quarta-feira, 29 de junho de 2011

Notícias do "Jornal de Resende", Junho de 2011*

Festa da Cereja de Resende em Sintra
Já se tornou uma tradição. Realiza-se no fim de semana seguinte ao o Festival em Resende. Lourel, uma localidade nos arredores de Sintra, foi inundada de cerejas do nosso concelho nos dias 4 e 5 de Junho. Na madrugada de sábado chegou, vinda de Paus, uma carrinha carregada de cerejas, conduzida por José Luís de Oliveira, a quem foi feita a encomenda de mil e duzentos quilos. Entretanto, um conterrâneo residente em Sintra, Joaquim Botelho, tinha-se feito à estrada em direcção a Resende, na quinta-feira, para recolher e adquirir outros produtos, designadamente cavacas, presuntos, salpicões, moiras, bolas, pão e doces regionais, tendo chegado também na madrugada de sábado. Pendões estrategicamente colocados nas ruas da localidade, diversos cartazes e o passa palavra alertaram a numerosa comunidade resendense, amigos e residentes para o evento. Era uma oportunidade para provar as nossas cerejas e outros produtos. A venda ao público começou cerca das 08h00, registando-se grande afluência de pessoas ao meio da manhã. Pelas 16h00, já tinham “desaparecido” cerca de novecentos quilos de cerejas, vendidas em caixas de dois quilos, ao preço de seis euros a embalagem.
O evento decorreu num espaço ao ar livre, propriedade do Sporting Clube de Lourel, cujo presidente da direcção é, por feliz coincidência, um resendense. Aí foram montadas diversas barracas para venda de produtos alimentares e peças de artesanato feitas em Resende e na zona de Sintra, cujos resultados reverteram a favor da futura sede da Casa do Concelho de Resende. A cereja, como rainha da festa, ocupou um lugar de destaque, ao fundo, defronte à entrada do recinto, onde foi montado um balcão para o efeito. Como não podia deixar de ser para incentivar o convívio, foi disponibilizada uma barraca de comes e bebes e de grelhados para as refeições. A tarde teve a animação musical do grupo “Teclas”.
No domingo, houve missa campal às 09h30, celebrada no recinto, em palco montado para o efeito, e abrilhantada pelo Grupo Coral da Casa de Resende. Às 12h30 teve início o almoço/convívio de resendenses, familiares e amigos, no qual participaram duzentas e cinco pessoas, além de convidados. A organização teve de anular várias inscrições por falta de vagas. Por calhar em dia de eleições, não esteve presente nenhum vereador da Câmara Municipal de Resende. Da Câmara de Sintra esteve presente o Sr. Vice-Presidente, Dr. Marco Almeida. Mais uma vez, Manuel do Rosário, o líder da comunidade resendense aqui radicada e pessoa influente junto das instituições locais, aproveitou a presença deste autarca para pedir o empenhamento da Câmara de Sintra no acompanhamento do processo do projecto da construção da tão ansiada sede da Casa de Resende, tendo informado os presentes dos obstáculos que se torna necessário ultrapassar. A tarde foi animada com a actuação da Banda União Mucifalense, de uma localidade próxima.
A Festa da Cereja é o principal evento da Casa de Resende que, no entender de Joaquim Pinto, presidente da direcção da Casa de Resende, ultrapassou este ano as expectativas, já que despoletou mais interesse do que é habitual. “Só é pena que sejam sempre os mesmos a dar o corpo ao manifesto na realização das várias actividades; é necessário, contudo, realçar a colaboração do Sr. Manuel do Rosário, que disponibiliza sempre alguns dos seus trabalhadores para montar o palco, as barracas e para outros afazeres”, rematou em jeito de balanço. Refira-se que, até ao fim do ano, irá ter lugar ainda o tradicional magusto, precedido de almoço, e a festa da consoada, que incluirá um almoço, uma tarde de teatro representado por jovens, entrega de prendas às crianças e lanche.

Inaugurada Rota dos Cerejais em S. João de Fontoura
Felizmente, as pessoas e as instituições do concelho estão cada vez mais a aproveitar as potencialidades da cereja, da Cereja de Resende, como uma marca distintiva do desenvolvimento económico. Resende é já uma referência a nível nacional por causa da cereja. Importa que o seja também pelos cerejais das nossas encostas, atraindo visitantes para verem in loco a paisagem deslumbrante das cerejeiras em flor ou carregadas de cerejas. O percurso pedestre da Rota dos Cerejais, da iniciativa da actual Junta de Freguesia de S. João de Fontoura, inaugurado no passado dia 10 de Junho, responde a esta necessidade, esperando-se que futuramente, em parceria com outras instituições, traga gente do concelho e sobretudo de fora .
A inauguração, que decorreu pelas 10h30, contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal, António Borges, e dos Vereadores Dulce Pereira e Albano Santos. António Borges destacou “…a importância desta iniciativa que se insere no aproveitamento das potencialidades das cerejeiras e das cerejas, em que a mancha de S. João de Fontoura é a testa virada para o Douro, dando continuidade a um verdadeiro anfiteatro paisagístico em que se integram outras freguesias". Referiu também o facto de esta rota vir enriquecer outros percursos do concelho, como a rota do românico, dos miradouros, da cerejeira em flor, do Vale do Cabrum e outros percursos serranos, o que é muito positivo para o concelho. Por fim, elogiou a Junta de Freguesia de S. João de Fontoura, aproveitando a ocasião para dizer que nem tudo tem de ser feito pela Câmara Municipal. Fernando Manuel, Presidente da Junta, expressou a sua satisfação pela concretização da Rota dos Cerejais, esperando que seja devidamente aproveitada pelas populações e que constitua uma oportunidade para atrair pessoas que venham admirar as nossas paisagens, em que sobressaem os cerejeiras.
Seguiu-se a caminhada pelos trilhos devidamente assinalados, numa extensão de cerca de seis quilómetros, com passagem por S. João/Igreja, Alufinha, Porto de Rei, Solar de Porto de Rei, Praia Fluvial, Santinho, Nadais de Baixo e Largo da sede da Junta de Freguesia. Cerca de cem caminhantes tiveram oportunidade de admirar os pomares de cerejais e vinhedos, colher figos na passagem, refrescar-se e beber água em fontes, deslumbrar-se com as encostas e a visão do Douro, embrenhar-se por entre carreiros e escadas, deter-se na harmonia entre cães, gatos e galinhas confinados numa cerca, trocar olhares de contentamento com idosos nas varandas e às portas de casa, encher de vida (por minutos) a pacatez das aldeias, enfim, ver o que olhos apressados não vêem, experimentando a aventura e a resistência do corpo.
O grupo era diversificado, com pessoas de todas as idades (dos 10 aos 70 anos), sendo provenientes de S. João de Fontoura, de outras freguesias do concelho e de naturais residentes no Porto. Demonstraram estar todas em grande forma, pois fizeram a caminhada em menos de duas horas, quando a previsão da duração era de duas horas e meia. Foi pena que esta caminhada não tivesse acontecido mais cedo, com os cerejais no seu máximo esplendor, isto é, carregados de cerejas. Seguiu-se um almoço/convívio com porco no espeto, outros grelhados, broa e caldo verde.
Refira-se que esta Rota teve o acompanhamento técnico de Eduardo Lyon de Castro e Bruno Cardoso (www.opalternativas.com), de Vila de Rei, que prestaram apoio na selecção dos trilhos e caminhos, fizeram a sinalização e conceberam a documentação de informação e divulgação. A Junta de Freguesia compromete-se, a partir de agora, a proceder à sua manutenção e à preservação da sinalética. Em princípio, haverá duas caminhadas por ano e sempre que haja propostas de grupos interessados. Espera-se que esta Rota dos Cerejais, no quadro de uma cultura de educação para a saúde e de uma pedagogia do contacto com a natureza e do andar a pé, se torne uma actividade integrante de um programa alargado de cariz turístico em torno da Cereja de Resende, como marca capaz de atrair cada vez mais pessoas ao nosso concelho.


Facebook mobiliza Felgueirenses

Começou por uma brincadeira de Francisco de Almeida, um adolescente de 11 anos, filho do Enfermeiro Álvaro Matos Almeida. “Pai, e se formasse um grupo com gente de Felgueiras no facebook?”, perguntou. “Força, rapaz”, foi a resposta. Actualmente “administra” o grupo naturais e amigos de Felgueiras, que foi tendo forte adesão, sendo constituído presentemente por cerca de trezentas pessoas. É uma rede espalhada por Felgueiras, Porto, Lisboa, Brasil, Bélgica, isto é, pelos mais diversos locais onde estejam naturais, familiares e amigos desta freguesia, que vão dando notícias, trocando mensagens e fotos, contando histórias, recordando acontecimentos e sedimentando amizades.
Este grupo realizou o I Encontro em Felgueiras, nos passados dias 10 e 11 de Junho, o qual integrou uma componente cultural e de convívio. No dia 10, às 21h00, teve lugar um recital de piano (de cauda, trazido propositadamente de Famalicão) por José Veloso Rito, que interpretou obras de sua autoria (a quase totalidade), de Vittorio Monti, Chopin e Franz Listz. A seguir ao concerto foi servido um Porto de honra com cavacas de Resende. Devido à excelência da interpretação e à originalidade e melodia das músicas, foi um serão que encantou a numerosa assistência, que encheu as duas salas da antiga escola de Felgueiras. Refira-se que José Veloso Rito, engenheiro civil e professor, tem o curso de piano do Conservatório do Porto, apresentando-se em público com regularidade em recitais e concertos, quer no país, quer no estrangeiro. Embora nascido no Porto, está ligado à Quinta da Boavista (Paus) e a Felgueiras por razões familiares, tendo aqui passado muitas férias na sua juventude, que animou com o seu acordeão.
No dia 11 teve lugar um animado almoço/convívio, que reuniu muitos residentes de Felgueiras, mas também um grande número de naturais , familiares e amigos desta freguesia, que se deslocaram propositadamente de Lisboa, Porto e outros pontos do país, em que por uma tarde a amizade “virtual” foi substituída pela realidade do encontro, das palavras e dos afectos, tendo contribuído para firmar uma identidade própria.
*Elaboradas por Marinho Borges e publicadas no Jornal de Resende, número de Junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

«A Sabedoria» - Um Livro do Pe. Paulo Alves*

Na Aula Magna do Instituto Piaget, em Viseu, teve lugar no dia 7 de Junho o lançamento do livro –«A Sabedoria - Definição, Multidimensionalidade e Avaliação» do Pe. Paulo Alves.
A apresentação de um livro e a sua colocação à disposição pública, (quando o fim não é essencialmente comercial), é sempre um ato de humildade pessoal, coragem inteletual e cedência cultural.
A cultura, o saber, a ciência e a sabedoria são património da comunidade e não reserva protegida dos seus detentores. Nestes termos é quase um dever imperativo partilhar e ceder à comunidade o saber por parte de quem o tem. As mil formas de o fazer têm o seu expoente máximo na apresentação em letra de forma e especialmente a sua publicação em livro.
Certamente assim pensou e por certo assim atuou o Pe. Paulo Alves ao publicar em livro a sua tese de doutoramento.
Padre da igreja católica, e natural de Penude, (terra fértil junto a Lamego) Paulo Alves é um dos expoentes promissores da Igreja Católica.
Após a sua ordenação em Agosto de 1986, foi pároco em Castro Daire, Vice Reitor do Seminário de Resende e agora Reitor do Seminário Maior de Lamego.
Em Castro Daire deixou marcas de apostolado, em Resende ficaram sinais vivos de estratégia pedagógica e gestão administrativa e em Lamego avultam já traços de renovação e rasgos de evolução metodológica na preparação de novos sacerdotes e utilização dos meios existentes.
É neste período e acumulando com a responsabilidade delegada e assumida que obtém a licenciatura em «Teologia» na Universidade Católica do Porto, mestrado em «Psicologia Pedagógica pela Universidade de Coimbra e agora o grau de Doutor em "Psicologia do Desenvolvimento" pela mesma Universidade.

À responsabilidade de Reitor do Seminário de Lamego junta presentemente a Regência Curricular de "Psicologia da Religião" na Universidade Católica, núcleo de Viseu e o de Professor Auxiliar no Instituto Piaget em Viseu onde coordena «o 1º ano da licenciatura em Psicologia» e «o 2º ciclo do Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento».
Esta responsabilidade ativa não o impediu nem impede de acompanhar devidamente a formação dos alunos do seminário de Lamego, conhecendo e vivendo de cada um as suas capacidades, apetências ou problemas, como ainda também lhe deixou espaço como investigador, responsável por uma das áreas do «Centro Internacional de Investigação e Reflexão Transdiciplinar».
Este é o o Homem.
A obra chama-se -«A Sabedoria»-.
Como diria hoje Camões, sabedoria, imagine-a quem não puder entendê-la mas é melhor entedê-la do que imaginá-la.
Nas suas 322 páginas de pensamento corrido, sem contar mais 50 de anexos e índices, entramos pelos meandros ainda não desbravados das perspetivas teológicas, filosóficas e históricas da sabedoria ao longo dos séculos, da sua interpretação psicológica bem como da sua estrutura multidimensional.
«A Sabedoria», este livro do Pe. Paulo Alves não é mais um livro, mas « o livro» de análise cuidada, tema atual, investigação consistente e divulgação necessária onde encontramos e é testada pela primeira vez em Portugal uma Escala Sobre a Sabedoria (ESS) da sua autoria.
Uma tese de doutoramento é sempre um trabalho exaustivo de profundidade e investigação garantidas que atesta a capacidade, atualidade, e visão do seu autor.
Este livro não é uma mera produção de ideias, exposição de fatos ou devaneio mental, é um trabalho profundo, defendido em tese na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra perante um juri qualificado e deveras exigente e a cujas asserções tive o grato prazer de assistir em 11 de Dezembro de 2009 e onde obteve a classificação máxima com «Distinção e Louvor».
Este livro e o seu autor entraram já na galeria das grandes referências do pensamento; ao integrar a coleção « Epigénese, Desenvolvimento e Psicologia» com o nº 105 e uma referência bibliográfica de mais de 300 autores, autor e obra emparceiram ao lado de ilustres pensadores mundiais da psicologia, evolução e desenvolvimento humano.
Se é verdade que a sabedoria está em todo lado e que «todas as culturas têm ou tiveram o seu ideal de sabedoria», é verdade também que ela é o problema central da condição humana que tem passado toda a sua existência na sua procura, aquisição, aprofundamento e evolução em constante caminhada ao longo de uma longa viagem sem termo nem descanso que todos percorremos e só alguns investigam e consolidam.
No gesto nobre de não esquecer na dedicação «todos aqueles com quem tenho aprendido», (e grande foi o número dos invocados), eu realço a ASEL que desde 2003 tão de perto com ele colaborou em Resende e a referência feita a sua mãe, pai e irmã, «pelo sentido de vida, pela sabedoria das coisas simples, pelo suor, pelo amor e pela fé», e foi por isso certamente também que viu a Aula Magna praticamente cheia de alunos, professores e amigos, entre os quais a honrosa presença dos Snrs. D. Jacinto Botelho, D. Ilídio Leandro e D. Manuel António, respetivamente bispos de Lamego, Viseu e S.Tomé e Princípe.
«Eu, sabedoria, habito com a prudência, possuo a ciência e a reflexão». (Prv. 8,12)
...Tal a profundidade deste livro...tal a preocupação do Pe. Paulo Alves a quem deixo o meu público louvor e sinceros parabéns.
*Adão Sequeira (Senhora da Hora, Junho 2011)

terça-feira, 31 de maio de 2011

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM FEIRÃO: Chamo-me Amadeu Pereira Pinto e nasci em Feirão há 80 anos*

Dados pessoais e familiares
Nasci no dia 29 de Março de 1931. O meu pai morreu perto dos 80 anos e a minha morreu com 48 anos. Tenho quatro irmãos e uma irmã. Felizmente ainda estão todos vivos, excepto a minha irmã. Esta morreu muito nova, com 18 anos, na região de Lisboa, para onde tinha ido trabalhar, pois já lá se encontrava um irmão. Ia a andar junto à linha do caminho de ferro, em Chelas, quando foi apanhada por um comboio. Três irmãos vivem em Lisboa; eu e um outro irmão ficamos por cá, em Feirão. Em termos de idade, sou o do meio. Tenho dois irmãos mais novos e dois mais velhos.
Antigamente chegou a haver no fundo da aldeia uma sala de aula, mas depois a professora foi-se embora e nunca foi substituída. Por isso, o meu pai ainda aprendeu a ler e a escrever. Chegou a escrever muitas cartas da tropa. A minha mãe ainda aprendeu qualquer coisita, mas pouco. Eu infelizmente nunca fui à escola, pois no meu tempo não havia professor. Dois dos meus irmãos aprenderam a ler e a escrever em Lisboa.
Tenho sete filhos (duas filhas e cinco filhos). Quatro vivem na Marinha Grande, um em Lisboa, um em França e um Feirão. E tenho quinze netos e três bisnetos. Os meus filhos frequentaram cá a escola e fizeram todos a quarta classe. A vida também não foi fácil para eles, já que, de manhãzinha, muitas vezes por volta das 7 horas, saiam para o monte com o gado antes de ir para as aulas pelas 9 horas. À tarde, depois da escola, voltavam outra vez a guardar o gado.
Casei quando tinha 24 anos com uma rapariga aqui de Feirão. Morreu há dois e pouco. Tinha então 77 anos. Foi a maior perda da minha vida. A vida de um homem sem uma mulher não é nada. E então nesta idade, pior ainda. Depois da morte dela, a minha vida ficou escangalhada. Naquela altura, passei muitas noites sem dormir e até me vi obrigado a pedir ao médico que receitasse qualquer coisa para dormir. Agora vivo aqui com a minha filha.

Até aos 16 anos, em Feirão
Os meus pais sempre foram caseiros e tiveram uma vida difícil. A fonte de maior rendimento era o gado. E também era uma base para a alimentação através do leite e queijo. A minha mãe e a minha mulher chegaram a fazer bastante queijo. Embora houvesse bastante cereais e os meus pais cozessem pão com alguma frequência, recordo-me de em pequeno ter ido pedir pão a Cotelo.
A partir dos seis/sete anos, a minha vida passava-se nos montes a guardar o gado. Os meus pais chegaram a ter quatro vacas e cerca de quinze ovelhas. Saía por volta das 9 horas. Ao meio dia, um dos meus irmãos ia levar-me o almoço numa marmita e ao anoitecer voltava para baixo. Cada um ia para as suas tapadas. Nestas só os donos é que podiam entrar. Nos montes andava-se à vontade com o gado e ninguém ralhava.

No Douro até à reforma
A partir dos dezasseis anos fui para o Douro trabalhar durante todo o ano e não apenas nas vindimas e na poda. Ia a pé por Bigorne, Lamego, seguindo depois até à Régua. Aí continuava a pé, no caso de os patrões ou feitores não nos virem buscar em camionetas. Cheguei a ir a pé até às quintas do Pinhão. Só vinha cá nas festas e de vez em quando para vir buscar pão. Sem contar com a época das vindimas, havia sempre que fazer. Em Outubro/Novembro, fazia-se a cava da água. Em Março/Abril, fazia-se a cava da vinha para pôr adubo. Havia ainda a apanha e a limpeza dos ramos da poda, a desfolha, a sulfatagem…, não contando com a apanha das azeitonas.
Percorri muitas quintas por esse Douro fora. Recordo-me de ter trabalhado em Loureiro, Vilarinho de Freires, Vila Nova de Poiares, Quinta do Crasto, Covas do Douro, Quinta do Noval, Quinta do Vale de Figueiras, Quinta das Sopas de Cima e Quinta das Sopas de Baixo.
Quando comecei a trabalhar no Douro, muitas vezes não andava com estômago aconchegado. Em muitas quintas, havia dez a quinze trabalhadores permanentes. Logo que nos levantávamos, tomávamos o mata-bicho com bagaço e broa. O pão não era fornecido pelo patrão. Ao almoço, era servido um caldo. Ao jantar, a seguir ao caldo era servido um prato de arroz com feijão. Na ceia, normalmente repetia-se a ementa do jantar. Quando o trabalho era mais duro ou em noites em que tínhamos de ir para o lagar, comia-se um pouco melhor. Acrescentavam uma posta de bacalhau ou sardinhas. Tenho de confessar que às vezes ficava com fome. Só para ter uma ideia das dificuldades, lembro-lhe que chegaram a servir caldo sem adubo. Para fazer frente à pouca comida, chegávamos a ir à Régua ou Pinhão comprar couratos, porque era o que se encontrava mais barato para fazer umas sandes, quando a fome apertava.
Uma excepção acontecia numa quinta em Vila Nova de Poiares. O dono, o Sr. Valente Costa, que vivia durante o resto do ano no Porto, gostava de nos ver satisfeitos. Mandava matar de três em três dias um borrego. E falava com os trabalhadores como se fossem da família.
Agora, olhando para trás, acho que foi um tempo em que tive oportunidade de conhecer outras gentes e terras. Também serviu para abrir os olhos. E apesar do trabalho duro, sobrava tempo para nos divertirmos. As rogas levavam músicos para acompanhar o trabalho da sova e fazer uns bailaricos nos fins de semana.

Operação a um joelho
Como já lhe disse, felizmente não tenho tido problemas de saúde. Aqui na serra o ar puro e a água curam todas as maleitas. A única operação que fiz foi a um joelho, o da perna direita. Começou-me a doer bastante e fui a um médico que me receitou umas injecções, mas não passava. Por isso, fui a um médico dos ossos a Lamego, que não esteve com meias medidas, pois, ao ver a infecção a alastrar , lancetou o joelho a frio, o que fez com que saísse muito pus. Mas não notei melhoras, pois as dores continuaram.
Então, um dos meus filhos, que está na Marinha Grande, levou-me a uma consulta ao hospital de Leiria. Uma biopsia e uma ecografia não acusaram nada. O médico achou estranho e, por isso mandou fazer um exame complicado, tendo ido para um túnel, onde me deitaram para ser fotografado. Acho que chamam a isto ir fazer um TAC. O médico, ao ver o resultado, ficou assustado e disse: “oh homem, você tem de ser operado já”. Passados poucos dias, fui para a faca. Já na sala de operações, deram-me uma injecção. Depois de alguns minutos, a médica perguntou-me que é que sentia e eu disse: “começo a sentir as pernas dormentes”. E eu só ouvi: “isso é que é preciso”. Até que comecei a não sentir nada da parte debaixo do corpo. O médico começou o trabalho e eu a ver tudo. Fez três buracos e foi raspando tudo. Ao ouvir “correu tudo bem”, fiquei satisfeito. Depois, levaram-me para uma enfermaria e alguém ficou espantado por estar com o relógio. Eu disse: “eu não escondi nada; já me levaram assim lá para dentro”.
Ao outro dia, fui para casa do meu filho e comecei a melhorar. Fiz um esforço por ir andando devagarinho e foi assim que em pouco tempo me curei.

Vida realizada
Estou com oitenta anos e sinto-me uma pessoa realizada. Acho que eduquei bem os meus filhos. Têm todos uma vida bem organizada. São muito meus amigos e telefonam frequentemente a saber de mim.
Parti do zero, pois não herdei nada dos meus pais. Andei no Douro até aos sessenta anos. Lembro-me de ganhar oito escudos ao dia. Depois o ordenado subiu para dez, doze, quinze e por aí acima. Com o dinheiro que ganhei ajudei a criar os meus sete filhos, comprei e ampliei uma casa e adquiri várias propriedades. A minha mulher também trabalhou muito, pois teve de cuidar sozinha de casa e de sete filhos. Estes deram uma grande ajuda, tomando conta do gado. Cheguei a ter quinze ovelhas, três cabras e dois ou três bezerros.
Com a reforma e com o que tenho vivo bem. Ainda ajudo a minha filha e genro na guarda do gado. Os meus filhos que vivem na Marinha Grande insistem muito para que passe lá umas temporadas. Às vezes, cedo e vou, mas estou sempre com vontade de regressar a Feirão. É aqui que me sinto bem. Estes montes e estes ares dão-me saúde. Por insistência do meu filho, emigrado em Paris, fui até lá com a minha mulher. Subi a Torre Eiffel e visitei os Campos Elísios. A propósito da Marinha Grande, sabia que há cerca de cinquenta pessoas de Feirão a viver lá? Uns foram chamando os outros a partir de 1965. A maioria encontra-se a trabalhar nas fábricas de vidros e felizmente não conheço ninguém desempregado. No Verão vêm até cá e isto anima muito.
Mesmo sem cafés gosto disto. Vou por aí, converso com as pessoas e gosto de ir até aos campos. De forma permanente, ainda vivem cá cerca de cinquenta moradores. Dez trabalham no Douro. Há cinco crianças. Várias pessoas que ficaram por cá vivem das terras e do gado. Ainda há dois rebanhos de ovelhas e muita gente cria vacas. Embora menos do que antigamente, há muitas terras cultivadas com batatas, milho, centeio e feno.
À noite, vejo alguma televisão para me distrair. Mas para lhe ser franco, até gosto mais de ouvir rádio.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.


*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Grande entrevista de António Borges ao semanário "Douro Hoje" (Edição de 27-04-2011)*

O concelho de Resende continua a mudar. No terreno estão mais de 25 milhões de euros em obras, nas áreas da educação, modernização dos espaços urbanos, requalificação e melhoria da qualidade de vida em todas as freguesias.
António Borges, presidente da Câmara abraçou este desafio há quase três mandatos, e acredita que este concelho no interior do país continua a ser uma importante peça no puzzle na construção de uma cidadania onde há igualdade de oportunidades.
Como presidente da Associação de Municípios do Vale do Douro Sul acredita que uma das solução para os problemas para a crise é a conjugação de esforços e apela para que o país saiba escolher entre o progresso e a infra estruturação de Portugal, em vez de ficarmos parados à espera que a crise passe.


Douro Hoje- Como avalia este momento político e social que o país vive?
António Borges
- Em primeiro lugar, não há outra maneira de resolver os problemas: com trabalho. Caso não se entendam as coisas de outra forma no futuro pagaremos uma fatura muito alta. Se não tivermos sustentabilidade naquilo que fazemos e se esta não resultar do nosso próprio esforço tudo se perderá. O grande problema do futuro de Resende e da região Douro, é também achar que não devemos ter ambição. O que estamos a fazer em Resende é criarmos a tradição de estarmos na linha da frente dos desafios de uma sociedade contemporânea. Eu acho que, numa altura como esta, e num concelho como este, hipotecar o futuro é não termos feito aquilo que já criámos em Resende e, assim hipotecar o futuro das próximas gerações: é não termos a água, nem saneamento, ter as nossas estradas esburacadas, más acessibilidades, as mais altas taxas de abandono e insucesso escolar, e termos níveis de qualificação muito reduzidos, espaços urbanos decadentes e falta de tecido económico. Essa é a verdadeira questão.

DH- Portanto, a sua grande aposta são as pessoas…
AB
- A desertificação é uma questão que se coloca em Resende e à região e por isso temos de estabelecer todos os passos para que as nossas populações tenham as suas oportunidades. Não há nenhum concelho, região ou país que possa subsistir sem níveis de qualificação adequados, vocações territoriais e sem atividade económica. Em Resende, há por vezes, a ideia que temos uma abordagem muita politiqueira do desenvolvimento do país e em especial do interior, e tem-se passado a ideia que não precisamos de investimento. É óbvio que precisamos de investir, de qualificar as nossas populações e os nossos municípios e dar-lhe assim dinâmica territorial.

DH- Como caracteriza o trabalho desenvolvido ao longo destes anos no seu concelho?
AB
- Os passos que temos dado em Resende podem situar-se em 3 grandes domínios: a qualidade infra-estrutural do nosso território, a qualificação dos nossos recursos humanos (empresários e cidadãos em geral) de níveis de conhecimento e de desempenho essenciais para o desenvolvimento da região, e também o desempenho institucional. Não vou negar que na minha qualidade de presidente da Associação de municípios do Vale do Douro Sul noto a ideia de que cada um a trabalhar para o seu lado, dê frutos no imediato, mas depois tudo acaba por ficar aquém do que se consegue noutros domínios. Um presidente de Câmara tem obrigação de não baixar o nível. Tem obrigação como responsável político de encontrar caminhos, de os afirmar. Insultar não é a melhor forma de se estar na política.

DH - Como encontrou Resende ?
AB
- Partimos do zero. Naturalmente isso pode ter algumas vantagens, mas fizemos um caminho muito consistente. Nunca parámos e criámos uma marca e conseguimos modernizar o concelho. Só para dar a ideia que, neste momento temos em curso, com grande esforço adjudicados mais de 25 milhões de euros em obra, na área da qualificação urbana e da educação. Já está adjudicado o último centro escolar, a requalificação da escola secundária e preparatória (cerca de 12 milhões de euros), a conclusão do novo quartel da GNR, a ampliação do quartel dos bombeiros, o novo estádio municipal, o fórum municipal (recuperação do antigo mercado) que está já tem contrato assinado de adjudicação e a adjudicação da primeira fase do nosso parque urbano.

DH- Um autarca deve pautar pela diferença?
AB
- Enquanto presidente da câmara tenho a noção muito clara das nossas responsabilidades e acho que continuar a modernizar os nossos concelhos e a nós como autarcas. Há que perceber que em qualquer organização as lideranças fazem toda a diferença: eu não estou aqui para passar as responsabilidades para os outros ou criar ruídos, para depois me desculpar para aquilo que não sou capaz de fazer. Nunca passei culpas na câmara, apesar de algumas dificuldades. Temos de crescer a nível de desempenho institucional no douro sul. Aqui nada nos vem ter ao colo. Eu faço parte daquele conjunto de presidentes que têm de andar com os projetos ao colo, para que aconteçam. Recordo do enorme esforço que fizemos ao nível da água e saneamento, já que tínhamos uma das mais baixas taxas de cobertura da região, requalificámos a vila de S. Martinho de Mouros, as nossas escolas, criámos equipamentos desportivos de grande nível, estamos a valorizar a nossa base produtiva tradicional.

DH- A sua ideia é modernizar a vila e o concelho?
AB
- Hipotecar o futuro, como aconteceu até agora, é ter as mais altas taxas de abandono e insucesso escolar, ter as nossas vilas e cidades num estado deplorável e que repulsam aquilo que a é a própria atividade económica e a qualidade de vida das populações. Há que perceber que em Resende foram muitos anos praticamente paralisados. Naturalmente na região, e queria dar nota, que tenho esta declaração de interesses, como militante do partido socialista, no norte do distrito nós temos de ser capazes de ir mais além, e muitas vezes quando se fala em partidos e políticas, eu queria, apesar de tudo relevar, num momento como este, alguns investimentos importantes e estruturantes da região, que têm o selo e a marca do partido Socialista: o Museu do Douro, a Escola de Hotelaria de Lamego, o novo hospital de Lamego, o sistema de abastecimento do Balsemão, a requalificação da rede escolar que dará outro perfil ao cidadão. Portanto, quando muitas vezes, dizemos que isto é algo sem sentido, esquecemo-nos que por vezes, é por aqui o caminho. Muitas vezes, as pessoas só não querem os investimentos à sua porta, uma lógica de capelinha que está instalada nos concelhos e no país. Todos querem uma auto estrada à sua porta, mas ninguém quer uma acessibilidade capaz quando se trata do vizinho do lado. A nossa função é lutar pelas nossas populações e exigir aquilo que também temos direito: infra estruturas que introduzam nos nossos territórios níveis de competitividade.

DH - Estalou uma polémica com a capacidade de internamento do hospital a construir em Lamego. O que pensa disso?
AB
- Estamos a investir na saúde como nunca se investiu. Resende tem dois hospitais a ser construídos num raio de 50 quilómetros: Lamego e Amarante, como não acontecia há um século. Um hospital de nova geração em Lamego que representa um investimento de 50 milhões não deve ser posto em causa, e por isso não podemos ter a mesma abordagem da saúde como há 20 anos. A cirurgia de ambulatório é uma prática crescente. Por isso, percebo mal este tipo de abordagem ao novo hospital, por que em Lamego deveríamos marcar com uma enorme satisfação aquilo que está a ser feito. Naturalmente é mais fácil falar do que fazer, uns falaram sempre e nunca fizeram e outros fizeram concretamente. Se o problema é de camas, seria uma boa proposta para Lamego e para a região era consolidar o investimento que está a ser feito, não o politizar e não instrumentalizá-lo na lógica política e partidária, era transformar as instalações do antigo hospital numa unidade de cuidados continuados e assim conseguirmos mais camas. Esta seria uma forma útil e contributiva para desenvolver a região.
Eu já fui presidente de Câmara com um governo de direita e a minha preocupação sempre foi consensualizar. Nunca usei a Câmara de Resende para fazer política partidária e referi muito poucas vezes o nome do meu partido, ao longo destes anos, quando tenho de gerir os interesses do meu concelho. Recordo que tínhamos hospitais a cair, que eram espaços de grande degradação e desumanidade em relação às pessoas.
Quando finalmente estamos a fazer algo as pessoas vem para a rua com politiquice, pondo em causa aquilo que é uma nova forma e conceito e qualidade de serviço.

DH- A Scut’s ficaram em stand by, mas o que pensa do conceito de utilizador pagador?
AB
- O país está numa situação complicada e quando não há recursos para cumprir com determinados compromissos há que ajustarmo-nos às realidades.
Eu aceito a lógica do princípio do utilizador pagador e aceito que é algo de inultrapassável em função daquilo que é a situação económica que atravessamos.
Mas ao colocarmos as questões do pagamentos das scut’s na região, temos de ter a garantia que serão feitos determinados investimentos nas nossas acessibilidades, tais como o IC26, e resolver as acessibilidades a concelhos como Tabuaço, Pesqueira e Resende e Cinfães, que têm são das piores do país. Eu pessoalmente troco o pagamento das portagens pelos investimentos que faltam em termos de acessibilidades na região. E percebo que tenhamos de nos ajustar todos!

DH- Em Resende o que faz falta em termos de acessos rodoviários?
AB - Em Resende estamos a falar da ligação a Baião (Ponte da Ermida) que nos coloca nas portas da área metropolitana do Porto, (a menos de 40 minutos), a ligação de Resende a Bigorne pela A24.

DH- Mas com todos estes condicionalismos financeiros há investimentos em causa…
AB
- No município estabeleci um desagravamento fiscal de 4% para todos que têm domicílio fiscal em Resende, mas confesso que prevendo mais cortes, será algo muito difícil.
Não só manter os 4%, mas sim atingir os 5% que é o meu compromisso e a margem que a Câmara tem para desagravamento fiscal. Não vou querer falhar esse compromisso, mas vou ter de ajustar o próprio funcionamento da Câmara para aquilo que é a realidade do país.
Espero que seja concretizada a rede pública de banda larga em Resende, ainda este ano, que modificará a estrutura social e económica do concelho.
Baixar os braços e pensar que não temos de investir na qualificação dos nossos territórios, termos respostas ao nível de serviço público, pensar que podemos abandonar as populações mais débeis nesta região, não ter políticas capazes sociais capazes e naturalmente acharmos que o país tem de parar e se cairmos nesse erro isso será fatal em relação ao futuro.

DH – Numa conferência realizada pela Associação de Municípios já tinham abordado os problemas que as câmaras iriam enfrentar no futuro…
AB- Sim. Em 2007 as operações financeiras realizadas pelas autarquias tinham spred zero o 0,2%, e hoje em dia estes valores dispararam para 4 ou 5%, ou pura e simplesmente não são concedidos empréstimos.
Continuou a afirmar que o que nos dividirá no futuro passa por fazer uma forte estruturação em especial das zonas mais atrasadas e o que nos separará no futuro é a linha que separa hoje a direita da esquerda (a direita acha que temos de parar) eu pessoalmente acho que nós não podemos desistir de parte do país para que outra parte do país continue.

DH – Caldas de Aregos foi a cereja no topo do bolo..
AB
- Caldas de Aregos estava numa situação absolutamente insustentável, o balneário estava por acabar e fechado uma boa parte do ano, não havia animação. Por isso tomamos posição dominante naquilo que poderá ser o grande pilar de desenvolvimento do concelho e da região: o recurso termal de Caldas de Aregos. Estamos a construir aqui as bases para uma empregabilidade mais forte, e já fizemos alguns investimentos como a colocação de um multibanco, um posto de abastecimento de combustíveis e em breve, será restabelecida a travessia no Douro, numa parceria entre a Câmara de Resende e Baião e o IPTM.
Por força da operação que fizemos o município adquiriu duas empresas: a Companhia das Águas de Caldas de Aregos e a Sociedade de Hotéis de Caldas de Aregos que foram transformadas há um ano em empresas municipais. No futuro vamos fundir as empresas e lançar um concurso público internacional para que no capital social da nova empresa que resultará desta fusão possamos integrar os parceiros privados. Desta forma será possível promover a construção do novo hotel termal, um spa termal, a atualização do concelho termal e da componente turístico-imobiliária que está subjacente a todo o aproveitamento e que representará alojamento complementar. Esta era a parceira que se impunha.

DH- A cereja também é uma grande mais valia...
AB
- Não havia praticamente tradição de cereja, mas hoje somos o principal produtor do norte do país. Temos 24% da produção naci
onal e claramente a melhor cereja do país, e que primeiro entra no mercado em toda a Europa. É sem dúvida um contributo para a economia nacional e para a economia familiar. Este é o caminho que valoriza a base produtiva e por isso não podemos achar que o mundo rural é algo que não nos diz respeito.
Só conseguimos ter politicas assertivas e sérias se não deixarmos ninguém para trás, ao desenvolver apenas espaços urbanos e deixar importantes manchas de território. As políticas do município procuram uma lógica de rede e não vamos ninguém para trás. Nas freguesias onde as questões sociais são mais importantes estamos a criar redes sociais: lares de idosos em S. Romão e Felgueiras, mas temos freguesias com dinâmicas demográficas diferentes como Freigil e Anreade onde erguemos equipamentos desportivos, em S. João de Fontoura criamos uma relação forte com o Douro com parque fluvial de Porto rei, e requalificamos centros urbanos como S. Martinho, e em S. Cipriano vamos construir o centro escolar, cujo investimento será de 1 milhão de euros num auditório .

DH- A energia eólica é um importante vetor da economia do concelho
AB
- Parque eólico uma grande oportunidade. Afinal de conta não somo uma terra de ninguém. Contribuímos em muito para a agricultura e recordo que em termos de energia produzimos seis vezes mais daquilo que consumimos.
Se todos os concelhos fizessem isso provavelmente os nossos problemas de desequilíbrio da balança de transacções correntes, e nosso problema de défice externo provavelmente não tinha este contexto.

DH- Planos para o futuro
AB
- A minha vida como autarca nunca foi fácil e acredito que neste momento cabe a nós sermos mais criativos, generosos e ainda mais atentos. Em Resende não há navegação à vista. Temos um planeamento estratégico em cada mandato que contextualiza as nossas metas.
A educação, a empregabilidade e a qualificação são algo que nos mobiliza. Tudo isto não se fará num ano. Recordo que quando o país for chamado a decidir nas próximas eleições tem de ponderar entre desistir do país o, continuar o desafio da modernização e pela luta de um desenvolvimento equilibrado.
É muito importante para os políticos e presidentes de câmara nunca baixarem o nível da discussão política no seu concelho e nem deve recorrer, ou deixar envolver-se em discussões que desprestigiem o seu nível de representatividade.

DH- Portanto, Resende está na marcha dos grandes desafios...
AB
- O grande desafio é conseguir sustentabilidade económica e empregabilidade. Se a Câmara não introduzir uma atitude indutora do próprio desenvolvimento económico e empregabilidade do concelho, tudo demorará mais a acontecer.

*Entrevista conduzida por Iolanda Vilar, que se transcreve para este blogue com devida vénia.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

HISTÓRIAS DE UMA VIDA … EM S. MARTINHO DE MOUROS: Chamo-me Brasila Cardoso e nasci em Santos, Brasil, há 93 anos*


Nascimento no Brasil

Antigamente a vida era muito difícil. Não havia trabalho e passava-se muita fome. Por isso, quem tivesse oportunidade de sair de cá não pensava duas vezes. Na altura, havia muitas pessoas daqui no Brasil. Sabia-se que a alguns correu bem a vida e até enriqueceram. Temos até o exemplo da igreja do Calvário. Uma das torres, a do lado esquerdo, foi mandada construir por um senhor de S. Martinho, emigrante no Brasil. Foi erguida quando tinha eu à volta de trinta anos. A torre do lado direito já exista quando nasci e dizem que foi uma oferta do senhor da Casa da Soenga. O meu pai, que era natural do Testamento, também emigrou para o Brasil. Não me pergunte quem lhe mandou a carta de chamada. Às tantas, foi algum familiar. Entretanto, veio cá de férias e conheceu a minha mãe. Ficou por cá uns meses largos e casaram. Só lhe digo que para cá vir é porque a vida lhe correu bem. Conheci alguns que deixaram cá mulher e filhos e abalaram para o Brasil. No princípio ainda escreviam e até mandavam algum dinheiro. Depois intervalavam cada vez mais até que a família deixava de receber notícias. Arranjavam por lá outras mulheres e a de cá tinha de se arranjar mais os filhos. Os meus pais lá foram casadinhos para o Brasil. Nasci em Santos, a 9 de Abril de 1918. Os meus pais puseram-me o nome de Brasila por ter nascido no Brasil. A minha mãe teve por lá seis filhos. Nascia em média um de dois em dois anos. Vim de lá muito pequena e, por isso, não me lembro praticamente nada desses tempos. Só sei dizer que era bem tratada e a casa era farta. Ao cabo de seis filhos, a minha mãe ficou muito doente. O médico, ao vê-la assim tão mal, disse para o meu pai: “ou a leva quanto antes para Portugal ou morre”. Acho que a minha mãe se encontrava muito fraquinha. Às tantas, foi algum mosquito. Quem ia daqui não estava preparado para enfrentar aquele clima e aquelas doenças. E ter de alimentar e educar seis filhos foi obra, o que deixava qualquer mulher com menos forças para vencer as maleitas que aparecessem.

Na quinta dos Chões, em Peneda

Seguindo o conselho do médico, viemos todos para Portugal. Com o dinheiro que conseguiram trazer os meus pais compraram uma quinta junto à povoação de Peneda. Aqui passámos uma vida boa. Era uma terra farta que tinha muita água, produzia muita batata e cereais e dava muita fruta e vinho. Os meus pais não eram uns moiros de trabalho como acontecia com tantos. Na altura de mais aperto rogavam trabalhadores das redondezas. Isto quer dizer que tinham dinheiro. Infelizmente andei pouco tempo na escola, pois ficava longe. Naquela época, também nada acontecia se se abandonasse a escola. E não era costume as raparigas andarem por aí para aprender a ler e escrever. Tenho pena que os meus pais não me obrigassem. Mas que se há-de fazer? Quando era mais crescida, chegava a sair nas tardes de domingo com três grandes amigas para ir aos bailes que se faziam por aí nos largos e eiras, junto às tabernas e vendas. Realizavam-se em muitos locais, como na Ponte, Testamento e Santa Eulália. Às vezes, ia com a minha irmã. Dizia à minha mãe: “vamos dar uma volta”. A pessoa saía, divertia-se e ela nem se apercebia ou, pelo menos, assim dava a entender. Fazia de conta, acho eu, porque se tivesse de enfrentar a verdade, ela não deixava. Nos bailes era muito notada. Diziam logo: “aí vem a filha do Sr. Cardosinho e da Sra. Carlotinha”. Muitos rapazes andaram atrás de mim. Os meus pais chegaram a ter criada e uma venda. Matavam dois porcos. Sabiam que era filha de gente rica. Entretanto, a minha mãe teve aqui mais seis filhos. Lá se criaram, porque a quinta dava de tudo. O meu pai morreu relativamente novo. Não sei de quê, mas antigamente era mais fácil morrer que hoje. Os médicos auscultavam, sim senhor, mas a doença era assim achada a olho. A receita era descanso, uns caldos brancos de galinha e uns chás quentes. Mas se calhasse a ser uma doença ruim, ou se a pessoa fosse mais de idade, lá marchava para debaixo da terra. Já com os filhos criados e depois da morte do meu pai, a minha mãe vendeu tudo o que cá tinha e voltou para o Brasil. Seis dos meus irmãos seguiram-lhe o exemplo e também foram. No início, ainda foram escrevendo, mas depois foram espaçando. Por lá ficaram e, depois de uma certa altura, nunca mais soube nada deles. Nem sei se estão vivos. Aqui só tenho uma irmã viva. Soube que a minha mãe morreu com mais de cem anos. Era má e rija. Sinceramente, da minha mãe não guardo grandes saudades. Acho que não tinha assim tanto amor por nós. Não encontro explicação para o caso de ela ter vendido tudo sem consultar os filhos e partir para o Brasil. Vendeu tudo, incluindo o que de direito pertencia aos filhos. Enganou-nos a todos. E isso não se faz. Considero-a uma mãe madrasta. Casei pobre. Caso contrário, tinha avançado para a frente com a justiça.

Muitos filhos para criar

Casei com vinte anos. Fui viver para o Pereiro para uma casa pela qual pagava renda. O meu marido era almocreve. Acartava um pouco de tudo, mas principalmente vinho, aguardente e jeropiga. Passados nove meses depois do casamento, tive logo o primeiro filho. Vim a ter doze filhos tal como a minha mãe. Dez estão vivos. Um dos filhos morreu durante o parto. Talvez se fosse hoje, as coisas correriam de modo diferente. Antigamente era preciso ter sorte, porque só tínhamos a ajuda de uma senhora que aprendeu à sua custa. Também me morreu uma filha, já com vinte e dois anos. Estava a servir e foi atropelada por um carro. Caiu para trás e teve morte imediata. Morreu assim por lá. Não recebemos qualquer indemnização. Quem é pobre é assim. Tem de se ficar quieto, porque para a gente se mexer é preciso dinheiro. No caso, cozinharam a informação como quiseram, ao gosto deles, e a gente nem pio. Os filhos estão espalhados pela Suíça, Leiria e região de Lisboa. Um deles está aqui comigo. Nunca casou e foi ficando por cá. Felizmente consegui criar os meus filhos sem fome. Claro que não havia carne nem sardinhas todos os dias, mas havia sempre qualquer coisa para encher a barriga. Como na maior parte da vida fiz umas terrinhas, havia pelo menos umas batatinha cozidas, um caldinho e pãozinho. Tinha de poupar muito. Antigamente, aproveitava-se tudo. Até as panelas de barro partidas se davam para compor. Os que sabiam do ofício ligavam os bocados com ganchos do cabelo, fazendo um furinho a que depois juntavam uma massa.

Violência doméstica

Vivi em vários locais. Uma vezes, fomos caseiros, o que era melhor, pois havia mais terras para cultivar; outras vezes, ficávamos numa casa arrendada. Nestes casos, o meu marido tinha de dar dias fora e ir ao Douro. Depois do casamento, abandonou a vida de almocreve. Por fim, vim para esta casa, aqui em Cavalhão, que foi herdada dos meus sogros. Fizemos obras, ficando um pouco maior. O meu marido morreu há vinte e dois anos. Esteve vários meses doente. Nem sei de que é que morreu. Sabe, era uma pessoa que bebia muito e isso transtornava-o. Apanhei muita porradinha. Até na cama me batia. Era de todas as maneiras e feitios. Era à bofetada, com um pau ou com uma correia. Os meus pais queriam que casasse rica, mas não tive essa sorte. Puxei para um homem assim e ainda por cima pobre. Lembro-me de uma vez ter aparecido em casa do meu pai com uma vista toda inchada. Virou-se para mim todo pesaroso e disse: “tu, além de te veres aflita para arranjar comida, ainda levas por cima”. Hoje fala-se muito em violência doméstica e as pessoas felizmente já podem fazer queixa. Antigamente, levava-se porrada com fartura e ninguém acudia nem dizia nada. Havia fome em muitas casas, mas porradinha não faltava. Os meus filhos não podiam acudir nem arrebitar. Se o fizessem, apanhavam logo tareia. Também passaram muito.


Apoio da Irmandade de S. Francisco Xavier

Há vários anos que recebo apoio da Irmandade de S. Francisco Xavier. É gente muito boa e simpática, a começar pelo Sr. António Fonseca, que só não faz mais por nós porque não pode. E é muito respeitador. Com ele ia até ao fim do mundo. O meu filho que está aqui comigo recebia o rendimento mínimo, mas, como deu uns dias fora, foi logo acusado. A comida vem do lar pelo meio dia. Em princípio, é para o almoço e jantar, mas à noite o meu filho faz qualquer coisa. De oito em oito dias, as empregadas do lar vêm cá fazer uma limpeza geral e também mudam a roupa. Sempre que preciso de ir ao médico a Resende, às urgências, a Irmandade faz o favor e vou numa carrinha deles. Ainda ontem senti necessidade de ir ao médico, porque sentia dores num joelho e no pescoço; parecia que um nervo ia saltar cá para fora. O doutor deu-me uma bisnaga para esfregar. Vamos lá a ver se isto passa. Fui numa carrinha do lar e uma empregada andou sempre comigo. Não falto aos almoços e passeios da Irmandade. Quando nos juntamos todos, é uma pândega. O lar já está pronto; falta só inaugurá-lo. É uma obra importante para os mais velhos. Quando a gente não se puder arrastar vai para lá. Acho que já lá tenho lugar. Sempre é melhor do que ir para Resende. Aqui conhecemo-nos uns aos outros, o que faz com que conversemos mais facilmente e isso ajuda a passar o tempo. Já tirei um peito e tenho uma pilha no coração. Tomo muitos medicamentos, embora durma bem e seja raro perder o apetite. Encontra-me aqui na cama, mas isto é mais preguiça. Sabe-me bem, porque hoje está muito frio. Às vezes, pergunto-me por que é que ando aqui. Mas quem é que gosta de morrer? A morte é negra. Quando a vejo mais próxima, engano-a; escondo-me. Faço como o rato quando vê o gato. Sinto o apoio da Irmandade que me vale muito. Antigamente, era pior. Quando não havia nada de comer, tinha de se ir pedir. Ainda me recordo desses tempos. Os pedintes juntavam-se às manadas. Ainda vou a S. Martinho pagar a água, luz e telefone. Também gostava de ir a Resende na carreira. Agora já vou menos. A missinha vejo-a na televisão. Por que é que hei-de ir à igreja? Só se for para ver o padre. Já não oiço o que o senhor Reitor diz. Aqui, em casa, ponho a televisão mais alto. Os meus filhos e netos vêm cá visitar-me frequentemente. Tenho cá um quartinho preparado para os receber e a sala. Também me telefonam muitas vezes.


Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.

*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

DVD e livro com música e tradições, recriadas há 40 anos para a RTP, foram apresentados em Paus*

Alguns dos protagonistas do filme, entre eles Manuel Miguel (conhecido por "Manelzinho"), exímio tocador de rabeca, e muito público (cerca de 400 pessoas) puderam rever-se e reviver memórias por ocasião da apresentação na sede do rancho de Paus, em 16 de Janeiro passado, do DVD com um programa da RTP, gravado há 40 anos em Córdova. Começaram por poder assistir a uma vessada, com mulheres de enxada na mão a desfazer torrões e a endireitar a terra lavrada por um arado, puxado por uma junta de vacas que ia sulcando o terreno, sendo o trabalho acompanhado por um canto, entoado a três vozes, a célebre “Arrula, arrula”, que tantas vezes ouvimos em tempos idos ecoar pelo vale de Paus. Seguiu-se a interpretação musical da famosa chula de Paus, hoje conhecida em todo o país, graças ao Rancho Folclórico e Etnográfico de S. Pedro de Paus que a tem dado a conhecer com tanto êxito nas suas múltiplas actuações, constituindo o seu hino de eleição e seu ex-líbris, e graças a outros grupos como a Brigada Victor Jara, que a incluiu num dos seus CD (“Por Sendas, Montes e Vales”). A chula de Paus foi ainda estrela em 2007, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, numa interpretação conjunta da Ronda dos Quatro Caminhos, Orquestra Sinfonietta de Lisboa e Coros do Alentejo. Os presentes puderam ainda ver recriações de "valsas antigas" e de bailes de terreiro com danças ao som da rabeca, da viola e da guitarra.
Previamente a cada uma das actuações, uma voz off do filme originariamente feito para a RTP, agora reposto em DVD, com transcrição para o livro que o acompanha, contextualiza histórica e sócio-culturamente as respectivas músicas e tradições.
O visionamento do DVD despertou memórias de vidas e pessoas, algumas delas já falecidas. Por isso, o burburinho entre os presentes foi uma constante, parecendo que todos tinham tomado parte no filme. O editor José Moças (da TRADISOM), que apresentou o DVD, um apaixonado pela música tradicional portuguesa, ex-funcionário judicial em Macau e presentemente aposentado, estava encantado por ver tanta gente e tanto entusiasmo. Dos três grandes tocadores de então, só pôde comparecer o Sr Manelzinho. Infelizmente o Sr. Manuel Tereso encontra-se gravemente doente e o Sr. Joaquim Sapateiro já faleceu. O Sr. Manelzinho estava muito emocionado por contemplar o jovem artista que foi (e que felizmente continua a ser). Perguntado como é que aprendeu a tocar rabeca, disse: "sozinho, de ouvido; comecei por tocar gaita de beiços e depois concertina; seguidamente, pedi ao meu pai para me comprar um violino; apurei o toque com o Aniceto Marreta". Acrescentou ter acompanhado, como tocador, muitas rogas de vindimas ao Douro.
Refira-se que o DVD e livro, apresentados em Paus, integram a reposição da colecção da filmografia de Michel Giacometti, etnomusicólogo francês que se radicou em Portugal em 1959 e que nos anos 60 percorreu todas as zonas rurais do país, chegando aos locais mais recônditos e de difícil acesso, tendo feito o levantamento e o registo de um vasto reportório musical, que sem o seu contributo estaria irremediavelmente perdido. Entre 1970 e 1974, foi responsável por um projecto inovador "Povo que Canta", exibido na RTP, constituído por uma série de programas sobre práticas musicais ditas tradicionais. As recolhas cinematográficas ocorreram entre 1970 e 1972, tendo passado na RTP entre 1971 e 1974 (o 25 de Abril levou ao abandono do projecto). A reposição da obra de Michel Giacometti, falecido há 20 anos, foi editada graças a uma parceria da editora TRADISOM, RTP e jornal Público, cujo último volume chegou às bancas com este jornal no passado dia 7 de Fevereiro.

Contacto da editora Tradisom, para os interessados na aquisição desta obra:
JOSÉ MOÇAS (DIRECTOR)
APARTADO 69 4731-909 VILA VERDE
TEL: +351.253321044TLM: +351.939177277
http://www.tradisom.com

POVO QUE CANTA: Origem do canto “Arrula, arrula” e da chula1)
Cramol, cujo nome provém, por metástase, da palavra clamor, significava “procissão de preces”. Assim “ir a um cramol” queria dizer integrar-se numa destas procissões de carácter rogatório e que se realizavam geralmente em Maio. “Cantar um cramol” ou “Cantar um clamor” eram expressões que se aplicavam
à ladainha entoada ao longo do percurso. Por extensão, “cramois” designava os coros polifónicos próprios para cantar a ladainha ou outros cantos integrados no culto.
Os “cramois” dissociaram-se pouco a pouco da sua primitiva função religiosa e passaram a ser cantados, salvo raras excepções, com letra vulgar, durante os trabalhos agrícolas. Para o programa 11 da RTP-Povo que canta-, gravado em Córdova de Paus, foi filmada uma vessada, tendo sido acompanhada do canto “Arrula, arrula”, entoado a três vozes, com origem nos referidos corais, a que o povo chamava “cramois”. No final de cada dístico ouvem-se os apupos das raparigas que picam e desfazem os torrões à enxada, sendo o final um grito de louvor aos donos.
Eis a letra, cujo simbolismo parece estar relacionado com velhos ritos de fertilidade:
“Arrula, arrula, arrula,
Arrula, arrula, amor, meu bem;
-Ai oh!
E já que os meus olhos padeçam,
Padeçam os seus também
-Ai oh!
Lindos, frescos, são cativos
Cravos no meu coração;
“Inda” que eu queira não posso
Por deguilha ter paixão”.
No mesmo programa também foi gravada a célebre chula de Paus. Vê-se o lavrador da vessada largar o arado para acompanhar com a viola o seu companheiro da rabeca, tocando ambos a chula
Esta música parece ter andado associada às vindimas do Douro, apresentando diferenças relativamente às chulas de Amarante, de Penafiel e de Ramalde ou Ramaldeira. Possivelmente foi divulgada a partir das gentes que participavam nas vindimas ou transporte do vinho. Contudo, convém referir que, ao contrário da tradicional chula rebela, cujo nome se deve aos barcos rabelos e cujas letras se inspiram no Douro e nas vindimas, a chula de Paus canta as soidades do mês de Maio, louva o amor qu’é doce e que amarga bem e despede-se de Córbeda, que não é vila nem cidade, tendo evoluído para contrastes e ritmos musicais muito peculiares, o que lhe confere uma identidade única.
1)Retirado/adaptado de Filmografia Completa de Michel Giacometti (Vol. 09: Livro+DVD)
*Notícia elaborada por Marinho Borges, publicada no Jornal de Resende, número de Fevereiro de 2011

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM S. ROMÃO: Chamo-me António de Sousa e nasci no Povo, S. Romão, há 95 anos*

Dados pessoais e familiares
Nasci no dia 9 de Abril de 1915. Penso que sou a pessoa mais velha da freguesia. Não gosto muito de ficar aqui metido em casa. Pego em mim e vou por aí pela povoação e pela estrada fora para meter conversa com alguém que apareça. É uma maneira de espairecer e de ir sabendo o que se passa.
A minha mãe morreu deveria eu ter oito ou nove anos. O meu pai morreu com sessenta e seis anos. Casou duas vezes e teve doze filhos: três do primeiro casamento e nove do segundo. No conjunto estamos seis vivos. Infelizmente, a minha mulher morreu há nove anos. Tenho três filhas e vivo aqui na minha casa com uma delas. Quanto a netos, tenho quatro.
Os meus pais sempre foram caseiros. Ainda me lembro de se entregarem de terras em Vale Verde, numa quinta do Sr. Dr. Alberto Cochofel, em Garrafola, numa outra quinta em Pereirinha e aqui, no Povo.
Não sei ler. Só sei assinar o nome. Mesmo que quisesse aprender não havia aqui escola. Quem quisesse e pudesse tinha de se deslocar à escola da Granja, em Anreade. Eu mais alguns rapazes ainda andámos a aprender com o Sr. Alberto Duarte. Era uma pessoa cheia de boa vontade que se mostrava disponível para nos ensinar. Íamos para sua casa ao fim da tarde ou à noitinha. Aprendíamos a ler com um gasómetro ou com um candeeiro a petróleo. Como recompensa dávamos-lhe qualquer coisa em géneros tirados da terra. Ainda tenho aqui em casa um livro com vários tipos de letras que aprendíamos a copiar. Infelizmente com o tempo fui esquecendo quase tudo. Não chegavam cá jornais e revistas como hoje. Quando muito, escrevia uma ou outra carta a pedido de um vizinho que tinha um familiar no Brasil e lia a resposta de volta.

Tempos de infância e juventude
Fiz a primeira comunhão quando estreou a igreja paroquial, no ano de 1921. Foi uma pessoa da freguesia, emigrante no Brasil, que mandou construir esta igreja à sua custa, entre 1919 e 1920, visto que a antiga era muito pequena e já precisava de obras. O tal emigrante veio a falecer antes de terminadas as obras, mas a esposa deslocou-se cá para assistir à inauguração. Conta-se que o tal conterrâneo pagou as viagens para o Brasil com o dinheiro da venda de um cadeado em ouro que encontrou numa leira. Como fez fortuna no Brasil e para agradecer o tal achado, resolveu construir uma igreja nova no local onde encontrou o cadeado em ouro. No livro do Sr. Padre Joaquim está lá tudo.
Não fui à tropa. Os rapazes do meu ano, de S. Romão, ficaram todos livres.
Estive com os meus pais até fazer trinta e dois anos, altura em que casei e fui viver para casa dos meus sogros. Naquela altura, tinha de ficar e cuidar dos meus irmãos, quando os meus pais estavam no campo a trabalhar. Nas outras alturas, ia para as lameiras e montes guardar o gado, normalmente composto por quatro vacas e meia dúzia de ovelhas. Também ia abrir os tanques, as poças e minas de água para regar as lameiras ou as diversas culturas da terra (cereais, batatas, ervilhas, favas…). Já fazia tudo isto antes dos dez anos.
A nossa freguesia sempre foi muito conhecida pelos alfobres de couves tronchudas. Ainda hoje isso acontece. Por isso, a partir dos doze anos, acarretei muitas couves tronchudas, repolhos e outras variedades de couves para as feiras de Resende, Cinfães e Mesão Frio, que ainda hoje tem lugar nos dias quinze e trinta de cada mês, e aqui para o lado, para a feira do Penedo, que se realiza no terceiro domingo de cada mês. É claro que acarretei também muitas sacas de cereal para o antigo celeiro de Caldas de Aregos. Também levei muita castanha para junto da estrada, onde os comerciantes as vinham buscar em camionetas.
Dias fora dava poucos. Por vezes, aparecia uma ou outra parede para levantar e pouco mais, onde ganhava três ou quatro escudos a seco. Quanto ao amanho das terras, cada um procurava tratar das suas. Não havia dinheiro para rogar gente. Nas vessadas as pessoas desenrascavam-se por troca. Ajudávamo-nos uns aos outros. Chegávamos a juntar-nos quinze a vinte pessoas. E os mais novos também tinham lugar. Faziam recados, traziam o lanche, limpavam as ervas das paredes, rapavam o corte da cava.
Quando comparo os meus tempos de mocidade com os dias de hoje, penso que a rapaziada agora nem sabe dar valor às vantagens de que beneficia. Em pequeninos puderam ir brincar e conviver para o Jardim de Infância. Andaram a aprender a ler e a escrever numa escola aqui perto, com todas as comodidades. E a seguir continuaram a estudar em escolas de Resende, com quase tudo de graça. Se há muitos que aproveitam, infelizmente há outros que andam a perder o seu tempo. Alguns dos pais, talvez por terem passado muito na vida, dão liberdade a mais aos filhos. Mas estes, se soubessem o que era a dureza do trabalho e tivessem de ajudar em casa, talvez se aplicassem mais.
Os tempos mudaram muito. Antigamente fabricava-se tudo. Além de dar aos patrões as partes a que tinham direito, ainda tínhamos de lhes dar presentes pelo Natal, Páscoa e S. Miguel, para nos mantermos nas terras. Agora está quase tudo de velho. Com estes abonos e dinheiros da Segurança Social poucos querem trabalhar.

Trabalho no Douro
O trabalho no Douro era a salvação para muita gente. Era com o dinheiro que lá se ganhava que muitos conseguiam endireitar a vida, pagando as dívidas nas vendas (mercearia e vinho). Lembro-me de trazer de lá cem escudos numa das primeiras vezes que fui às vindimas. Para poupar, a roga, composta por homens, mulheres e crianças a partir dos onze/doze anos, chegava a ir a pé até à Régua. Lá apanhava-se o comboio, se por acaso a quinta ficasse para os lados do Pinhão. Cheguei a vindimar e a carregar cestos. Guardo boas recordações desses tempos, pois havia muita alegria; do grupo fazia até parte um tocador ou dois, que animavam a viagem e os bailaricos à noite, depois do trabalho. Para muitos era uma maneira de terem sempre qualquer coisa para comer, o que não era o meu caso, pois felizmente nunca cheguei a passar fome. A comida era feita pela caseira da quinta, em grandes potes de ferro; depois, era levada em cestos de verga até ao local onde as pessoas andavam a vindimar. Ao longo de um dia de trabalho, que geralmente durava entre 10 a 16 horas, o patrão das propriedades fornecia a alimentação aos trabalhadores, desde os vindimadores (mulheres, homens de idade e crianças) aos homens que transportavam os cestos. Normalmente havia três refeições por dia: o almoço, o jantar e a ceia. Ao almoço, correspondente ao pequeno-almoço, era apenas servida uma malga de caldo, pão com uma sardinha e vinho. Os homens, que levavam as uvas com os cestos vindimos às costas, tinham direito a mais duas sardinhas ou uma tigela com batatas cozidas e uma posta de bacalhau frito. No jantar, equivalente ao nosso almoço, era servido a todos os trabalhadores o mesmo: podia variar entre arroz, batatas e frango; arroz de feijão com peixe frito; macarrão com carne de porco, entre outras coisas. Esta refeição era a mais forte para dar energia aos trabalhadores. A última refeição não era para todos; apenas os homens que iam pisar as uvas noite dentro, tinham direito à ceia, que era mais ou menos semelhante à refeição do almoço. Os outros tinham de se desenrascar com o que tinham trazido de casa, nomeadamente pão. Às vezes, algumas mulheres faziam caldo para todos com couves apanhadas na quinta. O vinho é que era sempre fornecido pelo patrão. A merenda também ficava por conta dos trabalhadores.

Senhas de racionamento
Ainda vivia com os meus pais quando Salazar impôs senhas de racionamento, no tempo da segunda guerra mundial. O açúcar, mercearias, bacalhau, sabão e azeite eram racionados. A quantidade variava de acordo com o número de filhos. Ainda me recordo de haver gente que criava abelhas de propósito para ter mel e assim substituir o açúcar. Aqui não era costume, mas ouvia dizer nas feiras que havia pessoas que usavam o mel para fazer as chamadas “sopas de cavalo cansado”. Numa tigela punha-se pão, vinho tinto e mel. Com essa “receita milagrosa “, ganhava-se força para o árduo trabalho nos campos.
Nessa altura da guerra, os lavradores só podiam ficar com uma parte do milho que produziam, sendo o excedente armazenado em silos do Estado, para que pudesse ser distribuído por todos. Os cereais do nosso concelho eram entregues no celeiro de Caldas de Aregos, sendo pagos a um preço fixo, mas muito baixo. O meu pai escondia sempre alguma produção de milho, para que não nos faltasse pão. Isto tinha de ser muito bem feito e em segredo por causa dos fiscais. Nas cidades o pão também era racionado. Mas a minha mãe cozia sempre uma fornada todas as semanas.
As senhas eram dadas por intermédio do senhor regedor, José Rema. As compras eram feitas na Casa Moreira, nas Caldas de Aregos, e na Casa Valente, em Resende. Faziam-se imensas bichas e, às vezes, esgotavam-se os produtos.
Estou convencido que muitas das pessoas da cidade, desempregadas ou com salários baixos, passaram mais fome que nos campos. Aqui, quem fabricava terras podia criar galinhas e porcos, plantar couves para o caldo, semear batatas e milho. Havia sempre qualquer coisa para encher a barriga, como acontecia em minha casa. Mas também havia pessoas por cá que não tinham terras para trabalhar; essas sofriam muito.

Vida de caseiro e reforma
Como já lhe disse, casei-me tinha trinta e dois anos. Tudo o que ganhei até então era dado aos meus pais. Depois do casamento fui viver com os meus sogros, que residiam na Costa da Formiga. Estive lá mais de quinze anos. Depois vim para o Povo, onde fui fazendo várias terras à volta e por aqui fiquei até hoje.
Foi uma vida de muito trabalho. Mas em casa nunca faltou o pão para nós e para as nossas três filhas. Não havia estradas, luz eléctrica ou telefone, novidades e benefícios que chegaram muito mais tarde. Pergunta-me se se falava de Salazar ou de política. Como é que se havia de discutir essas coisas se aqui não chegavam jornais nem havia rádios? Ainda me recordo de as minhas filhas gostarem de ouvir o rádio que o chamado Joaquinzinho punha à janela, corria então o ano de 1961. Dava também brado o rádio e as duas baterias que o Sr. José Rodrigues (que foi comandante dos bombeiros) trazia aos fins de semana de Resende num burro para uma taberna/venda de um tio, situada no lugar da Boavista.
Estou reformado há cerca de trinta anos. Mas não paro em casa. Ainda faço a poda e gosto de sair por aí para falar com as pessoas. Ainda há dias uma criança me dizia que eu era o orgulho da povoação. É isto que me faz viver.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Fevereiro de 2011.

terça-feira, 1 de março de 2011

A “falacheira” de São Brás/O dia das falachas*

Quem chegar a Resende e perguntar pela “falacheira” de Cimo de Resende, todos indicam a Maria Rosa Teixeira, ou a Dona Rosa, como é conhecida, que mora no lugar da Codiceira. É esta uma das poucas mulheres do concelho, e da região, que confecciona de modo tradicional as “falachas”, bolo “centenário” de farinha de castanha, cozidas em forno de lenha, vendidas na Festa de São Brás, em Resende.
A origem desta relíquia da gastronomia tradicional remonta à Idade Média, uma época em que a farinha de castanha substituía, em períodos de crise económica, os cereais na confecção do pão caseiro, sendo fundamental na subsistência da população rural. Hoje, são vendidas, apenas, na Festa de São Brás, celebrada anualmente no dia 2 de Fevereiro, no Cimo de Resende, o “dia das falachas”, como reza a tradição. No entanto, a inexistência de projectos e de seguidores ameaça a sua continuidade
.

A tradição vem de família. A faina da Dona Rosa começa quando os primeiros ventos frios de Outono começam a “curar” as castanhas “peladas” e “curtidas” nos caniços das lareiras, previamente colhidas nos soutos de Cimo de Resende. O ciclo acaba em Fevereiro, com a Festa de São Brás, em Resende, onde despacha as últimas falachas.
O doce é feito à base da farinha de castanhas secas no caniço, durante os rigores de Inverno, ao calor e ao fumo da lareira, e moídas no moinho alveiro, de rodízio, no lugar de Xis, em Cárquere, um processo lento, mas necessário, já que a moagem eléctrica “põe a farinha muito grossa”.
Em Dezembro e Janeiro, testam-se os primeiros exemplares, para consumo caseiro ou para venda esporádica a pessoas amigas que o solicitam. Uma semana antes da Festa de São Brás, a azáfama é diária na preparação das centenas de milhar de falachas, consoante o ano, a vender na festividade do dia 2 de Fevereiro.
A confecção não tem segredos para a “falacheira”. “À farinha da castanha adiciona-se uma pequena porção de farinha de trigo, para obter a ‘liga’, água morna e um pouco de sal e amassa-se com a mão”, explica.
Pronta a massa, é paulatinamente colocada, à colher, sobre folhas de castanheiro, lavadas e secas, previamente recolhidas nos soutos, que a doceira dispõe longitudinal e transversalmente. “A folha serve de protecção à massa para que esta não ‘agarre’ à base do forno”, diz.
Cada falacha é, então, calabreada com uma faca, sempre molhada na tigela de água fria, até obter a forma de pequena e achatada broa. “Também fazemos umas maiores, deliciosas, cobertas com salpicão, que têm muita procura”, refere a Dona Rosa.
Prontas a irem ao forno de lenha, numa pá de madeira, aí cozem durante cerca de 10 a 15 minutos, tempo suficiente para adquirirem uma coloração dourada.
O resultado são “bolinhos” redondos, de cor acastanhada e sabor adocicado, que podem consumidos quentes ou frios. Apesar de serem comidas simples, há quem prefira cortá-las às tiras e colocá-las numa frigideira com um bom azeite da região, ou banha de porco, ou polvilhar com um pouco de canela e açúcar, fazendo um doce extraordinário.
Todos os anos, no dia 2 de Fevereiro, manhã cedo, com a ajuda do marido e dos seus filhos, a Dona Rosa carrega as falachas, para a Festa de São Brás, onde as vende, as mais pequenas a 1,5 euros, e as maiores, de salpicão, a 3 euros.

Contactos:

Maria Rosa Teixeira
Codiceira – Cimo de Resende
Telefone 254 877 779

Importância económica da castanha

A castanha assumiu, no passado, grande importância económica. Foi decisiva, em Portugal, para a subsistência das populações de serra, mantendo-se intimamente ligada, pela sua utilização na dieta alimentar, à sobrevivência das gentes rurais. Como nos refere Magalhães (MAGALHÃES, T, “O Castanheiro”, Ilustração Transmontana, 1910) “quanto essa abençoada árvore se desfaz em benefícios para o homem! Quer dos seus fructos quer da sua madeira, ella distilla perenne riqueza: “pinga” sempre! (...) mas só mais tarde eu conheci que as suas “pingas”, juntas, produziam grossa chuva de oiro na minha província”.
Assadas ou cozidas, as castanhas estão intimamente ligadas à tradição gastronómica portuguesa. As falachas são disso exemplo, estando preservadas na memória oral do nosso povo: “as falachas devem ser tendidas no cu de uma velha, para serem mais saborosas” (Leite de Vasconcelos, “Etnografia Portuguesa”). Na nossa região, quando alguém quer dar uma estalada ou um murro a outro diz: “levas uma falacha que não te endireitas!”. Sempre valerá mais comer uma falacha que levar com uma….

Todos ao São Brás…

Ano após ano, no dia 2 de Fevereiro, a tradição repete-se. A azáfama começa manhã cedo, quando chegam as primeiras viaturas, por uma estrada de terra batida, à procura dos melhores lugares, nas redondezas da Capela de São Brás, no Cimo de Resende.
Instalados os recursos materiais e humanos, começam os preparativos para o almoço. Procura-se lenha seca, colocam-se ao lume as panelas de ferro e prepara-se a “matéria-prima”: os enchidos (chouriço e salpicão), a carne de porco (cabeçolas, orelheira, entrecosto, patas, …), salgada, como convém, e as batatas e grelos, tradição da época. Outros estendem os merendeiros, confeccionados de véspera em casa. Para ir matando a fome, parte-se o presunto e abrem-se os garrafões com o bom vinho da região.
“Todos os anos é assim”, diz José Sousa, de Cimo de Resende, que aqui reencontra, anualmente, os amigos que marcam presença, religiosamente, no dia consagrado a São Brás, protector dos males de garganta. O cenário repete-se ao longo da serra: grupos de compinchas e de forasteiros chegam do concelho e da região, embelezando com o seu colorido esta paisagem rural, a troco de fé, convívio e muita comida…
Ao meio-dia, o cheiro a assados e cozidos a pairar no ar não engana ninguém: é hora do almoço. Nota-se que o elemento feminino está em menor número. “Isto hoje é só para homens”, refere João Ferro, de Forjães. “Aqui somos nós a fazer a comida”, segreda.
Ao início da tarde, preparando um novo ataque às panelas e aos garrafões, o elemento pagão dá lugar ao religioso. É chegada a hora da missa na Capela de homenagem ao orago São Brás, a que todos assistem, devotamente.
No fim da cerimónia religiosa, compram-se as tradicionais falachas, feitas de farinha de castanha, doce típico da festividade, preparadas nos dias anteriores para esta ocasião, vendidas durante o dia pelas poucas “falacheiras” que ainda subsistem no concelho. De seguida, continua-se o repasto e o convívio e, à tardinha, para atacar o frio que se aproxima com a noite, acendem-se fogueiras e joga-se à malha e à bola.
Quando a noite cai e os caminhos se turvam aos olhares dos foliões, é altura de regressar a casa com o desejo e a certeza de que no próximo ano, no mesmo dia, tudo se repetirá de novo…
*Apontamento da autoria de Paulo Sequeira, publicado no "Jornal de Resende", número de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Novo Hospital de Proximidade de Lamego: 40 milhões de euros; 9.000m2 de área útil; 80.000 pessoas e...

e não tem uma cama para internamento de doentes agudos.
Tem que ser assim? Não é possível fazer melhor? Não é possível fazer mudar isto?
Caro Cidadão…
…De Lamego e/ou destas terras do Douro Sul, que recebeu esta informação
:

Aceite o desafio para abraçar esta causa pública, de pura cidadania (que é uma causa de todos nós) E HÁ-DE APARECER ALGUÉM CAPAZ DE LHE DAR ROSTO, CORPO E ALMA.


Nota – Este documento não representa nenhum movimento organizado (uma vez que ele ainda não existe). Apenas pretende apresentar um problema, fornecer conteúdos que podem ser replicados, informar as pessoas e, se estas o entenderem, promover o aparecimento de medidas que contribuam para a sua resolução. Tudo isto resguardando o mensageiro… se concordar.

HOSPITAL DE PROXIMIDADE DE LAMEGO (HPL)

Factos MUITO PREOCUPANTES, decorrentes do programa funcional do HPL
Ideias principais
:
a) O novo hospital de Lamego não vai ter qualquer cama de internamento para doentes agudos, nem mesmo na área da Medicina.
b) Qualquer destes doentes que precise de ser internado tem que ser remetido para Vila Real.
c) As 30 camas que o novo hospital terá e que estão previstas no programa funcional, são camas de convalescença/cuidados continuados, quer dizer, camas para receber doentes após o internamento agudo (em Vila Real). Estas 30 camas de cuidados continuados são da Rede Nacional de Cuidados Continuados, têm critérios bem definidos por Lei, e apenas uma reduzida percentagem de doentes da área da medicina tem indicação para aí serem admitidos, como é o caso de um ou outro doente com um AVC de recuperação rápida. Por ex. nos últimos 2 anos, já com o centro hospitalar a funcionar em rede com as 4 unidades hospitalares, os doentes agudos internados na medicina foram, em média, 1450 por ano e, destes, apenas tiveram indicação para a convalescença 2,3%. Não é destes doentes que vão para os Cuidados Continuados que estamos a tratar nem são estes que nos preocupam, porque são e serão sempre uma muito pequena minoria.
d) O serviço domiciliário e o hospital dia não substituem o internamento de doentes agudos. São serviços complementares para serem utilizados por doentes que necessitam de tratamento hospitalar mas não necessitam estar internados (hospital Dia por exemplo para fazer curativos, administração de fármacos) e para os que necessitam tratamento enfermagem após alta hospitalar (cuidados domiciliários.). Para os doentes agudos, que têm que estar internados, e quem o decide é o médico e não o gestor ou o politico, este doente precisa de uma cama hospitalar para se deitar.
e) O Serviço de Medicina está quase sempre “cheio” de doentes (média de idades superior a 70 anos) com patologias/diagnósticos que requerem efectivo internamento em unidade de agudos, sem critérios para a convalescença (como se pode observar nos dados estatísticos e médicos) e não patologias que podem ser tratadas no âmbito da Convalescença, como por exemplo AVCs em fase aguda, Insuficiências cardíacas descompensadas, pneumopatias, Insuficiencias hepáticas descompensadas.
f) O hospital de proximidade de Lamego é o único no país que não tem camas para internamento de agudos pois outros hospitais de proximidade, posteriormente agendados, já têm camas e muitas, nomeadamente Barcelos (97 camas) e Amarante (60 camas), aqui bem perto. Outros mais haverá... Nestes casos, apesar de o modelo organizacional inicial ser o mesmo que o nosso, foi possível proceder a alterações e colocar camas para internamento de agudos, por força das Instituições e sociedade locais. Pelos vistos, continuam a existir Portugueses de primeira e de segunda…
g) Pelo que se conhece, os técnicos de saúde/médicos do CHTMAD e Direcção Clínica defendem que Lamego precisa de ter camas de internamento. Porém, por decisão/critérios políticos, esta opinião técnica não tem sido considerada.
h) Como se referiu, só o serviço de Medicina do actual Hospital de Lamego tem tratado entre 1400 e 1500 doentes, por ano, com taxas de ocupação de tal forma elevadas (na casa dos 100%) que as 45 camas de que dispõe não são suficientes e, frequentemente, é preciso deslocar doentes da Medicina para Cirurgia ou Ortopedia (diminuindo a capacidade operatória e aumentando o risco de infecção hospitalar).
i) A breve prazo é preciso tomar uma decisão sobre estes doentes e, se nada se alterar, passarão a ser remetidos para Vila Real onde já não existem camas suficientes para as necessidades existentes, quanto mais para receber este aumento significativo, de um número que tem vindo a crescer e dificilmente será menor.
j) As pessoas desta cidade e desta região sabem isto? Estão conscientes das dificuldades que isto acarreta? Merecem isto? Aceitam este modelo, imposto, como se não houvesse alternativa? Um hospital que custa 40 milhões de euros aos contribuintes e não tem uma cama para internar as 80.000 pessoas desta região?
k) Os políticos e as Instituições ainda não conseguiram resolver este problema. Agora, sobra e há que tentar uma réstia de esperança. Tentar que isto seja uma causa de cidadania/municipalidade e que a sociedade civil seja capaz de se organizar para melhorar este modelo de hospital. E há certamente muita gente que se pode interessar e ajudar: Os jornais e os jornalistas (há-de os haver que gostem da sua terra), os jovens “faceboock”, os jovens “Deolinda”, os jovens dos blogues e dos SMS (onde estão?), a Liga do Hospital, a Igreja (pilar visível? alicerce enterrado? desta sociedade), as escolas, os grupos de jovens dos 8 municípios, os escuteiros, os bombeiros, os centros de saúde, as farmácias, as pessoas já aposentadas e com valor e tempo disponíveis. Até as “JOTAS” partidárias poderiam dar as mãos num exemplo único de interesse público supra partidário e em prol de uma região que vai perdendo coisas… há anos a esta parte. Onde estão os JOVENS defensores de causas e de valores solidários. Os jovens capazes de mudar o mundo?
l) Esta é uma causa de cidadania. Não é contra ninguém, é a favor da cidade e da região que deve reclamar o direito de ter algumas camas hospitalares para “deitar” os seus doentes. Este modelo de organização hospitalar não é intocável ou infalível e pode ter alternativas para assegurar estas camas. BASTA (fazer) QUERER
m) Parafraseando Marisa: Ó gente da minha terra, … esta tristeza que eu sinto, foi de vós que a recebi. É PRECISO MUDAR ESTE FADO. Acabar com esta tristeza, esta passividade e este fatalismo que nos tolhe, nos acomoda e nos mata devagarinho…

OUTROS DADOS

1 - Perspectiva Histórica
Em 2006, o Hospital de Lamego, com projecto e construtor já seleccionado foi “cancelado” in-extremis e, de seguida, foi imposto este Hospital de Proximidade Lamego (HPL) com uma missão, estrutura e programa funcional muito diferentes do que existia. Este programa funcional mantém-se inalterado até à presente data e não se prevê vir a ser alterado, apesar de várias opiniões e posições contrárias.
Entretanto já encerrou a Maternidade e a Pediatria, já se enviam os doentes agudos para operar em Vila Real, já se reduziram camas na Medicina e área cirúrgica e há-de seguir-se o resto até ficar apenas o que está previsto no programa funcional.
Se em relação à Maternidade e Pediatria (grandes perdas já concretizadas) se pode argumentar com taxas de ocupação dos serviços bastante reduzidas e com uma perspectiva de diminuição do número de nascimentos e crianças, entre outros…, relativamente aos idosos/adultos, a perspectiva é diametralmente oposta: o Serviço de Medicina está quase sempre “cheio” e tem vindo a aumentar o número de doentes tratados.
Prevê-se que o HPL esteja pronto antes do fim de 2011.

3 - Contexto sócio político e profissional:
Dr. Carlos Vaz, Presidente do Conselho de Administração do CHTMAD/Ministério da Saúde não abdica da “menina dos olhos” que é este “hospital de proximidade”, copiado de um outro em Barcelona, Espanha, inspirado em modelos Americanos de contexto muito diverso do nosso, o primeiro em Portugal, mas sem camas para internamento das 80.000 pessoas desta região.
Câmara Municipal de Lamego, Assembleia Municipal, Presidente da Câmara etc… não têm tido argumentos nem “força” para alterar situação. Foi-se concordando com o ganho que se obteve porque esta solução era melhor que a não construção do hospital anulado em 2006 (melhor que nada…). Porém, se esta solução tem alguns pontos fortes, não assegura o fundamental. Não assegura as especialidades básicas como, até, está previsto no despacho de criação do hospital e como se impõe salvaguardar em prole das necessidades fundamentais e legítimo interesse de uma população e de uma região com história e identidade sócio cultural própria.
Políticos (pessoas/partidos) – Pelas mais diversas razões, nem sempre muito “claras” e altruístas, uns não querem, outros não podem e outros, ainda, não lhes interessa fazer adequar o programa funcional.
Técnicos de saúde – Têm tentado alertar para problemas e apresentar argumentos e alternativas no sentido de promover uma melhor adequação do programa funcional, mas não têm tido força/peso interno para o conseguir. Estão também limitados porque são funcionários da Instituição.
Tem havido várias reuniões, conversas e documentos a diferentes níveis (Câmara, Assembleia Municipal, Partidos, CHTMAD, grupos de afinidade, etc.), mais ou menos formais, mas sem qualquer resultado visível até à data.

4 - Outros aspectos a considerar
Hospital de Proximidade de Lamego – Área de Influência: 8 concelhos – 80.000 habitantes (Armamar, Lamego, Moimenta, Penedono, S. J. da Pesqueira, Sernancelhe, Tabuaço, Tarouca).
CHTMAD integra Vila Real, Chaves e Lamego mas:
-Hospital de Lamego – 80.000 habitantes - 45 camas de medicina – PARA FECHAR
-Hospital de Chaves – 82.000 habitantes - 61 camas de medicina –
para manter
Porquê? O Hospital de proximidade, sem camas, só é bom para Lamego? Em Vila Real e Chaves precisam de camas para internamento de doentes agudos e Lamego não precisa? Não merece a pena?
A população idosa vai aumentar. Isto todos sabem. O seu nível de dependência, isolamento e fragilidade é cada vez maior. Verifica-se cada vez maior co-morbilidade, mais co-existência de múltiplos diagnósticos (múltiplas doenças em simultâneo) levando a um aumento do risco de acontecer episódios agudos de doença por desequilíbrio de uma destas patologias, com necessidades de recorrer ao internamento.
Desde a integração/criação do CHTMAD em 2006, já lá vão 5 anos, o Hospital de Vila Real não aumentou o nº de camas para a área da medicina interna (excepto +/- 24 camas para infecto-contagiosas). As camas de medicina, por sistema, estão sempre cheias e os doentes andam “espalhados” por outros Serviços ou pelos corredores e, que se conheça, a curto médio prazo, não se perspectiva nada de muito diferente…
O novo hospital de Lamego tem um padrão de organização de “vanguarda”, mas nunca foi testado em Portugal (foi em Barcelona e nos EUA::J) e esta experiência vai, logo, ser feita numa região como esta, com assinaláveis défices sociais, demográficos, económicos, infra-estruturais e de saúde.
O Hospital centrará a sua actividade nas valências de cirurgia de ambulatório, consulta externa, urgência básica, hospital de dia e visitas domiciliárias, mas, por exemplo, o Serviço de Consultas Externas do actual hospital já tem excelentes condições. E quantas consultas funcionam? Quantas especialidades? E quantas funcionam bem? Quantos médicos vêm a Lamego? Quantas vezes por semana?
O novo hospital de Lamego terá excelentes recursos e, até, lugar para os profissionais que existem no actual hospital. Porém, estes recursos, pagos com o nosso dinheiro não poderão dar resposta ao que esta população precisa, pelo menos no que diz respeito ao internamento de agudo, área base e nuclear de um HOSPITAL.
O tempo urge. Ou seja, no dia em que fecharem as camas, nomeadamente as de Medicina do Hospital de Lamego, muito dificilmente voltarão a abrir e é enorme o risco (quase uma certeza…) de os doentes desta região terem que ser enviados e estar internados em qualquer serviço do hospital de Vila Real, onde houver uma “camita”…ou num qualquer corredor à espera de uma. E o tempo urge porque falta pouco tempo para o novo hospital estar definido e concretizado.

VER DOCUMENTOS SEGUINTES
Hospital de Proximidade de Lamego

IN:
http://portal.arsnorte.min-saude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Conte%C3%BAdos/Ficheiros/Noticias/Desenvolvimento%20Unidades%20Hospitalares%20Regi%C3%A3o%20Norte%20-%20Ap.pdf

􀂅 Valor do investimento previsto
􀂆 40,0 M€, IVA incluído, sendo 30,44 M€ (76,1%) para projecto e construção e 9,56 M€ (23,9%) para apetrechamento
􀂅 Data previsível da conclusão
􀂆 Agosto/2011
􀂅 Área bruta de construção
􀂆 16.833 m2, excluindo as áreas técnicas e reserva (quase 4 campos de futebol)
􀂅 Área útil
􀂆 9.000 m2, (+/- de 2 campos de futebol…)
􀂅 Área do terreno
􀂆 93.800 m2
􀂅 N.º de camas
􀂆 30 camas(convalescença)
􀂅 Estacionamento
􀂆 255 lugares à superfície

Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro
Hospital de Proximidade de Lamego (HPL)

Programa funcional - Sumário executivo

in:
http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:ht3KEjBIt80J:www.gov-civil-viseu.pt/img/notas_imprensa/HPL.doc+programa+funcional+hospital+lamego&hl=pt-PT&gl=pt&pid=bl&srcid=ADGEESgq6V93YC40x1XU8KhrEvEgkB_Yt1Mt7TioHxN2b2V_T0ctMZz102FGchgonh-eMGKnxS1F_zYXDjha47oY38X5-9n5-ck444_47PZ7JYk05KZ6tPhcA4wYYU_nBQpB9JXr7QV-&sig=AHIEtbSwJwSRLVnZJksh7UnJg8i2ZKNKFQ

O HPL será dimensionado para prestar os seguintes serviços:

(a) Urgência básica;
(b) consultas externas diferenciadas;
(c) meios complementares de diagnóstico e terapêutica;
(d) cirurgia de ambulatório geral;
(e) unidade de dia e de serviço domiciliário e
(f) cuidados continuados de convalescença.

Serviço de urgência básico: funcionará 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Consultas externas: Medicina, Cardiologia, Pediatria, Cirurgia Geral, Anestesiologia, Obstetrícia /Ginecologia, Oftalmologia, ORL, Ortopedia Neurologia, Nefrologia, Urologia, Pneumologia, Estomatologia. O serviço funcionará cinco dias por semana (250 dias/ano) das 8-20horas, prevendo-se cerca de 65.000.

Meios complementares de diagnóstico e terapêutica (MCDT): será composto pelos serviços de Imagiologia, Laboratório de Patologia Clínica, Medicina Física e Reabilitação (capacidade para 200 tratamentos/dia e 4000 consultas/ano).

Cirurgia de ambulatório geral: equipada com um bloco de três salas (mais uma do que no hospital actual), funcionando cinco dias por semana (250 dias/ ano, durante o dia), servindo toda a área do Centro Hospitalar Vila Real/Peso da Régua.

Unidade de dia e serviço domiciliário: A unidade de dia terá uma capacidade para atender, em ambulatório, até 6.000 doentes/ano, prestando quer cuidados pós-operatórios quer cuidados gerais e funcionando cinco dias por semana (250 dias/ano). O serviço domiciliário deverá funcionar 365 dias por ano prestando cuidados a doentes com alta.

Cuidados continuados de convalescença: capacidade para 30 camas.
Farmácia Hospitalar de Venda ao Público
Saúde Ocupacional
Área útil superior a 9.000 m2
Área de construção superior a 15.000 m2
Investimento total de 37 milhões de Euros

Documentos para consulta:
Relatório de contas e gestão do CHTMAD, de 2009 (Último disponível)
in:
http://www.chtmad.min-saude.pt/Downloads_HSA/CHVRPR/O%20Hospital/Relatório%20e%20Contas/Relatório%20e%20Contas%202009%20-%20CHTMAD.pdf

Criação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados
Decreto-Lei n.o 101/2006 de 6 de Junho

Rede de serviços de urgência do SNS.

Despacho n.o 18 459/2006

e) «Serviço de urgência básica (SUB)» o primeiro nível de acolhimento a situações de urgência, constitui o nível de cariz médico (não cirúrgico, à excepção de pequena cirurgia no SU), podendo estar sediado numa área de influência que abranja uma população superior a 40 000 hab. em que, pelo menos para uma parte, a acessibilidade em condições normais seja superior a sessenta minutos em relação ao serviço de urgência médico-cirúrgico ou polivalente mais próximo. O SUB permite o atendimento das situações urgentes com maior proximidade das populações, dispondo dos seguintes recursos mínimos:
Humanos—dois médicos e dois enfermeiros, em presença física, um auxiliar de acção médica e um administrativo, por equipa;
De equipamento—material para assegurar a via aérea, oximetriade pulso, monitor com desfibrilhador automático e marca passo externo, electrocardiógrafo, equipamento para imobilização e transporte do traumatizado, condições e material para pequena cirurgia,
radiologia simples (para esqueleto, tórax e abdómen) e patologia química/ química seca.

Programa funcional do HPLamego (parte)
http://portal.arsnorte.min-saude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Conte%C3%BAdos/GRP/Lan%C3%A7amento%20Novas%20Unidades/Novas%20Unidades%20Hospitalares/Ficheiros/Novo%20Hospital%20de%20Proximidade%20de%20Lamego.pdf

RESENHA HISTÓRICA DA IMPRENSA.
23 Fevereiro, 2006 - 00:00
Governo avança com projecto para novo hospital de Lamego

IN:
http://noticias.portugalmail.pt/artigo/governo-avanca-com-projecto-para-novo-hospital-de-lamego_185621
O Ministério da Saúde irá nomear uma equipa, orientada pela Direcção Geral das Instalações e Equipamentos de Saúde (DGIES), que ficará responsável pelo projecto do novo Hospital Distrital de Lamego, adaptando-o às novas necessidades.
O Governo decidiu criar um grupo de trabalho, encarregue de «encontrar uma solução muito rápida», por ter plena consciência quer das «necessidades da população, quer das expectativas criadas, quer ainda da frustração dos profissionais que não dispõem de ambiente de trabalho com qualidade aceitável», assegurou em despacho.

A edificação do novo hospital tem sido exigida pela população já há alguns anos e o seu início chegou a ser anunciado para 2005, mas foi anulado pela tutela, por esta considerar que existia uma «desactualização do programa funcional e correspondente projecto».

Segundo avançou o Público, o governo referiu ainda em despacho que «prosseguir a construção de um hospital concebido para uma população tal como ela estava há 20 anos seria destinar ao fracasso um elevado investimento, desperdiçando a oportunidade de se encontrar uma solução moderna, eficiente e realmente adequada às necessidades».

A tutela mostrou-se ciente das condições actuais de algumas unidades de saúde, considerando que «o país tem, infelizmente, vários exemplos de hospitais de construção recente, cujo programa funcional e projecto não se adaptam às reais necessidades de saúde da população».

O despacho adianta ainda que o novo Hospital Distrital será «dotado de bons cuidados nas especialidades básicas, hospital de dia, consulta externa diferenciada e urgência básica qualificada, dispondo de uma plataforma tecnológica de alta qualidade». O hospital contará ainda com um vasto número de camas que permitam a recuperação dos utentes, de forma a desobstruir alguns serviços que recebem pacientes «anormalmente envelhecidos».

A tutela prevê ainda que o concurso para a edificação da estrutura seja lançado até 29 de Fevereiro de 2008, para que a obra possa começar até 30 de Novembro do mesmo ano. Se os prazos se cumprirem, o Hospital Distrital de Lamego deverá estar aberto ao público em 2010.

09/JUN/2006
Autarca lamecense pedem explicações sobre Programa FuncionalIN:
http://www.mundolusiada.com.br/ACONTECE/acon059_jun06.htm


Ígor Lopes (Portugal)- O presidente da Câmara Municipal de Lamego, Francisco Lopes, esteve, na semana passada, em Lisboa, juntamente com outros autarcas do Douro Sul, durante a homologação do Programa Funcional do novo Hospital de Lamego. O autarca diz-se satisfeito com a aprovação desse Programa. Entretanto, está a elaborar uma lista com algumas dúvidas em relação a alguns serviços propostos nesse mesmo Programa.
Segundo Francisco Lopes, embora esteja “satisfeito e confiante” com a aprovação do Programa Funcional e com a construção do Novo Hospital de Lamego, “é necessário analisar se esse programa responde ao que entendemos ser as necessidades de saúde da nossa população. (...) Após essa análise, tivemos a possibilidade de identificar vantagens e inconvenientes no programa”.
Para o edil, alguns pontos carecem de maior explicação por parte do Governo. No que toca ao Serviço de Urgência básico, Francisco Lopes refere que se não for atribuído um nível superior de cuidados, as urgências terão os mesmos serviços que hoje são prestados pelos SAP’s.
De acordo com alguns profissionais de saúde, se esse serviço de urgência não tiver nível qualificado, “haverá uma onda de transferências de doentes para Vila Real, por parte dos médicos que tiverem uma mínima dúvida durante o diagnóstico da situação do doente”.
O número reduzido de camas é também um dos pontos criticados pelo autarca lamecense e poderá favorecer a transferência de doentes para Vila Real.
Em relação aos meios complementares de diagnóstico e terapêutica, a dúvida recai sobre o tipo de equipamentos que serão disponibilizados.
Sobre as cirurgias de ambulatório geral, resta saber, efectivamente, que tipo de cirurgias serão realizadas.
Já o serviço de unidade de dia e serviço domiciliário suscita também algumas dúvidas, em relação ao número de leitos.
Francisco Lopes referiu ainda ter “desafiado” o ministro da Saúde, Correia de Campos, a evitar o esvaziamento do actual Hospital Distrital de Lamego a nível de recursos humanos e de valências até que o novo hospital seja aberto à população. “Hoje em dia o nosso hospital vive um período de instabilidade em relação ao seu futuro e a todas essas mudanças. (...) O ideal seria promover um período de transição e adaptação até que os serviços sejam realizados no novo hospital”.
O financiamento foi alvo também de discussão entre Francisco Lopes e Correia de Campos, em Lisboa. A única possibilidade que viabiliza o processo financeiramente é ser suportado através de Fundos Comunitários.
“Congratulo-me com a homologação do projecto funcional e com a vontade política demonstrada pelo Governo em colocar o novo Hospital de Lamego novamente na agenda política. Quero acreditar que o Estado é uma pessoa de bem e que vai cumprir os prazos estabelecidos”, finaliza Francisco Lopes.

Despacho n.º 6157/2006 (2.ª série). –

IN:
http://www.portaldasaude.pt/NR/rdonlyres/DD4A12F0-7C50-46B1-9B97-72D9BC6BD818/0/lamego.pdf


A desactualização do programa funcional e correspondente projecto para o Hospital Distrital (HD) de Lamego torna impossível a adjudicação do concurso entretanto aberto. Na verdade, uma longa prática rotineira de programação tornou visivelmente inadequado o projecto existente em relação às necessidades. O projecto sofre simultaneamente de subdimensionamento em algumas valências e de sobredimensionamento noutras. Mas o problema mais grave reside na sua rigidez e total impossibilidade de reconversão à mutação ocorrida nas necessidades de hospitalização. Três factores documentam esta impossibilidade: a) o envelhecimento progressivo da população; b) o aparecimento de uma população sazonal turística em quantidade crescente e com necessidades de saúde muito específicas, e c) a redução acelerada da natalidade na região. Acrescem aos factores anteriores a rapidez de comunicação viária facilitada pela A 24 e a persistente dificuldade de circulação na margem sul do Douro entre os concelhos de Cinfães, Resende, Lamego, Tarouca, Armamar e São João da Pesqueira.
Prosseguir a construção de um hospital concebido para uma população tal como ela estava há 20 anos seria destinar ao fracasso um elevado investimento, desperdiçando a oportunidade de se encontrar uma solução moderna, eficiente e realmente adequada às necessidades. O País tem, infelizmente, vários exemplos de hospitais de construção recente, cujos programa funcional e projecto não se adaptam às reais necessidades de saúde da população. Não há justificação para persistir no erro. Todavia, quer as necessidades da população, quer as expectativas criadas, quer ainda a frustração dos profissionais que não dispõem de ambiente de trabalho com qualidade aceitável determinam uma solução muito rápida para o problema.
O Governo comprometeu a sua palavra em que Lamego tivesse um hospital novo até ao final da presente década. Tal será cumprido. Para o efeito, importa mobilizar todas as vontades, capacidades técnicas e recursos financeiros necessários. Para que esta exigente meta seja cumprida impõe-se trabalhar de imediato. Nestes termos, deverá constituir-se, sob a presidência da DGIES, um grupo de trabalho com representantes da ARS do Centro e da ARS do Norte, dos conselhos de administração do próprio Hospital e do Centro Hospitalar de Vila Real/Peso da Régua, unidade de natural referência pela proximidade, com vista à elaboração do programa funcional de um novo HD de Lamego que, assumindo as características de hospital de proximidade, seja dotado de bons cuidados nas especialidades básicas, hospital de dia, consulta externa diferenciada e urgência básica qualificada, dispondo de uma plataforma tecnológica de alta qualidade e ainda de um número adequado de leitos de convalescença, para descongestionar os serviços de agudos das patologias prevalentes nos utentes, anormalmente envelhecidos, abrangidos na área de influênciadeste Hospital.
O grupo de trabalho deverá visitar, de imediato, alguns hospitais de proximidade de Espanha, em zona com características demográficas e procura turística semelhantes à da região onde o concelho de Lamego se insere. Produzirá o seu programa funcional para aprovação antes de 31 de Maio do ano em curso. Aprovado o programa, ser mediatamente ançado o concurso para projecto da obra de modo que as propostas ossam estar prontas para apreciação em 30 de Novembro. Os passos seguintes serão realizados com rigoroso cumprimento do cronograma contido neste despacho.
Nestes termos, determino:
1 - A constituição de um grupo de trabalho para a revisão do programa do novo HD de Lamego como hospital de proximidade, composto pelas seguintes instituições e pessoas:
DGIES, engenheiro João Wemans, que presidirá;
ARS do Centro, Prof. Doutor Fernando de Jesus Regateiro;
ARS do Norte, Dr. Alcindo Salgado Maciel Barbosa;
Presidente do conselho de administração do HD de Lamego, Dr. António Manuel Marques Luís;
Dr. Carlos Alberto Vaz, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Vila Real/Peso da Régua.
2 - O grupo poderá agregar personalidades de reconhecida competência técnica para o assessorar no seu trabalho.
3 - O grupo visitará até ao fim de Março alguns hospitais de proximidade em outros países com vista a formular um novo conceito de hospital de proximidade adequado à mutação das necessidades de saúde ocorridas entre o programa inicial e a presente revisão.
4 - Até ao final deste ano, os serviços responsáveis deverão, com os contributos do grupo de trabalho, alcançar as seguintes metas temporais:
Novo programa revisto a apresentar a homologação - até 31 de Maio de 2006;
Lançamento do concurso de projecto - até 30 de Junho de 2006;
Período de concurso entre projectistas - até 30 de Setembro de 2006;
Apreciação dos projectos candidatos e adjudicação - até 31 de Janeiro de 2007;
Aprovação do projecto de execução - até 31 de Janeiro de 2008;
Lançamento do concurso de construção - até 29 de Fevereiro de 2008;
Período de concurso entre construtores - até 31 de Maio de 2008;
Apreciação das propostas e adjudicação - até 31 de Agosto de 2008;
Início da construção - até 30 de Novembro de 2008;
Conclusão da construção - 30 de Junho de 2010;
Instalação de equipamento e recepção - 31 de Outubro de 2010;
Abertura do Hospital - 30 de Novembro de 2010.
5 - Os encargos com a constituição e funcionamento do grupo serão suportados pelas dotações extraordinárias previstas para o novo HD de Lamego.
13 de Fevereiro de 2006. - O Ministro da Saúde, António Fernando Correia de Campos.

Curiosidade… muito interessante
Acta nº3 da Câmara Municipal de Resende, em 2006

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http://assembleia.cm-resende.pt/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=37&Itemid=11

ASSUNTOS DE INTERESSE PARA O MUNICÍPIO:--------------------------------------------
Neste ponto registou-se a seguinte intervenção:-----------------------------------------------------

Sra xxxxx Elsa Rodrigues: "Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Municipal, Exmo. Presidente da Câmara Municipal, Caros membros da Assembleia Municipal, Exmo. Público aqui presente, Muito boa tarde. Foi tornado público o novo programa funcional para o Hospital de Lamego, sobre o qual o Sr. Presidente assume a sua posição favorável numa entrevista publicada num jornal regional (Jornal Lamego Hoje, 8 de Junho de 2006). De acordo com o novo programa, o Hospital passará a ter uma urgência básica onde apenas se prestará a mesma assistência que hoje se presta no serviço de atendimento permanente (SAP), o que significa que servirá para triar os casos que deverão ser encaminhados para uma urgência de cuidados de saúde diferenciados, neste caso, Vila Real. O bloco operatório servirá apenas para cirurgias de ambulatório, ou seja, que não implique internamento, funcionando apenas em dias úteis. O internamento contará apenas com a disponibilidade de 30 camas que servirá uma população com mais de 80 mil pessoas, sendo vocacionado apenas para cuidados de convalescença, ou seja, cuidados pós situação aguda, pessoas que necessitam de alguns cuidados até se restabelecerem totalmente ou em casos sociais, até serem reinseridos. Tudo isto significa que os nossos doentes em fase aguda, a necessitar de cuidados de saúde diferenciados, terão de ser internados em Vila Real, o que para uma população cada vez mais envelhecida como a deste concelho, será um rude golpe e, com certeza, representará cuidados de saúde menos humanizados. Em suma, passaremos de um Hospital onde se prestam hoje cuidados de saúde diferenciados, para um Hospital que em termos de funcionalidade não é nada mais do que um Centro de Saúde grande, que servirá mais de 80 mil pessoas. Deixamos clara a posição da Bancada do PSD nesta Assembleia, bem como, a da estrutura concelhia, que é favorável a um Hospital de Lamego onde se prestem cuidados de saúde diferenciados e não a este modelo que o transforma, repito, num Centro de Saúde grande. Gostávamos que o Sr. Presidente da Câmara assumisse a sua posição acerca deste assunto, tão importante para as pessoas deste concelho. Obrigada.".—

Sexta-feira, 26 de Março de 2010
Novo hospital concluído até Setembro de 2011
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http://taroucahoje.blogs.sapo.pt/2010/03/


O presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro garantiu que o novo hospital de Lamego ficará concluído até Setembro do próximo ano."A obra está em franco desenvolvimento, não há atrasos", disse Carlos Vaz aos jornalistas, no final de uma visita às obras do hospital (iniciadas em Agosto de 2009), em que participou o secretário de Estado da Administração Local, José Junqueiro.
O governante frisou que o hospital de Lamego "é um projecto pioneiro", com um serviço predominantemente de ambulatório, que servirá uma população directa de cem mil habitantes dos 10 concelhos do Douro Sul e fará uma cobertura indirecta a 375 mil habitantes (toda a população que integra o centro hospitalar).
"Estes cuidados de proximidade têm mais valências, melhor equipamento, excelentes profissionais de saúde que já existem", frisou, acrescentando que será "uma mais valia" para a região.
Na sua opinião, a nova unidade de saúde também será importante ao nível da competitividade territorial, porque os turistas que visitam o Douro Sul gostam de saber que podem contar, "para qualquer emergência, com cuidados de saúde adequados".
O novo hospital, orçado em mais de 41 milhões de euros e que fica situado junto ao nó da auto-estrada A24, disporá de cirurgia de ambulatório (três salas operatórias), consulta externa (14 gabinetes), urgência básica, hospital de dia e visitas domiciliárias.
Carlos Vaz admitiu que a população estranha o facto de o hospital não ter internamento, considerando "normal que as mudanças e as coisas novas preocupem as pessoas". No entanto, lembrou que, "em todo o mundo desenvolvido, nomeadamente nos Estados Unidos, !!!! já vão na quinta geração de hospitais de ambulatório".
"É muito melhor para os doentes, que não gostam de estar internados. E o desenvolvimento da cirurgia e da própria medicina leva a que pensemos que, de facto, as paredes e as camas não tratam doentes", acrescentou.
O responsável sublinhou que "quem trata os doentes são os profissionais, a tecnologia" e que é melhor que as pessoas, depois de intervencionadas, tenham "um bom acompanhamento de visitas domiciliárias e hospital de dia", ficando junto dos seus familiares e evitando as infecções hospitalares.

OK. E os que precisam de ser internados?
O presidente da Câmara de Lamego, Francisco Lopes, manifestou preocupação sobre a forma como será feita a transição de um hospital normal para um hospital de ambulatório.
"Grande parte dos profissionais de saúde trabalha há muitos anos em medicina hospitalar e irão querer continuar na mesma área funcional, serem aproveitados o melhor possível dentro das suas especializações", realçou, fazendo votos para que não haja "qualquer tipo de desmotivação".
Fonte: Diário de Viseu
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