segunda-feira, 15 de junho de 2009

CLUBE DESPORTIVO DE S. MARTINHO DE MOUROS APOSTA NO FUTSAL*

Origem do Clube Desportivo, Recreativo e Cultural

As gentes de S. Martinho de Mouros sempre tiveram grande apetência e paixão pelo futebol. Foi nesta vila que nasceu a primeira equipa estruturada do concelho, denominada “Football Club de S. Martinho de Mouros”, cuja apresentação ocorreu em 7 de Janeiro de 1923 em jogo disputado com o “ Lamego Football Club”. Faz parte da memória dos mais velhos o ambiente de grande animação que rodeava as tardes de domingo, durante os jogos de futebol, disputados pelos mais jovens no recinto defronte da escadaria da igreja do Senhor do Calvário e, mais tarde, no largo da Feira Nova. Antigos jogadores relatam com orgulho a forma como conseguiam apresentar o piso com condições mínimas para jogar em dias de chuva, revestindo-o de terra seca ou areia. Nos anos sessenta e setenta do século passado, S. Martinho de Mouros chegou a integrar os torneios organizados pela então FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho), afirmando-se como um dos melhores clubes da região. No início da década de oitenta, por falta de um campo de futebol com condições mínimas exigidas, não foi possível prosseguir os torneios nem sequer efectuar jogos com equipas das freguesias vizinhas.

Face a esta carência, o presidente da antiga Casa do Povo, Alípio Pereira de Faria, tomou a iniciativa de mandar fazer um campo de futebol em Vila Verde, cuja construção se iniciou em 1982, tendo ficado com condições mínimas para aí se jogar à bola um ano depois. Os balneários foram feitos a seguir com o contributo dos jogadores e adeptos do futebol local da altura. A fim de preencher os requisitos mínimos para a integração em torneios, outras obras tiveram de ser feitas, as quais só terminaram em 1988. Por isso, só nesse ano se procedeu à respectiva inauguração, tendo sido convidada uma equipa de prestígio, o Boavista Futebol Clube, patrocinada pelo Sr. Manuel Pereira, das Caves Cristal da Suíça, cujo resultado foi favorável à equipa visitante por 5-1. Este acontecimento despertou um enorme entusiasmo e teve grandes repercussões na freguesia, tendo despoletado a necessidade da formação de uma associação desportiva. E assim nasceu o Clube Desportivo, Recreativo e Cultural (CDRC) de S. Martinho de Mouros, cuja escritura foi efectuada em 26 de Outubro de 1989.

Victor Joaquim Cardoso Baptista encarregou-se da concepção e desenho do emblema identificativo do clube, tendo a respectiva bandeira sido paga pelos doze membros fundadores do mesmo. Os primeiros órgãos sociais da recém-formada associação foram constituídos a partir do núcleo fundador, tendo a direcção sido formada pelos seguintes elementos: António Pereira Lopes de Azevedo (presidente), Manuel da Silva (tesoureiro), Mário João Rebelo Osório de Faria (1.º secretário), Manuel Rodrigues Lourenço (2.º secretário) e José Pinto (3.º secretário).

O clube começou por participar no campeonato do Inatel na época desportiva de 1990/91, tendo ficado no 2.º lugar. Em 1991/92, entrou para a 3.ª divisão distrital e, no ano seguinte, ascendeu à 2.ª divisão distrital, onde militaram várias anos, tendo constituído um clube de referência do concelho e onde se formaram e passaram muitos atletas. Nesta década, foram realizados vários melhoramentos no campo de futebol, tendo o mesmo sido alargado e efectuadas obras de requalificação nas bancadas e nos balneários.


Equipa de futsal

Tendo em conta as exigências e os custos associados à manutenção do futebol federado para uma equipa inserida em meio rural, o CDRC de S. Martinho de Mouros desistiu desta modalidade, preferindo apostar na formação de uma equipa de futsal, o que aconteceu em 2004. E foi uma opção acertada, pois os bons resultados obtidos são disso uma demonstração. Na época de 2004/05, disputou o campeonato distrital da 1.º divisão (série única) de Futsal da Associação de Futebol de Viseu, integrando 16 clubes, tendo ficado em 3.º lugar. Na época seguinte 2005/06, obteve o 7.º lugar do mesmo campeonato da Série Norte, que integrou 11 clubes, tendo a Série Sul sido constituída por 12 equipas. Nesse ano, veio a obter o 1.º lugar na Liguilha, disputada por 4 clubes. Em 2006/07, o CDRC ascendeu à divisão de honra de Futsal da AF de Viseu, tendo obtido o 5.º lugar, de entre 12 equipas. Na época transacta (2007/08), ficou na 5.ª posição da mesma divisão, de entre 12 equipas. Na presente época, com 9 jogos disputados por igual número de equipas da época passada, o clube de S. Martinho de Mouros encontra-se a meio da tabela. Em juniores, participou no respectivo campeonato nas épocas de 2005/06 e 2006/07, tendo obtido, respectivamente o 2.º e 3.º lugares.


Dinâmica e festa do jogo

As dimensões do campo (40m de comprimento por 20m de largura), o menor peso e tamanho da bola, o reduzido número de jogadores por equipa (cinco, incluindo o guarda redes), o número livre de substituições e a ausência de foras de jogo, entre outras características, transformam esta modalidade num espectáculo de emoções fortes. Concretizando melhor algumas destas especificidades em relação ao futebol, importa salientar as seguintes: um jogador substituído pode voltar ao campo para substituir qualquer outro jogador; uma substituição pode efectuar-se sempre, esteja ou não a bola em jogo, devendo apenas o atleta que entra ou sai fazê-lo pelo sector especifico; a partida compreende dois períodos de 20 (vinte) minutos cada um, sendo o jogo cronometrado, de forma a contabilizar o tempo da bola em jogo; o intervalo tem a duração de 10 minutos; e cada equipa pode pedir um minuto de “tempo morto” em cada um dos intervalos para descansar ou receber instruções.

A elevada velocidade e agilidade de movimentos, a rápida aceleração e mudança de direcção em espaço reduzido, compartilhado por adversários e colegas de equipa, a capacidade de concentração, a rapidez de percepção das movimentações em campo e o talento de previsão para a adequada decisão constituem factores mais que suficientes para levar as pessoas ao Pavilhão de S. Martinho de Mouros, sábados à tarde.

Logo que o actual treinador, Prof. José Fernando de Almeida, me informou que o lema do futsal era “ataque e contra-ataque” resolvi fazer-me sócio do clube, prometendo reservar muitos sábados para assistir a este espectáculo recheado de imprevisibilidade, dinamismo e alegria, desenvolvido por uma equipa jovem e empenhada.


Intendência do clube

A “mística” da equipa, baseada no desportivismo, amizade e combatividade, é o combustível que a todos move. Ninguém ganha dinheiro nem há quaisquer gratificações. O clube apenas paga as refeições e lanches aquando dos jogos, ajuda os atletas na aquisição das sapatilhas e concede um subsídio para as deslocações para os treinos e jogos em S. Martinho de Mouros. Em jogos fora de casa, o transporte é efectuado numa carrinha do clube, cuja aquisição foi possível graças à comparticipação da Câmara Municipal de Resende e da Junta de Freguesia de S. Martinho de Mouros.

A gestão tem de ser rigorosa, pois, apesar de tudo, as despesas são muitas (filiação do clube e inscrição dos jogadores na AF de Viseu, exames médicos, policiamento, taxas de jogo…).

A Câmara Municipal tem concedido anualmente um subsídio de 6.000 euros e a Junta de Freguesia um outro no valor de 1.000 euros. O resto das receitas advém das quotas dos sócios (10 euros anuais), da exploração do bar da sede no pavilhão municipal, das angariações no cantar dos Reis/Janeiras, da venda de galhardetes, bonés e cachecóis, de fundos obtidos com um stand de comes e bebes montado na festa do Senhor do Calvário e de patrocínios de algumas empresas locais, designadamente a de Emídio Horácio que fornece gratuitamente os kispos, fatos de treino e equipamentos dos jogos.


Perguntas e respostas


Por quem é constituída a direcção do CDRC?

A direcção é constituída pelos seguintes elementos: José Manuel Xavier (presidente), Jorge Manuel Almeida Fonseca (vice-presidente), Manuel Fernando Rodrigues Xavier (secretário), José Manuel Castro António (tesoureiro) e Pedro Miguel Rodrigues Carvalho (vogal), que é o capitão da equipa.

O grande objectivo desta direcção é lutar pela classificação da equipa em lugar acima do meio da tabela e conseguir que a associação atinja cem sócios com as quotas em dia.


Quantos elementos integram o plantel e a equipa técnica?

O plantel é actualmente constituído por quinze jogadores, dos quais quatro vieram dos juniores, integrando a equipa principal pela primeira vez na presente época.

São provenientes de diferentes freguesias do concelho, com predominância de S. Martinho de Mouros e de Resende, havendo dois que vivem no concelho de Baião e um no concelho de Mesão Frio.

Treinam duas vezes por semana (às terças e quintas feiras) das 20 às 22 horas, sob o comando do Prof. José Fernando Rodrigues de Almeida, coadjuvado pelos treinadores adjuntos Nelson Almeida e Vitorino Ferro (antigo jogador).

O Enf. Ricardo Quintino dá o apoio possível, garantindo a boa forma física dos jogadores.


Tem havido transferências?

A equipa tem vivido sempre com a prata da casa, investindo na formação dos mais novos. Devido ao seu valor, tem havido jogadores aliciados por outros clubes O caso mais conhecido foi a transferência do guarda redes Ronaldo para a equipa de Futsal do Boavista. Desde o final da época passada, são quatro os jogadores da equipa de futsal de S. Martinho de Mouros que se encontram actualmente noutros clubes. Assim, o Marcos, o Samuel e o Prof. Rui Rebelo (ex-treinador e jogador) foram para o Grupo Desportivo de Resende. Por sua vez, o Serginho integra actualmente a equipa de Futsal de Balsa-Nova, que disputa a 3.º divisão nacional.


O que fazer para assistir aos jogos?

Os jogos em casa (Pavilhão Municipal de S. Martinho de Mouros) do campeonato e da taça disputam-se aos sábados com início às 16h. Os interessados apenas têm de desembolsar a módica quantia de um euro, o que constitui um valor simbólico. Costumam assistir à volta de oitenta pessoas. O clube tem uma página na internet sempre actualizada, com a história e dados relevantes, onde os interessados poderão consultar o calendário e os resultados dos jogos (http://smmfutsal.com.sapo.pt)

*Texto de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, no número de Janeiro de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Homenagem ao Sr.Miranda, um carteiro de excepção*

De seu nome completo, Luís Soares Borges de Miranda, conhecido por Sr. Miranda, nasceu em 10 de Janeiro de 1925, em Vilar de Barrô. De família modesta, teve mais quatro irmãos, tendo tirado a antiga quarta classe, o que não era muito comum na época. Ainda trabalhou em tarefas relacionadas com a verificação de marcos do rio Douro antes de iniciar, aos dezoito anos, a carreira de carteiro que exerceu ao longo de quarenta anos.

Começou pela distribuição na freguesia de Barrô. Após a Sra. Leopoldina chegar de Barqueiros com a mala da correspondência, transportada até lá pelo comboio correio, e posterior abertura em casa do Sr. Francisco da Fonseca Sebes, no Rossio/Vilar, começava a caminhada do jovem carteiro pelas aldeias da freguesia. Foi uma espécie de estágio, pois só aqui esteve dois anos, tendo sido depois transferido para Resende, onde permaneceu um ano.

Aos 21 anos, entrou para a estação dos correios de S. Martinho de Mouros, onde permaneceu praticamente até se reformar, em 1985, tendo granjeado por aquelas bandas grande simpatia. As suas virtuosidades como carteiro permanecem ainda bem vivas. Depois de comer o almoço, que trazia numa marmita, em casa do “Ar Limpo”, começava o giro para entrega do correio, que entretanto o “Chico das malas” tinha trazido de Porto de Rei. O percurso era longo: Cavalhão, Peneda, Testamento, Santa Eulália, Silva, Póvoa, Cardoso, Moita, Vale de Paus, Carvalhos, Quintãs, Vinha Velha, Eira Velha, Formigal, Lugar, Cantim de Baixo e Moinhos. Dia após dia, pelas veredas lamacentas de Inverno ou pelos caminhos poeirentos de Verão, sempre a pé, devidamente fardado, era uma rotina que se traduziu em muitos milhares de quilómetros. A distribuição era feita porta a porta, com entrega personalizada. Só excepcionalmente, quando ocorriam atrasos ou em dias mais curtos, puxava da corneta e gritava “correio”, esperando que aparecesse alguém que seria o portador da correspondência para a respectiva povoação.

Desta herança ficou um rasto de grande humanidade. A sua simpatia era inexcedível. Como conversador nato, estava sempre disponível para aceitar um copo, condimentado por um bocado de chouriço ou salpicão, como pretexto e ritual para discorrer sobre as últimas notícias do mundo, do país e da vida local. Nunca tinha pressa. Além de distribuir o correio, vendia selos e postais, nunca dizendo que não a quem lhe pedia para ler uma carta ou postal. Encarregava-se de aviar receitas médicas e embalagens de medicamentos para as pequenas maleitas na Farmácia de S. Martinho de Mouros, facilitando a vida de quem precisava. À pergunta: “Sr. Miranda, há correio?”, respondia sempre que não havia correspondência: “Vem amanhã”.

Era também um homem determinado. Ainda hoje, é lendária a forma como evitou a morte de mais pessoas em Santa Eulália numa grave escaramuça, ocorrida numa tarde fatídica nos finais dos anos sessenta, de que resultou um morto. Com grande sangue frio, correu para o homicida, tendo-o imobilizado e arrancado os botões das calças para o impedir de fugir, o que permitiu que fosse preso passado pouco tempo pela GNR. Embora o mesmo tivesse sido condenado a doze anos de prisão, viria a manifestar compreensão e até apreço pelo gesto do Sr. Miranda, pois, durante todos os anos em que esteve na cadeia, fez questão de lhe oferecer um par de botas feitas por si. Este acontecimento teve grande repercussão na época, tendo merecido a atenção dos CTT, que o homenagearam através da atribuição de um louvor escrito e de uma medalha da empresa.

A simpatia e dedicação deste homem singular e profissional de excelência não tinham preço. Por alturas de S. Martinho, num gesto de retribuição, as pessoas das Quintãs, Eira Velha e Formigal faziam questão de lhe oferecer um saco ou dois de castanhas. Durante vários anos, foi o seu filho Luís Miranda, actual co-proprietário do café Sangens de Resende, quem as transportou até Barrô.

Em 1979, foi tempo de deixar o giro de distribuição e dar lugar aos mais novos, para trabalhar em tarefas de balcão na estação dos CTT de S. Martinho de Mouros. Pelo Verão, ainda foi fazendo alguns giros em regime de substituição em freguesias do concelho de Resende e de outros concelhos, até à reforma que ocorreu em 1985.

Até à sua morte que aconteceu em Setembro de 2004, viveu tranquilamente os últimos anos na sua aldeia natal de Barrô, tendo-se dedicado ao cultivo das suas pequenas propriedades. Os últimos dias de sofrimento no hospital de Lamego foram amenizados pelas muitas visitas de amigos que foi fazendo ao longo da sua exemplar vida carteiro.


*Texto de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende em Dezembro de 2008.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Trabalho no Douro: das rogas aos angariadores*

Ano após ano, homens mulheres e algumas crianças, integrados em rogas, rumavam a pé até às estações da Ermida e Porto de Rei, onde apanhavam o comboio para as vindimas, regressando a casa após o seu término . A dureza do trabalho era amenizada por duas a três semanas de convívio, onde não faltava música e dança, noite dentro. Agora, são viagens diárias esgotantes, de madrugada e à tarde, onde falta o conforto e sobra o cansaço. É o ritmo imposto por novas relações de trabalho mediadas por angariadores.

Sina do Douro
Joaquim B. tem 58 anos, mas aparenta mais dez. Desde os nove, na senda dos pais e irmãos mais velhos, aprendeu a calcorrear os socalcos do Douro, primeiro nas vindimas e mais tarde na poda. Frequentou a escola durante seis anos, mas não aprendeu a ler nem a escrever. Apenas conhece os números e sabe fazer contas de cabeça. Antes do início das aulas, em Outubro, já tinha vindimado e carregado muitas cestas de uvas na zona da Régua ou do Pinhão, ganhando a vida precocemente numa vida sem infância. Ler, escrever e contar estavam a mais, não vendo na sua aprendizagem qualquer interesse. Canalizava as energias a distrair os colegas nas aulas e a fazer malfeitorias nos recreios e nas deslocações para a escola e para casa. Os fins de tarde, os sábados e domingos estavam reservados para guardar o gado e ajudar os pais no amanho das terras. Terminado “o martírio” da escolaridade obrigatória, continuou a vida dura nos campos, intervalada pela ida às vindimas e mais tarde à poda.
Casou cedo, aos vinte e um anos. A tropa não o levou até à guerra de África. Não engrossou a avalanche da emigração para Lisboa, França, Alemanha ou Suíça. Foi caseiro durante quinze anos de uma pequena quinta, o que lhe permitiu ir sempre ao Douro. Depois adquiriu uma casa com uma pequena propriedade, trabalhando desde há cerca de vinte anos quase em permanência em quintas vinhateiras. Duas das filhas conheceram os maridos no trabalho do Douro. Exceptuando a época das cerejas, desde há cerca de dez anos que sai de casa pelas cinco horas da madrugada, regressando pelas dezoito horas numa carrinha dos angariadores, designados como “empreiteiros” pelos trabalhadores. Alguns dos vizinhos são pessoas da sua idade, que regressaram às origens, com reformas razoáveis. Joaquim B. continua no activo, quase sem nada, desconhecendo o que o espera, pois foi sempre um trabalhador “clandestino”, não tendo efectuado quaisquer descontos para a segurança social.

Rogas
Há cinquenta anos ranchos de homens, mulheres e algumas crianças partiam, por volta da festa de Nossa Senhora dos Remédios, das diversas freguesias do concelho rumo às vindimas do Douro. Iam a pé até Porto de Rei e Ermida, normalmente ao som da concertina e, por vezes, também do bombo, ferrinhos e do cavaquinho, onde apanhavam o comboio rumo à Régua, Pinhão e outras estações mais próximas do destino das quintas. Os homens levavam a trouxa, um pau para segurar o cesto vindimo e um saco com roupa e pão. As mulheres transportavam uma cesta na mão para colocar as uvas e um cesto ou saco à cabeça com roupa e pão. Permaneciam no Douro cerca de vinte dias.
Trabalhava-se de sol a sol. Os homens carregavam os cestos ao longo das encostas íngremes até ao lagar, podendo, conforme as distâncias, haver poisos para descansar. Às mulheres competia-lhes ter os cestos cheios na volta dos homens. Os rapazes tinham a incumbência de transportar as cestas, despejando-as nos cestos vindimos. Se a distância do lagar era considerável, poderia ficar combinado como objectivo do dia o enchimento e o transporte de um certo número de cestos de uvas, por exemplo, dez por cada homem, findos os quais terminava o trabalho.
Mas aos homens estava reservado ainda diariamente, após o jantar, a pisa das uvas. Lado a lado, abraçados e liderados pelo mandador, cortavam o lagar ao mesmo compasso: esquerdo/direito, um, dois, três, como se estivessem numa parada militar. Exigia-se um ritmo vigoroso, marcado pela disciplina para que da pisa nascesse um grande vinho. Depois de cortado o lagar, uma tarefa que durava cerca de quatro horas, cantava-se a liberdade: “Liberdade, liberdade/quem a não tem/já não é sua/quem não tem a liberdade/de sair à noite à rua/são tão bonitas as capoeiras/são mais bonitas as feiticeiras/Oh! que belo rancho da mocidade/Cantam as raparigas/Viva a liberdade!” À saída do lagar, já depois da meia noite, os homens lavavam os pés e as pernas. As mulheres esperavam-nos ansiosamente para o convívio e baile no terreiro, que se poderia prolongar até à uma e meia, duas horas da madrugada.
Seguia-se a dormida em palheiros e lagares, onde cada um (a) se cobria com uma manta, tendo uma tarimba ou um bocado de palha ou roço a sevir de colchão.
As mulheres levantavam-se primeiro, comiam uma côdea de pão como mata-bicho e levavam os cestos. Depois apareciam os homens, aconchegados com aguardente, para carregarem o primeiro cesto já cheio de uvas. Competia a cada um enganar a fome durante a manhã, trazendo ou não consigo um naco de pão. A ementa do almoço para os homens e rapazes era composta de batatas, acompanhadas de sardinhas, frango ou bacalhau e uma caneca de vinho. Às mulheres só estavam reservadas umas sardinhas simples ou azeitonas, sem direito a vinho. A ementa do jantar era quase idêntica, acrescida normalmente de caldo.
O salário diário de um homem há cinquenta anos rondava os vinte escudos (dez escudos pelo carregamento dos cestos, durante o dia, a que se somavam mais dez pelas quatro horas da pisa das uvas, durante a noite). As mulheres e rapazes até aos treze anos ganhavam cerca de oito escudos.
O rogador tinha um prémio suplementar de um escudo, ganhando, por isso, vinte e um escudos. Era o coordenador e responsável pelo cumprimento das directrizes e ordens do feitor ou dono da quinta, não carregando cestos. O tocador também não carregava, fazendo normalmente trabalhos de limpeza na adega e lagares.
A roga para a poda era constituída por homens e alguns rapazes, que ajudavam e faziam recados, aproveitando para aprender a “arte”. Partia por alturas dos santos (início de Novembro), regressando nas vésperas de Natal. Partia de novo em princípios de Janeiro, regressando definitivamente em meados de Março. Esta situação foi evoluindo, de tal forma que, nos últimos tempos, os homens regressavam sexta-feira à tarde e retornavam às segundas-feiras de manhã.

Mudança de ciclo
A reorganização empresarial, a selecção de castas, o aparecimento da vinha ao alto, a mecanização da viticultura, os lagares com robô, as adegas com inox e a aplicação de novos conhecimentos e procedimentos científicos revolucionaram o Douro vinhateiro nos últimos vinte anos, impondo novas necessidades e novos dinamismos na gestão de mão de obra.
Nas vindimas os tractores chegam a todo o lado, evitando carregamentos penosos de cestos para longas distâncias. A pisa tradicional já é rara, o que torna desnecessária a permanência de homens pela noite dentro.
As novas vias de comunicação, ligando todas as aldeias, facilitaram a mobilidade. As pessoas criaram novos hábitos nas interdependências entre a vida pessoal e profissional, não prescindindo do conforto da vida moderna à noite e ao fim de semana. Preferem jantar e dormir em suas casas, mesmo que isso acarrete percorrer grandes distâncias.
Por sua vez, tal como já fazem alguns organismos do Estado e muitas empresas, é mais fácil e barato as quintas do Douro “contratarem serviços”de acordo com as necessidades, não tendo quaisquer responsabilidades contratuais com trabalhadores.

Aparecimento de angariadores/”empreiteiros”
Estas mudanças levaram ao desaparecimento das rogas tradicionais com a permanência de ranchos de homens e mulheres ao longo de todo o ano no Douro, com mais incidência nas vindimas e na poda. Agora as necessidades de mão de obra são resolvidas entre os feitores/responsáveis pelas quintas e os angariadores/”empreiteiros”.
O montante, baseado em salários diários de homens e mulheres ou na quantidade de quilos de uvas apanhadas, é combinado com os angariadores/”empreiteiros”. Não há qualquer relação entre os donos das vinhas e os trabalhadores. São os angariadores/empreiteiros que transportam as pessoas, lhes fornecem a alimentação (se for o caso) e lhes pagam.

Importância do Douro na economia de Resende
No nosso concelho, os antigos rogadores deram origem a cerca de 15 angariadores/empreiteiros de mão de obra para o Douro. Alguns deles adquiriram diversas carrinhas para o transporte de pessoal. Sobretudo em Setembro, por alturas das vindimas é um rodopio pelas várias aldeia na recolha de trabalhadores logo pelas cinco da manhã e na volta pelas cinco/seis da tarde. São três/quatro horas extenuantes de viagem por dia, por vezes, desrespeitando a velocidade estabelecida e a lotação prevista. Não é raro a deslocação ser feita em camionetas de transporte de materiais, de caixa aberta.
O vencimento diário para os vindimadores anda à volta de 25 euros e para os carregadores de cestos ronda os 30 euros, incluindo uma refeição fornecida pelos angariadores/ “empreiteiros”. Na poda e no trabalho ao longo do ano, a diária anda à volta de 25 euros, caso inclua uma refeição, e de 30 euros a “seco”.
Calcula-se que as vindimas mobilizem cerca de 500 pessoas de todo o concelho (dos quais vários estudantes) e a poda 200. Em tarefas ao longo de grande parte do ano, andarão no Douro 130 trabalhadores. Muitos conciliam estes trabalhos com outros biscates e com o cultivo das suas terras. A maioria, ao que parece, não faz quaisquer descontos para o IRS ou para o sistema da segurança social. Deste “exército” fazem parte pessoas do rendimento social de inserção e reformados. Tudo indica que só uma minoria tem contratos de trabalho devidamente firmados.
É difícil quantificar os lucros de intermediação obtidos pelos angariadores/”empreiteiros”. Aí o segredo é a alma do negócio. Todos declaram a adequação à lei da sua actividade e o cumprimento de todos os procedimentos. “Não sou como alguns candongueiros ou mixordeiros que andam por aí”, afirmam mais ou menos assim, quando se lhes pede para aclarar o carácter reservado das linhas com que se cosem.
Devido à escassez de ofertas de emprego e à falta de outras oportunidades, o trabalho no Douro, embora envolvendo grande precariedade, continua a ser fundamental para o concelho.

*Apontamento de minha autoria, publicado no Jornal de Resende em Setembro de 2008

domingo, 31 de maio de 2009

1.º Congresso dos Antigos Alunos dos Seminários: da memória à profecia*

1. Desejo e memória latente no passado de muitos, fica agora este evento para memória futura de todos e registo primeiro de uma realidade antiga, viva e potenciadora numa sociedade positivamente marcada pela formação em tempos recebida dos nossos seminários.

Vivendo certamente há longo tempo no silêncio mental de alguns, o Congresso dos Antigos Alunos dos Seminários de Portugal, realizado em Fátima, teve o seu empurrão decisivo em Maio de 2008 a quando da visita do Mons. Luciano Guerra -(ao tempo Reitor do Santuário de Fátima)- ao Seminário de Resende para falar sobre Fátima e Lurdes, integrado nas comemorações do 80º aniversário do Seminário, dos 150 anos das aparições de N.Snra.de Lurdes, 25 º aniversário da ASEL e lançamento da Antologia Estrela Polar .

Essa vivência de 2 dias intensos no Seminário de Resende onde se respirou também vida e dinâmica da Associação dos Antigos Alunos de Lamego (ASEL), levaram no local o Mons. Guerra a pronunciar- «agora sim vamos fazer o Congresso dos Antigos Alunos dos Seminários». Alguns meses depois estava constituído o secretariado e dados os primeiros passos para a sua realização.

Esta é uma realidade resultante da minha leitura dos factos que ASEL e os nossos Seminários não precisam ocultar ou esquecer.

Assim se desenvolveu em ponta final ideia e projecto, e assim o 1º Congresso dos Antigos Alunos dos Seminários foi marcado atempadamente para os dias 24-25 e 26 de Abril de 2009.

Relativamente ao local escolhido para o evento, melhor e com melhor simbologia não se encontraria, pelo que tiro o meu chapéu à escolha de 5 estrelas. No que respeita ao número de presenças formalmente inscritas e instituições representadas, faço duas leituras diferentes e ambas certas, pelo que cada um abraçará a que melhor lhe convier sendo que de pessimismo estamos quase saturados e é o optimismo realista e crítico que comanda o futuro, desenvolve actividade e conclue projectos.

De facto o número aproximado de 500 presenças não é altamente abonatório para uma realização desta grandeza e amplitude, porém a amplitude e grandeza deste evento esteve exactamente na sua concretização.

Nunca vez alguma se tinha pensado decididamente levar a efeito iniciativa desta projecção. O facto de se ter realizado é o maior êxito que se deve acolher e reter.

A não presença de antigos alunos de muitos seminários e instituições religiosas é uma lacuna de fácil solução a resolver já no 2º Congresso desejavelmente a realizar a curto prazo .

2. Com início em 24 e encerramento a 26 de Abril de 2009, ocorreu em Fátima este 1º Congresso sobre o tema « da Profecia à Memória» .

Um programa cheio com intervenções e testemunhos de elevada qualidade pouco tempo deixou para debates temáticos que dariam ainda mais vida aos conteúdos.

As 16 conclusões (demasiadas e de caracter bastante genérico) apresentadas no encerramento juntamente com novas sugestões que entretanto surjam serão o ponto de partida na elaboração do programa do próximo congresso que todos desejamos e aguardamos.

Interessante seria pormenorizar as intervenções dos vários prelados convidados (com referência para o Snr. D.António Francisco dos Santos), dos oradores e moderadores dos temas em debate, mas por honra ao espaço e interesse de destino vou limitar-me ao papel de Lamego (Seminários e ASEL) na vida, animação e intervenções no congresso.

Presente na qualidade de antigo aluno e elemento da Direcção da ASEL, apraz-me referir (e sem saber explicar) que Lamego não teve qualquer quota de voz e responsabilidade activa na organização, mas o congresso seria mais pobre e menos vivo se Lamego com os seus Seminários e a Associação de Antigos Alunos não tivesse tido a representação e intervenção que teve.

A representação da ASEL ao Congresso, (talvez a mais expressiva de todas), com mais de 30 elementos, equivalente a cerca de de 10% do total dos congressistas inscritos, deixou em claro destaque nos espaços do congresso os nossos Seminários, com evidência para os Vice Reitores, Pe. Dr. João Carlos e Pe Dr. Paulo Alves, cuja presença salientou a preocupação, visão, nível e valor dos nossos Seminários e equipas formadoras.

A Lamego e seus representantes coube no programa o testemunho de um aluno frequentante apenas em seminário menor, pertencendo ao António Cândido, (à data, presidente da ASEL), a comunicação ao Congresso.

O seu testemunho, sem dúvida o mais bem elaborado e preparado de quantos sobre os seminários falaram, desenvolveu em mensagem falada a sua experiência enquanto aluno de um seminário menor, a sua actividade apostólica ao longo da vida e especialmente como elemento activo da ASEL. Ao longo dos 20 minutos da comunicação verbal fez-se acompanhar com diaporama qualitativamente preparado onde se viu, quem quis ver, (com imagens de espaços e pessoas), todo o suporte dos nossos Seminários em Resende e Lamego, a ASEL e os seus 26 anos de existência com realce para os últimos seis em que a Direcção assumiu uma intervenção mais directa e uma ligação mais intensa aos nossos seminários.

Quem viu e ouviu verificou que Lamego e a Associação de Antigos Alunos esteve claramente em evidência não só no já referido mas até e também na parte recreativa do encerramento com a intervenção do Luís de Matos e sua guitarra.

Sem vaidade mas com verdade, (por mérito e trabalho do António Cândido ), ficou no Congresso bem vincado o nome dos Seminários de Lamego e seus antigos alunos.

Não sendo elegante reportar ou desenvolver louvor próprio, também não era justa a omissão do testemunho desta verdade por mais valioso que seja o silêncio da humildade ou edificante a humildade do silêncio.

*Texto de autoria do Dr. Adão Sequeira, também reproduzido n' A Voz de Lamego

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O "Milagre" de Cárquere: facto histórico, lenda ou embuste?*

Fruto de uma investigação aturada, o Dr. Joaquim Correia apresentou, no dia 9 do passado mês de Abril, à Academia Portuguesa de História, de que é membro, uma importante comunicação sobre a “cura milagrosa” do nosso primeiro rei. A ilustre assembleia foi confrontada com a importância e o papel de Cárquere nos primórdios da nacionalidade. Este apontamento pretende dar conta de alguns dados dessa prelecção.

Breve contextualização histórica de Cárquere
Esta freguesia testemunhou a fixação de diferentes povos ao longo da sua história. Há fortes evidências de ter existido um antigo castro pré-celta no outeiro, designado de Medorno ou Medorro situado junto da igreja e do mosteiro. Os romanos, aqui chegados no século II a. C., estabeleceram neste local um “oppidum” (povoação fortificada). Da sua presença chegaram até nós importantes vestígios de que se destacam inúmeras moedas e várias lápides funerárias. Nestas proximidades, em Caldas de Aregos, passava, aliás, a famosa “Via Caurium”, que ligava Mérida a Braga, o que explica a forte colonização romana do nosso concelho. Neste contexto, não é descabida a referência de Frei Teodoro de Melo, em manuscrito de 1733, a uma estatueta de Diana, descoberta por uns “rústicos” que trabalhavam para os padres Jesuítas em Cárquere. Sendo assim, parece justificada a existência de um pequeno e rude templo em honra da deusa das florestas e da caça.
Com a cristianização destas terras, que deve ter acontecido ao longo do século VI, registou-se a fundação de pequenas paróquias e a construção de pequenos templos. Assim aconteceu em Cárquere, datando o seu primeiro templo, ao que tudo leva a supor, da época suevo-visigótica. E por analogia com o que sempre aconteceu ao longo da história, é provável que tivesse sido erguido a partir da transformação/reconstrução do templo pagão, tendo-se operado a substituição do culto de Diana por Santa Maria, Mãe de Jesus Cristo. A corroborar esta tese, há a preciosa escultura em marfim, de 29mm de altura e 14 de base, representando uma Senhora com o Menino, cujas formas e expressões denunciam ser obra muita antiga, talvez da época visigótica. Há indícios que sugerem ter sido Cárquere um centro intenso de espiritualidade e de difusão religiosa, tendo esta imagem sido venerada com especial devoção. Por altura das invasões sarracenas, a mesma terá possivelmente sido escondida, tendo sido posta a descoberto aquando da reconquista cristã, reiniciando-se, a partir de então e ainda com mais afinco, a antiga devoção a Santa Maria (de Cárquere).

A “cura milagrosa”
É neste local de sobreposição de cultos, de sortilégios, da redescoberta da imagem ancestral de Nossa Senhora e do reencontro com a Sua devoção que acontece o “milagre”.
Sendo D. Egas Moniz, senhor de Ribadouro e com Paço em Resende, pessoa da máxima confiança do Conde D. Henrique, este constituiu-o aio do seu filho Afonso Henriques, ficando com a incumbência de o criar e educar. Conta-se que a criança sofria de uma malformação das pernas, o que constituía uma grande preocupação para Egas Moniz. E a cura só poderia vir por intervenção divina. É natural que as orações se dirigissem para Nossa Senhora/Santa Maria, cuja imagem era muito venerada ali bem perto. Até que um dia, encontrando-se no seu Paço de Resende, esta lhe apareceu em sonhos, dizendo-lhe que caminhasse até Cárquere, colocasse a criança em cima do seu altar e lhe acendesse duas velas. E assim fez. Mas um facto inesperado aconteceu. Cansado e dormente, só o príncipe se deu conta que uma das velas caíra e pegara fogo às toalhas e ao altar. A fim de evitar o alastramento do incêndio, é impelido a agir, deslocando-se para apagar as chamas. E é nesse instante que se sente curado.
Esta é a tradição que tem atravessado gerações, encontrando-se bem enraizada na nossa região. A par disso, este “milagre” encontra-se referenciado em diversos cronistas do século XVI e XVII.

Inconsistência da tradição popular e dos relatos dos cronistas
Muitos autores não dão credibilidade a estes textos, por terem sido escritos quatro ou cinco séculos depois do suposto milagre. Acham inverosímil que este facto não tivesse sido devidamente anotado nos documentos da época, pois supostamente permitiu levar Portugal à independência. Um rei portador de uma enfermidade nunca poderia levar avante tão insigne e dificílima tarefa. Muitos alegam também que as crónicas foram fabricadas, pois foram redigidas por frades ou monges integrantes de ordens ou famílias monásticas que estiveram na posse do Mosteiro de Cárquere, sendo parte interessada no seu engrandecimento. Os detractores da tese do milagre identificam ainda algumas contradições de datas, tais como a que situa a cura aos cinco anos, em memória da qual Conde D. Henrique mandou erigir a igreja, quando a “Crónica dos Godos”atesta que este faleceu quando o filho tinha apenas dois anos. Por fim, há quem negue que Egas Moniz tivesse sido senhor destas terras e que D. Afonso Henriques aqui tivesse permanecido.

Argumentos a favor
O Dr. Joaquim Correia Duarte rebate estes argumentos com base em vários dados de que se enumeram brevemente os seguintes.
Em primeiro lugar, convém realçar que ninguém apareceu até hoje a negar a deficiência. Quanto à passagem a escrito do eventual milagre, é bom recordar que, nos primeiros tempos da nacionalidade, não havia os chamados cronistas do reino. O primeiro a surgir foi Fernão Lopes, que se incumbiu de tal tarefa por ordem de D. Duarte, datada de 19 de Março de 1434. De qualquer forma, nada nos garante que tivesse havido um relato escrito, tendo-se perdido com o tempo. Convém, no entanto, realçar que muito do que sabemos sobre os primeiros tempos da nossa história foi pela via dos nobiliários, hagiógrafos e cronicões do século XIV e cronistas dos séculos XVI e XVII. E quanto ao crédito que devem merecer, a questão deve ser ponderada. Na verdade, há relatos de exageros e inverdades, mesmo por parte dos “cronistas por ofício”. O facto de serem remunerados e, por vezes, cumulados de honrarias propiciava descrições não correspondentes aos factos. Contudo, há que separar o trigo do joio. Alexandre Herculano confiou, por exemplo, na obra de Frei António Brandão, historiador de Alcobaça da era de seiscentos, a quem chamou “um ilustre restaurador da história pátria”, servindo-se dos seus documentos para redigir a sua História de Portugal. O mesmo não aconteceu com Bernardo de Brito, cuja obra caracterizou de “altamente ridícula”. Ora, António Brandão refere-se ao “milagre de Cárquere”, citando duas antiquíssimas “Comemorações” em louvor de D. Afonso Henriques, que ele próprio teve em mão: uma, escrita em pergaminho, tendo-a visto no Mosteiro de Lorvão, e a outra no Mosteiro de Alcobaça. E estes Mosteiros não tinham qualquer interesse em forjar o milagre, já que nada tinham a ver com Cárquere. E importa perguntar: Como é que em Lorvão e Alcobaça se sabia do “milagre” tantos anos antes de ser “inventado” pelos cronistas?
Por sua vez, a questão das datas tem de ser relativizada, pois não é credível que o Conde D. Henrique confiasse as tarefas e responsabilidade nem transmitisse as recomendações, constantes do Nobiliário de D. Pedro e das Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra, a uma criança de dois anos e, ainda por cima, doente e incapaz. Aliás as contradições dos investigadores relativamente a alguns aspectos da vida do nosso primeiro rei são frequentes, designadamente a data e o lugar do seu nascimento.
Quanto à estadia de D. Egas Moniz na região de Ribadouro, há alguma unanimidade a este respeito, pois possuía aqui grandes bens patrimoniais e parece ter dominado várias revoltas da população árabe na zona de Lamego, o que lhe terá valido a confiança do Conde e da mulher e um papel ímpar na corte. Esta relação de amizade poderá justificar a responsabilidade e o papel de aio do príncipe herdeiro.

Infanticídio e troca de crianças
Esta é uma hipótese muito difundida pelo país para contradizer o milagre, sendo aceite por muita gente. Tem origem num artigo de Santana Dionísio, escrito n “O Primeiro de Janeiro” de 12 de Janeiro de 1969, onde o autor sugere que o príncipe deficiente foi eliminado, tendo sido substituído por um filho saudável e robusto de Egas Moniz. O suposto milagre de Cárquere teria sido apenas uma invenção ardilosa para encobrir este facto. Esta versão foi suavizada, falando-se actualmente de uma troca de crianças, ficando D. Egas Moniz com uma criança enfermiça e o Conde D. Henrique com uma outra forte e saudável.
Esta hipótese não está documentada nem tem atrás de si qualquer tradição. Nem parece consistente. A honestidade e a honradez de Egas Moniz e do Conde D. Henrique não são compatíveis com a troca de crianças e muito menos com o infanticídio. Além disso, como explicar a inexistência de reivindicações de poder por parte de outros filhos do Conde D. Henrique e o silêncio de D. Teresa na batalha de S. Mamede, sabendo que o responsável da revolta não era filho do casal?

Onde está o milagre?
O Dr. Joaquim Correia Duarte refere na sua comunicação que ninguém pode afirmar nem ninguém pode negar o milagre. Todavia, os argumentos a favor, em seu entendimento, são mais credíveis, embora não existam documentos nem provas irrefutáveis. A sua opinião é a de que “pode não ter havido um milagre assim tão claro, tão aparatoso, tão radical e tão rápido; pode e deve haver ampliação e exagero, tanto no que aconteceu como no modo como as coisas ocorreram, mas alguma coisa se passou, e muito séria, e com isso se relaciona Cárquere, a sua Igreja e o seu Mosteiro”.
Embora se desconheça o alcance e a natureza da enfermidade, a envolvência religiosa, a auréola do local e a eventual fama de ocorrências extraordinárias propiciavam condições e criavam mecanismos para a cura de pequenos e grandes males. Qualquer transformação e acontecimento inexplicado eram interpretados, à luz da mundivisão religiosa de então, como milagre, que o tempo ajudava a colorir e a ampliar de alguns pormenores fantásticos. A realidade não é objectivável. Os dados e os fenómenos só são passíveis de interpretação. O facto de abruptamente o príncipe ter começado a andar, a ter acontecido, seria hoje explicado “cientificamente” na base de mecanismos psicológicos. Para quem tem fé, contudo, independentemente dos contributos e das explicações da ciência, determinados acontecimentos, pelas suas características extraordinárias e pelas alterações inesperadas na vida das pessoas, podem sempre ser vistos como milagres ou antes como sinais reveladores da intervenção divina.
Em síntese, para além do que realmente se terá passado (e “alguma coisa se passou, e muito séria”), Cárquere consubstancia no plano simbólico o arranque da nacionalidade, com os “primeiros passos” de D. Afonso Henriques.

Nota: Este apontamento segue de perto, por vezes quase literalmente, a comunicação Santa Maria de Cárquere, em Resende: A “cura milagrosa” do nosso primeiro rei e os “primeiros passos” da nossa História, apresentada pelo Dr. Joaquim Correia Duarte à Academia Portuguesa de História, em 9 de Abril de 2008, cujo texto (sem a extensa bibliografia) está disponível neste blogue.

*Apontamento de minha autoria, publicado no Jornal de Resende, em Maio de 2008
Site Meter