhos, era agarrada por rapazes pelos ombros e pelos pés, sendo depois sucessivamente balanceada, ao mesmo tempo que diziam “um, dois, três...um p’ró pai, outro p’rámãe e outro p’ra quem o fez” ou também “um, dois, três…abanadinho, abanadinha, deixa o cu para outra vez”, sendo depois solta para que o “cu” batesse no chão. Ainda hoje, muitas mulheres se recordam dos rituais desses dias, em que os pais as proibiam de sair de casa ou se deslocavam exclusivamente pelos campos, evitando os caminhos.
Nota: Este levantamento foi feito com base na memória das pessoas que ainda viveram antigos carnavais. Cf. também a monografia “Resende e a sua história”, de Joaquim Correia Duarte.
Grupo de jovens recria Carnaval de antigamente
Em boa hora, um grupo de jovens, na sua quase totalidade pertencentes ao rancho de Paus, organizou e recriou algumas facetas de Carnaval do tempo de seus pais e avós. Para angariação de fundos percorreram a freguesia cantando as Janeiras.
Os festejos começaram com um desfile a partir do cimo da povoação dos Carvalhos até à sede do rancho, por volta das 14h30 da terça-feira de Carnaval. Muitas pessoas responderam ao convite, tendo-se apresentado mascaradas tal como o combinado. Antes dessa hora, uma carrinha de caixa aberta com a comadre e o compadre e cerca de 20 jovens percorreu várias povoações da freguesia, recriando uma atmosfera de festa e boa disposição, com roupas multicolores, apitos e “bocas” apimentadas. Após o desfile, as pessoas tiveram ocasião de conviver no salão do rancho com a animação de um grupo musical, enquanto iam chegando mais pessoas. Pelas 17h00, teve início o acontecimento mais esperado do programa, ou seja, a leitura dos testamentos da comadre (por um rapaz) e do compadre (por uma rapariga), atentamente seguidos pela assistência, tendo provocado muitas gargalhadas. Os “meninos e meninos” das diversas povoações foram mimoseados com quadras maliciosas, entre os quais, o actual Presidente da Junta, que se irá casar proximamente: “Para o nosso Presidente/Eu deixo com lamento/Umas cuecas de alforge/P’ró dia do casamento”. E a respectiva noiva também não foi esquecida: “Para a nossa Primeira Dama/Eu deixo com muito lamento/O meu fio dental/P’rá noite de casamento”.
Após a leitura dos testamentos, seguiu-se a queima da comadre e do compadre, que tiveram um fim rápido, já que eram feitos de palha de centeio, revestidos dos respectivos fatos, fitas e adereços, como antigamente. Depois, cerca das 18h00, foi oferecido um lanche aos presentes, seguindo-se um convívio no salão da sede do rancho. Durante o mesmo, foram dados muitos “cus novos”, só que agora, devido à igualdade do género, as vítimas foram sobretudo os elementos do sexo masculino.
*Texto de minha autoria, publicado no Jornal de Resende (número de Março de 2009)
Ficou célebre a fábula das abelhas, de B. Mandeville, em 1714, uma obra inteligente e cínica.Havia uma colmeia semelhante à sociedade humana, concretamente nos seus vícios. Cada abelha procurava o seu interesse. Não faltavam as preguiçosas, as gananciosas, as exploradoras. A fraude e a corrupção também abundavam. A própria justiça era corrupta. Evidentemente, a abelha-mestra não fugia à regra. E, paradoxalmente, a colmeia era próspera.
Um dia, porém, operou-se uma viragem, de tal modo que cada abelha, daí para diante, se deixou guiar apenas pela honradez e virtude. Então, eliminados os vícios e excessos, já não eram necessários os médicos, as farmácias e os hospitais. Terminadas as contendas, desapareceram os polícias, os advogados, os juízes. Uma vez que todos se guiavam pelo princípio da moderação, acabou o luxo, a arte, o comércio e tudo aquilo que a eles está ligado. E o colapso foi geral.
L. González-Carvajal comenta, concluindo: “Fraude, luxo e orgulho devem viver, se quisermos fruir dos seus doces benefícios”. A conclusão já está no próprio título da obra: A fábula das abelhas ou os vícios privados fazem a prosperidade pública. O paradoxo de que o bem comum resultaria da convergência dos egoísmos foi expresso também pelo conceito de “astúcia da razão”, de Hegel, e pela teoria da “mão invisível”, de Adam Smith. Os homens, egoístas, procurando o seu interesse individual, acabam, mesmo sem a sua vontade e até contra ela, por promover o progresso e o bem-estar geral; os vícios dos indivíduos contribuem para a felicidade pública e a prosperidade das nações e da Humanidade.
A razão moderna instituiu a ideia de progresso ilimitado como artigo de fé. Essa crença, que é a secularização da salvação escatológica cristã, resistia à própria prova do egoísmo e mal em geral. Apesar de tudo o que de bom devemos à modernidade, não somos hoje tão optimistas. A razão moderna não trouxe a libertação e a salvação prometidas e colocou até nas mãos da Humanidade a possibilidade da sua autodestruição – pense-se no armamento nuclear e na questão ecológica.
Face à presente crise devastadora, percebemos que não basta corrigir o sistema. Afinal, a crise financeira é, como diz o famoso sociólogo belga François Houtart, fundador do Centro Tricontinental da Universidade Católica de Lovaina, manifestação de uma crise mais vasta: alimentar, energética, climática, humanitária, ecológica...
Para ele, a sociedade do futuro tem de construir-se à volta de quatro eixos. O primeiro obriga a uma nova relação de respeito e não de exploração com a natureza. “Na prática, significa declarar a água e as sementes património universal e não permitir a sua privatização”. O segundo eixo é privilegiar o valor de uso e não o valor de troca, o que significa que os produtos e os serviços têm de ser desenvolvidos em função das necessidades e não, em primeiro lugar, do lucro. Para superar esta “situação absurda”: nunca houve tanta riqueza e tantos pobres. O terceiro eixo é a “democratização da sociedade”, não só no campo político, mas em todas as relações sociais: na economia, saúde, educação, desporto, religião, entre homens e mulheres. O quarto eixo é a multiculturalidade, no sentido da “possibilidade de que todos os saberes, filosofias e religiões contribuam para a construção social colectiva”.
Para uma crise global a resposta tem de ser global. Inesperadamente, desta vez, a proposta simples e revolucionária, que lembra o famoso Plano Marshall, foi lançada no L’Osservatore Romano, diário do Vaticano. Primeiro, no dia 30 de Janeiro, por Ettore Gotti Tedeschi, banqueiro e professor de economia na Universidade Católica de Milão, e, depois, em 19 de Fevereiro, pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown. O projecto que vai ser posto à consideração da cimeira do G20 consiste num investimento gigantesco a favor dos países pobres, com o fim de estes se tornarem protagonistas de um boom económico para seu benefício e, com o tempo, para ulterior bem-estar e riqueza de todos. Uma versão outra da fábula das abelhas? Escreveu Tedeschi: “Isto não é moral, é economia”.
*Anselmo Borges (crónica do Diário de Notícias, de 21-03-2009)