quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Festa de Natal das Músicas de S. Cipriano e Encontro de Coros organizado pela Casa de Resende em Sintra*

Festa de Natal das Bandas de Música de S. Cipriano
Festa de convívio e notícias d’ “A Nova”
O convívio d’ “A Nova” teve lugar no passado dia 26 de Dezembro à tarde, na sede da Banda, tendo como ponto alto o concerto que a mesma disponibilizou. A tarde foi abrilhantada ainda pelas actuações do Clube Recreativo Musical Rerizente, regida por Vítor Resende, músico da banda “A Nova”, e do Grupo Social de S. Cipriano. Este dia de festa, que teve uma grande participação de público, terminou com um lanche.
Como já vem sendo habitual, “A Nova” abrilhantou a missa do primeiro dia do ano, celebrada na igreja paroquial de S. Cipriano, tendo tido a colaboração de um coro de crianças e jovens da catequese. No final da celebração, teve lugar um pequeno concerto, em que a música foi a linguagem para saudar os presentes e transmitir os votos de um Feliz Novo Ano.
Refira-se que a Banda Musical de S. Cipriano “A Nova” tem novos órgãos sociais, decorrentes do processo de eleição que teve lugar no passado dia 25 de Outubro. O presidente da direcção é José Luís Silveira Lage, de 31 anos, músico da banda desde os 16 anos, sendo enfermeiro de profissão. A direcção artística dos cerca de 50 músicos manter-se-á sob a batuta do Professor Fernando Paulo Morais Teixeira.
Refira-se ainda que a associação desta banda levou a efeito, no passado dia 5 de Dezembro, o 2.º torneio de sueca, em que estiveram em disputa dois borregos e dois leitões, e um magusto, no passado dia 14 de Novembro, em que actuou uma “mini-orquesta”, composta por jovens músicos das duas bandas de S. Cipriano, num gesto de união e boa vizinhança.

Programa da festa d’ “A Velha”
O dia de festa da banda de música de S. Cipriano “A Velha” decorreu no passado dia 27, tendo tido como primeiro acto, às 10h45, uma homenagem aos músicos já falecidos com uma visita ao cemitério, onde o presidente da direcção, Henrique Francisco, fez questão de salientar o exemplo de dedicação e a memória de todos os companheiros que já partiram, tendo aí deposto uma coroa de flores. Às 11h30, quarenta e um elementos (seis instrumentistas e trinta e cinco vocalistas), entre os quais muitas crianças e jovens, abrilhantaram a celebração da Eucaristia, presidida pelo P. Abel Costa, coadjuvado pelo Diácono Tiago Cardoso. As várias vozes, complementadas pelo som dos vários instrumentos, sob a direcção do maestro Jorge Manuel Pinto Cardoso, que executaram várias canções de Natal, emprestaram solenidade e festa às cerimónias da missa, cujas leituras reflectiram o tema da família. A homilia, proferida pelo Diácono Tiago Cardoso, a estagiar em Penedono, focou a importância da estabilidade familiar e do papel da experiência dos pais e dos mais velhos no desenvolvimento dos valores nos filhos. Dirigiu também uma saudação especial aos elementos da banda de música, à qual pertenceu. O ofertório saiu da rotina habitual, pois comportou a oferta de vários instrumentos musicais, a cada um dos quais foi associado um determinado significado simbólico, devidamente explicitado aos presentes.
À tarde, com início às 15h, teve lugar um concerto na sede da Casa do Povo, que contou com a participação de um numeroso público. Marcaram presença o Pároco, o Presidente da Câmara, a Vereadora da Cultura e os Presidentes das Juntas das Freguesias de S. Cipriano e de Ovadas. O Eng. António Borges proferiu um breve discurso, em que relevou o papel cultural e educativo das duas bandas de música de S. Cipriano, cabendo a cada uma delas ser a melhor, de acordo com a exigência dos respectivos simpatizantes, tendo referido que esta competição saudável tem sido o fermento do dinamismo e do percurso de qualidade de ambas as bandas de música. A terminar, dirigiu uma saudação especial de parabéns à direcção e a todos os elementos da banda “A Velha” por este dia de festa que pretende comemorar os 169 anos da sua fundação. As várias músicas do reportório prenderam a assistência e os muitos fãs presentes, que não se cansaram de pedir mais uma.
Este dia de convívio terminou com um lanche à população.
Encontro de coros organizado pela Casa do Concelho de Resende em Sintra
Em prol de Resende
O Grupo Coral da Casa do Concelho de Resende em Sintra, criado em 2003, começou por cantar os Reis como forma de convívio e para desejar um Bom Ano aos sócios, familiares e amigos. Pelo terceiro ano consecutivo, contudo, resolveu convidar outros grupos similares da região na época dos Reis, o que torna este evento um encontro de coros, potenciando novos públicos.
Convém referir que o grupo coral é constituído por cerca de 35 elementos, sendo a expressão mais actuante da Casa de Resende, sendo muito solicitado para festas, casamentos e outros eventos. Por delegação dos órgãos sociais da associação, o grupo é coordenado por Rita Botelho, que é a principal dinamizadora deste evento, Joaquim Botelho e Joaquim Pereira, tendo como maestro Paulo Tasul. Os ensaios decorrem às sextas-feiras à noite. A maioria das canções é retirada do reportório do Cancioneiro de Resende, constituindo, assim, um instrumento de difusão das nossas tradições musicais.
É um coro com características muito especiais. Não é apenas um grupo cujos elementos têm em comum o amor à música e o prazer de cantar. É um grupo com identidade muito própria, que tem Resende como elo, que faz gala de difundir o nosso património cultural e os nossos atractivos, como as cerejas e as cavacas. Este é um dos motivos por que Resende já é tão familiar a muitas das pessoas da região, constituindo os trabalhadores da Câmara Municipal de Sintra um bom exemplo desta situação. Anualmente, no dia 6 de Janeiro, o grupo coral desloca-se aos respectivo edifício dos paços do concelho para cantar os Reis.

Cantar os Reis ou as Janeiras?
Antigamente, eram grupos informais, formados por afinidades de gosto musical (saber cantar ou tocar um instrumento), idade e amizade que, na época dos Reis, percorriam as aldeias do nosso concelho, cantando músicas alusivas, sendo pretexto para um são convívio e para ir petiscando e bebendo. Actualmente, esta tradição tem sido continuada e assumida pelos vários grupos associativos, de natureza social, desportiva, cultural e musical, sendo aproveitada para angariação de fundos, na maior parte dos casos.
E por que razão se denominam cantares de Reis ou de Janeiras? A última designação tem a ver com o mês em que ocorrem, Janeiro, que era o mês de Jano, deus romano, responsável por abrir as portas para o ano que se iniciava. Era uma divindade importante de que os romanos esperavam protecção, sendo especialmente invocado no mês de Janeiro. Era tradição que as pessoas se saudassem em sua honra no início de cada ano, e daí o nome de Janeiras. Esta celebração pagã foi parcialmente assimilada pela cultura cristã, substituindo-a pela comemoração da visita dos Reis Magos, tendo dado origem a narrativas de cariz popular, consubstanciadas em histórias, poesias e canções, que foram enriquecendo o imaginário popular. Assim, há letras que põem em destaque este acontecimento e outras que lhe são alheias. De qualquer modo, a designação cantar os Reis é a que se encontra mais generalizada no concelho de Resende.

Encontro de coros
Numa iniciativa da Casa do Concelho de Resende, decorreu, como já foi referido, no passado dia 9 de Janeiro, na sede do Sporting Clube de Lourel, próximo de Sintra, um encontro de coros, que se transformou numa grande festa de convívio, constituindo uma maneira diferente de desejar aos presentes um Feliz Ano através da música e cantares, muitos dos quais alusivos aos Reis Magos.
A sessão começou cerca das 21h00, com palavras de boas vindas por parte de Rita Botelho e de Joaquim Pinto aos 10 grupos participantes e ao numeroso público presente. O coro anfitrião iniciou a actuação com três canções, entre as quais o hino da Casa de Resende, sob a direcção do maestro Paulo Taful, tendo contado também com a participação de Hugo Janota no órgão e de David Botelho e Luís Rosário na viola. Seguidamente, subiu ao palco cada um dos restantes 9 grupos, cabendo a cada um deles executar uma canção.
Por volta das 22h45, teve lugar uma acção plena de simbolismo, que consistiu no acendimento de uma vela pelo representante de cada um dos grupos, tendo sido recordados alguns significados associados à respectivas chama: paz, esperança, sabedoria, serenidade, confiança e beleza. Após esta cerimónia, todos os grupos foram chamados ao palco para cantarem o Hino da Alegria, dando-se assim por encerrada a actuação dos coros.
Para variar e num outro registo, os presentes puderam assistir seguidamente, durante meia hora, à execução de danças de salão por dois pares de exímios dançarinos, mestres de uma associação cultural vizinha.

Convívio
A noite terminou com uma ceia, ofertada pela Casa de Resende, que incluiu um delicioso bacalhau com natas, sopa, bebidas e sobremesas, a que se juntou, em clima de partilha, uma grande quantidade e variedade de comes e bebes, trazidos pelos diversos grupos. Este momento implicou o trabalho de muitas pessoas da associação anfitriã, que deverá ser devidamente reconhecido, pois estava em causa um serviço de atendimento a mais de quatrocentas pessoas, tendo tudo decorrido organizadamente.
Todos os responsáveis das associações presentes manifestaram a sua satisfação por esta iniciativa e pelo modo como decorreu.
Após o repasto, o ambiente não esmoreceu, terminando o programa com um baile à moda antiga.
De volta às suas casas, ainda ecoavam as estrofes do hino da Casa de Resende, por todos cantadas:

Viva Resende,
Terra querida,
Tu és p’ra sempre
Da nossa vida,
Viva Resende
És a maior….

São quinze freguesias
Aldeias encantadas
De longe nós lembramos
Nossas terras amadas.
*Notícias elaboradas por Marinho Borges e publicadas no Jornal de Resende (número de Janeiro de 2010)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Homenagem ao Padre Paulo Jorge Pereira Alves*

A minha Homenagem*

Decorria a terceira sexta-feira do mês de Julho de 1971, quando num pequeno lugar dos arredores da Cidade de Lamego e quase na encosta encimada e abençoada pela Senhora dos Remédios, nossa Padroeira, do casal formado pela Sra. D. Palmira e Sr. Filipe nascia um rapaz barão a quem posteriormente foi dado o nome de Paulo Jorge Pereira Alves.

Os parcos conhecimentos que possuo sobre esta família, apenas me permitem constatar a riqueza espiritual em que vivem, a constante disponibilidade em prol dos que precisam, um meio onde não existe a palavra NÃO mas sempre um SIM de disponibilidade, de apoio, de auxilio; neste ambiente cristão, puro e familiar cresceu, o Paulo Alves.

(Aos leitores que comungarão comigo esta possível homenagem e ao homenageado, desde já solicito «mea culpa» de possíveis datas ou declarações menos correctas; tentarei sejam o mais reais possíveis.)

Pela vontade de servir a Deus, depois do ensino escolar obrigatório, entrou no Seminário de Resende cumprindo com eficácia e inteligência esta primeira etapa, tendo sido transferido para o Seminário Maior fazendo os anos de Teologia e ordenando-se Sacerdote. Foi nessa casa, hoje sua primeira preocupação como Reitor da mesma que em 1996 faz o seu Bacharelato.

Estávamos na presença de um jovem, com ambições e por isso sempre ávido de uma maior e melhor formação académica e espiritual e assim com 25 anos apenas obtem a Licenciatura em Teologia pela U.C.P. – Porto.

Seria demasiado cansativo e essa não é a minha intenção, aproveitar este espaço que o Jornal da Diocese me concede para estar a mencionar os degraus, e tantos foram eles, percorridos pelo agora Padre Prof. Dr. Paulo Alves.

Pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da U. Coimbra, em 2003, foi este nosso homenageado denominado Mestre em Psicologia Pedagógica com a nota máxima de Muito Bom. Com este grau académico, talvez o nosso Vice-Reitor na altura, tenha alcançado uma das metas a que se tinha proposto. Foi neste periodo que, como Presidente da Direcção da Associação dos Antigos Alunos – ASEL o conheci « mais terra a terra » e em conjunto com a equipa de formação que chefiava e restantes elementos directores da ASEL levamos, entre outras coisas, a efeito uma campanha pró-Seminários da Diocese e, com verdade o confesso, mais centralizada no Seminário de Nossa Senhora de Lourdes, onde eu passara 5 anos da minha juventude.

Normalmente com a disponibilidade mais activa do Dr. Adão Sequeira, Vice-Presidente da Direcção, temos a consciência satisfeita pelo pouco, mas muito que conseguimos fazer por esta casa, por aqueles jovens e por tantas necessidades existentes.

Foram 6 anos de Presidência da ASEL e todos eles foram vividos em plena comunhão de valores e de dialogo constante com o (ex) Sr. Vice-Reitor, Pd. Paulo Alves. Aí fui beber muitas das minhas decisões a apresentar aos restantes elementos da Direcção, aí fui por vezes buscar um pouco de animo espiritual pessoal, aí senti felicidade a ver a alegria sempre patente nos olhos de minha esposa num constante dialogo com « os meninos» e numa constante preocupação de sempre lhes levar algo que os alegrasse ou que eles necessitassem. Foi toda uma verdadeira Família que a ex-Direcção da ASEL criou com toda essa Família do Seminário Menor, tão bem comandada por esse jovem, sempre com o sorriso nos lábios, mesmo que no seu interior existisse sempre a grande preocupação pelas dificuldade inerentes ao governo de tão grande casa, ao constante bem estar dos « seus rapazes», ao modo mais correcto de rendimento de tão grande imóvel composto por campos, animais, etc.etc.

A sua passagem como Pároco de Castro Daire, antes de ser nomeado Vice-Reitor, deixou-o preso a essas paragens por quem sempre continuou a nutrir grande carinho e dedicação. Por aí o víamos muitas vezes nas suas actividades pastorais em colaboração com os Párocos ou então nas suas maiores Festividades.

Mas o Padre Paulo Alves cedo me sensibilizou nas suas diversas actividades e no modo como sempre conseguia coordenar tudo e tantas coisas: a dedicação ao Seminário; a deslocação a diversos Estabelecimentos de Ensino como docente dos mesmos; a sempre constante disponibilidade em prol da Diocese colaborando ora com o seu responsável, o Sr. Bispo, ora com os diversos arciprestados; etc… Como exemplo e como testemunho na primeira pessoa, recordo toda a Campanha de Promoção Vocacional feita no Arciprestado de Cinfães. A obra apareceu e os seus frutos até podem ser tardios, mas virão…. Apenas quem o acompanhou saberá reconhecer todo um trabalho de preparação para uma certeza de tão caloroso acolhimento testemunhado por diversos elementos da ASEL, sempre presentes nos diversos fins de semana e que neste mesmo Jornal testemunharam o sorriso e até os braços abertos com que todas aquelas crianças, jovens e adultos receberam os nossos seminaristas e seus formadores e sentiram na simplicidade das suas mensagens a Palavra do Bom Pastor a apelar ao Chamamento:

VEM E SEGUE-ME

Muitas foram e são ainda os meus contactos com este Grande Homem que faz o favor de me considerar como seu Amigo. Aprendi e espero continuar a merecer a sua amizade e assim continuar a aprender que vale a pena lutar pelo que se gosta e pelo que se tem a certeza que é o certo e pelo que desejamos.

Fora da sua dedicação ao Seminário Menor, tomei conhecimento da sua colaboração em revistas especializadas com artigos e testemunhos; a sua presença na transmissão dos seus conhecimentos psicológicos e não só, em conferencias dentro e fora da Diocese; o seu cunho em trabalhos de profundidade em prol da Diocese e seu desenvolvimento; a sua presença como coordenador e orientador em equipas ou cursos diversos; etc. etc.

O seu ultimo gesto de Amizade e um pedido, humilde, de não publicidade, sensibilizou-me ao convidar-me a acompanhá-lo à Sala dos Capelos, da Universidade de Coimbra, no passado dia 11 de Dezembro de 2009, onde defendeu tese de Doutoramento: Psicologia de Desenvolvimento. A sua humildade, penso que reconhecida por todos os que o rodeiam, não o transpôs à publicidade do acto, convidando apenas seus Familiares directos, seus responsáveis Hierárquicos, alguns colegas, alguns dos seus rapazes menores e maiores e um ou outro Amigo mais directo.

Confesso que não habituado a estes momentos, consegui manter-me preso a uma cadeira quase 3 horas, sempre embebido pelo questionário constante dos 5 juizes presentes, interrogando e interpelando o julgado, Pd. Paulo Alves. Embora num clima tenso, manteve a sua calma, mostrou sempre o seu sorriso e a todos testemunhou uma certeza e uma ciência absoluta do conhecimento que defendia e achava ser correcto. A todos certificou o que dele pensávamos e pensamos: Qualidade, Sabedoria, Inteligência e Persistência.

Passadas as horas, reuniu o circulo dos 5 juizes e Presidente que alguns minutos depois chamaram o julgado a quem comunicaram a decisão e que depois regressou acompanhado com uma porta-voz do júri que a todos comunicou:

A todos os presentes informo que o Sr. Dr. Padre Paulo Alves foi:

APROVADO COM DISTINÇÂO E LOUVOR POR UNANIMIDADE.

Como não podia deixar de ser, a ovação foi forte e geral por parte de todos os presentes e cada um exprimiu ao laureado um forte abraço de Parabéns, este também extensivo a seus Pais que retratavam nos seus rostos a alegria e a Felicidade que Deus lhes dera ao terem este filho.

Senhor Prof. Dr. Pd. Paulo Alves, aqui fica a minha homenagem e um pouco do que lhe posso oferecer como gratidão ao deixar-me ser seu Amigo.

Estarei a seu lado sempre que disso tiver necessidade. A minha resposta será sempre afirmativa sempre que dela necessitar e achar conveniente. Obrigado pelo modo sincero e cordial como sempre me recebeu, não só a nível pessoal, mas também como responsável da ASEL.

Peço-lhe que não me condene em não me manter calado ou quieto sem, neste nosso jornal, lhe manifestar esta pequena homenagem a que penso ter direito.

Parabéns e que a nossa Diocese possa contar com a sua sempre disponibilidade e inteligência pois todos nós, Lamecenses, só teremos a ganhar.

Um Amigo

Cândido Teixeira

*Texto de autoria de Cândido Teixeira, publicado na Voz de Lamego

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quinta da Massôrra*

Rui Cardoso nasceu e viveu no Porto até terminar o ensino secundário. Nos fins de semana e nas férias, acompanhou vezes sem conta o seu pai à Quinta da Massôrra. Já formado, casado, com uma carreira profissional promissora, e com um filho, tudo fazia prever que a sua vida iria ter como epicentro o Porto. Mas o apelo do casal por um novo estilo de vida foi decisivo, tendo-se mudado para a Quinta da Massôrra há dez anos, onde se encontra a implementar um projecto no sector agro-turístico.


Nota pessoal

Dois outdoors com convite a uma visita à quinta e uma oportunidade de aquisição de vinhos e produtos regionais impeliram-nos a entrar. Foi nas férias de Verão de há oito anos. Uma senhora jovem recebeu-nos com uma cortesia excepcional. Os meus filhos, então com 16, 12 e 8 anos, ficaram encantados com a experiência. Puderam brincar descontraidamente no largo, frente à casa e à capela, ver as vinhas e apanhar peras que então se apresentavam deliciosas, tendo a anfitriã feito questão de as oferecer. Como estávamos em fim de férias, trouxemos uma cesta cheia para Coimbra.

Passámos pela loja de produtos regionais, onde adquirimos algumas garrafas de vinho da quinta, embalagens de compotas e de cereja em vinagrete. Pudemos apreciar a grande variedade de artigos de artesanato expostos, entre os quais, panelas de barro, feitas em Fazamões, rendas e bordados, cestas de vime, chapéus de palha, uma grande variedade de embalagens de compotas e muitas garrafas de vinho do Porto.

Pudemos visitar ainda o lagar tradicional e a adega, tendo sido dada uma breve explicação sobre o modo como se processa a vindima na quinta, a produção e a armazenagem do vinho.

Com o portão geralmente aberto, num renovado convite a uma visita, essa tarde ficou como exemplo de bem receber, que não pode deixar de ser recordada sempre que os olhares se cruzam com a Quinta da Massôrra.


Breve resenha histórica

Sabe-se que na Casa, dotada de capela privativa dedicada ao Espírito Santo, viveu a família Coelho de Macedo e que Abel Coelho de Macedo, tendo vivido na Casa do Choupal com a esposa D. Leonor Pinto Cochofel em finais do século dezanove, foi descendente e proprietário. Após a sua morte, os seus herdeiros venderam a Casa a um senhor de nome Gastão, de Resende, o qual, por sua vez a vendeu ao Eng. Carlos Bento Freire de Andrade, Director das Minas de Ouro e Diamantes de Angola, que residia no Estoril. Tudo indica que este senhor tinha ascendentes em S. João de Fontoura, alguns dos quais muito provavelmente teriam sido donos da Quinta da Massôrra.

Por sua vez, o referido Eng. Freire de Andrade vendeu esta propriedade a José Botelho dos Santos, pai do actual proprietário, Prof. Doutor Valdemar Miguel Botelho dos Santos Cardoso, ilustre cirurgião (que atendeu e encaminhou para hospitais muitos doentes da freguesia e do concelho, sendo, por isso, muito acarinhado pela população) e professor jubilado da Faculdade de Medicina do Porto, que aqui, como sempre fez, continua a passar sempre que pode os seus fins de semana.


Um novo projecta com Anabela e Rui Cardoso

Rui Cardoso, um dos cinco filhos do actual proprietário, licenciou-se em agronomia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, tendo tirado um mestrado em Inglaterra na área de marketing agro-alimentar, incentivado pelo Doutor Bianchi de Aguiar. Como, entretanto, este Professor foi nomeado Presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, Rui Cardoso veio a integrar a sua equipa, tendo ficado como Director do Departamento de Marketing desta instituição durante 8 anos. Estas funções implicavam viagens constantes, o que fazia com que dedicasse pouco tempo à família. Após o nascimento do primeiro filho, o casal entendeu que era chegado o momento de refazer o percurso de vida, de forma a terem a possibilidade de viverem mais próximos.

Tendo em conta a formação e experiência profissional de Rui Cardoso, o casal resolveu há dez anos apostar num projecto empresarial para a Quinta da Massôrra, fixando-se aqui com o filho, que, entretanto, ganhou dois irmãos.


Áreas do negócio

O projecto privilegia duas componentes: desenvolvimento de uma área agro-turística e produção, transformação e comercialização de produtos agrícolas e agro-alimentares (essencialmente vinho e cereja).

A Anabela, licenciada em economia, embora continue a desempenhar as mesmas funções profissionais na mesma empresa do Porto através de teletrabalho, dá um grande contributo ao sector agro-turístico, recebendo e acompanhando os visitantes pela quinta, loja de comercialização de vinhos e produtos regionais e adega e preparando, de acordo com as solicitações, vários programas e eventos.

O casal adquiriu, entretanto, próximo da Casa da Massôrra, uma outra propriedade, a Quinta das Cancelas, o que permitiu aumentar a área da produção de vinho e de fruta. Refira-se que nestas propriedades procura-se utilizar processos amigos do ambiente, evitando-se sempre que possível produtos químicos.


Aposta na produção e comercialização de vinho

Desde o início que o Eng. Rui Viseu Cardoso tem apostado na produção de vinhos, trabalhando com Rui Cunha, um enólogo com provas dadas. Várias colheitas mereceram críticas elogiosas de provadores e de revistas da especialidade, tendo sido mesmo objecto de prémios pela relação qualidade/ preço. A meta é atingir anualmente a produção de 10.000 garrafas. Presentemente, disponibiliza quatro tipos de vinhos com características específicas, respondendo aos vários gostos, ocasiões e públicos. Os relativos a 2007 estão praticamente esgotados.

Eis as características relevantes dos quatro vinhos: i) Qta da Massôrra Colheita Seleccionada tinto 2007. Foi produzido a partir das castas Tinta Roriz, Touriga Nacional e Sousão. A fermentação decorreu em lagares tradicionais de granito com pisa a pé. Estagiou posteriormente em cascos novos de carvalho americano e francês; ii) Qta da Massôrra Colheita Seleccionada branco 2007. Foi produzido quase exclusivamente a partir da casta Arinto. A fermentação decorreu em cascos de carvalho francês e húngaro, onde estagiou durante 8 meses; iii) Encostas de S. João tinto 2007. Foi produzido a partir das castas Tinta Roriz e Touriga Nacional. A fermentação decorreu em lagares tradicionais de granito com pisa a pé. Estagiou posteriormente em cascos de carvalho francês; iv) Encostas de S. João branco 2007. Foi produzido quase exclusivamente a partir da casta Arinto. Após o desengace e esmagamento das uvas, a fermentação decorreu em cubas de inox com controlo de temperatura.

Cerca de 65% das garrafas são vendidas directamente na quinta ou através de pedidos feitos por telefone ou e-mail, que chegam aos respectivos destinos (no país ou estrangeiro) através de duas transportadoras com as quais a casa tem acordo.

Contactos


Quinta da Massôrra

S. João de Fontoura

4660-333 Resende telef. 254 871 578; telm. 965 053 820; fax 254 871 617 e e-mail: ruiviseucardoso@mail.telepac.pt

*Artigo de minha autoria, publicado no Jornal de Resende (número de Agosto de 2009)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Igreja de S. Martinho de Mouros: Uma relíquia do românico / Um misto de fortaleza e casa de Deus*

A Igreja matriz de S. Martinho de Mouros, classificada como Monumento Nacional por decreto de 2 de Junho de 1922, constitui um dos mais importantes edifícios religiosos da arte românica portuguesa, um “estilo” artístico que se desenvolveu durante a Idade Média.

Fruto de uma época profundamente militarizada, em que se procurava consolidar o território nacional, este monumento constitui um verdadeiro templo fortificado, um misto de fortaleza e casa de Deus (PINTO, 1982), que se explica pela necessidade das populações cristãs se defenderem contra os ataques dos muçulmanos refugiados nas vizinhanças, no processo da reconquista cristã.

De facto, a Igreja de S. Martinho de Mouros abarca, num só edifício, as funções religiosas e militares, constituindo-se como uma das mais notáveis construções das igrejas-fortalezas do românico nacional, com a sua singular estrutura que passa das três naves mais altas da torre fronteira, abobadadas, à nave única com cobertura de madeira do corpo. O mais importante presbitério rural que, no seu estilo, se ergue em terras da Beira Alta, no dizer de Vergílio Correia (CORREIA, 1924).

Com um primeiro foral concedido, em 1057, por D. Fernando Magno de Leão a uma população maioritariamente formada por mouros, tal acabaria por influenciar o topónimo, que se manteve até aos nossos dias. D. Teresa confirmou este foral em 1111, tendo a Igreja sido construída entre a segunda metade do século XII e a primeira do século XIII, época em que o priorado é entregue aos Hospitalários (RODRIGUES, 1995). Com a morte de D. Guiomar Coutinho, último membro da Casa de Marialva, a que a igreja pertencia, o padroado foi transferido para a Universidade de Coimbra por D. João III, através do Breve CIRCA OFICII QUOD, do Papa Paulo III (1537, 14 Março).


Características

A fachada deste templo fortificado é marcada por um corpo rectangular, que lhe confere a sua individualidade, é suportada, interiormente por arcos de volta perfeita, que descarregam em pilares sustentados, exteriormente, por contrafortes.

No centro, um portal de arco apontado, com quatro arquivoltas, envolvidas por uma faixa axadrezada, e capitéis de ornatos zoomórficos e vegetalistas, debruado por uma banda de enxaquetado, com características semelhantes ao da Igreja de Santa Maria de Almacave, em Lamego.

Numa época em que poucos eram aqueles que liam (e esses eram essencialmente monges e clérigos) e raros eram os livros existentes, penosa e pacientemente copiados nos scriptoria dos mosteiros e conventos, importava fazer chegar a todo o crente, a todo o espaço da Cristandade, a palavra divina. E na impossibilidade de a dar à leitura, impunha-se encontrar um meio em que a forma e conteúdo vissem preservados a sua sacra dignidade e fossem, ao mesmo tempo, acessíveis a todos. “A imagem é a escrita dos iletrados”, escreveu Gregório I, o Grande, Papa de 590 a 604.

Suporte da mensagem, o templo afirmava-se sólido, imutável, simbolicamente eterno, frequentemente inexpugnável, atraindo a atenção dos crentes para a sua massa pétrea e, sobretudo, para a fachada e porta axial, onde se concentrava o mais importante acervo da decoração escultórica exterior (RODRIGUES, 1995).

Na fachada de S. Martinho de Mouros encontram-se outras particularidades, nomeadamente no lado esquerdo da porta de entrada, onde são visíveis dois sulcos sobre a parede. Trata-se da “vara” e do “côvado”, antigas medidas de comprimento equivalentes respectivamente a 110cm e a 70cm, que serviam de padrão legal aos comerciantes que aqui vinham, periodicamente, em dias de feira, aferir as suas medidas perante o povo (FURTADO, 1986, COSTA, 1979).

Transposta a “porta” exterior, intensamente iluminada, entra-se no interior de estudada escuridão, onde apenas algumas frestas lançam uma ténue luz sobre o espaço e a decoração interna, convidando ao recolhimento. O mistério é assim reforçado por um efeito cenográfico, contando com a lenta adaptação da vista do observador à penumbra, dificultando a total e imediata percepção do que o rodeia: começando no portal, continuando nos capitéis da nave e culminado no cruzeiro (a manifestação de Deus) que, pela sua luminosidade, eleva o olhar do crente.

Destaca-se a cobertura da capela-mor, que sobreviveu à intervenção de restauro purista dos anos 50 do séc. XX, formada por vinte e quatro caixotões de madeira policromada, de produção barroca, com temática hagiográfica, onde podemos identificar alguns santos jesuítas e cistercienses, São Jerónimo, o “Baptismo de Cristo” e os quatro Evangelistas.

A ladear o arco triunfal, no lado do Evangelho, existe uma pintura mural quinhentista representando São Martinho, o orago do templo, com vestes de bispo, com mitra e báculo, abençoando com a mão direita e, no lado da Epistola, em muito mau estado, uma figura feminina religiosa e um cavalo.


Intervenções

A Igreja de S. Martinho de Mouros contempla, a nível da sua arquitectura, vários estilos (românico, gótico, maneirista e barroco), fruto de intervenções sofridas ao longo dos séculos. No entanto, foi no século XX que diversas intervenções, pelo seu grau e dimensão, mutilaram a estrutura deste templo religioso, com consequências, em alguns casos, irreparáveis.

Para cumprir os propósitos da ditadura criou-se a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), cuja acção, embora frequentemente controversa, permitiu conservar grande parte dos monumentos religiosos e militares românicos que sobreviveram às vicissitudes do século XIX ou do início do século XX, com o anticlericalismo dominante da Primeira República.

A sua acção iniciou-se logo na primeira metade da década de 30, privilegiando o restauro de monumentos românicos, ao qual procuravam assegurar, por vezes a um preço demasiado elevado, a sua “pureza” original (DGEMN, 1937).

Os meados do século XX motivaram diversas intervenções neste edifício religioso, em consequência, nomeadamente, da derrocada do campanário em 1944 (18 de Novembro). Mais recentemente, em 2002, foram efectuadas obras de reparação e beneficiação geral das coberturas; intervenções de conservação da talha e estatuária dourada e policroma do retábulo da Epístola; reparação da estrutura da cobertura e substituição de telhas; limpeza dos paramentos exteriores, com refechamento de juntas e reparação e pintura de caixilharias e portas.

Hoje, a Igreja de S. Martinho de Mouros constitui um local obrigatório de passagem para quem quer conhecer o vasto e rico património medieval do Douro Sul, uma importante zona de passagem e de cruzamentos culturais.


ACESSO

EN 222, Km 113,2 para São Martinho de Mouros, a 1,1 Km


ENQUADRAMENTO:

Peri-urbano, isolado, a meia encosta, em superfície plana artificial, sustentado por muro alto, em alvenaria de granito, formando um adro, dentro do qual se encontra um cruzeiro de pedra, inserindo-se em zona de interesse paisagístico. A fachada principal confina com a via pública, pavimentada a cubos de granito e, junto, situa-se a residência paroquial.


CONSTRUÇÃO:

Século XII / XIII. O templo actual parece ter três momentos de construção: o primeiro corresponde ao corpo da nave; depois reconstruiu-se a capela-mor quadrangular, com o arco triunfal levemente abatido, e capitéis decorados; finalmente, ergueu-se a torre e da facada, acabada já no século XIII, como atesta o portal axial, apontado, com capitéis vegetalistas de decoração tardia. Nota-se uma forte influência da escultura bracarense nos capitéis de ousia, aparentados aos de Rates, revelando a capacidade de penetração da reforma beneditina até zonas bem mais longínquas da área de intervenção da diocese; e atestando, ao mesmo tempo, a relativa antiguidade desta fundação, seguramente iniciada ainda no século XII.


BIBLIOGRAFIA ESPECÍFICA PARA O ARTIGO:

CORREIA, 1924

CORREIA, Vergílio, Monumentos e Esculturas, Lisboa, 1924.

COSTA, 1979

COSTA, M. Gonçalves da, História do Bispado e da Cidade de Lamego – Paróquias e Conventos, vol. II, Lamego, 1979.

DGEMN, 1937

Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), n.º 10, Lisboa, 1937.

FURTADO, 1986

FURTADO, Maria Leonor de Moura, Igreja de São Martinho de Mouros, Lisboa, 1986/87.

PINTO, 1982

PINTO, Joaquim Caetano, Monografia do seu Concelho – Resende, Braga, 1982.

RODRIGUES, 1995

RODRIGUES, Jorge, O mundo românico (séc. XI - XIII), in História da Arte Portuguesa, (Dir. Paulo Pereira), vol. I, Lisboa, 1995.

VASCONCELOS, 1918

VASCONCELOS, Joaquim de, A Arte Românica em Portugal, Porto, 1918.


*Artigo da autoria do Dr. Paulo Sequeira, docente de história na Escola Secundária D. Egas Moniz, publicado no Jornal de Resende (edição de Novembro de 2009)

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