domingo, 25 de setembro de 2011

Conferência do Dr. Adão Sequeira no cinquentenário do Seminário de Lamego

Excelência Reverendíssima Snr. D. Jacinto, bispo de Lamego

Rvmo Snr. Pe. Dr. Paulo Alves, Reitor do Seminário de Lamego.

Revmo. Snr.Pe. José Augusto, pároco de Resende

Senhores Convidados

Estimados Seminaristas

À casa da memória, eu venho, sem história, render a minha homenagem aos 50 anos do nosso seminário neste espaço físico da quinta da Rina ou quinta de S. Lázaro.

Aqui está, nesta casa, a cúpula nobre da nobre evolução do que foi o decreto do Concílio de Trento -(1545-1563)- ao criar um espaço de recolhimento onde o saber e a santidade evoluíssem em força uníssona e convergente para formar homens da palavra, da ação, da virtude, da solidariedade e especialmente verdadeiros pastores de almas.

Longe vai porém o séc XVI, o tempo inicial e difícil da capela e colégio de S. Nicolau, berço inicial dos seminários de Lamego e sua habitação durante muitos anos, até 1800.

Distante está também o 1º seminário, hoje messe de oficiais, na margem do rio Coura, onde durante 111 anos -(1800-1911)- aquele espaço se encheu de generosidade, doação, vida, projetos e saber, e donde também tantos valores humanos saíram para a igreja lamecense e para a sociedade em geral.

Sem recordação digna nos ficam os 10 anos difíceis, de 1911 - 1921, dos bens confiscados em que os jovens candidatos se acolheram a casas particulares e recebiam as aulas na habitação dos professores.

Com saudade de muitos vive-se ainda com memória a história do seminário na Casa do Poço -(1921-1961)-, mesmo frente à Sé, donde em cerca 40 anos tanto saber e santidade brotaram e tanta história se fez e memória por lá ficou. Aí nasceu a «Estrela Polar» em 1951, aí se orou, estudou, brincou e se fez acontecer muito do presente que hoje é passado, e que o Cónego Dr. Mendes de Castro em 2001 imortalizou nas 127 páginas do seu livro «Casa do Poço»

Fica para mim, em testemunho, o seminário atual, o seminário novo, o nosso seminário, o espaço e o tempo da minha entrada de boa memória e a saída por mim recordada como evento ao tempo não desejado.

Não tive em 1961 a honra de vir de Resende inaugurar, como novo aluno, este seminário; isso pertenceu ao curso meu anterior, mas em Setembro de 1962 aqui entrei, alegre, feliz, e esperançado em tornar-me um bom sacerdote para servir a Vinha.

Os planos do Senhor da Vinha eram outros e por isso aqui me preparou devidamente até aos últimos dias de 1968, enviando-me, já em 1969, para outros serviços da mesma Vinha onde Ele superintendia também no espaço destinado aos leigos já devidamente estruturado pelo Decreto do Vaticano II sobre o Apostolado dos Leigos que eu tinha também estudado minuciosamente.

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Ex.mos Senhores

Corria o ano de 1956 e no dia 1 de Abril, domingo da Ressurreição, na igreja de Santiago de Piães, como aliás em todas as igrejas da diocese, é lida a mensagem pastoral de Sua Excelência Reverendíssima D. João da Silva Campos Neves a anunciar a construção do Novo Seminário de Lamego.

A mensagem ia acompanhada de informação e instruções aos párocos para que todo o povo, do abastado ao mais humilde fosse parte dum projeto diocesano que iria depois ser viveiro e jardim donde flores humanas partiriam mais tarde, verdes e robustas, cheias de saber e virtude para levar ao povo a vida espiritual, a esperança divina e um sinal de Deus.

É a partir deste momento e com todo o direito que eu sempre disse e sempre ouvi dizer-« o nosso seminário».

Nosso, porque com esforço de todos nasceu e para o bem de todos exerceu e exerce a sua função.

E é exatamente em 1956 que nasce, de evento simples, a humildade e singeleza deste meu testemunho.

Vocês não imaginam, ninguém faz ideia, o que foi esse grito pastoral : «o nosso seminário».

O que se passou na minha terra, e só dela falo, foi encantador.

O meu pároco, o grande Pe. e Arcipreste Daniel da Costa, contaminou a freguesia e em toda ela, de Vilar a Torneiros ou de Ventuselas a Sanfins, em fins de semana sucessivos, se organizaram cortejos de oferendas, com alma, vida, folclore, e sobretudo bairrismo :- eram carros de lenha, toros de madeira, alqueires de milho, sacos de feijão, notas expostas em bandeiras, alegria, foguetes, cada povo com seu rancho, cada rancho com seu chefe , tudo amador, e a povoação, toda em peso, em manifesta gala de alegria e solidário apoio. E foi neste evento, dizia eu, que eu comecei a ser parte do nosso seminário: - na ornamentação dos carros, no ensaio dos cânticos que animaram o cortejo e na feitura de alguns versos a que se adaptaram músicas que todo o povo cantava e dançava a caminho do leilão no centro da freguesia e que ajudaram a que o lugar de Sanfins não ficasse atrás de nenhum outro.

É pois com direito que eu digo e nós dizemos e a diocese diz «o nosso seminário», seminário, de construção robusta e apresentação imponente, adequado às melhores exigência do seu tempo.

Em 1958, já em plena construção deste edifício eu entro no seminário de Resende com mais 54 jovens para em 5 de Setembro de 1962 e durante 5 dias, por especial deferência nesse ano, frequentarmos, em tempo de férias, um curso de cinema e fotografia dirigido pelo Snr.Dr. Mendes Leal, diretor da revista «Filme».

É logo nesse mês de Setembro, a pedido do Diretor da « Estrela Polar», o atual Pe. Dr. Joaquim Correia Duarte, que eu me sinto envolvido e deveras honrado ao escrever em «Primeiras Impressões» o meu primeiro artigo na Estrela Polar. Rico batismo. Aí falava eu aos alunos de Resende « aqui vos esperamos, ano a ano, na estrada da vida que nos levará aos nossos destinos, aos destinos de Deus ».

Eu recordo o testemunho da minha entrada em Lamego, lembrando a sã amizade existente entre nós, e também o carinho, a estima e o respeito que dedicávamos aos nossos mestres e superiores, homens de bondade, saber, cultura e santidade , sem discriminação de nenhum, embora cada um com o seu nível de capacidades em transmitir essa enorme riqueza de que eram portadores.

O seminário não é necessária e exclusivamente o espaço de formar os jovens que vão ser padres, mas sim a escola de formação de homens, donde saem também e geralmente aqueles que vão exercer o nobre e belo munus sacerdotal, e um bom sacerdote é sempre também parte de um homem humanamente bem formado nas lides do saber, da cultura, do conhecimento do mundo, da filosofia, da teologia, e especialmente das realidades humanas e espirituais.

Era o tempo da teologia, da exegese, da moral, da filosofia tradicional, do latim profundo, do grego suave e do hebraico leve, antecedidos de um conhecimento seguro das letras e das ciências.

Foi a época do ciclo missionário, das conferências Marianas, dos vicentinos e ainda da catequese nas escolas às quintas feiras.

Foram também os anos da nossa banda musical sob regência do Snr. Dr. Rui Botelho, onde surgiram qualificados executantes à custa dos longos ensaios na sala onde hoje funciona o nosso bar.

Foi, evidentemente, o tempo do Vaticano II, estudado, analisado, esmiuçado em profundidade à nossa maneira, na ânsia e busca segura de uma renovação.

O meu livro Vaticano II, em capa amarela, obra completa dos documentos conciliares, é ainda hoje uma fonte abundante de soluções, consulta e inspiração, quando sobre algum tema eu preciso de falar.

Foi nestes corredores e nas reuniões semanais das atividades extra escolares que alguns de nós escalpelizamos esses textos conciliares numa rara consciencialização de igreja e de futuro.

Recordo-me bem ter-se falado numa dessas reuniões, com preocupação e esperança, «a igreja só vai arrancar quando saírem bispos da geração conciliar. Eles aí estão, e a Igreja também, em renovada e constante intervenção e dinamismo, com o selo visível dessa etapa conciliar.

Curioso é ver, a 45 anos de distância, pelas notas apostas à margem nos textos, que os decretos sobre o Apostolado dos Leigos, Sacerdócio e Imprensa são os mais estudados e melhor analisados. Eram os nossos assuntos, o nosso campo direto de ação a muito curto prazo. Ao tempo, as preocupações de análise à vida e evolução política estavam afastadas, rádio só a ocultas, televisão não havia, jornais diários não chegavam cá e fumar um cigarro era muito arriscado.

Neste Seminário e nestes espaços, honra maior da nossa diocese, tudo está repleto de vida, doação, generosidade, e até «dúvidas salutares». Em cada esquina dos corredores, areia dos recreios, salas de aula ou silêncio da capela, há uma vida contada ou esperança desejada, que faz a memória que jamais se esquece e uma história que jamais será contada onde « as saudades» ficaram depois de nós, mas que existem, para louvor dos alunos, honra dos professores, dignidade da instituição e continuidade futura de um passado que não morre.

O presente está acima do passado, mas não pode esquecer os anos e os seus eventos, os séculos e a sua história, a vida e os seus atos, a juventude e os seus feitos.

As estrelas e as núvens do passado, pela voz da memória fazem chegar até hoje e guardarão para o futuro o legado sem tamanho do humanismo e humanidade desta habitação do saber, bom senso e até « jardim de preocupações».

Sempre assim foi e assim será, porque nós, como diz Anselmo Borges, somos titulares de uma vida que não morre com a nossa morte.»

Por isso, eu não vou falar dos campeonatos de futebol entre filosofia e teologia tão vivos e renhidos, das meias vermelhas e festa dos cónegos no domingo de Pentecostes, sob aquela vigilância cerrada e ineficaz dos superiores, das festas de fim de ano e das críticas à gestão e pedagogia dos nossos professores, da falta de meios de abertura ao mundo como a rádio, a televisão, jornais ou revistas, da falta de ligação à cidade e seu povo, até porque tudo se alterou logo em 1969.

Mas quero hoje ressaltar, relembrar e reviver:

-o saber dos nossos mestres e a sua dedicação ao ensino todo ele em regime de internato;

-a preocupação da equipa formadora, a sua dedicação aos alunos e atenção aos sinais;

-o rigor dos horários e o seu pontual cumprimento.

-o espaço de oração e a mística aí vivida;

-o tempo de estudo e a preparação rigorosa das matérias de exame;

-as reuniões semanais das equipas em que estávamos inseridos e os resultados obtidos;

-a lenta e segura evolução do jovem batina e chapéu preto para o jovem despojado, espontâneo, interventivo, com roupas de marca ou calças de ganga.

-a riqueza de manter escrita uma mensagem espiritual diária à porta da capela e a preocupação em viver o seu conteúdo;

-o aguentar um jornal mensal, pontualmente editado sob a responsabilidade do alunos, exclusivamente escrito por eles sob a vigilância atenta e controlo rigoroso dos superiores;

-a memória do 7 de Outubro e 7 de Janeiro com a preocupação amiga de ver se todos os amigos voltavam ou não;

-a recordação do 10 de Junho com a festa dos finalistas onde a glória, alegria e saudade saiam da alma, subiam ao rosto e apelavam a futuro;

-os concursos abertos onde se evidenciava a qualidade de quem a tinha e o espírito de aventura de quem a desejava ter.

A propósito de concursos internos, em honra do Snr. Cónego José Cardoso, de feliz memória, grande dinamizador da catequese na diocese, eu quero somente referir o concurso, por ele lançado, de quadras populares relativas à catequese, com distribuição de prémios em 3 Fevereiro de 1965.

Em 1º lugar ficou o nosso exímio poeta, cónego Esteves Alves com a poesia:

«-Catequese é Deus que fala

A dar a a luz que redime

Não há mestre mais seguro

Nem escola mais sublime».

Em 2º lugar um inesperado rabiscador de rimas que agora vos fala, com a poesia:

«-Se Cristo viesse agora

Nascer nesta diocese

Iria com os meninos

Aprender a Catequese.»

Estas poesias correram depois a diocese gravadas em azulejos de tom azul.

Snr. D. Jacinto, estimados amigos,

Recordar o passado é fazer história e fazer história é honrar o passado garantindo o futuro da memória e abrindo alicerces para a memória do futuro. Sobre este assunto e referente ao seminário antigo e novo seminário, a Estrela Polar de Agosto de 1961 escrevia assim : «uma porta que se abre, um passado que permanece pelos séculos e um futuro que se tornará presente dia a dia».

Esta linha de pensamento é uma espécie de sina que me segue e persegue desde sempre, não morreu ainda e certamente não vai morrer jamais, porque a morte leva os homens mas as ideias ficam através da identidade, da memória e da sua história.

E se não há porto seguro para barco sem rumo, também não há futuro certo para instituições que abdicam do passado ou menorizam os seus anteriores.

Nunca festejaríamos hoje os 50 anos do nosso seminário, como não teríamos festejado os 25, se há 50 anos os nossos anteriores não tivessem arquitetado o seu plano e suportado as dificuldades da sua construção.

Por isso sentimos orgulho e glória da glória difícil do passado e ligamos ao futuro a honra devida da sua existência. Nada de grande se faz e deixa sem o suor e risco, e será sempre o futuro a cantar o louvor à memória do passado e honrar os seus feitos.

Se alguém deseja memória e história sem escalar as encostas da dificuldade e o risco da ação e intervenção, está certamente no caminho certo do esquecimento inevitável.

Esta casa é uma casa de causas sempre novas e diferentes e nada do que aqui se vive se perde depois, mas vai como chuva miudinha ou fio de água invisível alimentar espaços de ação e ideias do bem , porque «o seminário é sempre a memória viva e eterna da igreja» «no mercado da alegria e negócio do bem fazer.»

O seminário perpetua-se no espaço e no tempo, nas pessoas e na vida, nos atos e reconhecimento, na ação e gratidão, nos fins que deu e forneceu, nos padres que foram seminaristas e nos seminaristas que ficaram leigos, uns e outros são glória e memória da sua existência.

O seminário, o nosso seminário perpetua-se pelo que foi, pelo que é, e pelo que será e por isso eu não posso esquecer uma das estrelas, talvez a mais alta e brilhante do nosso seminário - a «Estrela Polar», expoente grande de um passado difícil e nobre que ninguém vai poder ocultar, omitir ou menorizar, porque a sua Antologia, editada em 2007, jamais o vai permitir porque, ela está arquivada nas prateleiras de todas as grandes bibliotecas nacionais, exposta nas bibliotecas públicas e municipais de todo o norte do país, guardada em todos as Casas Episcopais, à disposição de todos os seminaristas nas bibliotecas de todos os seminários, visível em todas as escolas secundárias e juntas de freguesia da diocese, e também nas mesas de muitas centenas de Aselistas e cidadãos anónimos.

Esta obra, filha do seminário e dinamizada pela ASEL, é ainda caso único nos seminários de Portugal e também o expoente máximo e afirmação maior que «a melhor escola é aquela que educa para a gratidão» e reconhecimento.

Se o tempo vai já longo eu abro ainda espaço para dizer ao presente e ao futuro que o passado, em honra e glória da memória, se imortalizou também na nossa ASEL, vigorosamente nascida em 1984 que ainda hoje vive e viverá, e se honra de ao comemorarmos em Resende os nossos 25 anos com a presença e estímulo do Mons Luciano Guerra, ser a génese do 1º Congresso Nacional de Antigos Alunos dos Seminários de Portugal sob o título « Seminários - da Memória à Profecia» realizado em Fátima nos dias 24-25-26-de Abril de 2009 .

Estimados amigos, em todos estes passos humildemente eu estive metido e envolvido, ora entre palmas, hora entre grandes sarilhos.

Seminarista amigos, alguém disse um dia que «os povos morrem quando os senhores do templo nXXX-Assembleia-Aveiroão conseguirem alimentar a esperança», assim sendo recai sobre vós a guarda futura deste passado nobre e ficamos certos que, quando a memória faz história, a história ficará facilmente na nossa memória.

Seminário de Lamego, 17 de Setembro 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Impressões de José Saramago sobre S. Martinho de Mouros na sua “Viagem a Portugal"*

O viajante procura a igreja matriz da terra. Fica a um lado, virada para o vale, e, assim implantada, dando a face aos ventos, percebe-se que mais a tenham feito fortaleza do que templo. Com uma porta sólida, trancas robustas, mouros que viessem teriam sido vencidos como os venceu aqui Fernando Magno, rei de Leão, no ano de 1507, ainda faltavam quase cem anos para Portugal nascer. A prova de que esta igreja foi concebida para fortim, tanto, vá lá, como casa de oração, está nas paredes grossas e lisas, contrafortadas, de poucas frestas. E o torreão, recolhido em relação vertical da fachada, seria posto de vigia, aberto aos quatro ventos cardeais. Para poder vê-lo, e ainda assim incompletamente, teve o viajante de recuar muito, ir colocar-se no extremo do terreiro. Não estava ali para brincadeiras o torreão.
Nunca viu igreja assim. Afinal, a proclamada rigidez das propostas românicas ainda deixava bastante campo à invenção. Colocar lá em cima aquela torre, resolver os problemas de estrutura que a opção implicava, conciliar as soluções particulares com o plano geral, unificar esteticamente o conjunto (para que hoje se possa achar tudo isto magnífico), significa que este mestre-de-obra tinha muitos mais trunfos na manga que o comum dos traçadores de risco da época. E quando o viajante estiver lá dentro verá, com espantados olhos, como foi encontrada a maneira de sustentar a torre: assenta ela em pilares que se erguem logo depois da entrada, formando uma espécie de galilé voltada para dentro, de efeito plástico único.
A igreja não abunda em qualificadas obras de arte. Duas tábuas com passos da vida de S. Martinho, um Cristo enorme, e pouco mais, se não contarmos as imagens sacras populares que, sobre uma alta parede interior, se vão cobrindo de pó e teias de aranha. O viajante indigna-se diante de tal abandono. Se em S. Martinho de Mouros não sabem estimar tão belas peças da imaginária rústica, entreguem-nas a um museu, que as saberá agradecer. Quando o viajante sair, dirá a uma mulher, que por acaso vai passando naqueles desertos, estas e outras suas indignações, envolvendo-as em conselhos de cautela, porque, ali desamparadas, estão as imagens muito a jeito de mãos cobiçosas. Só o viajante sabe quanto lhe custou resistir ao demónio que outra vez o veio tentar, na igreja erma. Tal susto meteu à perplexa mulher que hoje em redor da igreja deve haver um campo fortificado onde só se entra com prévio exame de consciência e donde apenas se sai depois de mostrar o que vai nos alforges.
Mas há outras tentações em S. Martinho de Mouros. Não couberam todas em Ermida de Paiva, vieram instalar-se aqui, empurradas pelas orações dos frades de além, materialização dos sonhos terrenos dos agostinhos que lá pregaram, nas margens do rio formoso, a privação da carne. Nas talhas dos retábulos o corpo feminino é apresentado com opulência atlética, quase rubensiana. Aqui não se ocultam ou espalmam os seios da mulher: são claramente lançados para a frente, moldados, contornados, coloridos, para que não fiquem dúvidas sobre as moralidades do céu: enfim se vê que há anjos dos dois sexos, terminou a velha e absurda questão. Gloriosamente o corpo neste lugar se mostra. Meio corpo é, mas tentação inteira.
Contadas estas coisas, tem o viajante muita razão para ir digerindo melancolia enquanto se aproxima de Lamego.
*Transcrição do livro Viagem a Portugal, de José Saramago, Círculo de Leitores, 2010, pp. 186-187

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ao café com …o Presidente da Junta de Felgueiras, Marco Jacinto de Almeida Matos*

Quem é o presidente da Junta da Freguesia de Felgueiras
Chama-se Marco Jacinto de Almeida Matos, nasceu a 23 de Junho de 1978 e é filho de Henrique Manuel de Almeida Matos e de Berta da Conceição Almeida Bernardino. Tem quatro irmãos, três rapazes e uma rapariga, dois dos quais vivem em Felgueiras, um em Resende e um outro em Mira. O pai faleceu em Fevereiro deste ano.
Frequentou a Escola Primária de Felgueiras, onde fez a quarta classe. Posteriormente, frequentou o 5.º e 6.º anos na Escola Básica do 2.º Ciclo de Resende, então chamada Escola Preparatória. Terminado o segundo ciclo, ingressou no Externato D. Afonso Henriques, que frequentou até ao 11.º ano. Veio a terminar o 12.º na Escola Secundária Dom Egas Moniz.
Trabalhou durante doze anos na Escola Básica do 2.º Ciclo, tendo transitado para o Centro Escolar de Resende em Setembro do ano passado, onde é assistente técnico, sendo responsável pela coordenação do pessoal não docente e das instalações.
É solteiro e reside em Felgueiras.
Integra o grupo de jovens de Felgueiras “Luz no Horizonte”, ligado à paróquia, tendo como animador e assistente o Padre José Augusto. Actualmente é constituído por 18 jovens, os quais se reúnem aos sábados para reflectir sobre os acontecimentos da semana à luz do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja e para preparar a missa de domingo, pois constituem também o grupo coral. O grupo é responsável pela organização da procissão em honra de Santa Bárbara, que se realiza anualmente no dia 5 de Dezembro. Organiza ainda a via sacra dramatizada na Quaresma e a procissão das velas em Maio. Refira-se que este grupo integra uma forte vertente convivial, com saídas para eventos, jantares e até passagem de férias em conjunto.
Marco Almeida Matos é presidente da Junta de Freguesia de Felgueiras desde Outubro de 2009, tendo sido Secretário do elenco da Junta anterior, presidida pelo Enf. Álvaro Matos Almeida. Refira-se que este é o quinto mandato consecutivo em que a Junta de Freguesia é afecta ao PS. Nas últimas eleições, depois de alguns esforços de bastidores, só se apresentou uma lista a sufrágio.

O que fez e o que espera fazer por Felgueiras
Dotou as ruas e caminhos das diversas povoações de placas toponímicas. Procedeu ao arranjo de lavadouros públicos nas povoações de Ferros, Pimeirol e Beirós. Interveio no cemitério com a colocação de gradeamentos e de candeeiros de iluminação. Na continuação do trabalho efectuado anteriormente, foram arranjados e pavimentados vários caminhos com calçada à portuguesa, tornando mais seguros e agradáveis os acessos e as deslocações pelas ruas das aldeias de Felgueiras. Um outro objectivo tem sido manter todos os caminhos da freguesia limpos, o que tem sido cumprido. Também tem disponibilizado todo o apoio possível às associações. Alem disso, tem promovido anualmente, em Dezembro, o “Almoço de Natal do Idoso”, no Centro Comunitário de Felgueiras.
A Junta de Freguesia presta um conjunto de serviços à comunidade. Para o efeito, foi constituído um Gabinete de Apoio ao Cidadão, onde os interessados podem, por exemplo, pedir para tirar fotocópias, enviar e receber telecópias e correio electrónico, carregar telemóveis e efectuar pagamentos (luz, telefone e impostos). A prestação destes serviços evita que as pessoas, sem internet ou menos familiarizadas com esta ferramenta, sobretudo as mais idosas, tenham de se deslocar a Resende. Há ainda um serviço de Internet e Biblioteca. O espaço tem cinco computadores e a biblioteca tem um acervo razoável de livros e alguns jogos, que podem ser lidos presencialmente ou requisitados para casa. Este conjunto de equipamentos e serviços estão muito voltados para a população escolar e, por isso, estão abertos de segunda-feira a sábado, das 16h00 às 19h00, sendo o atendimento prestado por uma funcionária, paga pela Junta de Freguesia. Os estudantes podem também aproveitar para aí fazer os trabalhos de casa. Acresce referir que Felgueiras está dotado de um serviço WI-FI, graças à iniciativa da Junta. Desde Janeiro de 2008, possui acesso à Internet sem fios (ligação "wireless"), sendo a primeira freguesia do concelho de Resende a disponibilizar esta tecnologia. A autarquia procedeu à instalação de antenas em locais estratégicos de modo a garantir a cobertura total da localidade, disponibilizando a todos os Felgueirenses uma cobertura gratuita do serviço de Internet (em rede aberta).
O atendimento para prestar informações, passar atestados e disponibilizar serviços no âmbito das competências das Juntas de Freguesia é feito às quintas-feiras das 18h30 às 19h30, aos sábados das 14h00 às 15h00 e aos domingos da 11h00 às 12h00.
A actual Junta de freguesia tem como projecto requalificar os balneários, actualmente bastante degradados, junto do campo de futebol. Pretende ainda construir um parque de merendas, contíguo ao mesmo campo de futebol. Irá também diligenciar junto da Câmara Municipal para que as povoações de Pimeirol e Beirós sejam servidas por água ao domicílio e saneamento básico.

Questionário de respostas breves

1. Onde passou as últimas férias?
Na praia da Vagueira com o grupo de jovens de Felgueiras “Luz no Horizonte”

2. Compra preferencialmente português?
Sim. Tenho a preocupação de comprar produtos portugueses

3. Quais os seus passatempos?
Conversar com os amigos e ver filmes

4. Qual o momento mais feliz da vida?
Uma viagem que fiz à Bósnia em 2007

5. E o mais triste?
O falecimento do meu pai

6. Que faz para ultrapassar as “neuras”?

Saio para um local tranquilo, de forma a poder relativizar os acontecimentos

7. Qual o seu prato preferido?
Cozido à portuguesa

8. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?
É a construção da estrada Ermida/Bigorne

9. O que mais admira nos outros?
A sinceridade

10. O que mais detesta nos outros?
O fingimento e a vaidade

11. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?
A festa de S. João, padroeiro de Felgueiras, e também a Feira Anual de S. Cristóvão

12. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?
Aregos e o monte de S. Cristóvão

13. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?
Um livro da autoria do meu tio, o Padre Albino Matos

14. De que mais se orgulha?
Conseguir agregar as gentes de Felgueiras no apoio a uma única lista nas últimas eleições para a Junta/Assembleia de Freguesia

15. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?
A construção da Ponte da Ermida, dos Centros Comunitários e do Centro de Saúde. Se pudesse referir uma quarta, incluiria também a construção dos Centros Escolares

16. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?
Em tudo o que depender do presidente da Câmara, não tenho dúvidas que arrancaria. O problema são outros constrangimentos que o ultrapassam

17. Que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da CM?
Irá continuar a trabalhar por Resende

18. Associa a palavra Resende a..?

Cerejas

19. Já foi multado por infracção ao código da estrada?
Uma única vez por estacionamento indevido

20. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?
Concordo

21. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?
A que tem mais potencialidades é a área do turismo e lazer, ligada às termas de Caldas de Aregos

22. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?
Eng. António Borges e Eng. José Sócrates

23. É favorável à redução do número de autarquias, designadamente de freguesias?
Sou favorável a que se proceda a uma reestruturação do mapa autárquico, mas sem pôr em causa a identidade das freguesias, mantendo-as como estruturas insubstituíveis de referenciação da política local.

*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Agosto de 2011

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ao café com …o Presidente da Junta de Cárquere: Na esplanada do café-bar Aquas Calidas com Amadeu Vasconcelos*

Quem é o presidente da Junta da Freguesia de Cárquere

Nasceu em Cubal/Angola em 1 de Janeiro de 1978. Devido aos tempos conturbados que então se viviam em Angola, a família veio para Cárquere, de onde o pai era natural e que tinha deixado com cerca de trinta anos. À excepção do irmão mais velho que ficou em Angola, vieram os pais e nove irmãos. Tem ainda mais cinco irmãs do lado do pai, fruto de uma relação anterior à sua ida para Angola.

Concluiu a 4.ª classe na escola de Cárquere, frequentou a então escola preparatória de Resende, onde fez o 2.º ciclo, e a escola secundária D. Egas Moniz, onde concluiu o 12.º ano. Após a conclusão do ensino secundário, matriculou-se numa escola de línguas em Lisboa, mas acabou por desistir. Achou que tinha mais apetência por uma área ligada à matemática, tendo efectuado a matrícula e frequentado o curso de contabilidade e administração na Escola Superior de Tecnologia de Viseu, que espera concluir daqui a uns anos. Trabalha nesta área, já que é um dos colaboradores do gabinete “Coelho e Diogo, Contabilidade e Serviços, Lda.”.

Sempre se integrou bem em todos os locais e instituições por onde passou, fazendo amizades com facilidade. Foi jogador do Grupo Desportivo de Cárquere e integrou os respectivos órgãos sociais, onde mostrou ser um jovem conciliador e de grande dinamismo.

É casado e espera o primeiro filho para Setembro próximo.

Fez parte da Assembleia de Freguesia no mandato correspondente a 2001-2005, integrando a lista do PS, mas não sendo cabeça de lista. Nas eleições autárquicas de 2005, candidatou-se como cabeça de lista, tendo o PS conquistado 5 lugares e o PSD 2 lugares. Foi eleito com 27 anos, o que fez dele um dos autarcas mais jovens do país. Em 2009, candidatou-se a um segundo mandato, tendo o PS obtido 6 lugares e o PSD 1 lugar.

Esta escolha foi uma aposta do actual presidente da Câmara Municipal, que viu nele um jovem com o perfil adequado para ganhar a Junta de Freguesia de Cárquere para o PS, o que veio a acontecer.

O que fez e o que espera fazer por Cárquere

Uma das realizações de que se orgulha é ter contribuído para a elevação do nível das habilitações escolares e profissionais da população adulta da freguesia, através de cursos de educação e formação (cursos EFA). Para isso, tomou a iniciativa de promover a realização de diversos cursos, em parceria com entidades formadoras, o que fez com que cerca de cem pessoas obtivessem o diploma dos 6.º, 9.º e 12.º anos. Por este motivo, em Cárquere, as pessoas com a 4.ª classe constituem um número bastante reduzido.

Além dos trabalhos de regularização e limpeza de vias e manutenção do Carvalhal, aos quais procura responder de forma permanente, há duas benfeitorias dos seus mandatos que importa realçar: a requalificação da sede da Junta de Freguesia, que a tornou mais funcional, e a abertura de 5 quilómetros de via florestal, em parceria com a Câmara Municipal.

Há um conjunto de obras julgadas necessárias para a freguesia, para cuja concretização irá envidar esforços junto da Câmara Municipal. A mais premente é a pavimentação com asfalto de três caminhos. Apresenta-se também como um projecto de grande importância a requalificação da Mata do Carvalhal, que integra a construção de um traçado delimitador do percurso da procissão, talvez em calçada à portuguesa, a instalação de iluminação e o arranjo dos coretos e da escadaria. Além disso, há ainda a necessidade de alargar o cemitério e de construir uma Casa Mortuária.

Amadeu Vasconcelos considera que a recente integração do Município na Rota do Românico do Vale de Sousa e Tâmega vem dar mais peso à necessidade de uma intervenção na zona do Mosteiro de Cárquere, exigindo em consequência uma maior preocupação com o património românico existente no concelho.

Refira-se que o atendimento à população na sede da Junta de Freguesia é feito às quartas-feiras, durante a manhã, e aos sábados, durante a tarde. Além de assuntos cuja resolução pertencem à Junta, Amadeu Vasconcelos tem-se mostrado disponível no apoio às pessoa no que se refere a informações e ao cumprimento de obrigações administrativas, como o preenchimento de impressos.

Questionário de respostas breves

  1. Onde passou as últimas férias?

No Algarve

  1. Compra preferencialmente português?

É-me indiferente

  1. Quais os seus passatempos?

Internet, ler e ver televisão

  1. Qual o momento mais feliz da vida?

O dia do meu casamento

  1. E o mais triste?

A morte do meu pai

  1. Que faz para ultrapassar as “neuras”?

Afastar-me das situações problemáticas

  1. Qual o seu prato preferido?

Anho assado com arroz no forno

  1. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?

A ligação à A24 e A4

  1. O que mais admira nos outros?

Sinceridade

  1. O que mais detesta nos outros?

Falsidade

  1. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?

Dia da paróquia, no último domingo de Julho, em que se reúnem as famílias no Carvalhal

  1. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?

Caldas de Aregos, Porto de Rei e Serra de Montemuro

  1. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?

Não

  1. De que mais se orgulha?

Integração numa equipa que ajudou e continua a ajudar a desenvolver o concelho

  1. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?

A construção dos Centros Escolares, a construção da Ponte da Ermida e a aquisição das Termas das Caldas de Aregos pela Câmara Municipal

  1. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?

Tenho algumas reservas

  1. Que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da CM?

Descansar, mas apenas daqui a muitos anos

  1. Associa a palavra Resende a..?

Tranquilidade

  1. Já foi multado por infracção ao código da estrada?

Por estacionamento indevido

  1. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?

Concordo

  1. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?

Áreas ligadas ao turismo

  1. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?

Eng. António Borges e Dr. Brito de Matos

23. É favorável à redução do número de autarquias, designadamente de freguesias?

Acho que esta questão deve ser discutida. Sou favorável à abertura para a definição de um novo mapa respeitante à reorganização das freguesias, desde que este processo não ponha em causa a identidade das existentes.

*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Julho de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Nossa Senhora do Souto em Paus: fé e crenças*

S. Pedro do Souto é uma pequena aldeia da freguesia de Paus, que guarda um tesouro de histórias singulares de religiosidade. Tem uma capela que alberga uma imagem encontrada junto às raízes de uma silva e um sino que aplaca tempestades e trovoadas, um “campo da Senhora”, que é propriedade privada, e “regueifas” que afugentam doenças e maleitas.
O fenómeno da Senhora do Souto ficou localmente circunscrito, pois nunca ali assentou arraiais uma ordem religiosa para disseminar a sua devoção. Ao contrário da Senhora da Lapa, cujos prodígios levaram à construção de um Santuário no local, tendo os jesuítas, que ali se instalaram, sido exímios na sua divulgação, transformando-o no segundo centro de peregrinação mais importante da península ibérica, após Santiago de Compostela. E, contudo na base da génese dos dois fenómenos estão dois relatos semelhantes. Em ambos os locais, há uma imagem de Nossa Senhora escondida, cujos prodígios se revelam no processo ou após o seu achamento. No caso da imagem da Senhora da Lapa, o seu poder expressa-se, quando, após o seu encontro numa gruta por uma jovem pastora (muda), e já em casa, é atirada à lareira pela mãe, tendo a filha, falando pela primeira vez, rogado para que não o fizesse. Em S. Pedro do Souto, o sinal prodigioso reside no pretexto que leva à descoberta da respectiva imagem. Perante a estranheza de uma silva alta e viçosa, anteriormente inexistente, o proprietário do respectivo terreno corta-a. Contudo, no dia seguinte, apresentar-se-á ainda mais alta e viçosa, pelo que o lavrador volta a cortá-la. Nada feito. Face a esta “teimosia”, resolveu cortar o mal pela raiz, ou seja, escavar para a poder arrancar. Estranhamente, contudo, no fundo da pequena cova que teve de fazer, encontrou uma imagem de Nossa Senhora e um sino, sendo a mesma colocada na capelinha da povoação.
Quanto ao sino, tentaram levá-lo para a Sé de Lamego. Curiosamente, até ao cimo da serra das Meadas, tocava lindamente. Dobrada a mesma “recusava-se” a tocar, tendo, por isso, retornado para S. Pedro do Souto e sido colocado na respectiva capelinha.
Esta imagens, encontradas após a reconquista cristã, foram provavelmente escondidas no período do domínio dos mouros na península ibérica. É natural que estes achados, por serem tão significativos e por envolverem uma dimensão religiosa, não fossem vistos pelas pessoas de então como simples acontecimentos ocasionais, requerendo, no quadro da sua mundivisão, a intervenção divina. Estes acontecimentos foram assim coloridos de registos de natureza fantástica, originando estórias que, antropologicamente, não são redutíveis a meras lendas.

Festa da Senhora do Souto
Anualmente, no domingo seguinte, ao dia da Senhora dos Remédios, realiza-se a festa em honra da Senhora do Souto. É constituída de missa solene e procissão com percurso pelo interior da povoação e pelo “campo da Senhora” (local do “aparecimento” da imagem), onde será proferido um sermão, retornando à capela. Seguidamente, surge um momento de muita expectativa e emoção, que é o lançamento de pão ou “regueifas” pelas janelas de uma casa junto à capela. Cada um dos presentes irá disputar a maior quantidade de pão possível, que será guardado nas respectivas casas, pois tem o condão de afastar doenças e maleitas. Outrora cozido num forno da aldeia, é agora cozido na padaria do Barreiro, sendo benzido na missa e levado em sacos na procissão, tendo a particularidade de não ter fermento e de não se estragar, de acordo com vários testemunhos.

Sino milagroso
Sempre que há trovoadas e tempestades, há a preocupação de tocar o sino. Sempre ouvi dizer que o seu toque tem sido eficaz. O encarregado da guarda da capela, Sr. Joaquim Pinto, confidenciou-me que já o tocou duas vezes este ano e “a trovoada foi por aí abaixo...”.
Há uma segunda versão sobre o achamento deste sino, havendo pessoas que referem que o mesmo foi encontrado juntamente com a imagem de Santa Bárbara numa casa da aldeia, tendo esta também sido colocada na capelinha. Como esta santa é a protectora em caso de trovoadas e tempestades, está “explicada” a eficácia do sino.

Crucifixo bizantino
Pertencente à capela da Senhora do Souto, há um crucifixo, antiquíssimo, de estilo bizantino, de valor incalculável, que já integrou várias exposições. Para diminuir os riscos de furto, o mesmo vai sendo guardado em locais diferentes ao longo do ano.

Nota: Este pequeno artigo baseou-se em registos orais ouvidos desde criança, “avivados” na última festa da Senhora do Souto e enriquecidos com o cotejo das descrições incluídas na monografia do nosso concelho, da autoria do Sr. Dr. Joaquim Correia Duarte.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Outubro de 2oo6

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Notícias do "Jornal de Resende", Junho de 2011*

Festa da Cereja de Resende em Sintra
Já se tornou uma tradição. Realiza-se no fim de semana seguinte ao o Festival em Resende. Lourel, uma localidade nos arredores de Sintra, foi inundada de cerejas do nosso concelho nos dias 4 e 5 de Junho. Na madrugada de sábado chegou, vinda de Paus, uma carrinha carregada de cerejas, conduzida por José Luís de Oliveira, a quem foi feita a encomenda de mil e duzentos quilos. Entretanto, um conterrâneo residente em Sintra, Joaquim Botelho, tinha-se feito à estrada em direcção a Resende, na quinta-feira, para recolher e adquirir outros produtos, designadamente cavacas, presuntos, salpicões, moiras, bolas, pão e doces regionais, tendo chegado também na madrugada de sábado. Pendões estrategicamente colocados nas ruas da localidade, diversos cartazes e o passa palavra alertaram a numerosa comunidade resendense, amigos e residentes para o evento. Era uma oportunidade para provar as nossas cerejas e outros produtos. A venda ao público começou cerca das 08h00, registando-se grande afluência de pessoas ao meio da manhã. Pelas 16h00, já tinham “desaparecido” cerca de novecentos quilos de cerejas, vendidas em caixas de dois quilos, ao preço de seis euros a embalagem.
O evento decorreu num espaço ao ar livre, propriedade do Sporting Clube de Lourel, cujo presidente da direcção é, por feliz coincidência, um resendense. Aí foram montadas diversas barracas para venda de produtos alimentares e peças de artesanato feitas em Resende e na zona de Sintra, cujos resultados reverteram a favor da futura sede da Casa do Concelho de Resende. A cereja, como rainha da festa, ocupou um lugar de destaque, ao fundo, defronte à entrada do recinto, onde foi montado um balcão para o efeito. Como não podia deixar de ser para incentivar o convívio, foi disponibilizada uma barraca de comes e bebes e de grelhados para as refeições. A tarde teve a animação musical do grupo “Teclas”.
No domingo, houve missa campal às 09h30, celebrada no recinto, em palco montado para o efeito, e abrilhantada pelo Grupo Coral da Casa de Resende. Às 12h30 teve início o almoço/convívio de resendenses, familiares e amigos, no qual participaram duzentas e cinco pessoas, além de convidados. A organização teve de anular várias inscrições por falta de vagas. Por calhar em dia de eleições, não esteve presente nenhum vereador da Câmara Municipal de Resende. Da Câmara de Sintra esteve presente o Sr. Vice-Presidente, Dr. Marco Almeida. Mais uma vez, Manuel do Rosário, o líder da comunidade resendense aqui radicada e pessoa influente junto das instituições locais, aproveitou a presença deste autarca para pedir o empenhamento da Câmara de Sintra no acompanhamento do processo do projecto da construção da tão ansiada sede da Casa de Resende, tendo informado os presentes dos obstáculos que se torna necessário ultrapassar. A tarde foi animada com a actuação da Banda União Mucifalense, de uma localidade próxima.
A Festa da Cereja é o principal evento da Casa de Resende que, no entender de Joaquim Pinto, presidente da direcção da Casa de Resende, ultrapassou este ano as expectativas, já que despoletou mais interesse do que é habitual. “Só é pena que sejam sempre os mesmos a dar o corpo ao manifesto na realização das várias actividades; é necessário, contudo, realçar a colaboração do Sr. Manuel do Rosário, que disponibiliza sempre alguns dos seus trabalhadores para montar o palco, as barracas e para outros afazeres”, rematou em jeito de balanço. Refira-se que, até ao fim do ano, irá ter lugar ainda o tradicional magusto, precedido de almoço, e a festa da consoada, que incluirá um almoço, uma tarde de teatro representado por jovens, entrega de prendas às crianças e lanche.

Inaugurada Rota dos Cerejais em S. João de Fontoura
Felizmente, as pessoas e as instituições do concelho estão cada vez mais a aproveitar as potencialidades da cereja, da Cereja de Resende, como uma marca distintiva do desenvolvimento económico. Resende é já uma referência a nível nacional por causa da cereja. Importa que o seja também pelos cerejais das nossas encostas, atraindo visitantes para verem in loco a paisagem deslumbrante das cerejeiras em flor ou carregadas de cerejas. O percurso pedestre da Rota dos Cerejais, da iniciativa da actual Junta de Freguesia de S. João de Fontoura, inaugurado no passado dia 10 de Junho, responde a esta necessidade, esperando-se que futuramente, em parceria com outras instituições, traga gente do concelho e sobretudo de fora .
A inauguração, que decorreu pelas 10h30, contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal, António Borges, e dos Vereadores Dulce Pereira e Albano Santos. António Borges destacou “…a importância desta iniciativa que se insere no aproveitamento das potencialidades das cerejeiras e das cerejas, em que a mancha de S. João de Fontoura é a testa virada para o Douro, dando continuidade a um verdadeiro anfiteatro paisagístico em que se integram outras freguesias". Referiu também o facto de esta rota vir enriquecer outros percursos do concelho, como a rota do românico, dos miradouros, da cerejeira em flor, do Vale do Cabrum e outros percursos serranos, o que é muito positivo para o concelho. Por fim, elogiou a Junta de Freguesia de S. João de Fontoura, aproveitando a ocasião para dizer que nem tudo tem de ser feito pela Câmara Municipal. Fernando Manuel, Presidente da Junta, expressou a sua satisfação pela concretização da Rota dos Cerejais, esperando que seja devidamente aproveitada pelas populações e que constitua uma oportunidade para atrair pessoas que venham admirar as nossas paisagens, em que sobressaem os cerejeiras.
Seguiu-se a caminhada pelos trilhos devidamente assinalados, numa extensão de cerca de seis quilómetros, com passagem por S. João/Igreja, Alufinha, Porto de Rei, Solar de Porto de Rei, Praia Fluvial, Santinho, Nadais de Baixo e Largo da sede da Junta de Freguesia. Cerca de cem caminhantes tiveram oportunidade de admirar os pomares de cerejais e vinhedos, colher figos na passagem, refrescar-se e beber água em fontes, deslumbrar-se com as encostas e a visão do Douro, embrenhar-se por entre carreiros e escadas, deter-se na harmonia entre cães, gatos e galinhas confinados numa cerca, trocar olhares de contentamento com idosos nas varandas e às portas de casa, encher de vida (por minutos) a pacatez das aldeias, enfim, ver o que olhos apressados não vêem, experimentando a aventura e a resistência do corpo.
O grupo era diversificado, com pessoas de todas as idades (dos 10 aos 70 anos), sendo provenientes de S. João de Fontoura, de outras freguesias do concelho e de naturais residentes no Porto. Demonstraram estar todas em grande forma, pois fizeram a caminhada em menos de duas horas, quando a previsão da duração era de duas horas e meia. Foi pena que esta caminhada não tivesse acontecido mais cedo, com os cerejais no seu máximo esplendor, isto é, carregados de cerejas. Seguiu-se um almoço/convívio com porco no espeto, outros grelhados, broa e caldo verde.
Refira-se que esta Rota teve o acompanhamento técnico de Eduardo Lyon de Castro e Bruno Cardoso (www.opalternativas.com), de Vila de Rei, que prestaram apoio na selecção dos trilhos e caminhos, fizeram a sinalização e conceberam a documentação de informação e divulgação. A Junta de Freguesia compromete-se, a partir de agora, a proceder à sua manutenção e à preservação da sinalética. Em princípio, haverá duas caminhadas por ano e sempre que haja propostas de grupos interessados. Espera-se que esta Rota dos Cerejais, no quadro de uma cultura de educação para a saúde e de uma pedagogia do contacto com a natureza e do andar a pé, se torne uma actividade integrante de um programa alargado de cariz turístico em torno da Cereja de Resende, como marca capaz de atrair cada vez mais pessoas ao nosso concelho.


Facebook mobiliza Felgueirenses

Começou por uma brincadeira de Francisco de Almeida, um adolescente de 11 anos, filho do Enfermeiro Álvaro Matos Almeida. “Pai, e se formasse um grupo com gente de Felgueiras no facebook?”, perguntou. “Força, rapaz”, foi a resposta. Actualmente “administra” o grupo naturais e amigos de Felgueiras, que foi tendo forte adesão, sendo constituído presentemente por cerca de trezentas pessoas. É uma rede espalhada por Felgueiras, Porto, Lisboa, Brasil, Bélgica, isto é, pelos mais diversos locais onde estejam naturais, familiares e amigos desta freguesia, que vão dando notícias, trocando mensagens e fotos, contando histórias, recordando acontecimentos e sedimentando amizades.
Este grupo realizou o I Encontro em Felgueiras, nos passados dias 10 e 11 de Junho, o qual integrou uma componente cultural e de convívio. No dia 10, às 21h00, teve lugar um recital de piano (de cauda, trazido propositadamente de Famalicão) por José Veloso Rito, que interpretou obras de sua autoria (a quase totalidade), de Vittorio Monti, Chopin e Franz Listz. A seguir ao concerto foi servido um Porto de honra com cavacas de Resende. Devido à excelência da interpretação e à originalidade e melodia das músicas, foi um serão que encantou a numerosa assistência, que encheu as duas salas da antiga escola de Felgueiras. Refira-se que José Veloso Rito, engenheiro civil e professor, tem o curso de piano do Conservatório do Porto, apresentando-se em público com regularidade em recitais e concertos, quer no país, quer no estrangeiro. Embora nascido no Porto, está ligado à Quinta da Boavista (Paus) e a Felgueiras por razões familiares, tendo aqui passado muitas férias na sua juventude, que animou com o seu acordeão.
No dia 11 teve lugar um animado almoço/convívio, que reuniu muitos residentes de Felgueiras, mas também um grande número de naturais , familiares e amigos desta freguesia, que se deslocaram propositadamente de Lisboa, Porto e outros pontos do país, em que por uma tarde a amizade “virtual” foi substituída pela realidade do encontro, das palavras e dos afectos, tendo contribuído para firmar uma identidade própria.
*Elaboradas por Marinho Borges e publicadas no Jornal de Resende, número de Junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

«A Sabedoria» - Um Livro do Pe. Paulo Alves*

Na Aula Magna do Instituto Piaget, em Viseu, teve lugar no dia 7 de Junho o lançamento do livro –«A Sabedoria - Definição, Multidimensionalidade e Avaliação» do Pe. Paulo Alves.
A apresentação de um livro e a sua colocação à disposição pública, (quando o fim não é essencialmente comercial), é sempre um ato de humildade pessoal, coragem inteletual e cedência cultural.
A cultura, o saber, a ciência e a sabedoria são património da comunidade e não reserva protegida dos seus detentores. Nestes termos é quase um dever imperativo partilhar e ceder à comunidade o saber por parte de quem o tem. As mil formas de o fazer têm o seu expoente máximo na apresentação em letra de forma e especialmente a sua publicação em livro.
Certamente assim pensou e por certo assim atuou o Pe. Paulo Alves ao publicar em livro a sua tese de doutoramento.
Padre da igreja católica, e natural de Penude, (terra fértil junto a Lamego) Paulo Alves é um dos expoentes promissores da Igreja Católica.
Após a sua ordenação em Agosto de 1986, foi pároco em Castro Daire, Vice Reitor do Seminário de Resende e agora Reitor do Seminário Maior de Lamego.
Em Castro Daire deixou marcas de apostolado, em Resende ficaram sinais vivos de estratégia pedagógica e gestão administrativa e em Lamego avultam já traços de renovação e rasgos de evolução metodológica na preparação de novos sacerdotes e utilização dos meios existentes.
É neste período e acumulando com a responsabilidade delegada e assumida que obtém a licenciatura em «Teologia» na Universidade Católica do Porto, mestrado em «Psicologia Pedagógica pela Universidade de Coimbra e agora o grau de Doutor em "Psicologia do Desenvolvimento" pela mesma Universidade.

À responsabilidade de Reitor do Seminário de Lamego junta presentemente a Regência Curricular de "Psicologia da Religião" na Universidade Católica, núcleo de Viseu e o de Professor Auxiliar no Instituto Piaget em Viseu onde coordena «o 1º ano da licenciatura em Psicologia» e «o 2º ciclo do Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento».
Esta responsabilidade ativa não o impediu nem impede de acompanhar devidamente a formação dos alunos do seminário de Lamego, conhecendo e vivendo de cada um as suas capacidades, apetências ou problemas, como ainda também lhe deixou espaço como investigador, responsável por uma das áreas do «Centro Internacional de Investigação e Reflexão Transdiciplinar».
Este é o o Homem.
A obra chama-se -«A Sabedoria»-.
Como diria hoje Camões, sabedoria, imagine-a quem não puder entendê-la mas é melhor entedê-la do que imaginá-la.
Nas suas 322 páginas de pensamento corrido, sem contar mais 50 de anexos e índices, entramos pelos meandros ainda não desbravados das perspetivas teológicas, filosóficas e históricas da sabedoria ao longo dos séculos, da sua interpretação psicológica bem como da sua estrutura multidimensional.
«A Sabedoria», este livro do Pe. Paulo Alves não é mais um livro, mas « o livro» de análise cuidada, tema atual, investigação consistente e divulgação necessária onde encontramos e é testada pela primeira vez em Portugal uma Escala Sobre a Sabedoria (ESS) da sua autoria.
Uma tese de doutoramento é sempre um trabalho exaustivo de profundidade e investigação garantidas que atesta a capacidade, atualidade, e visão do seu autor.
Este livro não é uma mera produção de ideias, exposição de fatos ou devaneio mental, é um trabalho profundo, defendido em tese na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra perante um juri qualificado e deveras exigente e a cujas asserções tive o grato prazer de assistir em 11 de Dezembro de 2009 e onde obteve a classificação máxima com «Distinção e Louvor».
Este livro e o seu autor entraram já na galeria das grandes referências do pensamento; ao integrar a coleção « Epigénese, Desenvolvimento e Psicologia» com o nº 105 e uma referência bibliográfica de mais de 300 autores, autor e obra emparceiram ao lado de ilustres pensadores mundiais da psicologia, evolução e desenvolvimento humano.
Se é verdade que a sabedoria está em todo lado e que «todas as culturas têm ou tiveram o seu ideal de sabedoria», é verdade também que ela é o problema central da condição humana que tem passado toda a sua existência na sua procura, aquisição, aprofundamento e evolução em constante caminhada ao longo de uma longa viagem sem termo nem descanso que todos percorremos e só alguns investigam e consolidam.
No gesto nobre de não esquecer na dedicação «todos aqueles com quem tenho aprendido», (e grande foi o número dos invocados), eu realço a ASEL que desde 2003 tão de perto com ele colaborou em Resende e a referência feita a sua mãe, pai e irmã, «pelo sentido de vida, pela sabedoria das coisas simples, pelo suor, pelo amor e pela fé», e foi por isso certamente também que viu a Aula Magna praticamente cheia de alunos, professores e amigos, entre os quais a honrosa presença dos Snrs. D. Jacinto Botelho, D. Ilídio Leandro e D. Manuel António, respetivamente bispos de Lamego, Viseu e S.Tomé e Princípe.
«Eu, sabedoria, habito com a prudência, possuo a ciência e a reflexão». (Prv. 8,12)
...Tal a profundidade deste livro...tal a preocupação do Pe. Paulo Alves a quem deixo o meu público louvor e sinceros parabéns.
*Adão Sequeira (Senhora da Hora, Junho 2011)
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