segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Impressões de José Saramago sobre S. Martinho de Mouros na sua “Viagem a Portugal"*

O viajante procura a igreja matriz da terra. Fica a um lado, virada para o vale, e, assim implantada, dando a face aos ventos, percebe-se que mais a tenham feito fortaleza do que templo. Com uma porta sólida, trancas robustas, mouros que viessem teriam sido vencidos como os venceu aqui Fernando Magno, rei de Leão, no ano de 1507, ainda faltavam quase cem anos para Portugal nascer. A prova de que esta igreja foi concebida para fortim, tanto, vá lá, como casa de oração, está nas paredes grossas e lisas, contrafortadas, de poucas frestas. E o torreão, recolhido em relação vertical da fachada, seria posto de vigia, aberto aos quatro ventos cardeais. Para poder vê-lo, e ainda assim incompletamente, teve o viajante de recuar muito, ir colocar-se no extremo do terreiro. Não estava ali para brincadeiras o torreão.
Nunca viu igreja assim. Afinal, a proclamada rigidez das propostas românicas ainda deixava bastante campo à invenção. Colocar lá em cima aquela torre, resolver os problemas de estrutura que a opção implicava, conciliar as soluções particulares com o plano geral, unificar esteticamente o conjunto (para que hoje se possa achar tudo isto magnífico), significa que este mestre-de-obra tinha muitos mais trunfos na manga que o comum dos traçadores de risco da época. E quando o viajante estiver lá dentro verá, com espantados olhos, como foi encontrada a maneira de sustentar a torre: assenta ela em pilares que se erguem logo depois da entrada, formando uma espécie de galilé voltada para dentro, de efeito plástico único.
A igreja não abunda em qualificadas obras de arte. Duas tábuas com passos da vida de S. Martinho, um Cristo enorme, e pouco mais, se não contarmos as imagens sacras populares que, sobre uma alta parede interior, se vão cobrindo de pó e teias de aranha. O viajante indigna-se diante de tal abandono. Se em S. Martinho de Mouros não sabem estimar tão belas peças da imaginária rústica, entreguem-nas a um museu, que as saberá agradecer. Quando o viajante sair, dirá a uma mulher, que por acaso vai passando naqueles desertos, estas e outras suas indignações, envolvendo-as em conselhos de cautela, porque, ali desamparadas, estão as imagens muito a jeito de mãos cobiçosas. Só o viajante sabe quanto lhe custou resistir ao demónio que outra vez o veio tentar, na igreja erma. Tal susto meteu à perplexa mulher que hoje em redor da igreja deve haver um campo fortificado onde só se entra com prévio exame de consciência e donde apenas se sai depois de mostrar o que vai nos alforges.
Mas há outras tentações em S. Martinho de Mouros. Não couberam todas em Ermida de Paiva, vieram instalar-se aqui, empurradas pelas orações dos frades de além, materialização dos sonhos terrenos dos agostinhos que lá pregaram, nas margens do rio formoso, a privação da carne. Nas talhas dos retábulos o corpo feminino é apresentado com opulência atlética, quase rubensiana. Aqui não se ocultam ou espalmam os seios da mulher: são claramente lançados para a frente, moldados, contornados, coloridos, para que não fiquem dúvidas sobre as moralidades do céu: enfim se vê que há anjos dos dois sexos, terminou a velha e absurda questão. Gloriosamente o corpo neste lugar se mostra. Meio corpo é, mas tentação inteira.
Contadas estas coisas, tem o viajante muita razão para ir digerindo melancolia enquanto se aproxima de Lamego.
*Transcrição do livro Viagem a Portugal, de José Saramago, Círculo de Leitores, 2010, pp. 186-187

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ao café com …o Presidente da Junta de Felgueiras, Marco Jacinto de Almeida Matos*

Quem é o presidente da Junta da Freguesia de Felgueiras
Chama-se Marco Jacinto de Almeida Matos, nasceu a 23 de Junho de 1978 e é filho de Henrique Manuel de Almeida Matos e de Berta da Conceição Almeida Bernardino. Tem quatro irmãos, três rapazes e uma rapariga, dois dos quais vivem em Felgueiras, um em Resende e um outro em Mira. O pai faleceu em Fevereiro deste ano.
Frequentou a Escola Primária de Felgueiras, onde fez a quarta classe. Posteriormente, frequentou o 5.º e 6.º anos na Escola Básica do 2.º Ciclo de Resende, então chamada Escola Preparatória. Terminado o segundo ciclo, ingressou no Externato D. Afonso Henriques, que frequentou até ao 11.º ano. Veio a terminar o 12.º na Escola Secundária Dom Egas Moniz.
Trabalhou durante doze anos na Escola Básica do 2.º Ciclo, tendo transitado para o Centro Escolar de Resende em Setembro do ano passado, onde é assistente técnico, sendo responsável pela coordenação do pessoal não docente e das instalações.
É solteiro e reside em Felgueiras.
Integra o grupo de jovens de Felgueiras “Luz no Horizonte”, ligado à paróquia, tendo como animador e assistente o Padre José Augusto. Actualmente é constituído por 18 jovens, os quais se reúnem aos sábados para reflectir sobre os acontecimentos da semana à luz do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja e para preparar a missa de domingo, pois constituem também o grupo coral. O grupo é responsável pela organização da procissão em honra de Santa Bárbara, que se realiza anualmente no dia 5 de Dezembro. Organiza ainda a via sacra dramatizada na Quaresma e a procissão das velas em Maio. Refira-se que este grupo integra uma forte vertente convivial, com saídas para eventos, jantares e até passagem de férias em conjunto.
Marco Almeida Matos é presidente da Junta de Freguesia de Felgueiras desde Outubro de 2009, tendo sido Secretário do elenco da Junta anterior, presidida pelo Enf. Álvaro Matos Almeida. Refira-se que este é o quinto mandato consecutivo em que a Junta de Freguesia é afecta ao PS. Nas últimas eleições, depois de alguns esforços de bastidores, só se apresentou uma lista a sufrágio.

O que fez e o que espera fazer por Felgueiras
Dotou as ruas e caminhos das diversas povoações de placas toponímicas. Procedeu ao arranjo de lavadouros públicos nas povoações de Ferros, Pimeirol e Beirós. Interveio no cemitério com a colocação de gradeamentos e de candeeiros de iluminação. Na continuação do trabalho efectuado anteriormente, foram arranjados e pavimentados vários caminhos com calçada à portuguesa, tornando mais seguros e agradáveis os acessos e as deslocações pelas ruas das aldeias de Felgueiras. Um outro objectivo tem sido manter todos os caminhos da freguesia limpos, o que tem sido cumprido. Também tem disponibilizado todo o apoio possível às associações. Alem disso, tem promovido anualmente, em Dezembro, o “Almoço de Natal do Idoso”, no Centro Comunitário de Felgueiras.
A Junta de Freguesia presta um conjunto de serviços à comunidade. Para o efeito, foi constituído um Gabinete de Apoio ao Cidadão, onde os interessados podem, por exemplo, pedir para tirar fotocópias, enviar e receber telecópias e correio electrónico, carregar telemóveis e efectuar pagamentos (luz, telefone e impostos). A prestação destes serviços evita que as pessoas, sem internet ou menos familiarizadas com esta ferramenta, sobretudo as mais idosas, tenham de se deslocar a Resende. Há ainda um serviço de Internet e Biblioteca. O espaço tem cinco computadores e a biblioteca tem um acervo razoável de livros e alguns jogos, que podem ser lidos presencialmente ou requisitados para casa. Este conjunto de equipamentos e serviços estão muito voltados para a população escolar e, por isso, estão abertos de segunda-feira a sábado, das 16h00 às 19h00, sendo o atendimento prestado por uma funcionária, paga pela Junta de Freguesia. Os estudantes podem também aproveitar para aí fazer os trabalhos de casa. Acresce referir que Felgueiras está dotado de um serviço WI-FI, graças à iniciativa da Junta. Desde Janeiro de 2008, possui acesso à Internet sem fios (ligação "wireless"), sendo a primeira freguesia do concelho de Resende a disponibilizar esta tecnologia. A autarquia procedeu à instalação de antenas em locais estratégicos de modo a garantir a cobertura total da localidade, disponibilizando a todos os Felgueirenses uma cobertura gratuita do serviço de Internet (em rede aberta).
O atendimento para prestar informações, passar atestados e disponibilizar serviços no âmbito das competências das Juntas de Freguesia é feito às quintas-feiras das 18h30 às 19h30, aos sábados das 14h00 às 15h00 e aos domingos da 11h00 às 12h00.
A actual Junta de freguesia tem como projecto requalificar os balneários, actualmente bastante degradados, junto do campo de futebol. Pretende ainda construir um parque de merendas, contíguo ao mesmo campo de futebol. Irá também diligenciar junto da Câmara Municipal para que as povoações de Pimeirol e Beirós sejam servidas por água ao domicílio e saneamento básico.

Questionário de respostas breves

1. Onde passou as últimas férias?
Na praia da Vagueira com o grupo de jovens de Felgueiras “Luz no Horizonte”

2. Compra preferencialmente português?
Sim. Tenho a preocupação de comprar produtos portugueses

3. Quais os seus passatempos?
Conversar com os amigos e ver filmes

4. Qual o momento mais feliz da vida?
Uma viagem que fiz à Bósnia em 2007

5. E o mais triste?
O falecimento do meu pai

6. Que faz para ultrapassar as “neuras”?

Saio para um local tranquilo, de forma a poder relativizar os acontecimentos

7. Qual o seu prato preferido?
Cozido à portuguesa

8. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?
É a construção da estrada Ermida/Bigorne

9. O que mais admira nos outros?
A sinceridade

10. O que mais detesta nos outros?
O fingimento e a vaidade

11. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?
A festa de S. João, padroeiro de Felgueiras, e também a Feira Anual de S. Cristóvão

12. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?
Aregos e o monte de S. Cristóvão

13. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?
Um livro da autoria do meu tio, o Padre Albino Matos

14. De que mais se orgulha?
Conseguir agregar as gentes de Felgueiras no apoio a uma única lista nas últimas eleições para a Junta/Assembleia de Freguesia

15. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?
A construção da Ponte da Ermida, dos Centros Comunitários e do Centro de Saúde. Se pudesse referir uma quarta, incluiria também a construção dos Centros Escolares

16. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?
Em tudo o que depender do presidente da Câmara, não tenho dúvidas que arrancaria. O problema são outros constrangimentos que o ultrapassam

17. Que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da CM?
Irá continuar a trabalhar por Resende

18. Associa a palavra Resende a..?

Cerejas

19. Já foi multado por infracção ao código da estrada?
Uma única vez por estacionamento indevido

20. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?
Concordo

21. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?
A que tem mais potencialidades é a área do turismo e lazer, ligada às termas de Caldas de Aregos

22. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?
Eng. António Borges e Eng. José Sócrates

23. É favorável à redução do número de autarquias, designadamente de freguesias?
Sou favorável a que se proceda a uma reestruturação do mapa autárquico, mas sem pôr em causa a identidade das freguesias, mantendo-as como estruturas insubstituíveis de referenciação da política local.

*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Agosto de 2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ao café com …o Presidente da Junta de Cárquere: Na esplanada do café-bar Aquas Calidas com Amadeu Vasconcelos*

Quem é o presidente da Junta da Freguesia de Cárquere

Nasceu em Cubal/Angola em 1 de Janeiro de 1978. Devido aos tempos conturbados que então se viviam em Angola, a família veio para Cárquere, de onde o pai era natural e que tinha deixado com cerca de trinta anos. À excepção do irmão mais velho que ficou em Angola, vieram os pais e nove irmãos. Tem ainda mais cinco irmãs do lado do pai, fruto de uma relação anterior à sua ida para Angola.

Concluiu a 4.ª classe na escola de Cárquere, frequentou a então escola preparatória de Resende, onde fez o 2.º ciclo, e a escola secundária D. Egas Moniz, onde concluiu o 12.º ano. Após a conclusão do ensino secundário, matriculou-se numa escola de línguas em Lisboa, mas acabou por desistir. Achou que tinha mais apetência por uma área ligada à matemática, tendo efectuado a matrícula e frequentado o curso de contabilidade e administração na Escola Superior de Tecnologia de Viseu, que espera concluir daqui a uns anos. Trabalha nesta área, já que é um dos colaboradores do gabinete “Coelho e Diogo, Contabilidade e Serviços, Lda.”.

Sempre se integrou bem em todos os locais e instituições por onde passou, fazendo amizades com facilidade. Foi jogador do Grupo Desportivo de Cárquere e integrou os respectivos órgãos sociais, onde mostrou ser um jovem conciliador e de grande dinamismo.

É casado e espera o primeiro filho para Setembro próximo.

Fez parte da Assembleia de Freguesia no mandato correspondente a 2001-2005, integrando a lista do PS, mas não sendo cabeça de lista. Nas eleições autárquicas de 2005, candidatou-se como cabeça de lista, tendo o PS conquistado 5 lugares e o PSD 2 lugares. Foi eleito com 27 anos, o que fez dele um dos autarcas mais jovens do país. Em 2009, candidatou-se a um segundo mandato, tendo o PS obtido 6 lugares e o PSD 1 lugar.

Esta escolha foi uma aposta do actual presidente da Câmara Municipal, que viu nele um jovem com o perfil adequado para ganhar a Junta de Freguesia de Cárquere para o PS, o que veio a acontecer.

O que fez e o que espera fazer por Cárquere

Uma das realizações de que se orgulha é ter contribuído para a elevação do nível das habilitações escolares e profissionais da população adulta da freguesia, através de cursos de educação e formação (cursos EFA). Para isso, tomou a iniciativa de promover a realização de diversos cursos, em parceria com entidades formadoras, o que fez com que cerca de cem pessoas obtivessem o diploma dos 6.º, 9.º e 12.º anos. Por este motivo, em Cárquere, as pessoas com a 4.ª classe constituem um número bastante reduzido.

Além dos trabalhos de regularização e limpeza de vias e manutenção do Carvalhal, aos quais procura responder de forma permanente, há duas benfeitorias dos seus mandatos que importa realçar: a requalificação da sede da Junta de Freguesia, que a tornou mais funcional, e a abertura de 5 quilómetros de via florestal, em parceria com a Câmara Municipal.

Há um conjunto de obras julgadas necessárias para a freguesia, para cuja concretização irá envidar esforços junto da Câmara Municipal. A mais premente é a pavimentação com asfalto de três caminhos. Apresenta-se também como um projecto de grande importância a requalificação da Mata do Carvalhal, que integra a construção de um traçado delimitador do percurso da procissão, talvez em calçada à portuguesa, a instalação de iluminação e o arranjo dos coretos e da escadaria. Além disso, há ainda a necessidade de alargar o cemitério e de construir uma Casa Mortuária.

Amadeu Vasconcelos considera que a recente integração do Município na Rota do Românico do Vale de Sousa e Tâmega vem dar mais peso à necessidade de uma intervenção na zona do Mosteiro de Cárquere, exigindo em consequência uma maior preocupação com o património românico existente no concelho.

Refira-se que o atendimento à população na sede da Junta de Freguesia é feito às quartas-feiras, durante a manhã, e aos sábados, durante a tarde. Além de assuntos cuja resolução pertencem à Junta, Amadeu Vasconcelos tem-se mostrado disponível no apoio às pessoa no que se refere a informações e ao cumprimento de obrigações administrativas, como o preenchimento de impressos.

Questionário de respostas breves

  1. Onde passou as últimas férias?

No Algarve

  1. Compra preferencialmente português?

É-me indiferente

  1. Quais os seus passatempos?

Internet, ler e ver televisão

  1. Qual o momento mais feliz da vida?

O dia do meu casamento

  1. E o mais triste?

A morte do meu pai

  1. Que faz para ultrapassar as “neuras”?

Afastar-me das situações problemáticas

  1. Qual o seu prato preferido?

Anho assado com arroz no forno

  1. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?

A ligação à A24 e A4

  1. O que mais admira nos outros?

Sinceridade

  1. O que mais detesta nos outros?

Falsidade

  1. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?

Dia da paróquia, no último domingo de Julho, em que se reúnem as famílias no Carvalhal

  1. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?

Caldas de Aregos, Porto de Rei e Serra de Montemuro

  1. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?

Não

  1. De que mais se orgulha?

Integração numa equipa que ajudou e continua a ajudar a desenvolver o concelho

  1. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?

A construção dos Centros Escolares, a construção da Ponte da Ermida e a aquisição das Termas das Caldas de Aregos pela Câmara Municipal

  1. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?

Tenho algumas reservas

  1. Que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da CM?

Descansar, mas apenas daqui a muitos anos

  1. Associa a palavra Resende a..?

Tranquilidade

  1. Já foi multado por infracção ao código da estrada?

Por estacionamento indevido

  1. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?

Concordo

  1. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?

Áreas ligadas ao turismo

  1. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?

Eng. António Borges e Dr. Brito de Matos

23. É favorável à redução do número de autarquias, designadamente de freguesias?

Acho que esta questão deve ser discutida. Sou favorável à abertura para a definição de um novo mapa respeitante à reorganização das freguesias, desde que este processo não ponha em causa a identidade das existentes.

*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Julho de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Nossa Senhora do Souto em Paus: fé e crenças*

S. Pedro do Souto é uma pequena aldeia da freguesia de Paus, que guarda um tesouro de histórias singulares de religiosidade. Tem uma capela que alberga uma imagem encontrada junto às raízes de uma silva e um sino que aplaca tempestades e trovoadas, um “campo da Senhora”, que é propriedade privada, e “regueifas” que afugentam doenças e maleitas.
O fenómeno da Senhora do Souto ficou localmente circunscrito, pois nunca ali assentou arraiais uma ordem religiosa para disseminar a sua devoção. Ao contrário da Senhora da Lapa, cujos prodígios levaram à construção de um Santuário no local, tendo os jesuítas, que ali se instalaram, sido exímios na sua divulgação, transformando-o no segundo centro de peregrinação mais importante da península ibérica, após Santiago de Compostela. E, contudo na base da génese dos dois fenómenos estão dois relatos semelhantes. Em ambos os locais, há uma imagem de Nossa Senhora escondida, cujos prodígios se revelam no processo ou após o seu achamento. No caso da imagem da Senhora da Lapa, o seu poder expressa-se, quando, após o seu encontro numa gruta por uma jovem pastora (muda), e já em casa, é atirada à lareira pela mãe, tendo a filha, falando pela primeira vez, rogado para que não o fizesse. Em S. Pedro do Souto, o sinal prodigioso reside no pretexto que leva à descoberta da respectiva imagem. Perante a estranheza de uma silva alta e viçosa, anteriormente inexistente, o proprietário do respectivo terreno corta-a. Contudo, no dia seguinte, apresentar-se-á ainda mais alta e viçosa, pelo que o lavrador volta a cortá-la. Nada feito. Face a esta “teimosia”, resolveu cortar o mal pela raiz, ou seja, escavar para a poder arrancar. Estranhamente, contudo, no fundo da pequena cova que teve de fazer, encontrou uma imagem de Nossa Senhora e um sino, sendo a mesma colocada na capelinha da povoação.
Quanto ao sino, tentaram levá-lo para a Sé de Lamego. Curiosamente, até ao cimo da serra das Meadas, tocava lindamente. Dobrada a mesma “recusava-se” a tocar, tendo, por isso, retornado para S. Pedro do Souto e sido colocado na respectiva capelinha.
Esta imagens, encontradas após a reconquista cristã, foram provavelmente escondidas no período do domínio dos mouros na península ibérica. É natural que estes achados, por serem tão significativos e por envolverem uma dimensão religiosa, não fossem vistos pelas pessoas de então como simples acontecimentos ocasionais, requerendo, no quadro da sua mundivisão, a intervenção divina. Estes acontecimentos foram assim coloridos de registos de natureza fantástica, originando estórias que, antropologicamente, não são redutíveis a meras lendas.

Festa da Senhora do Souto
Anualmente, no domingo seguinte, ao dia da Senhora dos Remédios, realiza-se a festa em honra da Senhora do Souto. É constituída de missa solene e procissão com percurso pelo interior da povoação e pelo “campo da Senhora” (local do “aparecimento” da imagem), onde será proferido um sermão, retornando à capela. Seguidamente, surge um momento de muita expectativa e emoção, que é o lançamento de pão ou “regueifas” pelas janelas de uma casa junto à capela. Cada um dos presentes irá disputar a maior quantidade de pão possível, que será guardado nas respectivas casas, pois tem o condão de afastar doenças e maleitas. Outrora cozido num forno da aldeia, é agora cozido na padaria do Barreiro, sendo benzido na missa e levado em sacos na procissão, tendo a particularidade de não ter fermento e de não se estragar, de acordo com vários testemunhos.

Sino milagroso
Sempre que há trovoadas e tempestades, há a preocupação de tocar o sino. Sempre ouvi dizer que o seu toque tem sido eficaz. O encarregado da guarda da capela, Sr. Joaquim Pinto, confidenciou-me que já o tocou duas vezes este ano e “a trovoada foi por aí abaixo...”.
Há uma segunda versão sobre o achamento deste sino, havendo pessoas que referem que o mesmo foi encontrado juntamente com a imagem de Santa Bárbara numa casa da aldeia, tendo esta também sido colocada na capelinha. Como esta santa é a protectora em caso de trovoadas e tempestades, está “explicada” a eficácia do sino.

Crucifixo bizantino
Pertencente à capela da Senhora do Souto, há um crucifixo, antiquíssimo, de estilo bizantino, de valor incalculável, que já integrou várias exposições. Para diminuir os riscos de furto, o mesmo vai sendo guardado em locais diferentes ao longo do ano.

Nota: Este pequeno artigo baseou-se em registos orais ouvidos desde criança, “avivados” na última festa da Senhora do Souto e enriquecidos com o cotejo das descrições incluídas na monografia do nosso concelho, da autoria do Sr. Dr. Joaquim Correia Duarte.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Outubro de 2oo6

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Notícias do "Jornal de Resende", Junho de 2011*

Festa da Cereja de Resende em Sintra
Já se tornou uma tradição. Realiza-se no fim de semana seguinte ao o Festival em Resende. Lourel, uma localidade nos arredores de Sintra, foi inundada de cerejas do nosso concelho nos dias 4 e 5 de Junho. Na madrugada de sábado chegou, vinda de Paus, uma carrinha carregada de cerejas, conduzida por José Luís de Oliveira, a quem foi feita a encomenda de mil e duzentos quilos. Entretanto, um conterrâneo residente em Sintra, Joaquim Botelho, tinha-se feito à estrada em direcção a Resende, na quinta-feira, para recolher e adquirir outros produtos, designadamente cavacas, presuntos, salpicões, moiras, bolas, pão e doces regionais, tendo chegado também na madrugada de sábado. Pendões estrategicamente colocados nas ruas da localidade, diversos cartazes e o passa palavra alertaram a numerosa comunidade resendense, amigos e residentes para o evento. Era uma oportunidade para provar as nossas cerejas e outros produtos. A venda ao público começou cerca das 08h00, registando-se grande afluência de pessoas ao meio da manhã. Pelas 16h00, já tinham “desaparecido” cerca de novecentos quilos de cerejas, vendidas em caixas de dois quilos, ao preço de seis euros a embalagem.
O evento decorreu num espaço ao ar livre, propriedade do Sporting Clube de Lourel, cujo presidente da direcção é, por feliz coincidência, um resendense. Aí foram montadas diversas barracas para venda de produtos alimentares e peças de artesanato feitas em Resende e na zona de Sintra, cujos resultados reverteram a favor da futura sede da Casa do Concelho de Resende. A cereja, como rainha da festa, ocupou um lugar de destaque, ao fundo, defronte à entrada do recinto, onde foi montado um balcão para o efeito. Como não podia deixar de ser para incentivar o convívio, foi disponibilizada uma barraca de comes e bebes e de grelhados para as refeições. A tarde teve a animação musical do grupo “Teclas”.
No domingo, houve missa campal às 09h30, celebrada no recinto, em palco montado para o efeito, e abrilhantada pelo Grupo Coral da Casa de Resende. Às 12h30 teve início o almoço/convívio de resendenses, familiares e amigos, no qual participaram duzentas e cinco pessoas, além de convidados. A organização teve de anular várias inscrições por falta de vagas. Por calhar em dia de eleições, não esteve presente nenhum vereador da Câmara Municipal de Resende. Da Câmara de Sintra esteve presente o Sr. Vice-Presidente, Dr. Marco Almeida. Mais uma vez, Manuel do Rosário, o líder da comunidade resendense aqui radicada e pessoa influente junto das instituições locais, aproveitou a presença deste autarca para pedir o empenhamento da Câmara de Sintra no acompanhamento do processo do projecto da construção da tão ansiada sede da Casa de Resende, tendo informado os presentes dos obstáculos que se torna necessário ultrapassar. A tarde foi animada com a actuação da Banda União Mucifalense, de uma localidade próxima.
A Festa da Cereja é o principal evento da Casa de Resende que, no entender de Joaquim Pinto, presidente da direcção da Casa de Resende, ultrapassou este ano as expectativas, já que despoletou mais interesse do que é habitual. “Só é pena que sejam sempre os mesmos a dar o corpo ao manifesto na realização das várias actividades; é necessário, contudo, realçar a colaboração do Sr. Manuel do Rosário, que disponibiliza sempre alguns dos seus trabalhadores para montar o palco, as barracas e para outros afazeres”, rematou em jeito de balanço. Refira-se que, até ao fim do ano, irá ter lugar ainda o tradicional magusto, precedido de almoço, e a festa da consoada, que incluirá um almoço, uma tarde de teatro representado por jovens, entrega de prendas às crianças e lanche.

Inaugurada Rota dos Cerejais em S. João de Fontoura
Felizmente, as pessoas e as instituições do concelho estão cada vez mais a aproveitar as potencialidades da cereja, da Cereja de Resende, como uma marca distintiva do desenvolvimento económico. Resende é já uma referência a nível nacional por causa da cereja. Importa que o seja também pelos cerejais das nossas encostas, atraindo visitantes para verem in loco a paisagem deslumbrante das cerejeiras em flor ou carregadas de cerejas. O percurso pedestre da Rota dos Cerejais, da iniciativa da actual Junta de Freguesia de S. João de Fontoura, inaugurado no passado dia 10 de Junho, responde a esta necessidade, esperando-se que futuramente, em parceria com outras instituições, traga gente do concelho e sobretudo de fora .
A inauguração, que decorreu pelas 10h30, contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal, António Borges, e dos Vereadores Dulce Pereira e Albano Santos. António Borges destacou “…a importância desta iniciativa que se insere no aproveitamento das potencialidades das cerejeiras e das cerejas, em que a mancha de S. João de Fontoura é a testa virada para o Douro, dando continuidade a um verdadeiro anfiteatro paisagístico em que se integram outras freguesias". Referiu também o facto de esta rota vir enriquecer outros percursos do concelho, como a rota do românico, dos miradouros, da cerejeira em flor, do Vale do Cabrum e outros percursos serranos, o que é muito positivo para o concelho. Por fim, elogiou a Junta de Freguesia de S. João de Fontoura, aproveitando a ocasião para dizer que nem tudo tem de ser feito pela Câmara Municipal. Fernando Manuel, Presidente da Junta, expressou a sua satisfação pela concretização da Rota dos Cerejais, esperando que seja devidamente aproveitada pelas populações e que constitua uma oportunidade para atrair pessoas que venham admirar as nossas paisagens, em que sobressaem os cerejeiras.
Seguiu-se a caminhada pelos trilhos devidamente assinalados, numa extensão de cerca de seis quilómetros, com passagem por S. João/Igreja, Alufinha, Porto de Rei, Solar de Porto de Rei, Praia Fluvial, Santinho, Nadais de Baixo e Largo da sede da Junta de Freguesia. Cerca de cem caminhantes tiveram oportunidade de admirar os pomares de cerejais e vinhedos, colher figos na passagem, refrescar-se e beber água em fontes, deslumbrar-se com as encostas e a visão do Douro, embrenhar-se por entre carreiros e escadas, deter-se na harmonia entre cães, gatos e galinhas confinados numa cerca, trocar olhares de contentamento com idosos nas varandas e às portas de casa, encher de vida (por minutos) a pacatez das aldeias, enfim, ver o que olhos apressados não vêem, experimentando a aventura e a resistência do corpo.
O grupo era diversificado, com pessoas de todas as idades (dos 10 aos 70 anos), sendo provenientes de S. João de Fontoura, de outras freguesias do concelho e de naturais residentes no Porto. Demonstraram estar todas em grande forma, pois fizeram a caminhada em menos de duas horas, quando a previsão da duração era de duas horas e meia. Foi pena que esta caminhada não tivesse acontecido mais cedo, com os cerejais no seu máximo esplendor, isto é, carregados de cerejas. Seguiu-se um almoço/convívio com porco no espeto, outros grelhados, broa e caldo verde.
Refira-se que esta Rota teve o acompanhamento técnico de Eduardo Lyon de Castro e Bruno Cardoso (www.opalternativas.com), de Vila de Rei, que prestaram apoio na selecção dos trilhos e caminhos, fizeram a sinalização e conceberam a documentação de informação e divulgação. A Junta de Freguesia compromete-se, a partir de agora, a proceder à sua manutenção e à preservação da sinalética. Em princípio, haverá duas caminhadas por ano e sempre que haja propostas de grupos interessados. Espera-se que esta Rota dos Cerejais, no quadro de uma cultura de educação para a saúde e de uma pedagogia do contacto com a natureza e do andar a pé, se torne uma actividade integrante de um programa alargado de cariz turístico em torno da Cereja de Resende, como marca capaz de atrair cada vez mais pessoas ao nosso concelho.


Facebook mobiliza Felgueirenses

Começou por uma brincadeira de Francisco de Almeida, um adolescente de 11 anos, filho do Enfermeiro Álvaro Matos Almeida. “Pai, e se formasse um grupo com gente de Felgueiras no facebook?”, perguntou. “Força, rapaz”, foi a resposta. Actualmente “administra” o grupo naturais e amigos de Felgueiras, que foi tendo forte adesão, sendo constituído presentemente por cerca de trezentas pessoas. É uma rede espalhada por Felgueiras, Porto, Lisboa, Brasil, Bélgica, isto é, pelos mais diversos locais onde estejam naturais, familiares e amigos desta freguesia, que vão dando notícias, trocando mensagens e fotos, contando histórias, recordando acontecimentos e sedimentando amizades.
Este grupo realizou o I Encontro em Felgueiras, nos passados dias 10 e 11 de Junho, o qual integrou uma componente cultural e de convívio. No dia 10, às 21h00, teve lugar um recital de piano (de cauda, trazido propositadamente de Famalicão) por José Veloso Rito, que interpretou obras de sua autoria (a quase totalidade), de Vittorio Monti, Chopin e Franz Listz. A seguir ao concerto foi servido um Porto de honra com cavacas de Resende. Devido à excelência da interpretação e à originalidade e melodia das músicas, foi um serão que encantou a numerosa assistência, que encheu as duas salas da antiga escola de Felgueiras. Refira-se que José Veloso Rito, engenheiro civil e professor, tem o curso de piano do Conservatório do Porto, apresentando-se em público com regularidade em recitais e concertos, quer no país, quer no estrangeiro. Embora nascido no Porto, está ligado à Quinta da Boavista (Paus) e a Felgueiras por razões familiares, tendo aqui passado muitas férias na sua juventude, que animou com o seu acordeão.
No dia 11 teve lugar um animado almoço/convívio, que reuniu muitos residentes de Felgueiras, mas também um grande número de naturais , familiares e amigos desta freguesia, que se deslocaram propositadamente de Lisboa, Porto e outros pontos do país, em que por uma tarde a amizade “virtual” foi substituída pela realidade do encontro, das palavras e dos afectos, tendo contribuído para firmar uma identidade própria.
*Elaboradas por Marinho Borges e publicadas no Jornal de Resende, número de Junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

«A Sabedoria» - Um Livro do Pe. Paulo Alves*

Na Aula Magna do Instituto Piaget, em Viseu, teve lugar no dia 7 de Junho o lançamento do livro –«A Sabedoria - Definição, Multidimensionalidade e Avaliação» do Pe. Paulo Alves.
A apresentação de um livro e a sua colocação à disposição pública, (quando o fim não é essencialmente comercial), é sempre um ato de humildade pessoal, coragem inteletual e cedência cultural.
A cultura, o saber, a ciência e a sabedoria são património da comunidade e não reserva protegida dos seus detentores. Nestes termos é quase um dever imperativo partilhar e ceder à comunidade o saber por parte de quem o tem. As mil formas de o fazer têm o seu expoente máximo na apresentação em letra de forma e especialmente a sua publicação em livro.
Certamente assim pensou e por certo assim atuou o Pe. Paulo Alves ao publicar em livro a sua tese de doutoramento.
Padre da igreja católica, e natural de Penude, (terra fértil junto a Lamego) Paulo Alves é um dos expoentes promissores da Igreja Católica.
Após a sua ordenação em Agosto de 1986, foi pároco em Castro Daire, Vice Reitor do Seminário de Resende e agora Reitor do Seminário Maior de Lamego.
Em Castro Daire deixou marcas de apostolado, em Resende ficaram sinais vivos de estratégia pedagógica e gestão administrativa e em Lamego avultam já traços de renovação e rasgos de evolução metodológica na preparação de novos sacerdotes e utilização dos meios existentes.
É neste período e acumulando com a responsabilidade delegada e assumida que obtém a licenciatura em «Teologia» na Universidade Católica do Porto, mestrado em «Psicologia Pedagógica pela Universidade de Coimbra e agora o grau de Doutor em "Psicologia do Desenvolvimento" pela mesma Universidade.

À responsabilidade de Reitor do Seminário de Lamego junta presentemente a Regência Curricular de "Psicologia da Religião" na Universidade Católica, núcleo de Viseu e o de Professor Auxiliar no Instituto Piaget em Viseu onde coordena «o 1º ano da licenciatura em Psicologia» e «o 2º ciclo do Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento».
Esta responsabilidade ativa não o impediu nem impede de acompanhar devidamente a formação dos alunos do seminário de Lamego, conhecendo e vivendo de cada um as suas capacidades, apetências ou problemas, como ainda também lhe deixou espaço como investigador, responsável por uma das áreas do «Centro Internacional de Investigação e Reflexão Transdiciplinar».
Este é o o Homem.
A obra chama-se -«A Sabedoria»-.
Como diria hoje Camões, sabedoria, imagine-a quem não puder entendê-la mas é melhor entedê-la do que imaginá-la.
Nas suas 322 páginas de pensamento corrido, sem contar mais 50 de anexos e índices, entramos pelos meandros ainda não desbravados das perspetivas teológicas, filosóficas e históricas da sabedoria ao longo dos séculos, da sua interpretação psicológica bem como da sua estrutura multidimensional.
«A Sabedoria», este livro do Pe. Paulo Alves não é mais um livro, mas « o livro» de análise cuidada, tema atual, investigação consistente e divulgação necessária onde encontramos e é testada pela primeira vez em Portugal uma Escala Sobre a Sabedoria (ESS) da sua autoria.
Uma tese de doutoramento é sempre um trabalho exaustivo de profundidade e investigação garantidas que atesta a capacidade, atualidade, e visão do seu autor.
Este livro não é uma mera produção de ideias, exposição de fatos ou devaneio mental, é um trabalho profundo, defendido em tese na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra perante um juri qualificado e deveras exigente e a cujas asserções tive o grato prazer de assistir em 11 de Dezembro de 2009 e onde obteve a classificação máxima com «Distinção e Louvor».
Este livro e o seu autor entraram já na galeria das grandes referências do pensamento; ao integrar a coleção « Epigénese, Desenvolvimento e Psicologia» com o nº 105 e uma referência bibliográfica de mais de 300 autores, autor e obra emparceiram ao lado de ilustres pensadores mundiais da psicologia, evolução e desenvolvimento humano.
Se é verdade que a sabedoria está em todo lado e que «todas as culturas têm ou tiveram o seu ideal de sabedoria», é verdade também que ela é o problema central da condição humana que tem passado toda a sua existência na sua procura, aquisição, aprofundamento e evolução em constante caminhada ao longo de uma longa viagem sem termo nem descanso que todos percorremos e só alguns investigam e consolidam.
No gesto nobre de não esquecer na dedicação «todos aqueles com quem tenho aprendido», (e grande foi o número dos invocados), eu realço a ASEL que desde 2003 tão de perto com ele colaborou em Resende e a referência feita a sua mãe, pai e irmã, «pelo sentido de vida, pela sabedoria das coisas simples, pelo suor, pelo amor e pela fé», e foi por isso certamente também que viu a Aula Magna praticamente cheia de alunos, professores e amigos, entre os quais a honrosa presença dos Snrs. D. Jacinto Botelho, D. Ilídio Leandro e D. Manuel António, respetivamente bispos de Lamego, Viseu e S.Tomé e Princípe.
«Eu, sabedoria, habito com a prudência, possuo a ciência e a reflexão». (Prv. 8,12)
...Tal a profundidade deste livro...tal a preocupação do Pe. Paulo Alves a quem deixo o meu público louvor e sinceros parabéns.
*Adão Sequeira (Senhora da Hora, Junho 2011)

terça-feira, 31 de maio de 2011

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM FEIRÃO: Chamo-me Amadeu Pereira Pinto e nasci em Feirão há 80 anos*

Dados pessoais e familiares
Nasci no dia 29 de Março de 1931. O meu pai morreu perto dos 80 anos e a minha morreu com 48 anos. Tenho quatro irmãos e uma irmã. Felizmente ainda estão todos vivos, excepto a minha irmã. Esta morreu muito nova, com 18 anos, na região de Lisboa, para onde tinha ido trabalhar, pois já lá se encontrava um irmão. Ia a andar junto à linha do caminho de ferro, em Chelas, quando foi apanhada por um comboio. Três irmãos vivem em Lisboa; eu e um outro irmão ficamos por cá, em Feirão. Em termos de idade, sou o do meio. Tenho dois irmãos mais novos e dois mais velhos.
Antigamente chegou a haver no fundo da aldeia uma sala de aula, mas depois a professora foi-se embora e nunca foi substituída. Por isso, o meu pai ainda aprendeu a ler e a escrever. Chegou a escrever muitas cartas da tropa. A minha mãe ainda aprendeu qualquer coisita, mas pouco. Eu infelizmente nunca fui à escola, pois no meu tempo não havia professor. Dois dos meus irmãos aprenderam a ler e a escrever em Lisboa.
Tenho sete filhos (duas filhas e cinco filhos). Quatro vivem na Marinha Grande, um em Lisboa, um em França e um Feirão. E tenho quinze netos e três bisnetos. Os meus filhos frequentaram cá a escola e fizeram todos a quarta classe. A vida também não foi fácil para eles, já que, de manhãzinha, muitas vezes por volta das 7 horas, saiam para o monte com o gado antes de ir para as aulas pelas 9 horas. À tarde, depois da escola, voltavam outra vez a guardar o gado.
Casei quando tinha 24 anos com uma rapariga aqui de Feirão. Morreu há dois e pouco. Tinha então 77 anos. Foi a maior perda da minha vida. A vida de um homem sem uma mulher não é nada. E então nesta idade, pior ainda. Depois da morte dela, a minha vida ficou escangalhada. Naquela altura, passei muitas noites sem dormir e até me vi obrigado a pedir ao médico que receitasse qualquer coisa para dormir. Agora vivo aqui com a minha filha.

Até aos 16 anos, em Feirão
Os meus pais sempre foram caseiros e tiveram uma vida difícil. A fonte de maior rendimento era o gado. E também era uma base para a alimentação através do leite e queijo. A minha mãe e a minha mulher chegaram a fazer bastante queijo. Embora houvesse bastante cereais e os meus pais cozessem pão com alguma frequência, recordo-me de em pequeno ter ido pedir pão a Cotelo.
A partir dos seis/sete anos, a minha vida passava-se nos montes a guardar o gado. Os meus pais chegaram a ter quatro vacas e cerca de quinze ovelhas. Saía por volta das 9 horas. Ao meio dia, um dos meus irmãos ia levar-me o almoço numa marmita e ao anoitecer voltava para baixo. Cada um ia para as suas tapadas. Nestas só os donos é que podiam entrar. Nos montes andava-se à vontade com o gado e ninguém ralhava.

No Douro até à reforma
A partir dos dezasseis anos fui para o Douro trabalhar durante todo o ano e não apenas nas vindimas e na poda. Ia a pé por Bigorne, Lamego, seguindo depois até à Régua. Aí continuava a pé, no caso de os patrões ou feitores não nos virem buscar em camionetas. Cheguei a ir a pé até às quintas do Pinhão. Só vinha cá nas festas e de vez em quando para vir buscar pão. Sem contar com a época das vindimas, havia sempre que fazer. Em Outubro/Novembro, fazia-se a cava da água. Em Março/Abril, fazia-se a cava da vinha para pôr adubo. Havia ainda a apanha e a limpeza dos ramos da poda, a desfolha, a sulfatagem…, não contando com a apanha das azeitonas.
Percorri muitas quintas por esse Douro fora. Recordo-me de ter trabalhado em Loureiro, Vilarinho de Freires, Vila Nova de Poiares, Quinta do Crasto, Covas do Douro, Quinta do Noval, Quinta do Vale de Figueiras, Quinta das Sopas de Cima e Quinta das Sopas de Baixo.
Quando comecei a trabalhar no Douro, muitas vezes não andava com estômago aconchegado. Em muitas quintas, havia dez a quinze trabalhadores permanentes. Logo que nos levantávamos, tomávamos o mata-bicho com bagaço e broa. O pão não era fornecido pelo patrão. Ao almoço, era servido um caldo. Ao jantar, a seguir ao caldo era servido um prato de arroz com feijão. Na ceia, normalmente repetia-se a ementa do jantar. Quando o trabalho era mais duro ou em noites em que tínhamos de ir para o lagar, comia-se um pouco melhor. Acrescentavam uma posta de bacalhau ou sardinhas. Tenho de confessar que às vezes ficava com fome. Só para ter uma ideia das dificuldades, lembro-lhe que chegaram a servir caldo sem adubo. Para fazer frente à pouca comida, chegávamos a ir à Régua ou Pinhão comprar couratos, porque era o que se encontrava mais barato para fazer umas sandes, quando a fome apertava.
Uma excepção acontecia numa quinta em Vila Nova de Poiares. O dono, o Sr. Valente Costa, que vivia durante o resto do ano no Porto, gostava de nos ver satisfeitos. Mandava matar de três em três dias um borrego. E falava com os trabalhadores como se fossem da família.
Agora, olhando para trás, acho que foi um tempo em que tive oportunidade de conhecer outras gentes e terras. Também serviu para abrir os olhos. E apesar do trabalho duro, sobrava tempo para nos divertirmos. As rogas levavam músicos para acompanhar o trabalho da sova e fazer uns bailaricos nos fins de semana.

Operação a um joelho
Como já lhe disse, felizmente não tenho tido problemas de saúde. Aqui na serra o ar puro e a água curam todas as maleitas. A única operação que fiz foi a um joelho, o da perna direita. Começou-me a doer bastante e fui a um médico que me receitou umas injecções, mas não passava. Por isso, fui a um médico dos ossos a Lamego, que não esteve com meias medidas, pois, ao ver a infecção a alastrar , lancetou o joelho a frio, o que fez com que saísse muito pus. Mas não notei melhoras, pois as dores continuaram.
Então, um dos meus filhos, que está na Marinha Grande, levou-me a uma consulta ao hospital de Leiria. Uma biopsia e uma ecografia não acusaram nada. O médico achou estranho e, por isso mandou fazer um exame complicado, tendo ido para um túnel, onde me deitaram para ser fotografado. Acho que chamam a isto ir fazer um TAC. O médico, ao ver o resultado, ficou assustado e disse: “oh homem, você tem de ser operado já”. Passados poucos dias, fui para a faca. Já na sala de operações, deram-me uma injecção. Depois de alguns minutos, a médica perguntou-me que é que sentia e eu disse: “começo a sentir as pernas dormentes”. E eu só ouvi: “isso é que é preciso”. Até que comecei a não sentir nada da parte debaixo do corpo. O médico começou o trabalho e eu a ver tudo. Fez três buracos e foi raspando tudo. Ao ouvir “correu tudo bem”, fiquei satisfeito. Depois, levaram-me para uma enfermaria e alguém ficou espantado por estar com o relógio. Eu disse: “eu não escondi nada; já me levaram assim lá para dentro”.
Ao outro dia, fui para casa do meu filho e comecei a melhorar. Fiz um esforço por ir andando devagarinho e foi assim que em pouco tempo me curei.

Vida realizada
Estou com oitenta anos e sinto-me uma pessoa realizada. Acho que eduquei bem os meus filhos. Têm todos uma vida bem organizada. São muito meus amigos e telefonam frequentemente a saber de mim.
Parti do zero, pois não herdei nada dos meus pais. Andei no Douro até aos sessenta anos. Lembro-me de ganhar oito escudos ao dia. Depois o ordenado subiu para dez, doze, quinze e por aí acima. Com o dinheiro que ganhei ajudei a criar os meus sete filhos, comprei e ampliei uma casa e adquiri várias propriedades. A minha mulher também trabalhou muito, pois teve de cuidar sozinha de casa e de sete filhos. Estes deram uma grande ajuda, tomando conta do gado. Cheguei a ter quinze ovelhas, três cabras e dois ou três bezerros.
Com a reforma e com o que tenho vivo bem. Ainda ajudo a minha filha e genro na guarda do gado. Os meus filhos que vivem na Marinha Grande insistem muito para que passe lá umas temporadas. Às vezes, cedo e vou, mas estou sempre com vontade de regressar a Feirão. É aqui que me sinto bem. Estes montes e estes ares dão-me saúde. Por insistência do meu filho, emigrado em Paris, fui até lá com a minha mulher. Subi a Torre Eiffel e visitei os Campos Elísios. A propósito da Marinha Grande, sabia que há cerca de cinquenta pessoas de Feirão a viver lá? Uns foram chamando os outros a partir de 1965. A maioria encontra-se a trabalhar nas fábricas de vidros e felizmente não conheço ninguém desempregado. No Verão vêm até cá e isto anima muito.
Mesmo sem cafés gosto disto. Vou por aí, converso com as pessoas e gosto de ir até aos campos. De forma permanente, ainda vivem cá cerca de cinquenta moradores. Dez trabalham no Douro. Há cinco crianças. Várias pessoas que ficaram por cá vivem das terras e do gado. Ainda há dois rebanhos de ovelhas e muita gente cria vacas. Embora menos do que antigamente, há muitas terras cultivadas com batatas, milho, centeio e feno.
À noite, vejo alguma televisão para me distrair. Mas para lhe ser franco, até gosto mais de ouvir rádio.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.


*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Grande entrevista de António Borges ao semanário "Douro Hoje" (Edição de 27-04-2011)*

O concelho de Resende continua a mudar. No terreno estão mais de 25 milhões de euros em obras, nas áreas da educação, modernização dos espaços urbanos, requalificação e melhoria da qualidade de vida em todas as freguesias.
António Borges, presidente da Câmara abraçou este desafio há quase três mandatos, e acredita que este concelho no interior do país continua a ser uma importante peça no puzzle na construção de uma cidadania onde há igualdade de oportunidades.
Como presidente da Associação de Municípios do Vale do Douro Sul acredita que uma das solução para os problemas para a crise é a conjugação de esforços e apela para que o país saiba escolher entre o progresso e a infra estruturação de Portugal, em vez de ficarmos parados à espera que a crise passe.


Douro Hoje- Como avalia este momento político e social que o país vive?
António Borges
- Em primeiro lugar, não há outra maneira de resolver os problemas: com trabalho. Caso não se entendam as coisas de outra forma no futuro pagaremos uma fatura muito alta. Se não tivermos sustentabilidade naquilo que fazemos e se esta não resultar do nosso próprio esforço tudo se perderá. O grande problema do futuro de Resende e da região Douro, é também achar que não devemos ter ambição. O que estamos a fazer em Resende é criarmos a tradição de estarmos na linha da frente dos desafios de uma sociedade contemporânea. Eu acho que, numa altura como esta, e num concelho como este, hipotecar o futuro é não termos feito aquilo que já criámos em Resende e, assim hipotecar o futuro das próximas gerações: é não termos a água, nem saneamento, ter as nossas estradas esburacadas, más acessibilidades, as mais altas taxas de abandono e insucesso escolar, e termos níveis de qualificação muito reduzidos, espaços urbanos decadentes e falta de tecido económico. Essa é a verdadeira questão.

DH- Portanto, a sua grande aposta são as pessoas…
AB
- A desertificação é uma questão que se coloca em Resende e à região e por isso temos de estabelecer todos os passos para que as nossas populações tenham as suas oportunidades. Não há nenhum concelho, região ou país que possa subsistir sem níveis de qualificação adequados, vocações territoriais e sem atividade económica. Em Resende, há por vezes, a ideia que temos uma abordagem muita politiqueira do desenvolvimento do país e em especial do interior, e tem-se passado a ideia que não precisamos de investimento. É óbvio que precisamos de investir, de qualificar as nossas populações e os nossos municípios e dar-lhe assim dinâmica territorial.

DH- Como caracteriza o trabalho desenvolvido ao longo destes anos no seu concelho?
AB
- Os passos que temos dado em Resende podem situar-se em 3 grandes domínios: a qualidade infra-estrutural do nosso território, a qualificação dos nossos recursos humanos (empresários e cidadãos em geral) de níveis de conhecimento e de desempenho essenciais para o desenvolvimento da região, e também o desempenho institucional. Não vou negar que na minha qualidade de presidente da Associação de municípios do Vale do Douro Sul noto a ideia de que cada um a trabalhar para o seu lado, dê frutos no imediato, mas depois tudo acaba por ficar aquém do que se consegue noutros domínios. Um presidente de Câmara tem obrigação de não baixar o nível. Tem obrigação como responsável político de encontrar caminhos, de os afirmar. Insultar não é a melhor forma de se estar na política.

DH - Como encontrou Resende ?
AB
- Partimos do zero. Naturalmente isso pode ter algumas vantagens, mas fizemos um caminho muito consistente. Nunca parámos e criámos uma marca e conseguimos modernizar o concelho. Só para dar a ideia que, neste momento temos em curso, com grande esforço adjudicados mais de 25 milhões de euros em obra, na área da qualificação urbana e da educação. Já está adjudicado o último centro escolar, a requalificação da escola secundária e preparatória (cerca de 12 milhões de euros), a conclusão do novo quartel da GNR, a ampliação do quartel dos bombeiros, o novo estádio municipal, o fórum municipal (recuperação do antigo mercado) que está já tem contrato assinado de adjudicação e a adjudicação da primeira fase do nosso parque urbano.

DH- Um autarca deve pautar pela diferença?
AB
- Enquanto presidente da câmara tenho a noção muito clara das nossas responsabilidades e acho que continuar a modernizar os nossos concelhos e a nós como autarcas. Há que perceber que em qualquer organização as lideranças fazem toda a diferença: eu não estou aqui para passar as responsabilidades para os outros ou criar ruídos, para depois me desculpar para aquilo que não sou capaz de fazer. Nunca passei culpas na câmara, apesar de algumas dificuldades. Temos de crescer a nível de desempenho institucional no douro sul. Aqui nada nos vem ter ao colo. Eu faço parte daquele conjunto de presidentes que têm de andar com os projetos ao colo, para que aconteçam. Recordo do enorme esforço que fizemos ao nível da água e saneamento, já que tínhamos uma das mais baixas taxas de cobertura da região, requalificámos a vila de S. Martinho de Mouros, as nossas escolas, criámos equipamentos desportivos de grande nível, estamos a valorizar a nossa base produtiva tradicional.

DH- A sua ideia é modernizar a vila e o concelho?
AB
- Hipotecar o futuro, como aconteceu até agora, é ter as mais altas taxas de abandono e insucesso escolar, ter as nossas vilas e cidades num estado deplorável e que repulsam aquilo que a é a própria atividade económica e a qualidade de vida das populações. Há que perceber que em Resende foram muitos anos praticamente paralisados. Naturalmente na região, e queria dar nota, que tenho esta declaração de interesses, como militante do partido socialista, no norte do distrito nós temos de ser capazes de ir mais além, e muitas vezes quando se fala em partidos e políticas, eu queria, apesar de tudo relevar, num momento como este, alguns investimentos importantes e estruturantes da região, que têm o selo e a marca do partido Socialista: o Museu do Douro, a Escola de Hotelaria de Lamego, o novo hospital de Lamego, o sistema de abastecimento do Balsemão, a requalificação da rede escolar que dará outro perfil ao cidadão. Portanto, quando muitas vezes, dizemos que isto é algo sem sentido, esquecemo-nos que por vezes, é por aqui o caminho. Muitas vezes, as pessoas só não querem os investimentos à sua porta, uma lógica de capelinha que está instalada nos concelhos e no país. Todos querem uma auto estrada à sua porta, mas ninguém quer uma acessibilidade capaz quando se trata do vizinho do lado. A nossa função é lutar pelas nossas populações e exigir aquilo que também temos direito: infra estruturas que introduzam nos nossos territórios níveis de competitividade.

DH - Estalou uma polémica com a capacidade de internamento do hospital a construir em Lamego. O que pensa disso?
AB
- Estamos a investir na saúde como nunca se investiu. Resende tem dois hospitais a ser construídos num raio de 50 quilómetros: Lamego e Amarante, como não acontecia há um século. Um hospital de nova geração em Lamego que representa um investimento de 50 milhões não deve ser posto em causa, e por isso não podemos ter a mesma abordagem da saúde como há 20 anos. A cirurgia de ambulatório é uma prática crescente. Por isso, percebo mal este tipo de abordagem ao novo hospital, por que em Lamego deveríamos marcar com uma enorme satisfação aquilo que está a ser feito. Naturalmente é mais fácil falar do que fazer, uns falaram sempre e nunca fizeram e outros fizeram concretamente. Se o problema é de camas, seria uma boa proposta para Lamego e para a região era consolidar o investimento que está a ser feito, não o politizar e não instrumentalizá-lo na lógica política e partidária, era transformar as instalações do antigo hospital numa unidade de cuidados continuados e assim conseguirmos mais camas. Esta seria uma forma útil e contributiva para desenvolver a região.
Eu já fui presidente de Câmara com um governo de direita e a minha preocupação sempre foi consensualizar. Nunca usei a Câmara de Resende para fazer política partidária e referi muito poucas vezes o nome do meu partido, ao longo destes anos, quando tenho de gerir os interesses do meu concelho. Recordo que tínhamos hospitais a cair, que eram espaços de grande degradação e desumanidade em relação às pessoas.
Quando finalmente estamos a fazer algo as pessoas vem para a rua com politiquice, pondo em causa aquilo que é uma nova forma e conceito e qualidade de serviço.

DH- A Scut’s ficaram em stand by, mas o que pensa do conceito de utilizador pagador?
AB
- O país está numa situação complicada e quando não há recursos para cumprir com determinados compromissos há que ajustarmo-nos às realidades.
Eu aceito a lógica do princípio do utilizador pagador e aceito que é algo de inultrapassável em função daquilo que é a situação económica que atravessamos.
Mas ao colocarmos as questões do pagamentos das scut’s na região, temos de ter a garantia que serão feitos determinados investimentos nas nossas acessibilidades, tais como o IC26, e resolver as acessibilidades a concelhos como Tabuaço, Pesqueira e Resende e Cinfães, que têm são das piores do país. Eu pessoalmente troco o pagamento das portagens pelos investimentos que faltam em termos de acessibilidades na região. E percebo que tenhamos de nos ajustar todos!

DH- Em Resende o que faz falta em termos de acessos rodoviários?
AB - Em Resende estamos a falar da ligação a Baião (Ponte da Ermida) que nos coloca nas portas da área metropolitana do Porto, (a menos de 40 minutos), a ligação de Resende a Bigorne pela A24.

DH- Mas com todos estes condicionalismos financeiros há investimentos em causa…
AB
- No município estabeleci um desagravamento fiscal de 4% para todos que têm domicílio fiscal em Resende, mas confesso que prevendo mais cortes, será algo muito difícil.
Não só manter os 4%, mas sim atingir os 5% que é o meu compromisso e a margem que a Câmara tem para desagravamento fiscal. Não vou querer falhar esse compromisso, mas vou ter de ajustar o próprio funcionamento da Câmara para aquilo que é a realidade do país.
Espero que seja concretizada a rede pública de banda larga em Resende, ainda este ano, que modificará a estrutura social e económica do concelho.
Baixar os braços e pensar que não temos de investir na qualificação dos nossos territórios, termos respostas ao nível de serviço público, pensar que podemos abandonar as populações mais débeis nesta região, não ter políticas capazes sociais capazes e naturalmente acharmos que o país tem de parar e se cairmos nesse erro isso será fatal em relação ao futuro.

DH – Numa conferência realizada pela Associação de Municípios já tinham abordado os problemas que as câmaras iriam enfrentar no futuro…
AB- Sim. Em 2007 as operações financeiras realizadas pelas autarquias tinham spred zero o 0,2%, e hoje em dia estes valores dispararam para 4 ou 5%, ou pura e simplesmente não são concedidos empréstimos.
Continuou a afirmar que o que nos dividirá no futuro passa por fazer uma forte estruturação em especial das zonas mais atrasadas e o que nos separará no futuro é a linha que separa hoje a direita da esquerda (a direita acha que temos de parar) eu pessoalmente acho que nós não podemos desistir de parte do país para que outra parte do país continue.

DH – Caldas de Aregos foi a cereja no topo do bolo..
AB
- Caldas de Aregos estava numa situação absolutamente insustentável, o balneário estava por acabar e fechado uma boa parte do ano, não havia animação. Por isso tomamos posição dominante naquilo que poderá ser o grande pilar de desenvolvimento do concelho e da região: o recurso termal de Caldas de Aregos. Estamos a construir aqui as bases para uma empregabilidade mais forte, e já fizemos alguns investimentos como a colocação de um multibanco, um posto de abastecimento de combustíveis e em breve, será restabelecida a travessia no Douro, numa parceria entre a Câmara de Resende e Baião e o IPTM.
Por força da operação que fizemos o município adquiriu duas empresas: a Companhia das Águas de Caldas de Aregos e a Sociedade de Hotéis de Caldas de Aregos que foram transformadas há um ano em empresas municipais. No futuro vamos fundir as empresas e lançar um concurso público internacional para que no capital social da nova empresa que resultará desta fusão possamos integrar os parceiros privados. Desta forma será possível promover a construção do novo hotel termal, um spa termal, a atualização do concelho termal e da componente turístico-imobiliária que está subjacente a todo o aproveitamento e que representará alojamento complementar. Esta era a parceira que se impunha.

DH- A cereja também é uma grande mais valia...
AB
- Não havia praticamente tradição de cereja, mas hoje somos o principal produtor do norte do país. Temos 24% da produção naci
onal e claramente a melhor cereja do país, e que primeiro entra no mercado em toda a Europa. É sem dúvida um contributo para a economia nacional e para a economia familiar. Este é o caminho que valoriza a base produtiva e por isso não podemos achar que o mundo rural é algo que não nos diz respeito.
Só conseguimos ter politicas assertivas e sérias se não deixarmos ninguém para trás, ao desenvolver apenas espaços urbanos e deixar importantes manchas de território. As políticas do município procuram uma lógica de rede e não vamos ninguém para trás. Nas freguesias onde as questões sociais são mais importantes estamos a criar redes sociais: lares de idosos em S. Romão e Felgueiras, mas temos freguesias com dinâmicas demográficas diferentes como Freigil e Anreade onde erguemos equipamentos desportivos, em S. João de Fontoura criamos uma relação forte com o Douro com parque fluvial de Porto rei, e requalificamos centros urbanos como S. Martinho, e em S. Cipriano vamos construir o centro escolar, cujo investimento será de 1 milhão de euros num auditório .

DH- A energia eólica é um importante vetor da economia do concelho
AB
- Parque eólico uma grande oportunidade. Afinal de conta não somo uma terra de ninguém. Contribuímos em muito para a agricultura e recordo que em termos de energia produzimos seis vezes mais daquilo que consumimos.
Se todos os concelhos fizessem isso provavelmente os nossos problemas de desequilíbrio da balança de transacções correntes, e nosso problema de défice externo provavelmente não tinha este contexto.

DH- Planos para o futuro
AB
- A minha vida como autarca nunca foi fácil e acredito que neste momento cabe a nós sermos mais criativos, generosos e ainda mais atentos. Em Resende não há navegação à vista. Temos um planeamento estratégico em cada mandato que contextualiza as nossas metas.
A educação, a empregabilidade e a qualificação são algo que nos mobiliza. Tudo isto não se fará num ano. Recordo que quando o país for chamado a decidir nas próximas eleições tem de ponderar entre desistir do país o, continuar o desafio da modernização e pela luta de um desenvolvimento equilibrado.
É muito importante para os políticos e presidentes de câmara nunca baixarem o nível da discussão política no seu concelho e nem deve recorrer, ou deixar envolver-se em discussões que desprestigiem o seu nível de representatividade.

DH- Portanto, Resende está na marcha dos grandes desafios...
AB
- O grande desafio é conseguir sustentabilidade económica e empregabilidade. Se a Câmara não introduzir uma atitude indutora do próprio desenvolvimento económico e empregabilidade do concelho, tudo demorará mais a acontecer.

*Entrevista conduzida por Iolanda Vilar, que se transcreve para este blogue com devida vénia.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

HISTÓRIAS DE UMA VIDA … EM S. MARTINHO DE MOUROS: Chamo-me Brasila Cardoso e nasci em Santos, Brasil, há 93 anos*


Nascimento no Brasil

Antigamente a vida era muito difícil. Não havia trabalho e passava-se muita fome. Por isso, quem tivesse oportunidade de sair de cá não pensava duas vezes. Na altura, havia muitas pessoas daqui no Brasil. Sabia-se que a alguns correu bem a vida e até enriqueceram. Temos até o exemplo da igreja do Calvário. Uma das torres, a do lado esquerdo, foi mandada construir por um senhor de S. Martinho, emigrante no Brasil. Foi erguida quando tinha eu à volta de trinta anos. A torre do lado direito já exista quando nasci e dizem que foi uma oferta do senhor da Casa da Soenga. O meu pai, que era natural do Testamento, também emigrou para o Brasil. Não me pergunte quem lhe mandou a carta de chamada. Às tantas, foi algum familiar. Entretanto, veio cá de férias e conheceu a minha mãe. Ficou por cá uns meses largos e casaram. Só lhe digo que para cá vir é porque a vida lhe correu bem. Conheci alguns que deixaram cá mulher e filhos e abalaram para o Brasil. No princípio ainda escreviam e até mandavam algum dinheiro. Depois intervalavam cada vez mais até que a família deixava de receber notícias. Arranjavam por lá outras mulheres e a de cá tinha de se arranjar mais os filhos. Os meus pais lá foram casadinhos para o Brasil. Nasci em Santos, a 9 de Abril de 1918. Os meus pais puseram-me o nome de Brasila por ter nascido no Brasil. A minha mãe teve por lá seis filhos. Nascia em média um de dois em dois anos. Vim de lá muito pequena e, por isso, não me lembro praticamente nada desses tempos. Só sei dizer que era bem tratada e a casa era farta. Ao cabo de seis filhos, a minha mãe ficou muito doente. O médico, ao vê-la assim tão mal, disse para o meu pai: “ou a leva quanto antes para Portugal ou morre”. Acho que a minha mãe se encontrava muito fraquinha. Às tantas, foi algum mosquito. Quem ia daqui não estava preparado para enfrentar aquele clima e aquelas doenças. E ter de alimentar e educar seis filhos foi obra, o que deixava qualquer mulher com menos forças para vencer as maleitas que aparecessem.

Na quinta dos Chões, em Peneda

Seguindo o conselho do médico, viemos todos para Portugal. Com o dinheiro que conseguiram trazer os meus pais compraram uma quinta junto à povoação de Peneda. Aqui passámos uma vida boa. Era uma terra farta que tinha muita água, produzia muita batata e cereais e dava muita fruta e vinho. Os meus pais não eram uns moiros de trabalho como acontecia com tantos. Na altura de mais aperto rogavam trabalhadores das redondezas. Isto quer dizer que tinham dinheiro. Infelizmente andei pouco tempo na escola, pois ficava longe. Naquela época, também nada acontecia se se abandonasse a escola. E não era costume as raparigas andarem por aí para aprender a ler e escrever. Tenho pena que os meus pais não me obrigassem. Mas que se há-de fazer? Quando era mais crescida, chegava a sair nas tardes de domingo com três grandes amigas para ir aos bailes que se faziam por aí nos largos e eiras, junto às tabernas e vendas. Realizavam-se em muitos locais, como na Ponte, Testamento e Santa Eulália. Às vezes, ia com a minha irmã. Dizia à minha mãe: “vamos dar uma volta”. A pessoa saía, divertia-se e ela nem se apercebia ou, pelo menos, assim dava a entender. Fazia de conta, acho eu, porque se tivesse de enfrentar a verdade, ela não deixava. Nos bailes era muito notada. Diziam logo: “aí vem a filha do Sr. Cardosinho e da Sra. Carlotinha”. Muitos rapazes andaram atrás de mim. Os meus pais chegaram a ter criada e uma venda. Matavam dois porcos. Sabiam que era filha de gente rica. Entretanto, a minha mãe teve aqui mais seis filhos. Lá se criaram, porque a quinta dava de tudo. O meu pai morreu relativamente novo. Não sei de quê, mas antigamente era mais fácil morrer que hoje. Os médicos auscultavam, sim senhor, mas a doença era assim achada a olho. A receita era descanso, uns caldos brancos de galinha e uns chás quentes. Mas se calhasse a ser uma doença ruim, ou se a pessoa fosse mais de idade, lá marchava para debaixo da terra. Já com os filhos criados e depois da morte do meu pai, a minha mãe vendeu tudo o que cá tinha e voltou para o Brasil. Seis dos meus irmãos seguiram-lhe o exemplo e também foram. No início, ainda foram escrevendo, mas depois foram espaçando. Por lá ficaram e, depois de uma certa altura, nunca mais soube nada deles. Nem sei se estão vivos. Aqui só tenho uma irmã viva. Soube que a minha mãe morreu com mais de cem anos. Era má e rija. Sinceramente, da minha mãe não guardo grandes saudades. Acho que não tinha assim tanto amor por nós. Não encontro explicação para o caso de ela ter vendido tudo sem consultar os filhos e partir para o Brasil. Vendeu tudo, incluindo o que de direito pertencia aos filhos. Enganou-nos a todos. E isso não se faz. Considero-a uma mãe madrasta. Casei pobre. Caso contrário, tinha avançado para a frente com a justiça.

Muitos filhos para criar

Casei com vinte anos. Fui viver para o Pereiro para uma casa pela qual pagava renda. O meu marido era almocreve. Acartava um pouco de tudo, mas principalmente vinho, aguardente e jeropiga. Passados nove meses depois do casamento, tive logo o primeiro filho. Vim a ter doze filhos tal como a minha mãe. Dez estão vivos. Um dos filhos morreu durante o parto. Talvez se fosse hoje, as coisas correriam de modo diferente. Antigamente era preciso ter sorte, porque só tínhamos a ajuda de uma senhora que aprendeu à sua custa. Também me morreu uma filha, já com vinte e dois anos. Estava a servir e foi atropelada por um carro. Caiu para trás e teve morte imediata. Morreu assim por lá. Não recebemos qualquer indemnização. Quem é pobre é assim. Tem de se ficar quieto, porque para a gente se mexer é preciso dinheiro. No caso, cozinharam a informação como quiseram, ao gosto deles, e a gente nem pio. Os filhos estão espalhados pela Suíça, Leiria e região de Lisboa. Um deles está aqui comigo. Nunca casou e foi ficando por cá. Felizmente consegui criar os meus filhos sem fome. Claro que não havia carne nem sardinhas todos os dias, mas havia sempre qualquer coisa para encher a barriga. Como na maior parte da vida fiz umas terrinhas, havia pelo menos umas batatinha cozidas, um caldinho e pãozinho. Tinha de poupar muito. Antigamente, aproveitava-se tudo. Até as panelas de barro partidas se davam para compor. Os que sabiam do ofício ligavam os bocados com ganchos do cabelo, fazendo um furinho a que depois juntavam uma massa.

Violência doméstica

Vivi em vários locais. Uma vezes, fomos caseiros, o que era melhor, pois havia mais terras para cultivar; outras vezes, ficávamos numa casa arrendada. Nestes casos, o meu marido tinha de dar dias fora e ir ao Douro. Depois do casamento, abandonou a vida de almocreve. Por fim, vim para esta casa, aqui em Cavalhão, que foi herdada dos meus sogros. Fizemos obras, ficando um pouco maior. O meu marido morreu há vinte e dois anos. Esteve vários meses doente. Nem sei de que é que morreu. Sabe, era uma pessoa que bebia muito e isso transtornava-o. Apanhei muita porradinha. Até na cama me batia. Era de todas as maneiras e feitios. Era à bofetada, com um pau ou com uma correia. Os meus pais queriam que casasse rica, mas não tive essa sorte. Puxei para um homem assim e ainda por cima pobre. Lembro-me de uma vez ter aparecido em casa do meu pai com uma vista toda inchada. Virou-se para mim todo pesaroso e disse: “tu, além de te veres aflita para arranjar comida, ainda levas por cima”. Hoje fala-se muito em violência doméstica e as pessoas felizmente já podem fazer queixa. Antigamente, levava-se porrada com fartura e ninguém acudia nem dizia nada. Havia fome em muitas casas, mas porradinha não faltava. Os meus filhos não podiam acudir nem arrebitar. Se o fizessem, apanhavam logo tareia. Também passaram muito.


Apoio da Irmandade de S. Francisco Xavier

Há vários anos que recebo apoio da Irmandade de S. Francisco Xavier. É gente muito boa e simpática, a começar pelo Sr. António Fonseca, que só não faz mais por nós porque não pode. E é muito respeitador. Com ele ia até ao fim do mundo. O meu filho que está aqui comigo recebia o rendimento mínimo, mas, como deu uns dias fora, foi logo acusado. A comida vem do lar pelo meio dia. Em princípio, é para o almoço e jantar, mas à noite o meu filho faz qualquer coisa. De oito em oito dias, as empregadas do lar vêm cá fazer uma limpeza geral e também mudam a roupa. Sempre que preciso de ir ao médico a Resende, às urgências, a Irmandade faz o favor e vou numa carrinha deles. Ainda ontem senti necessidade de ir ao médico, porque sentia dores num joelho e no pescoço; parecia que um nervo ia saltar cá para fora. O doutor deu-me uma bisnaga para esfregar. Vamos lá a ver se isto passa. Fui numa carrinha do lar e uma empregada andou sempre comigo. Não falto aos almoços e passeios da Irmandade. Quando nos juntamos todos, é uma pândega. O lar já está pronto; falta só inaugurá-lo. É uma obra importante para os mais velhos. Quando a gente não se puder arrastar vai para lá. Acho que já lá tenho lugar. Sempre é melhor do que ir para Resende. Aqui conhecemo-nos uns aos outros, o que faz com que conversemos mais facilmente e isso ajuda a passar o tempo. Já tirei um peito e tenho uma pilha no coração. Tomo muitos medicamentos, embora durma bem e seja raro perder o apetite. Encontra-me aqui na cama, mas isto é mais preguiça. Sabe-me bem, porque hoje está muito frio. Às vezes, pergunto-me por que é que ando aqui. Mas quem é que gosta de morrer? A morte é negra. Quando a vejo mais próxima, engano-a; escondo-me. Faço como o rato quando vê o gato. Sinto o apoio da Irmandade que me vale muito. Antigamente, era pior. Quando não havia nada de comer, tinha de se ir pedir. Ainda me recordo desses tempos. Os pedintes juntavam-se às manadas. Ainda vou a S. Martinho pagar a água, luz e telefone. Também gostava de ir a Resende na carreira. Agora já vou menos. A missinha vejo-a na televisão. Por que é que hei-de ir à igreja? Só se for para ver o padre. Já não oiço o que o senhor Reitor diz. Aqui, em casa, ponho a televisão mais alto. Os meus filhos e netos vêm cá visitar-me frequentemente. Tenho cá um quartinho preparado para os receber e a sala. Também me telefonam muitas vezes.


Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.

*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Março de 2011
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