sexta-feira, 7 de maio de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM ANREADE: Chamo-me Fernando Manuel Pinto e nasci em Resende há 80 anos*

Tempos de criança
Antigamente, a vida era muito difícil. O que interessava mais era ter saúde e chegar a mão ao bolso e haver por lá algum dinheiro para responder às necessidades mais urgentes. Ainda recebi um convite de Henrique Cardoso, emigrado no Brasil, um sobrinho da D. Belmira, de quem o meu pai era caseiro, que cá veio em visita, tinha eu 28 anos. Ao ver a Quinta do Concelho que lhe caberia de herança, disse-me: já viste?, isto são uns bocadinhos que não valem nada; é preciso trabalhar no duro e mesmo assim continua-se na miséria; no Brasil, os terrenos que tenho, a que chamam fazenda, são maiores do que aquilo que os teus olhos conseguem abarcar daqui; o que lá farias era acompanhares-me nas minhas deslocações; caso não te adaptes, ponho-te cá outra vez sem qualquer despesa. Mas mesmo com estes atractivos não quis ir. Tinha a minha mulher muito doente. Não ia cá deixá-la assim. Depois, mais tarde, recebi um outro convite, dessa vez para emigrar para França. Também não aceitei. Sempre prezei a companhia da família e não estou arrependido.
O meu pai casou duas vezes. Da primeira mulher, que morreu de parto, teve seis filhos e da segunda cinco, sendo eu o mais velho desta. Do total, estamos vivos quatro: dois rapazes e duas raparigas, morando cá três e um no Porto.
Comecei a trabalhar com cinco anos, sempre na lavoura. Os meus pais eram caseiros. Em pequeno, ajudava a guardar o gado, deitava a água às lameiras e limpava as ervas. Entretanto, os meus meios irmãos foram saindo de casa para servir. Uma das tarefas era comprar tabaco para o meu pai, que não se podia ver sem ele. Quando demorava muito, já sabia que apanhava uma tareia. Lembro-me de uma vez ele ficar tão transtornado que puxou de uma correia, dando-me tantas que até a fivela saiu. Não valeu de nada dizer-lhe que estava muita gente na venda, pois disse-me que os donos já sabiam que as crianças são sempre as primeiras a ser atendidas. Às vezes, nem com dinheiro era possível comprar, pois havia senhas por causa da guerra. Por isso, recordo-me de ir várias vezes para a entrada da Câmara Municipal, onde nos intervalos se juntavam muitos empregados a fumar cigarros de cabeça amarrada. Quando iam para dentro, deitavam-nos fora. Aproveitava os restos, o que sobrava, e entregava-os ao meu pai, que ficava todo contente. Depois deitava as sobras em folhas de mortalhas, enrolava-as e lá fumava.
Infelizmente, não fui à escola. Sempre tive muita pena e acho que me fez falta. Mas o que é que quer? Não éramos obrigados e os meus pais precisavam de nós para trabalhar. Nem se punha a hipótese de ir. Só os filhos dos patrões e de alguns empregados da Câmara é que aprendiam a ler. É graças ao Sr. Padre Artur que leio qualquer coisa e conheço os números. Tinha eu cerca de vinte anos quando fui ter com ele para me ensinar e a outros com vontade. Apareceram mais quatro rapazes. Juntávamo-nos à noite em casa do Sr. Padre e lá aprendemos qualquer coisa. Assino o meu nome, leio os títulos grandes dos jornais, conheço os números todos e faço chamadas.
Em pequeno, andávamos quase todos descalços. Mesmo à missa e à catequese íamos descalços. O dinheiro não dava para mais. A planta do pé criava uma espécie de casco como os cavalos. Quando enfiávamos algum prego ou, se calhava dar algum pontapé nalguma pedra, é que era pior, até víamos estrelas. Os primeiros sapatos que tive foi na altura de ir à inspecção, mas eram todos de borracha por baixo e por cima, como as galochas que agora se fazem.
Passei alguma fome. Sobretudo numa altura em que o meu pai entregou as terras e arrendou uma casa sem terrenos. Não tínhamos lenha nem couves para fazer caldo. Uma vez, tinha p’ra aí doze anos, a fome era tanta que disse à minha mãe: vou pedir umas folhas de couves. E lá fui pela aldeia, mas todos recusavam. Bati à porta de uma senhora que tinha o quintal cheio de couves com folhas todas verdinhas, mas desculpou-se com a chuva. Fiquei magoado e triste. Dei uma volta, e como a fome puxava, consegui apanhar umas folhas sem ser visto. Nunca me doeu a consciência nem me cheguei a confessar. Acho que não cometi nenhum pecado. Que é que acha? Só quando os meus pais foram para caseiros da Quinta de Cima, em Santo Amaro, começou a haver mais fartura, vinda daquilo que a terra dava.

Percurso após a inspecção militar
Não cheguei a ir à tropa. Na inspecção feita na Câmara, fiquei livre, devido a um pedido do chefe das finanças. A sogra, a D. Belmira, precisava de mim, pois trabalhava muito para ela. Mais tarde, voltei a ser chamado para uma nova inspecção em Vila Real. Pediram-me para indicar qual a profissão que tinha. Disse-lhes que era barbeiro só para despachar. De facto, eu nunca gostei de ser barbeiro, pois acho que é uma profissão suja e depois há aqueles bafos mal cheirosos. Fiquei livre na mesma, pois já estava tudo combinado para ficar livre.
Casei-me com vinte e cinco anos. A casa dos caseiros da Quinta de Cima tinha um quarto com entrada independente, tendo a patroa, a D. Belmira, pedido ao meu pai para mo ceder. Continuei a ajudar os meus pais na lavoura, que em troca me dava cem escudos por mês, dando também uns dias fora. A minha mulher teve a infelicidade de ter uma doença nos pulmões. Se calhar já a tinha quando nos casámos. Veio a falecer passados cinco anos depois do casamento. Passou a maior parte do tempo num sanatório, em Abraveses/Viseu. Ainda tivemos dois filhos, tendo um morrido com um mês e o outro com três semanas.
Voltei a casar, tinha eu trinta e um anos, por coincidência, com uma prima da primeira mulher. Acompanhava muitas vezes a tia, a minha sogra, até nossa casa para ver e tratar da filha. Depois da morte da prima, veio várias vezes a casa fazer as limpezas e eu sei que o povo ia falando. Um dia estávamos juntos, e um cunhado, casado com uma irmã dela, disse: vocês os dois é que estavam bem um p’ra outro, notando um sorriso de contentamento naquela que viria a ser a minha futura mulher. Passados dias, lancei-lhe o desafio: que achas daquelas palavras do teu cunhado, aceitavas mesmo casar comigo? Ao que ela respondeu que sim. Mas tu já namoras?, disse-lhe eu. Não faz mal, rematou. E foi assim. Casámos pouco depois. Tivemos cinco filhos, três rapazes e duas raparigas.
Continuei no mesmo sítio até aos 35 anos, ajudando o meu pai e a dar uns dias fora. Depois fui para uma casa com uns terrenos, que fazia a meias, onde estive dois anos. Daqui fui para a Quinta do Bairral, onde fui caseiro durante vinte anos, saindo de lá com 57 anos. Ao princípio, fazia as vessadas por trocas. Mas comecei a ver que isto não dava, pois passava muitos dias a ajudar os outros. Muitas vezes, precisava de doze trabalhadores. Vali-me de um senhor de S. Romão que conhecia muita gente. Era ele que me ficava de arranjar as pessoas de que precisava. Em relação aos outros trabalhadores, como compensação, pagava-lhe mais cinco escudos por dia. Criava uma vaca e muitos porcos, que vendia depois de cevados, fazendo algum dinheiro. O que era de rasa (cereais) e cântaro (vinho e azeite) era dividido a meias. O resto, as miudezas, ficava para mim. Os meus filhos foram ajudando até fazerem 12 anos. No que toca aos rapazes, meti-os na arte.
Deixei a quinta, porque foi vendida. Fui viver para uma casita que, entretanto, tinha comprado em Santo Amaro, tendo-me acompanhado um dos rapazes e uma das raparigas. Fui fazer de meias uns terrenos da Quinta do Concelho e, por fim, uns campitos cá mais para baixo, que ainda cultivo a meias (vinho, fruta e batatas).

Recordando facetas do passado
Só fui três vezes às vindimas ao Douro. Não podia ir, porque tinha de tomar conta das terras. Também nunca estive muito ligado à vida do rio, embora muitas pessoas de Anreade dependessem dele. Havia vários pescadores e abundava muito peixe antes da barragem ( enguia, sável e lampreia), que era depois vendido porta a porta. As mercadorias eram transportadas rio abaixo e rio acima por barcos, que tinham de ser puxados em determinados sítios por juntas de bois, em Mancela, Mercê e Figueira Velha. Quando os barcos apitavam, sabiam assim que tinham de avançar.
A educação já não é como antigamente. Dantes, quando os filhos se iam deitar, beijavam as mãos do pai e pediam-lhe a bênção, dizendo: deite-me a sua bênção. A este pedido, respondia: Deus te abençoe, meu filho. Ao levantar, os filhos saudavam os pais, dizendo: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. E o pai respondia: Para sempre seja louvado. A saudação era a mesma quando os vizinhos se encontravam. Depois, é que entrou o costume de dizer bom dia, boa tarde e boa noite.

Na origem do rancho de Anreade
Conheço quase todas as pessoas da freguesia. Quando morria alguém, era quase sempre um dos rogadores. Também era um dos que recebia a côngrua, dada em géneros. Acartei muitas sacas de cereais e muitos cântaros de vinho para os padres. Nalgumas ocasiões até se chegavam a estragar.
Fiz parte da Comissão de Melhoramentos e de muitas comissões de festas do padroeiro. Sempre gostei de ser útil. Por exemplo, tenho vários estojos para dar injecções a pessoas e animais. Tanto posso dar na coxa, na barriga ou nos braços, dependendo do fim a que se destinam. E já dei injecções a cavalos, vacas, cães e gatos. Ainda há pouco tempo, uma senhora veio pedir-me para dar uma injecção numa gata para não emprenhar mais. Talvez seja por isso que me chamam o senhor doutor.
Sempre gostei de ir às festas que se faziam por aqui nas tascas. Bastava uma concertina e uma viola. E como não gosto de estar parado, um dia, sugeri ao Sr. Padre Adelino a criação de um rancho. Achou boa ideia, mas foi dizendo: olha que isso vai dar-te muito trabalho. Isto aconteceu no início dos anos oitenta.
Os ensaios decorriam no salão paroquial, então sem portas e só com uma placa. Arranjei um cantador e uma cantadeira e vários tocadores de instrumentos, conseguindo formar cerca de quinze pares. O reportório começou por incluir cantigas que se tocavam nos bailes, como o malhão e a chula. E era eu quem ensaiava. Já tinha a experiência adquirida nos cortejos das oferendas que em tempos se faziam para ajudar as obras da paróquia e para o então hospital de Resende. Nunca calculei que aparecesse tanta gente. A preocupação de alguns rapazes era estar de olho nas respectivas namoradas.
Como isto foi crescendo, pedi ajuda ao então Presidente da Junta, José Pinto, e ao Prof. Gabriel, Presidente da Comissão de Melhoramentos, que orientou o trabalho de pesquisa das tradições, do vestuário que antigamente se usava e de peças de trabalho, tendo-nos acompanhado desde o rio até à serra de Montemuro. Isto permitiu que o rancho se viesse a filiar na Federação Portuguesa do Folclore Português.
Continuo a pertencer ao rancho e a tocar castanholas. Também toco bombo e reco-reco. Esta ligação às castanholas nasceu de uma vinda de um rancho espanhol a Resende. Fiquei boquiaberto com o ritmo que as castanholas davam à dança.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Fevereiro de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

A caça em Resende*

Notas soltas sobre a actividade da caça
A caça sempre exerceu um fascínio sobre muitas pessoas. Parece ser uma actividade desencadeada por mecanismos de base filogenética, que tem acompanhado a evolução da humanidade. Sabe-se que o homem subsistiu principalmente através da sua condição de predador/caçador, competindo com os animais selvagens e perseguindo-os para a obtenção da carne para alimento e, como produtos subsidiários, das peles para agasalho, das gorduras para tratamento e conservação de utensílios e, mais tarde, para iluminação e dos ossos e das fibras para a confecção de instrumentos e armas. Aliás, a história da caça está intimamente ligada à evolução e aperfeiçoamento das armas de que o homem se foi munindo e que lhe foram conferindo supremacia sobre os outros seres. O caminho foi longo na sofisticação dos meios de defesa e ataque, desde o uso da força física, das unhas, dentes, pedras, paus, gaiolas e armadilhas (armas silenciosas) até às armas de fogo, a partir dos séculos XV/ XVI.
A importância dos animais e da caça está bem patente nas gravuras e desenhos rupestres, como testemunho inspirador de arte e comunicação desde os primórdios da humanidade. De actividade de sobrevivência, foi-se transformando numa manifestação de lazer e convívio, abarcando as classes privilegiadas. Daí as coutadas para fruição de reis, de aristocratas e das gentes abastadas, que conflituavam com os interesses e necessidades de quem nelas vivia e dos moradores circundantes, cujo regime, após suspensões temporárias durante a monarquia liberal e a primeira república, persistiu até ao 25 de Abril, tendo sido extinto em 1975 pelo Decreto-Lei n.º 407-C/75, de 30 de Julho, já que a respectiva concessão “sob a capa de medidas de protecção e de fomento da caça, mais não constituía do que uma fonte de privilégios a que urgia pôr termo”.
Retomando uma concepção maioritariamente partilhada, o que subjaz actualmente ao enquadramento legal do exercício da caça é o princípio segundo o qual as espécies cinegéticas (aves e mamíferos terrestres que se encontrem em estado de liberdade) não pertencem a ninguém, não se podendo confundir o direito de caçar com o direito de propriedade sobre os terrenos onde os animais se encontram.

Zonas de caça
Actualmente, existem dois regimes cinegéticos: o regime especial que se exerce em zonas de caça ordenadas, obedecendo à circunscrição de áreas mínimas de gestão (viável para as respectivas espécies) e com planos de exploração, e regime livre, abrangendo zonas não ordenadas, onde não é preciso pagar para caçar, estando prevista a sua extinção, embora tenha a oposição de cerca de 100.000 caçadores. As zonas ordenadas, de regime especial, contemplam cerca de 80% do território e podem prosseguir os seguintes objectivos: i) de interesse nacional (constituídas por áreas com determinadas características físicas e biológicas essenciais à preservação de determinadas espécies ou por zonas sensíveis à segurança do Estado, cuja gestão pode ser transferida para associações e autarquias); ii) de interesse municipal (para proporcionar o exercício organizado de caça a um número maximizado de caçadores em condições acessíveis); iii) de interesse turístico (que conciliam o aproveitamento económico dos recursos cinegéticos com a prestação de serviços turístico); e iv) de interesse associativo (que privilegiam o incremento do associativismo dos caçadores e o respectivo exercício de gestão).

Associações de caçadores do concelho de Resende
Actualmente, no nosso concelho, encontram-se constituídas três associações ligadas à caça: i) o Clube de Caça e Pesca de S. Cristóvão, com sede em Felgueiras; ii) a Associação de Caçadores e Pescadores de S. Cipriano, com sede na antiga escola de Covelinhas e iii) a Associação de Caçadores das Quelhas, com sede na antiga escola de Quelhas/Barrô.
O Clube de Caça e Pesca de S. Cristóvão foi constituído em 17.06.1998, tendo como presidente Francisco Rodrigues Rocha. Tem à volta de 80 sócios e abarca as freguesias de Felgueiras, Feirão, Panchorra e Ovadas. Constitui a zona de caça associativa de S. Cristóvão (Proc. N.º 851-DGRF/Direcção Geral dos Recursos Florestais). De acordo com os procedimentos obrigatórios, há placas identificativas de 100 em 100 metros ao longo dos limites da zona e das estradas. Para a constituição do processo foi obtida a autorização dos proprietários ou usufrutuários e arrendatários dos terrenos que constituem a zona de caça. Ninguém se opôs, embora esteja prevista tal faculdade. Caso fosse exercida, os interessados (que não poderiam ser titulares de carta de caçador) deveriam comunicar tal propósito à Direcção Geral dos Recursos Florestais, comprometendo-se a sinalizar o respectivo terreno.
A Associação de Caçadores e Pescadores de S. Cipriano foi constituída em 10.01.2002, tendo como presidente Jorge Manuel Teixeira Pinto. Tem 230 sócios e gere a zona de caça municipal do Penedo de S. João (Proc. 3350-DGRF), tendo aumentado a área de influência com a extinção da Associação de Caçadores e Pescadores da Cerca (Anreade). Abrange terrenos das freguesias de Freigil, S. Cipriano, Miomães, Anreade, Resende, S. Romão, Cárquere e Ovadas, totalizando 4 500 hectares. Além da caça às espécies habituais, tem efectuado várias batidas à raposa e montarias ao javali. Contudo, a grande obra, orgulho da actual direcção, é o cercado de 2 500m2, edificado há dois anos em Freigil, destinado ao fomento da criação de coelhos, cujos frutos já são visíveis no repovoamento da zona.
A Associação de Caçadores das Quelhas foi constituída em 17.10.1991, tendo como presidente Arlindo Manuel Pinto. Tem cerca de 190 sócios e gere a zona de caça associativa de Mesquitela (Proc. 2054-DGRF), abarcando terrenos de S. Martinho de Mouros, Barrô e Penajóia, e duas zonas de caça municipal, respectivamente a do Castro da Mogueira (Proc. 3209-DGRF), abarcando Barrô, S. João de Fontoura, Paus e S. Martinho de Mouros, e a de Fraga do Lobo e Santo Maroto (Proc. 4551-DGRF), englobando Samodães e Penajóia. Candidatou-se ainda à gestão de uma nova zona de caça municipal, de 105 hectares, com fortes probabilidades de concessão, onde predomina uma grande população de tordos, com garantias de crescimento. Convém salientar que foi com a actual direcção que esta associação ganhou um novo dinamismo, com reflexos visíveis, entre outras áreas, nas obras de requalificação da sede (ex-escola), na gestão informatizada, na implementação de um cercado de 5 000m2 com as infra-estruturas necessárias tendo em vista a criação e repovoamento de coelhos, na aposta em actividades de pesca com a concessão da gestão da ribeira de S. Martinho/rio Bestança e no fomento da criação de trutas.

Zonas de caça associativa e municipal: algumas características distintivas
Ambas são zonas criadas por portaria do Ministro da Agricultura, que define a área abrangida e estabelece o prazo de constituição/concessão, que na zonas municipais é de seis anos, podendo ir, no caso das zonas de caça associativa, de seis a doze anos, renováveis. No caso das zonas de caça municipal, são também definidas as percentagens de acesso de caçadores de acordo com prioridades estabelecidas legalmente (desde proprietários de terrenos nelas inseridos e membros das associações gestoras da zona até caçadores residentes e não residentes no respectivo município), já que às zonas de caça associativa têm acesso os sócios e convidados.
Com vista ao ordenamento dos recursos cinegéticos, o Estado pode transferir para associações de caçadores e organizações do sector da agricultura, da floresta e do ambiente e para as autarquias locais, incluindo Juntas de Freguesia, a gestão de terrenos cinegéticos ainda não ordenados, com vista à constituição de zonas de caça municipal. É do interesse do Estado promover esta transferência, pois só assim se tenderá ao ordenamento do território nesta matéria, assegurando-se assim a conservação, fomento e povoamento equilibrado das espécies cinegéticas. A transferência pode ocorrer por iniciativa do Ministério da Agricultura ou por candidatura das instituições atrás referidas. Estão nesta última situação a Associação de Caçadores e Pescadores de S. Cipriano e a Associação de Caçadores das Quelhas.
As entidades gestoras das zonas de caça municipal têm de apresentar anualmente à Direcção Geral dos Recursos Florestais (DGRF) um plano anual de exploração, propondo, nomeadamente, o número de exemplares de cada espécie a abater, que deverá corresponder à previsão do somatório da respectiva distribuição dos mesmos exemplares pelas jornadas de caça estabelecidas. Terá ainda de promover a divulgação das condições de candidatura e de acesso dos caçadores às jornadas de caça. Refira-se que, embora da candidatura à zona de caça municipal não faça parte a apresentação de um dossiê com a descrição do assentimento dos proprietários dos terrenos, estes podem sempre manifestar o direito à não caça nos mesmos. Por sua vez, as entidades gestoras das zonas de caça associativa têm de comunicar à DGRF os resultados anuais de exploração da época venatória anterior para verificação do cumprimento do plano de ordenamento e exploração cinegética, aprovado aquando da concessão da respectiva zona. Para isso, anualmente, no início da época venatória, a direcção da associação estabelece um limite de cada espécie a abater por jornada de caça.
Não é feita a caracterização de zonas de caça turísticas, já que as mesmas se cingem quase exclusivamente ao Alentejo, podendo ser geridas por entidades públicas e privadas, sendo consideradas por muitos como verdadeiras coutadas.

Caçar é caro
Mesmo que o exercício de caça se restrinja a zonas não ordenadas, os caçadores têm de cumprir um conjunto de requisitos: serem titulares de carta de caçador, terem licença de caça, possuírem licença dos cães que os acompanham, serem portadores de licença de uso e porte de armas e ainda livrete de manifesto, no caso de armas de fogo, e seguro de caça. Para ter acesso a zonas de caça é necessário pagar as quotas e as taxas respectivas. Mas as entidades gestoras têm um conjunto de obrigações que implicam muitas despesas, desde o pagamento de rendas e taxas à DGRF, a organização e actualização dos processos até iniciativas para a conservação e fomento de espécies cinegéticas.
No que respeita às três associações do concelho de Resende, as mesmas têm desenvolvido várias acções concretas nesta matéria, preparando e semeando centeio e outros cereais em vários terrenos e leiras e distribuindo comida apropriada por locais estratégicos e em determinados períodos do ano, destinada às várias espécies cinegéticas.
De referir ainda que o Clube de Caça e Pesca de S. Cristóvão tem ao seu serviço um guarda florestal auxiliar para policiar e fiscalizar a respectiva zona concessionada.
Montaria de caça ao javali
A montaria é um processo de caça em que o caçador aguarda em local previamente definido (portas) para capturar exemplares de caça maior (como javalis, veados e corços), levantados por matilhas de caça cujos cães são devidamente treinados e conduzidos por matilheiros. No nosso concelho, são organizadas anualmente diversas montarias, justificadas pelo aumento de javalis, a última das quais foi levada a efeito no passado dia 5 de Dezembro pela Associação de Caçadores das Quelhas. O programa, que teve início às 08h00 com a concentração na sede e terminou com um almoço, integrou um pequeno-almoço recheado (“Taco”), uma palestra e o sorteio das portas, com a saída das armadas, comandadas por um postor, que distribuiu os monteiros pelos locais correspondentes devidamente numerados. A montaria teve a participação de 51 caçadores, tendo contado com a mobilização de 4 matilhas (constituída cada uma por cerca de 30 cães), duas das quais vieram, respectivamente, de Idanha- a- Nova e Alcobaça. O resultado saldou-se na caça de 7 javalis e sobretudo por muito convívio. Uma nova montaria, organizada por esta Associação, está prevista para 16 de Janeiro do próximo ano.

Endereços
1. Clube de Caça e Pesca de S. Cristóvão
Felgueiras 4660 – 080 Resende Telef. 254 877 058 e 963 980 325

2. Associação de Pescadores e Caçadores de S. Cipriano
Covelinhas/S. Cipriano 4660-306 Resende Telef. 254 875 145 e 917 922 403

3. Associação de Caçadores das Quelhas
Lugar do Crucial/Barrô 4660 – 037 Resende Telef. 918 775 302 e 939 320 734
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende (número de Dezembro de 2009)

terça-feira, 30 de março de 2010

Grupo "Resende em Marcha": Animação ao ritmo de canções populares*

Origem
Este grupo é herdeiro da animação ligada aos cortejos de oferendas que eram anualmente organizados nas diferentes freguesias do concelho para apoiar a Santa Casa de Misericórdia de Resende e, no âmbito de cada paróquia, para ajudar as obras religiosas e sócio-caritativas e contribuir para o pagamento de despesas com a beneficiação da igreja e capelas. Normalmente ocorriam pelo S. Miguel, altura das colheitas, estando envolvidas as várias povoações que faziam a recolha dos produtos agrícolas e organizavam grupos de marchas com um reportório actualizado, com o objectivo de integrar o cortejo de oferendas. Embora formalmente não houvesse concurso para selecção do melhor grupo, o mesmo surgia naturalmente em júri alargado da população em contexto de rivalidades saudáveis.
Estes cortejos constituíam verdadeiras escolas de música e dança, onde os mais talentosos em inspiração e criatividade eram os mestres ensaiadores, como sempre foi e é o caso de Arlindo Pinto Sequeira. Há 22 anos, com apenas 14 anos, deu nas vistas quando integrou um grupo de danças e cantares de Vinhós numa festa de recepção a um ministro da altura. Passados três anos, foi convidado para ensaiar um grupo que integrou um cortejo de oferendas da Paróquia de São Salvador de Resende. Depois de vir da tropa, com 25 anos, dirigiu um outro grupo que integrou um cortejo da mesma paróquia.
Com o 25 de Abril, a realização destas iniciativas foi esmorecendo, tendo acabado por desaparecer. Contudo, como a música e a inspiração para os versos lhe corriam nas veias, foi aguardando uma oportunidade para a formação de um grupo que respondesse ao perfil dos novos tempos. Este ensejo foi proporcionado no início de 1997 como desafio para integrar o Cortejo Etnográfico da Cerejeira em Flor, no qual estavam directamente envolvidas as várias Juntas de Freguesia, incluindo a de Resende da qual Arlindo Sequeira era Presidente, em substituição do elemento número um da lista. Nesse mesmo ano, tomou parte no desfile da Festa da Labareda, que fez sucesso pela encenação de tochas a arder, empunhadas por cerca de 50 elementos. A partir daqui, o entusiasmo nunca esmoreceu. O grupo constituído em 25-08-2004 como associação devidamente registada e com a actual designação. Até esta data, designava-se por Grupo de Danças e Cantares de Resende.

Reportório e actuações
A maior parte do reportório é constituído por marchas, integrando também viras, balsas e a chula. Ao contrário dos ranchos folclóricos e etnográficos, o Grupo Resende Em Marcha não procura recriar o passado nem dar vida a tradições que tiveram o seu tempo. Abarca temas tão variados como cantigas com pitadas de humor, atrevimento e malandrice (“O gato farfalhudo”), versos festejando o doce mais afamado do concelho de Resende (“O coro das Cavacas”) ou cantando a árvore e o fruto mais celebrizado da nossa terra (“Coro das Cerejeiras”), quadras celebrando os tempos passados dos barcos rabelos (“Somos rabelos”) e a história, tradições e a beleza das nossa encostas e aldeias (“Resende, tu tens encanto” e “Ó minha terra…”) até versos exaltando a nobre figura de Egas Moniz e os valores que sempre contribuíram para afirmação da nossa terra (“Cá vai Resende…”. Todas as músicas e letras são originais, à excepção do “Vira da Beira Alta” e “Coro das Cavacas” com inspiração em músicas já antigas.
Devido à qualidade e às suas características de animação, o grupo tem sido muito solicitado para festivais e outros eventos. Já actuou em programas de televisão, em Espanha e em diversas localidades do país (Lisboa, Barcelos, Lousã, Porto, Vila Nova de Foz Côa…).

Aqui há gato
Estas deslocações são pretexto de convívio, em que o imprevisto e o insólito também acontecem, como esta situação que sucintamente se descreve. Na saída para a Lousã, em 2002, estranhou-se o miar de um gato cujo som parecia sair das proximidades do porão das bagagens do autocarro. Quando pararam num café/restaurante, próximo da barragem da Aguieira, continuou a ouvir-se o mesmo som. O mesmo aconteceu quando chegaram ao destino, em Casal de Ermia (Lousã). Lembrando um gato agoirento, voltou a miar na mesma paragem da ida, junto da barragem da Aguieira. Aqui alguém se lembrou de fazer uma inspecção mais aturada à situação, tendo descoberto a origem de tal miar. Era mesmo um gato que se tinha refugiado no quentinho das longarinas do autocarro…

Perguntas e Respostas

Quem dirige e ensaia o grupo?
Continua a ser Arlindo Pinto Sequeira, actual presidente da Junta de Freguesia de Resende. Foi alfaiate, cumpriu serviço militar em Angola (1965-67), foi empregado d’ “Os Valentes”, trabalhou no Externato D. Afonso Henriques, vindo a terminar a sua carreira profissional na Escola Preparatória em 2002, onde exerceu as funções de auxiliar de acção educativa e ecónomo durante 26 anos. Com apenas a 4.ª classe e sem qualquer formação musical, é autor das letras e músicas de todo o reportório, que é enriquecido anualmente com uma nova cantiga.

Quantos elementos tem?
Cerca de 35/40, integrando executantes de diversos instrumentos musicais (acordeão, viola, reco-reco, bombo, pandeireta e ferrinhos), cantadores e vários pares dançantes.

Onde e quando ensaiam?
Inicialmente ensaiavam na Escola Preparatória, actual Escola Básica do 2.º Ciclo. Actualmente os ensaios decorrem às segundas-feiras à noite, num espaço da sede da Junta de Freguesia de Resende.

Que outras actividades desenvolve?
Desenvolve a aprendizagem de instrumentos musicais para jovens e organiza várias actividades de convívio, algumas das quais abertas à população (ceia de Natal, magusto de S. Martinho, sardinhada pelo S. João e passeio anual).

Contacto: Arlindo Sequeira, Telem: 917 393 926
*Apontamento escrito por Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Outubro de 2009

segunda-feira, 15 de março de 2010

Homenagem e entrevista a D. Manuel Linda*

Emoções ante a nomeação para Bispo e facetas de uma vida
Os colegas padres da diocese de Vila Real e alguns leigos brincavam com ele sobre a hipótese de ser bispo. “Eram brincadeiras, mas não passavam disso”, como referiu à Agência Ecclesia a propósito do relato da vivência dos dias passados entre o telefonema da Nunciatura Apostólica e a data da sua nomeação, que ocorreu a 27 de Junho passado. No domingo anterior, dia 21, o seu e-mail (datado das 07h43m) tinha um pedido expresso: “ligar para determinado número da Nunciatura Apostólica”. Visualizou a mensagem pelas 22horas, tendo interpretado o que se estava a passar, mas não ligou nesse dia. Como tinha um serviço na manhã do dia seguinte, colocou o telemóvel em modo silencioso, mas “estava continuamente a receber chamadas de um número de Lisboa”. Liberto dos seus compromissos, ligou para o respectivo número cerca das 12h quando caminhava na rua. Embora admita que tenha ficado branco quando recebeu a notícia, o facto de ter lido o e-mail na véspera deu-lhe alguma calma. Seguidamente, fez tudo o que era possível para que nada transparecesse junto dos seus colegas, o que se revelou uma tarefa difícil, pois estava menos falador, não conseguindo concentrar-se devidamente nas tarefas dessa tarde. Como quem advinha, na tarde do dia 23, recebeu um telefonema da sua mãe, que lhe perguntou: “É verdade que vais para bispo?” Finalmente, no dia 24, deslocou-se a Lisboa para falar com o Núncio Apostólico, que contra a sua vontade lhe concedeu pouco tempo para dar uma resposta.
Como padre sempre usou gravata, desconhecendo o que fazer à respectiva colecção, referindo sempre com ar bem disposto que está disponível para oferecer algumas, embora a sua casa de Moumiz tenha muito espaço para as guardar. Passando em revista os seus passatempos e predilecções, refere que gosta muito de corridas de automóveis e já apreciou corridas de motocrosse. Embora vibre pela selecção e tenha sofrido com o futebol na adolescência, prefere não dizer o clube da sua preferência. No domínio da literatura portuguesa, os seus autores preferidos são Miguel Torga e José Régio. Embora confesse “ser um desastre na arte de pintar”, é grande apreciador de pintura e de arte sacra. Gosta de viajar, deslumbrando-se com os monumentos de referência, e de visitar museus. Influenciado pelo ambiente rural de Resende, sente-se tranquilo na natureza e no meio do arvoredo, apreciando sobremaneira os castanheiros e pinheiros.

Entrevista a D. Manuel Linda
Como nasceu o seu desejo de ser padre?
No meu caso, foi um processo lento e absolutamente normal. Aí por alturas da minha quarta classe, era dado assente na minha família que continuaria estudos depois da Escola Primária, como então se dizia. Só faltava saber onde: no Seminário, no Externato de Resende ou no Liceu de Lamego. Chegou-se a pensar nesta última hipótese, pois tinha duas primas no então muito célebre Colégio da Imaculada Conceição. E a ida para essa cidade sempre dava um certo «estatuto».
Curiosamente, as circunstâncias da vida haveriam de me encaminhar para o Seminário de Resende. E, uma vez aí, fui «seguindo». Via que, à medida que os estudos avançavam, alguns colegas desistiam. E quando se tratava de amigos mais chegados, isso «mexia» comigo. Mas nunca vi razão para eu também sair. Pelo contrário: gostava de estudar e sentia-me bem nesse ambiente. A partir da passagem para o Seminário de Lamego, naquilo que hoje seria a transição do Ensino Básico para o Secundário, aí sim, comecei, gradualmente, a colocar a hipótese sacerdotal, cada vez com maior seriedade.

Quem e que circunstâncias o influenciaram para entrar no Seminário?
Dois rapazes de Moumiz, irmãos, ligeiramente mais velhos que eu, frequentavam o Seminário Missionário de Felgueiras (Minho). Nas férias, eu brincava muito com eles. Achava-os diferentes, com um porte distinto. E, sem me dar conta, comecei a identificar-me com a maneira de ser deles. E decidi mesmo que haveria de ir estudar onde eles andavam. Só havia um problema: é que, com o nome de Felgueiras, eu só conhecia a freguesia vizinha, também deste Concelho de Resende. Donde, aliás, ainda me provinham algumas raízes por parte do meu pai.
Fui dizer à minha mãe que já tinha decidido ir com o Joaquim e com o Alfredo –tal era o nome desses colegas de brincadeira. Mas a minha mãe, de forma bem prosaica, sentenciou: “Se queres ir para o Seminário, tens um aqui na nossa terra. Não precisas de ir para tão longe”. E mandou-me falar com o saudoso Padre Manuel Vieira, meu padrinho de Crisma, nessa altura Pároco de Paus. Lá fui. Ele fez o requerimento ao Seminário, fui a estágio, admitiram-me e… e aí está a normalidade do meu percurso.
Como vê, perdeu-se uma vocação missionária e ganhou-se uma diocesana…

Que importância tem tido, no seu percurso de vida, Moumiz, Paus e Resende?
Posso afirmar-lhe que constitui a minha identificação, as minhas raízes, uma espécie de alma cultural ou fisionomia interior. Por isso, sinto-me bem aqui. Falo com quem me aparece à frente. E falo com as pessoas do povo com tanta – ou maior! - naturalidade como quando tenho de me relacionar com «gente importante»: Ministros, Cardeais, Governadores Civis, Professores, etc. E gosto de fazer o que elas fazem, mesmo nas colheitas e outros trabalhos do campo.
Em poucas palavras: este ambiente onde nasci concede-me naturalidade face a um estilo de vida, típico da actual cultura de massas, que corre o risco de se tornar meramente balofa, de ser puramente artificial. Onde está verdadeiramente a vida: num jantar de gala ou numa flor de cerejeira que desponta?

Costuma vir muitas vezes à nossa terra? Que mais o atrai?
Quase sempre semanalmente. Aliás, devo dizer-lhe que, não obstante ter o tempo mais ocupado, agora consigo vir cá mais vezes do que no passado. Será que o passar dos anos nos faz regressar às raízes? Talvez… Mas isso não será a prova de uma sensata sabedoria que nos leva a valorizar as coisas boas e simples da vida, sabedoria essa que faltava quando éramos novos?
Obviamente, para lá do encanto da terra, a grande razão de cá vir são os meus pais. De resto, a casa paterna continua a ser o local aglutinador dos encontros de toda a família: irmãos, cunhadas e sobrinhas. Graças a Deus.

Como avalia a homenagem de que foi alvo?
Como disse em Paus, as acções promovidas pela Paróquia e pela Câmara sensibilizaram-me muito e até me «confundiram». Eu já sabia que as pessoas eram amigas e que se sentiram felizes por um conterrâneo ser eleito bispo, função que, mesmo nos dias de hoje, ainda supõe bastante destaque social. Mas que me tratassem como estão a tratar… isso é que eu não esperava.
Mas há uma coisa que me gera um certo constrangimento interior: que se fale em «homenagem». Homenagem? A mim não. Se for à Igreja, em cujo seio todos nos acolhemos… isso já é outra coisa. Eu prefiro falar em confraternização ou alegria pelas novas funções que me são atribuídas.

Quer dirigir alguma mensagem aos leitores do Jornal de Resende?
Para além de agradecer as manifestações de júbilo e simpatia que me dedicam, três coisas. Quanto à ordenação, dizer que será a 20 de Setembro, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Real, às 16 horas. Se alguém quiser participar, seria uma alegria para mim.
Quanto ao aspecto religioso, apelar aos resendenses que tenham a coragem de manter a fé recebida. Mais que nunca, continua a ser verdade que o homem não vive só de tecnologias, mas precisa de sentido para a vida. Ou, como diria o mestre, que “nem só de pão vive o homem”.
Finalmente, um incentivo à criatividade económica e ao desenvolvimento integral. A nossa terra é mimosa, mas não é rica. Com excepção da cereja – e mesmo esta fica caríssima na apanha - não podemos competir em nada. Então, vamos lá ver se conseguimos criar investimento – pequenas indústrias ou turismo, por exemplo - que gere emprego e favoreça a fixação das populações, mormente os jovens. Se não, teremos cada vez mais uma terra… desertificada. Ou mesmo completamente deserta. A começar por Paus.
Aqui está uma espécie de desafio colectivo para sermos dignos da nossa história multissecular tão rica.

Homenagem pública da Paróquia de S. Pedro de Paus e da Câmara Municipal
D. Manuel Linda assumiu sempre que nada fez para ser homenageado e que via esta iniciativa como um momento de confraternização, de alegria e de acção de graças dos seus conterrâneos por um dos seus filhos ser elevado ao episcopado. A iniciativa partiu do Padre António Loureiro, pároco de Paus, tendo sido desenvolvida em parceria com a Câmara Municipal de Resende que a apoiou e comparticipou financeiramente, assim como a Junta de Freguesia de Paus.
O programa incluiu uma sessão no Auditório Municipal, no dia 22 de Agosto, que foi iniciada com a actuação da tocata do Rancho de Paus, e que teve como ponto alto uma palestra subordinada ao tema “O Bispo na Vida e na História da Igreja”, proferida pelo Cónego João António Pinheiro Teixeira. D. Manuel Linda agradeceu a presença de todos, referindo que a sua ligação a Resende é genética. “Nota-se pelo timbre de voz e pelo sibilar da pronúncia, que nunca fiz por alterar. É a voz de Resende; é a minha certidão de identidade”, afirmou. O Presidente da Câmara interveio também para manifestar a grande alegria e orgulho dos resendenses pela elevação de um dos seus filhos ao episcopado, tendo afirmado “ser este um momento de grande privilégio para a comunidade de Resende”.
No dia 23 de Agosto, domingo, pelas 17h, foi concelebrada uma missa solene no recinto da sede do Rancho de Paus, presidida pelo Bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho, a que se associaram 20 sacerdotes, tendo sido abrilhantada por um coro litúrgico de 15 elementos. Foi uma tarde de grande emoção para todos os participantes na cerimónia e sobretudo para D. Manuel Linda, que disse estar confundido com tantas manifestações de carinho dos seus conterrâneos, tendo agradecido a oferta do anel episcopal em ouro maciço por parte da paróquia de Paus e da Câmara Municipal.
O júbilo e apreço dos seus conterrâneos ir-se-ão repetir em 20 de Setembro, dia da ordenação episcopal, que terá lugar na igreja de Nossa Senhora da Conceição (Vila Real), com início às 16h.
*Apontamento e entrevista conduzida por Marinho Borges, publicados no Jornal de Resende (número de Setembro de 2009)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Relato do Encontro Missionário nos Seminários de Resende e Lamego*

Nos passados dias 02 e 03 de Dezembro, à tardinha, os missionários da Boa Nova, PP. Francisco Leitão e Tomás Borges, estiveram nos Seminários de Lamego e de Resende para um contacto missionário, constando de um tempo de comunicação aos jovens seminaristas e de uma projecção de testemunhos vindos dos nossos campos de trabalho em Moçambique e de um outro tempo forte vivido na Eucaristia.
Fomos extremamente bem acolhidos, quer no Seminário Maior, pelo aluno de Teologia Soares e, de imediato, pelo Vice – Reitor, P. José Fernando (o Reitor, P. Paulo Alves, a quem tinha dirigido a solicitação, estava ausente), quer no Seminário de Resende, pelo Vice – Reitor, P. António José e pelo P. José Manuel.
Dia 02, encontrámos no Seminário de Lamego 12 alunos de Teologia, que nos pareceram jovens determinados a seguir a vocação sacerdotal e missionária – já que todo o sacerdote é missionário – vindo a saber que havia mais cinco Diáconos a estagiar em várias paróquias da Diocese e também um, o Diácono André, no Seminário de Resende, onde está a realizar um belo trabalho na formação dos mais pequenos. Dei graças a Deus e congratulo – me com os seus formadores pelo elevado número de seminaristas maiores numa Diocese geograficamente pequena. A explicação que encontro é que a nossa Diocese é das mais antigas do país com uma forte tradição cristã (basta lembrar a igreja de S. Pedro de Balsemão, do século VI, uma das mais antigas, se não a mais antiga igreja de toda a Peninsula Ibérica); tem sido assistida por padres piedosos e dedicados; rezava – se muito e, porventura, ainda se reza bastante; o secularismo não tem penetrado; e, finalmente, os dois Seminários têm sido orientados por equipas idóneas e bem preparadas. Os seminaristas mostraram – se abertos e colaborantes, embora o tempo fosse escasso, e alguns deles tivessem de apresentar provas académicas no dia seguinte.
Dia 03, no Seminário de Resende, fomos encontrar 39 adolescentes e jovens do 7º ao 12º ano, com a alegria e vivacidade próprias destas idades. Remeti – me imediatamente para os meus tenros anos de seminarista, em que enchíamos a capela, o salão de estudo e o refeitório. O esquema que usámos em Lamego, adequámo – lo a esta situação um pouco diferente. Aqui, a mensagem teria que se revestir de uma tónica mais alegre e comunicativa. Até fomos capazes de tocar e cantar melodias moçambicanas, levando – os a serem activos connosco; e o mais curioso é que até dançámos ao jeito africano. Foi mesmo festa. E a festa continuou, a um outro nível, na Eucaristia que se lhe seguiu. Foi belo ouvir todos aqueles jovens cantarem os louvores de Deus acompanhados por um excelente organista. Tentámos semear neles a sensibilidade e o entusiasmo missionários que, como cristãos e futuros padres, devem viver e testemunhar. Que o Senhor da messe os abençoe e ajude.
Como missionário pertencente à Diocese de Lamego, partilhei em ambos os seminários as excelentes relações que sempre houve entre os missionários da Boa Nova (em tempos idos, missionários de Cucujães) e a nossa Diocese, na área da espiritualidade. Recordo perfeitamente de ter ido, como seminarista, ao Seminário de Resende, visitar dois superiores meus que, em anos diferentes, se encontravam a orientar um retiro espiritual. Mas havia reciprocidade. Lembro – me de ter participado num retiro, no nosso seminário de Cucujães, pregado por D. Alberto Cosme do Amaral, ao tempo Director Espiritual. Há pouquíssimos anos, o P. Jerónimo Nunes, então Superior Geral da Sociedade, orientou um retiro aos seminaristas de Lamego. Estou convencido, embora não possa afirmar, que o nosso santo Director Espiritual do Seminário de Cucujães, P. Manuel Moreira Campos, cuja biografia descrevi num pequeno livro com o titulo “Um Homem de Deus” e que recomendo neste Ano Sacerdotal, deve também ter ido a Lamego ou Resende orientar algum retiro.
Mormente nos últimos anos, tenho assistido com muita satisfação a uma grande abertura e vivência missionárias por parte da nossa Diocese. Além do P. José Guedes, nosso missionário actualmente na Zâmbia, saído do Seminário de Lamego directamente para a Sociedade Missionária, recordo as experiências missionárias efectuadas com os nossos missionários pelo P. Luciano em Angola e Moçambique, e pelo Padre José António Rodrigues, meu vizinho na paróquia de S. Pedro de Paus e pároco de Penedono, o ano passado, 2008, na periferia de Maputo, capital moçambicana. Sei que o P. José Fernando, Vice – Reitor de Lamego, passou também um mês em Moçambique. O Director Espiritual de Resende e Secretário diocesano das Missões, Cón. Manuel Leal, desejava, enquanto seminarista, seguir a vida missionária, mas depois deparou – se com algumas dificuldades para poder avançar. O Vice – Reitor de Resende, P. António José, contou – me que ele e outros seminaristas participavam com o saudoso P. Manuel Vieira Pinto, meu antigo pároco em Paus, nas Jornadas Missionárias em Fátima. Obviamente, este clima missionário não poderia acontecer sem a anuência e o impulso dados pelos nossos Bispos, nomeadamente, D. Jacinto Botelho.
Dou graças a Deus pela Diocese a que pertenço e peço ao Senhor da messe que continue a reavivar a sensibilidade missionária e a chamar os que Ele quer.
*P. Tomás Borges, SMBN

quarta-feira, 3 de março de 2010

Associação de Caçadores das Quelhas organizou mais uma montaria*

O que é uma montaria?
Na caça de montaria os caçadores aguardam, em local previamente definido, para capturar os respectivos animais, designadamente javalis e veados, levantados e perseguidos por matilhas (de cães) devidamente treinados. A sua organização pressupõe o estudo prévio da área (mancha), que deverá ser soalheira (virada a sul), porque os animais são sensíveis à temperatura e à chuva, e ser constituída por vegetação preferencialmente espessa e densa, já que a mesma oferece condições de abrigo e protecção aos possíveis alvos a abater. Importa encontrar terrenos onde se encontrem indícios de que aí descansam e encamam as respectivas reses. A partir deste levantamento, convém que os organizadores mantenham a área no maior sossego, fazendo aí chegar comida.
Escolhida a mancha é definida a localização das diferentes portas por onde irão ser distribuídas os caçadores/monteiros. O seu número irá depender da área abrangida. Em regra, é habitual distanciar os postos entre os 50 e 100 metros uns dos outros, devendo ter-se em conta os desníveis do terreno e os acidentes naturais. Acima de tudo, importa acautelar a segurança, que implica condições de visibilidade do camarada do lado, que poderá estar na mesma linha de tiro.
Neste processo de caça, a acção das matilhas é fundamental para que os javalis avancem no terreno, propiciando aos caçadores fazer o gosto ao gatilho. Cada matilha é constituída por cerca de 25 cães, estando o número de matilhas dependente das características do terreno e da densidade e altura da vegetação, exigindo-se um número menor quando a mancha é plana e o coberto vegetal menos denso.
O fim da montaria é anunciado normalmente pelo lançamento de um foguete. Por sua vez, a sinalização das reses abatidas é feita pelos postores (caçadores/pessoal encarregado de conduzir os monteiros às respectivas portas de cada armada e efectuar no fim a recolha dos mesmos). Estes colaboram com os caçadores na colocação das reses perto de um caminho ou aceiro, para que possam ser carregados por veículos até ao destino. A montaria termina com o almoço convívio e leilão dos animais abatidos.

A última montaria a par e passo
As pré-inscrições, que ocorreram nas semanas anteriores, andaram à volta de uma centena de interessados, o que permitiu estabelecer uma mancha de território adequada para o efeito e oferecer um número de portas correspondentes à procura. A área seleccionada, onde costumam abundar bastantes javalis, estendeu-se pelas encostas de Fazamões, Origo, Forjães, Pena, Moumiz e Barraca. As inscrições começaram por volta das 08h00 na sede da associação e terminaram às 09h45, tendo atingido o número recorde de 112. Entretanto, em pequenos grupos, no local onde em tempos brincaram tantas crianças da escola, recordavam-se façanhas de caçadas passadas e projectavam-se estratégias para a montaria que se aproximava, à volta das brasas dos grelhadores, onde se iriam aprontar as carnes para o taco (refeição da manhã). O repasto, abundante e variado, adequado para responder aos esforços das lides “guerreiras”, teve início às 10h00, tendo-se prolongado até às 10h45. Pouco depois, teve início uma palestra no largo do antigo recreio da escola, onde foi apresentado o Director da Montaria, Eng. José Miguel Maia, que saudou os participantes, e na qual também o Prof. Adérito Lopes relembrou os cuidados a ter e as medidas de segurança a observar durante a caçada. Seguidamente, foi apresentado o resultado do sorteio das portas, cujos números estavam previamente distribuídos e agrupados por treze armadas, tendo sido apresentados os respectivos responsáveis/postores. A estes foram disponibilizados dois cartazes, onde estavam inscritos o número da armada e os números das portas, para serem colocados à frente e atrás da sua viatura, a fim de que a mesma pudesse ser facilmente identificada e seguida pelos elementos da armada na deslocação para a respectiva mancha. Depois de resolvida a questão do transporte e do número de viaturas necessárias, as armadas saíram de Barrô quando o relógio marcava 11h30. Uma hora depois, todos os participantes estavam devidamente instalados nas respectivas manchas, iniciando-se a batida pelas sete matilhas, cujos efeitos se fizeram sentir pouco depois com os primeiros tiros a troarem pelo vale.
Integrei, como espectador, a armada do presidente da associação organizadora, Arlindo Manuel Pinto, que após ter deixado os respectivos monteiros nas portas que lhes couberam em sorte na zona de Fazamões, teve a amabilidade de me transportar até junto da Barraca, para me deixar na porta do Prof. Adérito Lopes, onde, à semelhança do ocorrido em anos anteriores, iriam desembocar quase de certeza vários javalis. Ouviram-se de facto muitos tiros. À nossa frente passaram os cães em batida. O Prof. Adérito chamou-me a atenção para um grande javali que passava nos montes por cima de Fazamões, mas junto a nós não passou nenhum. À medida que os tiros se iam ouvindo, ia fazendo previsões do resultado das operações, apontando para o abate de oito a dez reses. O seu telemóvel não parava de tocar, funcionando como uma verdadeiro terminal de notícias. Por volta das 15h30, estava terminada a montaria.
Regressei na viatura de Arlindo Pinto, que denunciava optimismo e boas perspectivas quanto aos resultados da caçada. O seu telemóvel não parava de tocar. E cada chamada aumentava a torrente do seu entusiasmo. Parámos abaixo do monte de S. Cristóvão, pois tornava-se necessário verificar a situação de um javali aparentemente ferido ali por aquelas bandas. Ainda foram chamadas duas matilhas, mas nada foi detectado. Prosseguimos viagem, recolhendo junto de Fazamões os elementos da armada. Chegados à sede da associação, constatámos que já lá se encontravam as reses abatidas, em número de nove. Mas, pelas conversas que se iam desenrolando, foram vistas cerca de uma vintena.
Pelas 18h00, teve lugar uma refeição retemperadora, onde se contaram as peripécias da caçada e se deu largas ao convívio. No final, já no exterior, teve lugar o leilão dos nove javalis ali expostos, cujos preços oscilaram entre os 120 e os 225 euros. Seguiu-se ainda o sorteio, numa oferta de uma firma especializada em artigos de caça, de vários vales de desconto e roupa de caçador. O fim deste convívio terminou já depois das 20h00.
Endereço uma palavra de agradecimento ao presidente da direcção da Associação de Caçadores das Quelhas pela oportunidade que me deu de acompanhar este evento, que trouxe ao nosso concelho caçadores de Lamego, Castro Daire, Cinfães, Régua, Gondomar, Alfena e de outros municípios do Grande Porto. Refira-se que a montaria contou com o apoio, além dos Bombeiros Voluntários de Resende, da Câmara Municipal de Resende e das Juntas de Freguesia de Barrô, Penajóia, Samodães, S. Martinho de Mouros, S. João de Fontoura e Paus. Parabéns à organização pelo modo como tudo foi delineado, o que permitiu uma grande caçada e uma inesquecível jornada de convívio.

Endereço
Associação de Caçadores das Quelhas
Lugar do Crucial/Barrô 4660 – 037 Resende Telef. 918 775 302 e 939 320 734
*Notícia elaborada por Marinho Borges e cuja 2.ª parte (com o sub-título A última montaria a par e passo) foi publicada no Jornal de Resende (número de Fevereiro de 2010)

CASA DE RESENDE EM SINTRA: EMBAIXADA DO NOSSO CONCELHO NA GRANDE LISBOA*

Festa da cereja em Sintra
Como vem sendo hábito, a Casa de Resende em Sintra organiza anualmente a festa da cereja no fim de semana seguinte à que se realiza na sede do nosso concelho, que neste ano teve lugar nos dias 6 e 7 de Junho. Este evento não pôde contar com a presença da Vereadora da Cultura, Prof. Dulce Pereira, tendo em conta a data ser coincidente com a realização das eleições para o parlamento europeu. Pelo mesmo motivo, não foi concretizada a deslocação prevista do Grupo de Danças e Cantares “Os Moleiros de Cárquere”. Esta festa pretende dar a conhecer os nossos produtos e valores culturais, funcionando como a comemoração do “Dia de Resende” na região da Grande Lisboa.
Na quinta-feira, dia 4 de Junho, saiu de Sintra um conterrâneo com uma camioneta de mercadorias rumo a Resende para adquirir cereja, cavacas, pão, vinho e compotas do concelho e outros produtos da região como doce da Teixeira, presuntos e enchidos. Na madrugada de sábado, dia 6, dava entrada no recinto da sede do Sporting de Lourel, pertencente à freguesia de Santa Maria e S. Miguel, nos arredores de Sintra, vindo carregada com 1 000 kg de cerejas, 120Kg de cavacas, 80Kg de doce da Teixeira, 200kg de presuntos e enchidos e outros mimos. Pelas 9h, abria a feira com sete expositores/postos de venda em que a cereja, vendida em embalagens de 2Kg, era a rainha. Apesar do tempo não ter ajudado, com a chuva e o vento a obrigarem à interrupção das vendas, a partir das 10h50 já não havia cerejas para os numerosos interessados que continuaram a afluir durante o dia ao certame. Refira-se que, no ano passado, a organização adquiriu 3 000Kg a produtores de Resende, aparentemente parecendo apresentar-se em boas condições, o que não se verificou no acto de venda, pois muita apresentava-se estragada, tendo sido inutilizados cerca de 500kg . Por precaução, este ano a organização resolveu encomendar apenas 1 000Kg. Felizmente, a situação do ano passado não teve repercussões a nível da procura e da afluência do público.
Às 13h00, as cerca de 50 pessoas da organização juntaram-se na sede do Clube de Lourel para um merecido almoço de convívio, regado com tinto de Anreade.
No final da tarde de sábado, todos os produtos tinham sido vendidos, à excepção de algumas peças de artesanato, vindas de Resende ou feitas por residentes em Sintra, como bordados.
No domingo às 9h30, teve início a missa campal, abrilhantada pelo Grupo Coral da Casa do Concelho de Resende. Às 12h30, teve lugar na sede do Sporting Clube de Lourel um almoço para o qual se inscreveram cerca de 300 pessoas, naturais de Resende e/ou familiares e amigos, incluindo representantes da Câmara Municipal de Sintra (o Dr. Fernando Seara, presença habitual, não pôde estar presente por causa das eleições) e da Junta de Freguesia de Santa Maria e S. Miguel. A tarde foi preenchida com a actuação do Rancho folclórico “Os Saloios de Dona Maria” de Sintra e com um baile animado pelo Conjunto LT.
“Cisma” entre conterrâneos
Em 1-05-1993, foi criada a Associação Operária dos Naturais do Concelho de Resende, com sede em Lisboa, com a pretensão de representar e congregar os nossos conterrâneos a viver e a trabalhar na região da Grande Lisboa. Conforme a designação claramente sugere, esta associação nasceu muito conotada partidariamente, o que levou a que nunca tivesse sido um factor de aproximação entre os resendenses, a maioria dos quais nunca se reviu nesta entidade. Tendo em conta o grande número de conterrâneos a residir no concelho de Sintra, esta associação criou um núcleo na Várzea de Sintra, mas não conseguiu grande adesão. Numa reunião aqui realizada em 2000, foi proposta a dissolução da mesma e a criação de uma outra, com uma designação abrangente, com o objectivo de congregar todos os resendenses a residir em Lisboa e concelhos limítrofes, mas tal intento, embora aceite na altura, não se veio a concretizar.
Perante este “cisma”, os conterrâneos a viver em Sintra tomaram a iniciativa de criar uma outra associação, designada Casa do Concelho de Resende, cuja escritura foi efectuada em 10 de Agosto de 2001. Ainda se efectuaram diligências para a realização em Sintra de uma reunião com “os irmão desavindos” de Lisboa, mas estes, segundo consta, puseram a correr o boato de que os aderentes a esta iniciativa seriam possivelmente corridos à pancada.

Objectivos e actividades desenvolvidas pela Casa do Concelho de Resende em Sintra
Tendo o nosso concelho como centro aglutinador e pólo abrangente, esta associação prossegue os seguintes objectivos: i) divulgar os valores artísticos e sócio-económicos de Resende; ii) realizar exposições e encontros para preservar os costumes e tradições do concelho de Resende; iii) colaborar com entidades que possam contribuir para o engrandecimento e projecção do concelho de Resende; iv) colaborar com pessoas singulares, colectivas e Juntas de Freguesia e Câmara Municipal no desenvolvimento do concelho de Resende; e v) promover actividades de modo a proporcionar a reunião e convívio dos associados.
O grande evento anual é a festa da cereja, como foi referido logo no início. Há, contudo, outras iniciativas. A começar, logo no início de cada ano, pelo cantar das Janeiras, com canções do nosso concelho, ao Presidente da Câmara Municipal de Sintra e aos associados e amigos da Casa de Resende. No primeiro trimestre, realiza-se o tradicional baile da pinha. Uma outra actividade costuma ser a organização de um passeio anual. Há ainda a festa convívio de S. Martinho, com almoço, castanhas e água-pé, que no presente ano terá lugar no dia 8 de Novembro. A direcção realiza também uma festa de Natal para os filhos dos associados, com um espectáculo, distribuição de prendas e lanche, que está programada para 6 de Dezembro. A tradicional festa de passagem de ano fecha o ciclo das actividades.

Construção de uma sede
A Casa do Concelho de Resende tem um acordo com o Sporting Clube de Lourel, que lhe permite a utilização de uma pequena dependência das suas instalações, mediante o pagamento de uma pequena renda mensal, e a utilização de uma cozinha e espaço adjacente, onde decorrem os almoços/convívios e espectáculos.
É aspiração da direcção da Casa dos resendense e amigos a construção de uma sede. Graças aos bons ofícios de Manuel do Rosário, um empresário de sucesso, natural de Anreade, foi cedido, em 2005, pela Câmara Municipal de Sintra, um terreno para este fim com 1 800m2. Em Maio de 2008, foi entregue um projecto, que não foi aprovado por não enquadrar as condições estabelecidas para o local. Em Junho passado, deu entrada na Câmara Municipal de Sintra um novo projecto de arquitectura, que se espera que obedeça aos parâmetros estipulados.

Perguntas e respostas

Quem é o presidente da Casa de Resende
É Joaquim Pinto, nascido em Cárquere em 1949, que veio para Sintra com 7 anos com os pais e quatro irmãos. Foi funcionário do Tribunal de Sintra desde os 14 anos até à inspecção militar. Após o serviço militar, trabalhou durante 6 anos na fábrica de máquinas de escrever Messa. Posteriormente, integrou os órgãos directivos de uma cooperativa de habitação até 2003, onde granjeou experiência na área, tendo posteriormente estado na origem de uma empresa de construção civil, entretanto extinta, devido ao insucesso da iniciativa. Para refazer a vida, foi taxista, sendo actualmente condutor de uma carrinha de transporte de crianças. No meio desta vida agitada e de grande amor a Resende, foi autarca da Junta de Freguesia de S. Martinho (Sintra).

Quantos sócios tem?
Cerca de 300, que pagam uma quota anual de 10 euros. Refira-se que podem ser associados todos os naturais e amigos do concelho de Resende, seus descendentes e qualquer outro familiar e ainda as Juntas de Freguesia. As Câmaras Municipais de Resende (que subsidia a festa da cereja) e Sintra são sócias honorárias.

Possui algum organismo cultural?
Sim. Um grupo coral, subsidiado pela Câmara Municipal de Sintra, constituído por 40 elementos, sendo o reportório maioritariamente composto pelo cancioneiro do concelho de Resende, cujos ensaios têm lugar às sextas-feiras.

Tem promovido iniciativas de ligação ao nosso concelho?
O programa da festa anual da cereja prevê a vinda de um rancho, banda de música ou grupo de danças e cantares do nosso concelho. Por sua vez, as comemorações do 3.º aniversário do grupo coral decorreram em Resende com actuações no Largo da Feira e um almoço. Um dos objectivos de Joaquim Pinto tem sido divulgar a Casa de Resende e estabelecer parcerias com as Juntas de Freguesia do concelho de Resende, tendo chegado a marcar reuniões com os respectivos presidentes, mas sem sucesso.

Decorre alguma campanha de angariação de fundos para a construção da sede social?
Sim. O dinheiro recolhido no âmbito das várias iniciativas (cantar das Janeiras, bailes, festa da cereja…) é para esta iniciativa. Quem quiser colaborar poderá depositar o respectivo donativo na Caixa Geral de Depósitos (NIB: 003507860006276693048).

Endereço
Casa do Concelho de Resende
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*Apontamento de minha autoria, publicado no Jornal de Resende (número de Julho de 2009)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Notícia relativa à homenagem a Monsenhor Carlos Resende*

Eram apenas passadas 24 horas da data em que Monsenhor Reitor Carlos Resende completaria o seu centésimo aniversário e mais um sonho de alguém, concretizado com esforço e alguma dedicação: Homenagear seu antigo Reitor - porque não também Amigo!
Aos organizadores, tão bem «orquestrados» pelo nosso Dr. Adão Sequeira, desde já os meus sinceros Parabéns não só pela ideia, como também por toda uma organização que se prezou por uma abordagem completa sobre a vida do homenageado testemunhada não só pelos responsáveis, Sr. D. António Francisco dos Santos – Bispo de Aveiro e pelo Dr. Adão Sequeira da Fonseca, mas também, em gesto de grande Amizade e respeito, por Suas Excelências Reverendíssimas: Sr. D. Jacinto Botelho - Bispo de Lamego e Sr. D. António Rafael – Bispo Emérito de Bragança/Miranda, por vários sacerdotes da nossa Diocese, grande representação de Antigos Alunos dos Seminários de Lamego e nossos presentes Seminaristas de Teologia. Mas, não só elementos ligados aos Seminários se fizeram presentes. Os principais responsáveis políticos da região, tiveram o propósito de também prestarem homenagem ao seu conterrâneo Cinfanense; assim, desde o Sr. Presidente da Câmara, Prof. José Manuel Pereira Pinto ao Sr. Presidente da Assembleia Municipal, Sr. Mário Luís Correia da Silva, foram muitos os Cinfanenses que também marcaram presença no Sala Magna da Câmara Municipal, onde começou o programa de Homenagem.
Como não podia deixar de ser, o Seminário Maior de Lamego representado por toda a sua equipa directiva e seus estudantes, na pessoa do seu Reitor, Pd. Prof. Dr. Paulo Alves quiseram prestar a sua homenagem entoando o Hino do Seminário, dirigidos pelo Sr. Pd. Marcos Alvim. Surpreendentemente, o Sr. Reitor acumulou uma outra simples homenagem, chamando o Grande Mestre Dr. Rui Botelho e solicitou-lhe que também ele, num gesto de Amizade e gratidão, dirige-se os seminaristas e a plateia na repetição do mesmo Hino que ele no passado tantas vezes dirigira. Lindo gesto também, a este Grande Homem da nossa Diocese…
Finda esta homenagem pelo Seminário de Lamego, onde o homenageado passara a maioria dos seus anos, coube ao Sr. Presidente da Câmara. Abriu a sessão saudando os presentes e tecendo demasiados pormenores pessoais, familiares e demais que o ligaram e ligam ao homenageado. Foi agradável ver a grande inter-acção existente entre Mons. Resende e os Cinfanenses, embora quase metade da sua vida tenha sido passada entre os muros daquela grande casa que é o Seminário Maior de Lamego.
Em seguida, tomou a palavra o Dr. Adão Sequeira que no computo geral trouxe a todos os que enchiam a sala (e muitos ficaram de pé…) um testemunho pessoal de como conheceu, conviveu, opinou e recorda Mons. Carlos Resende, seu Perfeito, seu Professor, seu Reitor e por fim seu Amigo.
Tal como eu, fomos muitos os que num silencio total ouvimos este testemunho que, confirmou tudo o que já ouvira falar de Mons. C. Resende que não conheci directamente como seminarista por não ter passado pelo Seminário Maior. O Dr. Adão deixou transparecer a qualidade de um Homem, de um Amigo e de um Grande Orientador de jovens preparando-os não só para o Sacerdócio ou, como no seu caso pessoal, para uma vida laical.
Mas, se este testemunho nos silenciou e muito em especial aos que de algum modo estivemos ligados ao Seminário, ao tomar a palavra, o Sr. D. António Francisco debruçou-se mais no mencionar toda uma Família a que Mons. Carlos Resende pertencia. Desde seus Pais e seus Irmãos, em todos D. António Francisco ao mencionar, encontrou um grande valor humano, cristão e enraizados à sua terra. O orador pormenorizou alguns aspectos íntimos e espirituais que houvera tido com o Homenageado, sensibilizando todos os que o escutávamos.
Como sempre, a eloquência nas suas palavras, pareciam-nos transportar ao tempo e ao momento. Seria talvez difícil encontrar melhores oradores, todos eles também filhos da terra, para recordar Mons. Reitor Carlos Resende… E como colmatar de uma sincera gratidão, o Grupo Coral de Cinfães, entoou duas ou três peças tipicamente regionais, dando por terminada a primeira parte deste reconhecimento.
A Homenagem teve o seu seguimento com o descerrar de uma lápide, na sua própria moradia, frontal à Igreja Paroquial, em que ficou gravada toda a gratidão que a ASEL-Assoc. dos Antigos Alunos dos Seminários de Lamego querem perpetuar com o seu ex-Reitor. A Direcção da Associação, representada pelo seu Presidente, Avelino Pereira e muitos outros Antigos Alunos chamaram a si a total responsabilidade desta oferta e contribuição nesta Homenagem.
Atravessando a rua, dirigimo-nos para a Eucaristia presidida pelo nosso Bispo, D. Jacinto Botelho e coadjuvado pelos dois Bispos mencionados, por vários sacerdotes e diáconos. A Igreja Paroquial estava repleta. O grupo coral local com a colaboração dos nossos Seminaristas e dirigidos pelo Sr. Pd. Marcos Alvim alegraram este novo momento de Homenagem onde o Sr. D. Jacinto Botelho, no momento próprio, recordou Mons. Carlos Resende com quem havia colaborado também na Direcção do Seminário e de quem guarda grandes valores como Homem, como colega sacerdote, como Superior e como Amigo. A todos convidou para em comunhão elevar-mos as nossas preces e dar-mos graças ao Bom Pastor pela Felicidade de um Homem como Mons. Carlos Resende ter nascido na nossa Diocese, ter sido Seminarista e posteriormente Grande Responsável em um dos nossos Seminários: a Diocese apenas saiu valorizada com todo o seu trabalho, dedicação, competência e devoção.
Foi, sem dúvida, uma tarde de Sábado plena de sentimentos, de gratidão e de reconhecimento. Cada um partiu de regresso aos mais diversos pontos de destino, mais rico humana e cristãmente pelo exemplo deste Homem que deixou marcas não só nos que orientou, mas também em todos os seus conterrâneos cinfanenses.
Na companhia de todos os Anjos e Santos goze a sua alma o Eterno Descanso; será sem dúvida o desejo de todos os que o homenagearam e recordaram.
*Notícia elaborada por A. Cândido Teixeira (Aselista) a propósito da homenagem prestada a Mons. Carlos Resende, em 13-02-2010, em Cinfães, por ocasião do centenário do seu nascimento

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Homenagem a Monsenhor Carlos Resende*

-1 -Do Santo Cura d´Ars, exemplo grande de humildade e santidade, escreveu o papa, Bento XVI - «com exemplar obediência ficou sempre no seu lugar porque o consumia a salvação das almas», santo este que dizia «para mim sacerdócio é amar a Jesus».

Estas duas frases fazem-me pensar que é uma feliz coincidência a celebração do ano sacerdotal em honra do santo Cura d´Ars, o Pe João Maria Vianey, conter no seu âmbito temporal o centenário do nascimento de Monsenhor Carlos Alberto Pinto Resende, homem e sacerdote exemplar para quem a obediência foi bandeira que sempre assumiu e para quem o sacerdócio foi também amar a Deus e os que lhe estavam entregues.


Filho ilustre da nossa terra, Carlos Resende, Monsenhor de título, Reitor de função e homem de actos e vida, dedicou aos alunos, ao seminário, à diocese e a Deus a sua vida.

Sem ruído, sem barulho, sem ostentação e sem vaidade, honrou e dignificou a sua terra, o seu povo, a sua família, o seminário e seus alunos.

Homem bom nos seus actos, recto nas intenções, edificante na apresentação, elevado na intenção, despido de maldade e intenções secundárias, vendia gratuitamente do seu rosto e oferecia em abundância espontânea um sorriso que irradiava serenidade, bem-estar e bondade.


A celebração e homenagem que hoje aqui fazemos é um dever imperioso de seus antigos alunos consubstanciados à volta da sigla ASEL que em boa e justa verdade não podiam deixar passar a data centenária do seu nascimento sem de modo singelo mas vivo e expressivo dizer aos presentes (e para memória futura aos vindouros) que é nosso dever enaltecer os actos e acontecimentos, os nomes e as pessoas que nos antecederam no tempo e marcaram o passado com exemplo profundo de valor futuro, guardando e resguardando deste modo a herança moral dos antepassados.

Esta homenagem é, além do mais, o grito afirmativo de que homenagear o passado é semear, fertilizar e defender sementes de futuro.

Ai do povo, país, ou instituições que desprezam os valores do seu passado e menorizem as virtudes e valores dele recebidas.

E o passado é feito de homens, pelos homens e para os homens, isto é, o passado é memória para se recordar e viver no futuro, na hora exacta em que o futuro começa a deixar de o ser.


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Não sou a pessoa mais indicada para falar do valor, das virtudes, do projecto, da alma, da sabedoria ou da santidade do nosso homenageado; a minha incumbência é de vos deixar um testemunho singelo de antigo aluno que ao fim de 11 anos, mudou de rumo e enfrentou novas realidades.

Eu queria, antes de iniciar, regozijar-me por ver aqui, entre nós:

- a diocese no seu melhor espírito;

- os seminários de Lamego e Resende na sua mais alta e expressiva representatividade;

- a autarquia e o poder local , na sua melhor expressão, autoridade e importância.

Se eu pudesse avisar Mons Carlos Resende que estamos aqui reunidos na sua terra…ou se ele pudesse fazer-nos um sinal lá do alto onde se encontra, como sorriria abertamente e à sua maneira ao ver à sua volta:

-um bispo,-Snr D.Jacinto Botelho- que foi seu aluno e colega de formação no seminário;

-outro bispo,-Snr. D.António Francisco-que foi seu aluno e esperança querida dos seus olhos;

-outro bispo também, Snr. D.António Rafael, emérito de Bragança/Miranda, seu antigo aluno e colega de ensino.

-um leigo e antigo aluno, a falar das suas virtudes e valores;

-outro leigo e aluno notável, a gerir os sons e melodiosos acordes musicais em sua honra e louvor;

-tantos outros (dele queridos),antigos alunos, sacerdotes ou leigos que aqui significam toda a juventude que passou pelas suas mãos debaixo dos seus olhares;

-os seus virtuais pupilos e actuais alunos do nosso Seminário;

-os seus familiares queridos que em acto colectivo acorreram hoje a saudá-lo de modo mais aberto e expressivo;

-os cinfanenses, filhos da sua e nossa terra que em reconhecimento devido se associaram a esta iniciativa tão justa como oportuna.


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Era mais agradável para mim deixar o coração falar e a alma exprimir-se ao sabor do sentimento real e verdadeiro, em devaneios de considerações e deduções mas vamos ao que fui incumbido, a factos, realidades e referências através das quais objectivamente se possa deduzir e em parte entender a essência e a causa desta homenagem centenária.


2-Quem era Mons Carlos Carlos Resende do meu tempo?

Era só o venerável reitor, nobre de aspecto, respeitável de apresentação, bondoso de gestos, afável de convívio, ou superior por função?

Assim muitos o viram, assim muitos o entenderam, assim muitos o respeitaram.

De simplicidade linear, envolvia dentro de si uma sabedoria que atraía e uma respeitabilidade que encantava. Deixava a disciplina viva aos seus pares na formação e enchia o seminário com a imagem alta da sua função.

Sem vara nem bastão, sem ferrete nem humilhação, sem opróbrio nem grosseria, deixou um rasto de mensagem que marcou passos, entusiasmou destinos e sedimentou futuros.

As fronteiras deste testemunho têm o limite das minhas limitações e o âmbito da minha experiência. Fica portanto de fora toda a riqueza anterior à minha vivência no seminário, toda a acção posterior à minha saída e toda a mensagem da qual não possuía dados em memória nem documentos ao meu alcance.


Vejamos um pouco do que existe e leiam, (estimados amigos), aquilo que eu não consegui escrever para vos ler, porque a sua valia e virtude vão além, muito além do que eu disse ou vou dizer.

Do homem de quem vos falo:

-a quem nunca ninguém viu uma nódoa na batina, uma engelha na sobrepeliz, um sapato menos limpo, a barba por fazer ou cabelo em desalinho;

-a quem nunca ninguém ouviu uma ofensa, uma repreensão ou censura indevida;

-a quem nenhum antigo aluno refere como injusto, inoportuno ou excessivo, a não ser na bondade e compreensão

;…deste homem eu vou referir alguns passos da sua pedagogia e acção sempre dados e feitos a coberto de uma simplicidade e bondade que enchiam espaços e resultavam em frutos.

Deste homem, reitor, mestre e professor, eu, simples aluno, distante do seu melhor círculo de proximidade, tenho em meu poder fotografias que historiam e descrevem a sua estratégia de relação:

-a dar o ponta pé na bola,com os jogadores no campo dos Remédios-(junto dos seus);

-sentado no meio na nossa banda a ouvir atentamente os sons saídos dos nossos instrumentos - (no meio dos seus);

-nas ordenações sacerdotais a apoiar o futuro -(ao lado dos seus);

-nas missas novas a beijar as mãos dos novos sacerdotes -( a acompanhar os seus);

-no meio da sua equipa formativa com os finalistas do ano-(a dar garantia aos seus);

-no comando de todos os alunos na escadaria do seminário,-(a sorrir com os seus);

-em cortejo musical no meio da nossa banda,- (a conviver com os seus );

-no campo de jogos a ver os alunos na disputa da vitória-(a bater palmas com os seus);

…Sempre nos seus e com os seus, e sempre com o mesmo sorriso contido na forma espontânea de quem está bem e se sente bem onde está e com quem está.


-3- Deste homem que falava mais com o que fazia do que com o que dizia, eu tenho escrito, nós temos citações, mensagens e afirmações que escritas e parte delas guardadas agora na Antologia Estrela Polar continuam pelos tempos fora a nortear quem as quiser ler, ouvir e seguir.

E eu vou referir algumas para que todos nos apercebamos da mensagem expressa, ou do espírito intencional existente em cada um dos escritos.

-Em 1951, no lançamento da Estrela Polar, acto grande e momento alto da nossa vida estudantil, escrevia à guisa de editorial ou mensagem:

«jovens rapazes, que ousais entregar-vos às lides da imprensa, felicito-vos com toda a sinceridade (…) não esmoreçais, erguendo e projectando mais longe a luz da Estrela que há-de rasgar horizontes e iluminar inteligências».

-Em 1952, numa despedida de 4 alunos que se ordenaram e iam para a vinha do Senhor, escrevia no nº 7 do nosso jornal:

«ides partir, e partir significa sentir saudade da casa que se deixou, e daqueles com quem se vive (…) que esse sentimento jamais se extinga, (…)amai sempre o seminário que é também vosso e atraí a ele a simpatia, o afecto, a compreensão e os benefícios dos nossos fiés».

Nos anos seguintes e no mês de Dezembro, lá o encontramos no jornal escrito em boa letra de forma, com frases de vida e marcas de futuro afirmando e afirmando-se:

-No 1º aniversário, ainda em 1952 -«faz 1 ano o querido jornal, ele é o ambão onde os mestres da verdade ensaiam as 1ªs lições».

-Ou então ainda no ano seguinte, em 1953:

-«a arte de bem escrever, a cumplicidade e a elegância não se improvisam».

-Algum tempo depois incentiva os seus alunos, dizendo -«eu rendo a minha homenagem àqueles que acolhem o nosso jornal e lhe facilitam ambiente e simpatia ou prestam o auxílio necessário».

-Ao 10º ano, em 1961, afirma -«faz 10 anos (…) deveis deixar aos vindouros este facho de luz, ou não lhe désseis o nome de estrela (…) ide em frente, norteados por um nobre ideal e na ânsia de sempre mais e melhor».

-E depois (ainda e também) em 1967 -«que esta Estrela não veja ocaso, mas continue sempre na rota de espargir luz e que a abundância das bênçãos do Senhor desça sobre todos os que a dirigem, são votos do vosso amigo neste 16º aniversário da Estrela Polar».

-E nas bodas de ouro sacerdotais dos Snr. D. João da Silva Campos Neves, em Maio de 1962, deixa um sinal de vida, ainda hoje e sempre actual, que deve orientar pela vida os jovens alunos em formação ou os sacerdotes em acção operando na vinha do Senhor : -« entre os sentimentos que devem encher a alma dos seminaristas e incendiar a sua vida está a devoção, o afecto e a submissão ao seu bispo.»

Frases, pensamentos, mensagens, orientações, ânimo e estímulo, era este o posicionamento do nosso Reitor, dando força e vida à vocação sem que ninguém quase desse conta donde soprava esse ar de estabilidade, firmeza e acção.

…Assim falava e falou por escrito o homem, o mestre, o Reitor!


-4- e que dizem ou diziam os alunos que ele era?

Que pensavam os alunos a seu respeito?

Que escreviam e escreveram esses jovens alunos sobre o seu Reitor ao longo desses anos?

Eu vou citar extractos do nosso jornal, acerca do homem que todos os anos festejava no dia 12 de Fevereiro o seu dia aniversário.


-Ao saber da sua nomeação para Reitor, assim falou a Estrela Polar pela voz e pena dos seus alunos:

-«Em Outubro de 1954 foi elevado ao cargo de Reitor do nosso seminário o Snr. Cónego Dr. Carlos Alberto Resende.

Bem merece esta distinção.

Regozijamo-nos com esta decisão ».

-Em diferentes datas e na rubrica mensal -Entre Nós ,do nosso jornal encontramos: o nosso reconhecimento, a sua preocupação, o nosso regozijo, a sua referência e o marco futuro.

-Em 1955, o reconhecimento de que -«é justo que rendamos homenagem a quem a merece, e a festa do dia 12 foi homenagem merecida por quem há tantos anos serve o seminário, gastando nele as melhores energias».

-Em 1958 a sua preocupação « para que nada falte aos seus seminaristas».

-Em 1959 o seu regozijo, escrevendo -«a 12 de Fevereiro o nosso seminário vestiu-se de gala,(...) num imperativo do nosso reconhecimento».

E nessa envolvência vivida há um aluno, hoje aqui presente, o nosso Maestro Pereira Pinto, que no remate de uma espontânea e belíssima poesia que escreveu, declamou, (e da qual só encontrei os 3 versos finais), dizia:

«Oh Deus, que não seja em vão

Que se dá de coração,

O Snr Reitor, a vós somente».

-Em 1962 é reconhecido como referência, porque: -«há longos anos que o dia 12 de Fevereiro é um marco referencial na vida do nosso seminário».

-Em 1963, elegem a data como ícone de agradecimento pois aguardamos com esperança este dia, desejamos-lhe um aniversário feliz, pleno de bênçãos para que possamos cantar por muitos anos um solene Te Deum» e dizem que «a parte musical esteve a cuidado do nosso orfeão, que pela 1ª vez cantou a missa de S.Pio X, de Bartoluccci», imponente composição a 4 vozes cujos acordes enchem de vida uma Sé e elevam a Deus as almas dedicadas.

-Em 1965 reconhecem que -«a simplicidade tem o condão de agigantar as íntimas coisas desde que elas levem o rótulo do amor». E por isso fui encontrar que -«durante o recreio a banda espontaneamente se organizou e procedeu a uma arruada através dos corredores» em honra do Snr.Reitor

-Em 1966 surge escrita a síntese dos opostos aos dizer-se que -«a homena-gem de aniversário que todos os anos dedicamos a Mons Reitor é sempre emoldurada pela singeleza da nossa pequenês, realçada e engrandecida pela humildade do aniversariante». Afirmando-se ainda que -«não é fácil exprimir quanto Mons é…», isto é, quanto Mons Vale; e nesse mesmo ano, o pedagogo, o intelectual e o superior é reconhecido como amigo do desporto pois lê-se nos arquivos que na tarde desse dia - -«se disputou no ginásio a finalíssima do campeonato de Ping Pong, tendo o vencedor recebido a Taça Mons Carlos Resende.»

-Em 1968,marcou-se definitivamente a primeira fase de um novo futuro nesse dia iniciado, ao escrever-se alegremente no nº 192 da Estrela Polar, que -«para ultimar a nossa satisfação o Snr. Reitor anunciou que íamos a casa nos feriados do carnaval…(arrancando) um espontâneo F.R.A, símbolo da nossa alegria …(rematando que) o dia passou, mas a amizade que nos liga a Mons Reitor não passará jamais».

…E não passou.

E por isso estamos agora aqui, os jovens de hoje e os jovens de há 50 anos.


5- E tu Adão, que dizes do Reitor?

Eu faço minhas todas as palavras que já disse, e gostaria muito de ser autor de tudo o que de belo, bem dito e escrito, ainda hoje aqui se vai dizer, mas especialmente dele eu, e só eu, guardo em arquivo sentimental e físico alguns documentos dele, assinados e em original guardados que marcam a relação: superior/aluno:

-a sua carta de 27 de Dezembro de 1968 a indicar-me o caminho do laicado e o fim da minha vida no seminário, dizendo a findar: «esforce-se por levar também a sua família a aceitar esta situação, que o Senhor o abençoe nestes momentos difíceis em que tem de dar novo rumo à sua vida».

-a certidão de habilitações e média final do curso, que permitiram alguns anos mais tarde, aquando da lei da equivalência, entrar na faculdade de Letras isento de exame de admissão à Universidade.

-a declaração em que abona o meu bom comportamento moral durante o meu tempo de seminário e que se supunha necessário e útil para na vida militar vestir a farda ou manejar uma arma na função oficial de oficial.

-a sua conversa íntima e última, ele eu e minha esposa, suas mãos nas minhas, no seu leito de esperada recuperação na cidade do Porto cujos termos e sentido guardo para sempre sem revelação verbal ou exposição escrita.

Mons Carlos Resende mostrou pelos seus actos e honrou com o seu valor a casa que estava à sua responsabilidade.

E se a vida andante não existe sempre porque a morte lhe dá fim, aqui estamos nós hoje em simbologia de continuidade a dizer que a morte não é o fim mas a portagem para outra existência bem real e diferente desta certamente.

Nesta época, caracterizada pelo domínio do egoísmo, as celebrações desta natureza têm um significado especial e obedecem à nobre intenção de guardar e resguardar a herança moral e intelectual do nossos anteriores, porque é nosso dever enaltecer as pessoas e os acontecimentos que fizeram o passado que chegou até ao nosso presente e que nós devemos deixar com valia acrescida para os nossos futuros.

E finalizo dizendo ao presente e ao futuro, aos professores e alunos, aos leigos e sacerdotes, ao povo da sua terra e familiares da sua família que Mons Carlos Resende foi e é:

-a expressão rigorosa da modéstia;

-um sinal vivo do saber dedicado;

-uma luz acesa no caminho;

-uma docilidade que encanta;

-uma voz actuante sem ruído;

-uma autoridade sem imposição;

-um respeitador das ideias alheias;

-…e o titular de uma alegria esfusiante

… que alimentou vidas e segurou vocações .


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Snr. Presidente da Câmara e estimado amigo, depois disto agora ouvido, do melhor que vai ainda ser dito, e do que todos sabemos e reconhecemos, deveria a autarquia orgulhar-se deste munícipe, assumir a diferença e honrar esta Vila com um espaço –(largo, rua ou avenida)- em honra do homem a quem hoje orgulhosamente todos homenageamos – Monsenhor Carlos Alberto Pinto Resende.


*Discurso proferido pelo Dr. Adão Pereira Sequeira da Fonseca, em 13 de Fevereiro de 2010, em Cinfães, na sessão de homenagem a Mons. Carlos Alberto Pinto Resende, no centenário do seu nascimento

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