quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ANTÓNIO BORGES EM GRANDE ENTREVISTA AO "JORNAL DE RESENDE"



No terceiro e último mandato à frente dos destinos do município de Resende, e a um ano de novas eleições autárquicas, o Presidente da Câmara Municipal de Resende, o socialista António Borges (AB), numa grande entrevista ao Jornal de Resende (JR), aborda os grandes temas da atualidade concelhia e nacional. Possíveis candidatos e sucessor autárquico, a política concelhia dos últimos anos, novos investimentos, os governos socialistas e a atual coligação de direita, o encerramento (previsível) do Tribunal Judicial e a reorganização autárquica são alguns dos principais tópicos abordados ao longo desta entrevista.

ENTREVISTA CONDUZIDA POR PAULO SEQUEIRA

Jornal de Resende (JR): Daqui por um ano, em outubro de 2013, realizam-se eleições autárquicas. Impossibilitado de se candidatar novamente, por força da lei de limitação de mandatos autárquicos, quem será o candidato do Partido Socialista (PS) às próximas eleições autárquicas?
António Borges (AB): O Partido Socialista está num processo de escolha e debaixo de um calendário definido na última reunião dos órgãos nacionais. A escolha será feita e o resultado anunciado no tempo político adequado. Não vale a pena especular, mas estarei na primeira linha das próximas eleições autárquicas e comprometido com o futuro político do concelho.

JR: … mas será um sucessor natural ou passará por uma grande surpresa?
AB: Deverá ser alguém muito identificado com todo o caminho que temos feito em Resende nos últimos anos. Essa é a minha opinião. Alguém que reforce o grupo forte e coeso que o PS tem sido nos últimos anos.

JR: Quais são, na sua opinião, as características fundamentais para ser um bom Presidente de Câmara?
AB: Tem que estar muito identificado com as pessoas e com o concelho, com os problemas, que não faça da Câmara um emprego, mas antes um exercício de disponibilidade, autónomo do ponto de vista pessoal e financeiro, desligado de interesses e que tenha preocupações sociais e com o desenvolvimento económico do concelho. Tem que ser alguém, como disse, autónomo e capaz de fazer mudança!

JR: Disse-o, publicamente, que nas próximas eleições autárquicas estaria nas listas do PS. Vai ser candidato à Presidência da Assembleia Municipal?
AB: Está tudo em aberto e depende sempre do que o PS decidir. Em cima ou em baixo, na Câmara ou na Assembleia, em qualquer circunstância, a minha obrigação é ajudar os que sempre estiveram com o que conseguimos nestes anos.
Os que muito me ajudaram nos últimos anos, e até alteraram as suas vidas, correram riscos e afetaram as suas comodidades pessoais, vão ter no próximo ano, da minha parte, uma disponibilidade total. Estarei na primeira linha das próximas autárquicas e muito comprometido com o governo do concelho dos próximos anos.

JR: Não há pessoas insubstituíveis, mas háde convir que o seu sucessor terá uma herança rica, mas árdua…
AB: Esse é um ponto de vista. A minha vantagem é que sempre formámos um bloco coeso e espero que assim continue. Resende precisa de continuar o caminho de afirmação dos últimos anos e não cair num vazio, ou voltar ao pior do antigamente.

JR: Após três mandatos e mais de 20 milhões de euros em investimentos, a rede escolar e a reformulação do modelo educativo está praticamente concluída. É desta área que mais se orgulha?
AB: Essa é uma matéria importante. Se o concelho tivesse um nível de qualificação e competências elevado, seria a garantia de sucesso. Quando chegámos, há dez anos atrás, estávamos no penúltimo lugar das maiores taxas de abandono e insucesso escolares. Não iríamos a lado nenhum. As políticas na educação demoram anos a dar resultados. Quando a média de escolaridade por encarregado de educação é de 5,7 anos, como neste momento, percebe-se que essa é a área das grandes prioridades no futuro próximo. Quando o aluno passa a ter maior instrução que o pai, isso é bom, mas reflete-se no rendimento e na ambição dos nossos jovens. Perdemos décadas só nestes domínios. Os resultados dependem dessa mudança fora e dentro da escola.

JR: Quer dizer que teremos de continuar a investir nestes domínios?
AB: Na Secundária, mais de 80% dos alunos tem apoios na ação social escolar. Aí joga-se sobretudo aquilo em que acredito e que uma parte do concelho ainda não absorveu. Todos os resendenses devem ser iguais em oportunidades e isso joga-se na escola. A escola deve ser um fator de igualdade de tratamento, de ensino e de acesso às competências que geram condição igual. Em Resende, há ainda gente que quer para si o que não quer para os outros... ou que quer para os outros o que não quer para si!
Essa é a grande mudança na gestão que o PS tem feito em Resende e é sobretudo essa a responsabilidade e a importância das escolhas que Resende tem sempre que fazer. Veja o que aconteceu com o atual Governo... uma má escolha faz com que tudo volte ao tempo do “arroz de quinze”. Isso não pode acontecer em Resende!

JR: Há, também, outras áreas que foram prioritárias nas políticas concelhias…
AB: Há dez anos atrás era tudo prioritário. Nessa altura, por exemplo, os grandes problemas eram a água e o saneamento.
Ficávamos aqui o tempo todo a rever o que fizemos nos mais diversos domínios. Na atividade municipal, acrescentámos muito. Agora há intervenções emblemáticas. Construir o Parque Eólico da Alagoa de D. João e garantir ali ativos que nos possibilitaram, sem sair um tostão da Câmara, passar a deter as Termas de Caldas de Aregos, todo o seu património e direitos de concessão é uma marca muito importante. Muita adrenalina, muita paciência… muita teimosia! Um marco na vida do Município, como se verá nos próximos anos!

JR: A oposição concelhia costuma criticar a falta de criação de emprego e a saída dos nossos jovens de Resende por falta de oportunidades…
AB: A oposição a que está a referir-se deve ser a que apoia o atual Governo e o Primeiro Ministro Passos Coelho, que, pelos vistos, resolve os problemas a mandar emigrar os portugueses e os jovens, com o maior desemprego de sempre em Portugal, e o que mais aí virá. Isso, de facto, dá uma grande autoridade para falar sobre essas matérias e fazer críticas. Mas estamos a fazer o nosso caminho!

JR: E esse caminho tem passado por…?
AB: Criámos emprego na economia social. Em Arêgos, a Câmara garantiu, diretamente, mais postos de trabalho permanentes. Criámos uma marca como a cereja, com todas as consequências económicas que isso tem. Estamos a atribuir lotes a preços simbólicos para que as empresas se instalem. Apostámos na qualificação dos resendenses e temos muito melhores infraestruturas. Consecutivamente, ano após ano, garantimos a vinda de significativos investimentos, a maioria com fundos comunitários, que animaram o comércio local, os prestadores de serviços, a contratação e a subcontratação gerando animação permanente da atividade económica local.
O índice de poder de compra concelhio, quando chegámos à Câmara, era pouco mais de 1/3 da média nacional. Em 2009, passámos para cerca de 50% e acredito que agora estejamos melhor. Bastam estes números para explicar donde partimos e o caminho que fizemos e temos de continuar a fazer!
Os que falam o que referiu são os mesmos que, por exemplo, sempre se resignaram à paralisia de aproveitamento do recurso termal de Caldas de Aregos ou nunca foram capazes de projetar a cereja como o grande recurso agrícola do concelho e a sua grande marca.

JR: Numa altura em que se fala tanto em desempregos, como estamos nessa área?
AB: É óbvio que o clima económico atual nos está a atrasar nessa ambição de rapidamente recuperarmos tecido económico e animação empresarial, mas, mesmo assim, estamos com taxas de desemprego quase 4% abaixo da média nacional.

JR: O que se pode esperar da Câmara e do seu Presidente num momento como este?
AB: Vamos continuar a investir de forma comedida, mas vamos! Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para atenuar os malefícios das políticas do Governo. Plano de ajustamento na Câmara, lotes para as empresas, apoio para os livros escolares, baixa do IRS, do IMI e da Derrama, investimento de proximidade, ainda que o que mais me preocupa são certas mentalidades e estados de espírito.
Consumo e investimento são pão para a boca do emprego e do crescimento e num concelho como o nosso é preciso não deixar ninguém para trás.

JR: Tem sentido que há falta de respostas?
AB: Temos muita gente em Resende, várias gerações que foram sacrificadas pela ausência de políticas de qualificação e instrução, que foram abandonadas à sua sorte. Ataca-se o rendimento social de inserção, que mesmo com alguns abusos ajuda muitos daqueles a quem a sociedade não deu, como devia, instrução, competências, oportunidades, emprego e lógicas sociais consistentes. Depois, os que fazem esses ataques são de uma enorme brandura para os BPN’s e BPP’s. Branqueiam essas situações, que davam para 10 anos de RSI.
Com a Direita está a regressar a chamada caridadezinha, o tempo da sopa dos pobres, o estender da mão e o abandono de políticas sociais de apoio e inserção.

JR: Há pouco tempo, falou-se em grandes investimentos públicos e privados em Caldas de Aregos. Qual é o ponto da situação?
AB: É óbvio que a situação atual do país também nos contamina. Esta coisa de parar tudo e de estancar investimentos e incentivos, ou os fortes constrangimentos na obtenção de crédito bancário, afetam o percurso que estávamos e estamos a fazer.
Há vários interessados que continuam a falar connosco sobre o relançamento do recurso termal. É uma questão de tempo. Quem tanto teve de esperar, depois de décadas de completa paralisia, certamente que percebe que demos a volta e agora é uma questão de mais ano menos ano. A estratégia está definida, pode ter que ser afinada em função das circunstâncias! É um recurso importantíssimo, que agora é nosso, dos resendenses, e um instrumento que será usado no interesse de todos e no desenvolvimento económico de Resende.

JR: A nível dos transportes e comunicações, uma antiga aspiração dos resendenses, a EN 222-2, vai continuar a não passar disso mesmo, um velho sonho por concretizar?
AB: É um assunto em que somos todos interessados, mas está na esfera do Governo e das Estradas de Portugal. Tivemos que pagar o projeto do novo traçado e elaborar esse mesmo projeto para resolvermos um impasse que encontrava sempre obstáculos nas questões ambientais.
A importância de ter em Lisboa gente que não diaboliza o investimento e as obras, como fazem aqueles que agora nos governam, vai ser muito importante no futuro. A EN 321-2, Ponte da Ermida – Baião, está pronta para ser adjudicada e não é menos importante a ligação ao Porto. Logo que hajam mudanças, voltaremos à carga com o trabalho de casa feito.

JR: Os últimos tempos não têm sido fáceis. Muitas manifestações da sociedade civil muito por culpa da “Troika” e das recentes medidas governamentais de combate ao deficit. Como avalia a atuação do governo de coligação entre PSD e CDS-PP?
AB: Os resendenses que no futuro apoiem, por qualquer forma, este Governo e os Partidos que o apoiam – sendo este o Governo que mais prejudicou o concelho em toda a história recente da democracia – não amam verdadeiramente a sua terra. Estarão a pensar mais em si e menos nos prejuízos e no atentado a esta ambição de seguirmos em frente. E não estão a aprender a lição. O que se está a passar com este Governo é um enorme recuo e um enorme revés para o concelho. É o Tribunal, são as freguesias, são menos professores nas escolas, são 40% dos utentes sem médico de família, o RSI, o corte no Externato, o corte nos investimentos, são os cortes brutais nas prestações sociais, é uma enorme carga fiscal,… É tirar, tirar, tirar à economia do concelho, aos comerciantes, aos funcionários públicos, aos empresários, aos reformados, a quem trabalha... para nada!
Não poderia ser pior sobretudo para Resende este enorme retrocesso a que estamos a assistir. Estamos, hoje, perante uma autêntica sabotagem ao desenvolvimento do interior e de Resende.

JR: O facto de termos chegado a esse ponto também não é o resultado das políticas dos governos socialistas dos últimos anos?
AB: Este Governo ainda não pregou um prego e aumentou o défice, aumentou a dívida pública e o país está mais pobre. O pior de sempre... mas o melhor nas desculpas!
Todos os políticos têm a sua quota de responsabilidade, qualquer que seja o nível de decisão. Agora não confundamos a origem da crise e os verdadeiros responsáveis de tudo o que se está a passar. Para que o sistema financeiro não entrasse em absoluto colapso, com a crise do subprime que veio dos EUA, os países tiveram que aumentar brutalmente os seus défices... todos! Depois, foram capturados pela usura dos mercados e por erros graves da condução das políticas na Europa, respostas que tardaram e tardam. O BCE financia o sistema financeiro a 1%, mas o Estado Português, que salvou com os outros países esses mesmos bancos, tem de pagar taxas cinco vezes mais altas, no mínimo.

JR: …e o último governo socialista?
AB: Relativamente ao último Governo Socialista, vamos deixar assentar a poeira e depois veremos com mais clareza onde está o grosso do problema. Em 2008, o Governo do PS conseguiu o mais baixo défice de 2,8% nas últimas 4 décadas. Depois apareceram os chamados PEC´s, resultado de uma estratégia europeia e que deu no que deu! Daqui a mais algum tempo falamos. Acho mesmo que a generalidade das pessoas já começa a perceber melhor a verdadeira dimensão dos problemas e as suas origens. Isto sem desculpar erros próprios!

JR: Não acha que o descontentamento social generalizado e crescente para com a classe política pode pôr em causa os fundamentos da nossa democracia? Como se sente, perante esta situação, sendo o Eng. António Borges um político?
AB: O descontentamento social generalizado só vai trazer mais gente às questões políticas. Pode ser uma enorme vantagem. Há um conjunto de gerações mais novas que, perante tantas e tantas facilidades dos últimos anos, não absorveu o que é essencial na construção das sociedades e da própria afirmação dos indivíduos e da sua individualidade. Foi tudo fácil demais numa sociedade de consumo levada ao limite, com crédito fácil e barato e os outros a fazerem por nós! As pessoas vão perceber rapidamente que tudo isto é com elas e vão obrigatoriamente ter de encontrar as soluções que as respostas políticas tradicionais e os políticos tradicionais já não lhes garantem. Vamos ter que ir a jogo e isso é bom!
A participação está a alterar-se, basta estar nas redes sociais e perceber como se forma o movimento de opinião ou para o que as pessoas se mobilizam. Não é o melhor momento para estar na responsabilidade política, mas não sinto nenhum desconforto, até porque prefiro sempre funcionar nos limites a não ter objetivos, causas e dificuldades para superar. Sem isso a política não tem sabor e corremos o risco de nos transformarmos em funcionários ou rotinas!

JR: Algumas das medidas mais polémicas do atual governo afetam o concelho de Resende. A nível judicial está previsto o encerramento do Tribunal Judicial. Se tal acontecer, que impacto terá na área social e económica do concelho?
AB: É a medida mais grave que algum dia os resendenses como comunidade tiveram de enfrentar. Antes de mais porque é resultado de um conjunto de mentiras. Não é verdade que tenhamos menos de 250 processos por ano, não é verdade que o Palácio da Justiça seja da Câmara, não é verdade que tenhamos Julgado de Paz, não é verdade que tenhamos bons acessos. Isto é inacreditável e o mais grave é que a Senhora Ministra nem sequer se dispõe a discutir e avaliar connosco, comigo e com todos os outros presidentes esta situação. Um prejuízo gravíssimo!
A justiça fora do concelho representa mais impostos para os resendenses, porque vão pagar mais para ter acesso à justiça. Todos perdem. É o comércio local que perde com o movimento diário de magistrados, funcionários judiciais, advogados, testemunhas, e todo o resto, que passarão a consumir fora. É a própria qualidade da aplicação da justiça. Uma coisa é julgar dentro da envolvente social e económica em que os atos são cometidos, outra é fazê-lo fora. O conhecimento de quem julga da dimensão e consequências de determinados comportamentos no contexto em que os factos acontecem faz parte dos fatores de qualidade da aplicação da Justiça. O fim do nosso Tribunal é inaceitável. Pode ser o princípio do fim duma comunidade como a nossa. Estaremos muito atentos!

JR: O que será necessário fazer para inverter essa situação? Esperar a queda do atual Governo? Esperar uma restruturação governamental e a substituição da Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz?
AB: Faremos tudo no espaço institucional. Mas, se tivermos que levar as populações para a rua, se tivermos que ir para a rua, lá estarei. A Ministra da Justiça, por aquilo que sei de outros concelhos, arrisca o maior movimento sobre Lisboa e o Terreiro do Paço que alguma vez alguém viu neste país. Contestaremos nos Tribunais portugueses, com providências cautelares, iremos às estâncias comunitárias e até ao fim do mundo! Se fecharem o Tribunal, não pararemos até ter de volta os julgamentos e os magistrados em Resende.
Um dos compromissos do PS, que já foi enunciado pelo António José Seguro, é precisamente esse. Manter os Tribunais nas Comarcas e, se for caso disso, fazer a circulação de juízes, como já acontece agora em muitos casos. Em última análise, a reposição do Tribunal de Resende passa por mudar o Governo.

JR: Quanto à reorganização administrativa autárquica, uma vez que não houve uma manifestação de interesse dos órgãos autárquicos concelhios, a agregação de freguesias será feita compulsivamente pela entidade que fiscaliza os projetos de agregação (Unidade Técnica para a Reorganização Administrativa do Território). O que nos espera?
AB: Nada de bom. Esta reforma é feita por quem não sabe bem o que quer, e esta última versão é cortar uma percentagem nas freguesias. Aceito que possa haver ganhos em certos territórios na agregação de freguesias. Quando têm boas acessibilidades, as coisas estão perto umas das outras e o acesso aos serviços é quase imediato.
Em Resende, ou melhor nas zonas rurais, nem se poupa dinheiro, nem as pessoas ficam melhor servidas, nem há mais competências e meios para administrar melhor o território. Já tive oportunidade de explicar estas matérias aos resendenses e continuo a fazê-lo freguesia a freguesia. Esta reforma é, aliás, uma marca e um exemplo do que é governar mal e fazer por fazer, sem ganhos de custos e piorando a lógica de proximidade. As freguesias são em Resende as “paróquias civis”, as lógicas identitárias, o sítio, a vizinhança, a entreajuda, lógicas consolidadas através de séculos. Destruir isso é gravíssimo e irreparável.

JR: Face às crescentes dificuldades financeiras que o país atravessa, como está a saúde financeira da autarquia?
AB: No final deste mandato, depois de fazermos o que fizemos, o nível de endividamento, mais coisa menos coisa, será idêntico àquele que tínhamos em 2002, quando cheguei à Câmara.
Com a Lei dos Compromissos tivemos que nos ajustar, ainda mais, aos cortes que desde 2011 somam cerca de três milhões de euros. Tivemos que reformular objetivos, mas não tivemos que recorrer a nenhum plano extraordinário de regularização de dívidas, como muitas autarquias tiveram que fazer, e temos fundos disponíveis para continuar as obras que estão à vista e as que vamos lançar.
Depois do Parque Urbano e do Fórum em Resende, ou do Centro Escolar de S Cipriano, para não falar na nova Escola Secundária, vem aí o Centro da Cereja em S. Martinho de Mouros, o Centro de Cerâmica em S. João de Fontoura, o Centro Interpretativo de Montemuro, em Feirão, a Casa de Colmo na Panchorra, o arranjo da zona envolvente da Capela e do Ribeiro de Cesta em Aregos e o Parque Fluvial do Bernardo, em Barrô. Nunca entraremos em aventuras!

JR: Não é demais face às atuais circunstâncias?
AB: Na Câmara, nunca adjudicámos obras de porte significativo que não tivessem comparticipações, ou de Fundos Comunitários ou de apoios do Governo. Por exemplo no caso do Parque Urbano e do Fórum apenas pagámos 15% do valor das obras, sendo que o resto foi comparticipado. Ou fazíamos agora ou outros levariam o dinheiro. Como aconteceu no passado! A minha obrigação é remar pelo concelho, é trazer para Resende, é conseguir primeiro que os outros.
Se é demais?... Se não fizéssemos o que fizemos nos últimos anos, hoje iam comparar-nos a muitas freguesias deste país e dizer que, se calhar, não tínhamos razões e motivos para existir. Agora o que muitos dizem é que muitas cidades não têm o que nós temos... e é verdade! Só temos que continuar a crescer.

JR: O Eng. José Sócrates esteve recentemente no concelho de Resende, mais propriamente nas Caldas de Aregos, num almoço entre “amigos”. Para além de comungarem da mesma ideologia política, mantêm uma relação de grande amizade…
AB: É verdade. Tenho amizade e admiração por José Sócrates. O tempo vai encarregar-se de demonstrar a importância do tempo dos seus Governos para Resende. Nada mudou numa relação de muitos anos, a não ser um apreço ainda maior!

JR: O que falhou na governação do Eng. José Sócrates?
AB: O primeiro Governo, entre 2005 e 2009, deixou grandes marcas em muitos domínios. Na educação, na saúde, no social e até na governação económica. Teve, como já disse, o défice mais baixo dos governos do pós 25 de Abril e, sem os disparates a que vamos assistindo todos os dias, os serviços melhoraram, o Estado e o seu funcionamento melhorou e naqueles seis anos diminuíram em quase setenta mil os efetivos da função pública... sem perda de qualidade. As reformas estavam a acontecer.
O erro foi estar demasiado tempo com o Governo minoritário, que provavelmente não tinha condições políticas para enfrentar, nos últimos dois anos, uma crise sem paralelo, que começou por ser internacional e rapidamente contaminou profundamente o país. A estabilidade política é sempre um fator essencial nestes casos e insistir num clima adverso e com oposições ávidas de poder a qualquer preço não deu bom resultado!

JR: Nas últimas eleições para a presidência do Partido Socialista (PS) não apoiou o vencedor e atual líder partidário António José Seguro. Porquê e o que acha da sua liderança…
AB: Só há um PS e um Secretário-geral. António José Seguro esteve em Resende, o que muito me satisfez e tem a minha total disponibilidade e colaboração. Está a fazer o seu caminho e deixou já uma marca, porque, há alguns meses atrás, foi capaz de avisar que estes caminhos que o país e a Europa estão a seguir estão errados. Matar o consumo e o investimento é matar a economia. Seguro tem defendido o que a pouco e pouco a Europa vai também adotando como políticas para enfrentar a crise.

JR: O F.C. Porto anunciou, recentemente, os “Dragões de Ouro” da época 2011/2012. O sócio/adepto do ano dá pelo nome de Eng. António Manuel Leitão Borges. O que representa para si esta distinção?
AB: Não lhe sei explicar bem. É evidente que a relação que Resende tem mantido com o Futebol Clube do Porto, com evidentes benefícios para o concelho, já que usufrui da proximidade a uma grande marca, certamente que pesou. Muitos conhecem as minhas preferências e como nunca escondo essa ideia de que o clube não é só isso de pontapé para a frente. Somos nós com as nossas emoções, com os nossos sentimentos, seguindo o clube e sobretudo o que ele representa em muitos, muitos lados. Vou eu, vai o Tiago e vai o Eduardo. Momentos únicos, como quando tive que explicar ao mais novo que o Porto também perde, no último jogo do campeonato no antigo estádio das Antas, quando já éramos campeões e o Guimarães ganhou por 2-1.

JR: Criou, recentemente, uma página no Facebook, na qual partilha com os seus seguidores e munícipes opiniões, iniciativas, vivências, etc. Como descreve essa experiência?
AB: Às vezes perguntava a mim próprio se afinal as pessoas estavam ali e sabiam o que estávamos a fazer e o sentido de algumas atitudes.
É algo de semi-institucional, deliberadamente com um pouco daquilo que deixa perceber onde estamos e como vamos avançando. Para o que me conheço tenho sido muito comedido também por falta de tempo. Mas confesso que têm sido muito corretos e amigos comigo.

JR: Como acha que, daqui por uns anos, será recordado?
AB: Alguém que é capaz de construir alguma coisa e de mudar, sem dogmas ou preconceitos... e de Resende!

JR: O que se vê a fazer daqui a seis anos?
AB: Daqui a seis anos?... Cá estaremos!
 *Publicada no Jornal de Resende, n.º de Outubro de 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ao almoço, no restaurante "Gentleman", com Frei Henrique Rema*

Ele é integralmente um gentleman”
Esta citação de Rebeca West, escrita na parede à direita, logo à entrada do restaurante, define e caracteriza o ambiente acolhedor, a arte de bem receber, o bom gosto e a qualidade da comida. Este novo Gentleman, capitaneado por Manuel Pedro Gomes, de decoração sóbria e de muito bom gosto, corporiza o conceito abrangente de restauração: pratos regionais, refeições para dias especiais, almoços muito económicos de preço fixo, pizas, massas e menus infantis, de entre outros destaques. Com bom tempo, poder-se-á desfrutar do espaço convidativo da esplanada. Algumas informações úteis encontram-se no site www.o-gentleman.pt
Frei Henrique Pinto Rema escolheu atum grelhado com batata sauté. Foram pedidas duas doses, que fizeram jus à escolha, e que proporcionaram uma óptima refeição e uma agradável conversa.

Quem é Frei Henrique Rema
Na linha da simplicidade, que o caracteriza e cultiva, como franciscano que é, define-se apenas como um cronista. Contudo, do currículo deste nosso conterrâneo, nascido no lugar do Paço, em S. Romão, a 23 de Setembro de 1926, merece destaque, de entre outros aspectos relevantes, o facto de ser o maior especialista da obra escrita de Santo António de Lisboa, o maior perito da história da missionação da Guiné e ainda uma autoridade do passado das várias ordens que constituem a família franciscana portuguesa. Por isso se justifica muito merecidamente que integre a Academia Portuguesa de História, na categoria de sócio de número, um selectivo grupo limitado a 30 académicos portugueses a que acrescem 10 de nacionalidade brasileira. E convém realçar que esta distinção, que recusou várias vezes e quase foi obrigado a aceitar, não se ficou a dever ao facto de ser detentor de qualquer prestigiada cátedra ou ao brilhantismo em carreira universitária, mas exclusivamente à qualidade do seu trabalho de investigação, fruto de muita persistência, método e rigor, pois possui apenas os diploma de estudos em filosofia e teologia leccionados nos conventos por que passou. “Não tenho qualquer grau académico; sou um cronista ad hoc”, referiu com um sorriso.
O desejo de esclarecer factos do passado ficou patente poucos minutos após as primeiras palavras trocadas com Frei Henrique Rema junto à igreja de S. Romão, local do encontro aprazado para o ir buscar para o almoço. E assim fiquei a saber a razão de se chamar Rema. “Se conhecer alguém de apelido Rema é da minha família. O meu tetravô, natural do lugar de Carrapatelo, da freguesia da Santa Cruz do Douro, chamava-se Alexandre Pinto, sendo conhecido pela alcunha de “O Rema”, por ser barqueiro. Naquela altura, era comum uma alcunha passar a apelido para os respectivos descendentes. Por isso, os filhos deste tetravô tiveram como apelido “Pinto O Rema”, mas os seus netos já foram apelidados de Pinto Rema”.
Foi um dos dez filhos de Albina de Jesus e de José Pinto Rema. Continuam vivas duas irmãs, que residem na Régua, uma das quais passa bastante tempo em S. Romão. Os seus pais, donos de umas pequenas propriedades, foram caseiros do Padre Amadeu Cardoso, que paroquiou Ovadas durante vários anos. O contacto com os campos começou ainda em bebé, onde permanecia ou dormia num cesto enquanto a mãe cavava ou regava. A partir dos quatro/cinco anos começou a ajudar os pais em pequenas tarefas, como descascar feijão, apanhar castanhas e guardar o gado (uma burra e uma cabra).
A iniciação à leitura e escrita foi feita por um primo, cujas aulas de ensino doméstico era frequentadas por cerca de 15 crianças. Já com 10 anos, em 1936, matriculou-se na então escola primária de Anreade, onde frequentou a 3.ª e 4.ª classes, tendo sido seu professor José Maria Almeida. Recorda com alguma saudade as brincadeiras durante os intervalos e as pequenas aventuras das longas viagens diárias para as aulas. Da “pedagogia da reguada”, que persistia na altura, não guarda qualquer espécie de rancor. Broa com azeitonas era o almoço habitual que diariamente trazia de casa.

Percurso como sacerdote franciscano
Os seus pais eram cristãos zelosos, fazendo questão que em casa se rezasse diariamente o terço. Era profunda a ligação à igreja. Frei Henrique Rema ainda conserva na memória a importância do impacto que o então pároco de S. Romão, Padre Manuel, lhe provocava quando aparecia paramentado frente ao altar, desenvolvendo nele o desejo de um dia também vir a ser padre. Toda esta envolvência religiosa explica a vontade de seguir a vida eclesiástica. A opção pela ordem dos frades menores (O.F.M.) ficou a dever-se à vinda de padres franciscanos a S. Cipriano “para pregar uma missão”, que constituía também uma oportunidade para despertar nas famílias e crianças vocações para os respectivos seminários ou conventos. Assim, em 1938, com 12 anos, Henrique Rema rumou ao Colégio dos Franciscanos, em Montariol (Braga), o que implicou um encargo mensal de trinta escudos a que os pais, com grandes dificuldades, tiveram de fazer face. Esta decisão foi acolhida com agrado pela sua madrinha, governanta do Padre Amadeu Cardoso, que tinha escolhido o nome de Henrique a dar ao afilhado em homenagem ao seu director espiritual, um frade franciscano, que se chamava Frei Henrique.
Após terminados os estudos básicos em Braga, fez o noviciado no convento de Varatojo/Torres Vedras (1943-1944), ingressando depois no Convento de Montariol/Braga para efectuar o curso de filosofia (1944-1946) e no Seminário da Luz/Lisboa para fazer o curso de teologia (1946-1950). Tomou o hábito franciscano no Convento de Varatojo a 07.09.1943 e professou a Regra da Ordem dos Frades Menores (O.F.M.) a 08.09.1944 no mesmo convento. A ordenação de padre ocorreu a 23.07. 1950, no Seminário da Luz. A missa nova teve lugar na igreja de S. Romão a 6 de Agosto, celebrada em condições de grande fragilidade, com 38,3 graus de febre. Aliás, convém referir, a propósito, que Frei Henrique Rema teve no passado graves problemas de saúde e, só por isso, não foi estudar para Roma, como era desejo dos seus superiores.
Como sacerdote, foi capelão e professor em diversas instituições, a maioria das quais ligadas à família franciscana. Merece destaque, contudo, o cargo de Secretário da Prefeitura Apostólica da Guiné-Bissau, que exerceu entre 1965 e 1974 e o de Secretário da Província Portuguesa da Ordem Franciscana, que exerceu nos períodos entre 1981-1984 e 1992-1998. Actualmente é capelão num hospital, em Lisboa.
Continua muito ligado ao nosso concelho, onde costuma passar anualmente algumas semanas de férias. Costuma dizer que Portugal nasceu em Resende, sendo prova disso a presença nestas terras de D. Afonso Henriques e do seu aio, Egas Moniz. Não se cansa de andar a pé, como S. Francisco. Passeios de S. Romão ao Penedo de S. João, a S. Cipriano ou à igreja de Cárquere são uma rotina de fazer inveja a qualquer jovem. Continua a ser um conversador exímio, e sempre com um sorriso desarmante.

Actividade intelectual
Sempre gostou de escrever. Aos 17 anos publicou o primeiro artigo na revista do Colégio de Montariol “Alvorada Missionária”. A actividade da escrita em revistas foi sempre uma constante enquanto estudante e depois da ordenação sacerdotal, continuando até hoje. Merece um destaque especial a sua contribuição no “Boletim Cultural da Guiné Portuguesa”, onde publicou uma História das Missões Católicas da Guiné. Tem editados diversos livros, de entre os quais se realça o volume Obras Completas de Santo António de Lisboa, que traduziu do latim, anotou e precedeu de longa introdução. Publicou mais de 16.000 páginas, que deram origem a mais de 600 títulos. Conserva inéditas umas 8.000 páginas, incluindo o 4.º volume da Crónica do Centenário da Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, a Crónica da Província dos Açores das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, os cinco volumes da Crónica da Província dos Santos Mártires de Marrocos, dez volumes de Diário, cinco cadernos de homilias e dezenas de conferências e notas.
Tem intervindo como orador em múltiplas iniciativas e congressos nacionais e internacionais, designadamente ligados à história da missionação e da Igreja. É membro de diversas academias de história e geografia ou instituições análogas, sobretudo de países da América Latina. O pedido para integrar júris de provas de mestrado e de doutoramento é uma manifestação do reconhecimento da valia da sua obra.

*Apontamento de minha autoria, publicado no Jornal de Resende, número de Setembro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Entrevista a Ana Correia, vice-presidente do Rancho Folclórico e Etnográfico de Cárquerere*

 O Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Cárquere (RFESMC) organizou, no dia 19 de agosto, o XXV Festival de Folclore, um evento que se repete anualmente no 3.º domingo de agosto. O Jornal de Resende (JR) aproveitou a comemoração desta data marcante de uma das principais coletividades do concelho, que se dedica a divulgar a cultura e as tradições populares das gentes de Resende, para entrevistar a sua vice-presidente, Ana da Conceição Correia (AC).

Entrevista conduzida por Paulo Sequeira

Jornal de Resende (JR): O Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Cárquere foi fundado em 1981, embora as pesquisas e recolhas etnográficas só se iniciassem em 1983. Quem esteve na sua origem?
Ana Correia (AC): A bandeira da Associação tem a data de 1975 mas a escritura pública é de 10 de março de 1981. Na sua fundação, esteve um conjunto de sócios liderado pelo Dr.º Albino Brito de Matos, que se manteve como Presidente da Direção até 2011.

JR: O Dr.º Albino Brito de Matos, sócio fundador e presidente de 1981 a 2011, teve um papel fundamental…
AC: O Dr.º Albino Brito de Matos é o grande responsável por tudo o que a Associação fez durante a sua existência. Foi e continuará a ser o pilar e a força que nos move para darmos continuidade à nossa missão de defender os valores, princípios e tradições de um povo cuja história queremos preservar.

JR: Como foram os primeiros tempos?
AC: A partir de 1983, entendeu-se que era necessário tratar o folclore duma forma mais séria. Iniciou-se, então, a pesquisa e recolha dos usos, costumes e tradições antigas, através de entrevistas às pessoas mais idosas, da recolha e do estudo de testemunhos que permitissem a reconstituição do modo de viver das pessoas da nossa terra, em finais do século XIX e princípios do século XX. Com esta base, e com o aval da Federação do Folclore Português, estudámos e selecionámos os nossos trajes, as nossas danças e cantigas, que nos identificam e que procuramos divulgar com todo o respeito e a dignidade que merecem.

JR: Quando organizaram o 1.º Festival de Folclore?
AC: O 1.º Festival realizou-se no dia 31 de julho de 1988. O 3.º domingo de agosto foi a data escolhida nos 24 anos que se sucederam até ao presente.

JR: Que razões levaram à sua organização?
AC: Foi sobretudo uma grande vontade em iniciar um percurso de apresentação e divulgação das tradições da nossa terra. Contámos com o incentivo e o apoio técnico da FFP, através do seu Presidente, o saudoso Sr. Augusto, e do Conselho Técnico, na pessoa da D. Cândida, responsável pelo Rancho das Pias (Cinfães), que foi o nosso Padrinho no 1.º Festival.

JR: Em 1989, o Rancho foi Federado. O que foi necessário para atingir esse estatuto?
AC: Ser um rancho federado significa obter um estatuto de qualidade, que passa pelo cumprimento e aceitação de um vasto conjunto de procedimentos e regras que a FFP propõe aos grupos filiados. Para um rancho atingir esse patamar, é necessário estar no folclore com muita seriedade e responsabilidade, com humildade, honestidade e muita força de vontade e trabalho. Foi o nosso caso.
O nosso 1.º Festival foi supervisionado pelo Presidente da FFP, que, no dia seguinte, nos convidou para viajar para França no prazo de uma semana para participar num Festival Mundial de Folclore. Isto significava que tínhamos passado no teste e ele estava a dar-nos um presente que pretendia, mais uma vez, pôr-nos à prova. Penso que também passamos neste teste e ao fim de um ano, em 1989, depois de realizarmos o 2.º Festival, fomos finalmente federados.

JR: Quais são os trajes e utensílios típicos do Rancho?
AC: Os trajes e utensílios típicos retratam os usos e costumes da nossa terra em finais do século XIX e princípios do século XX.
As pessoas do rancho usam trajes de trabalho: de pastor, da malha, da rega, da ceifa, de vindimador do Douro, de inverno e outros. Todos estes trajes são pobres e simples e são confecionados em tecido de riscado, cotim, chitas, tal como era uso. Também há alguns trajes usados em dias de festa, de feira, ou romaria, domingueiro, os noivos e o lavrador abastado. Estes são mais ricos, mais coloridos e vistosos.
Os utensílios usados são alguns adereços que completam o traje e que se utilizavam nos trabalhos do campo, tais como a crossa, a breza, a enxada, o engaço de madeira e outros.

JR: Mais tarde, em 2009, o Rancho obteve a Declaração de Utilidade Pública…
AC: Esta foi uma aspiração que levou alguns anos a concretizar. Foi um processo moroso, pois tivemos que instruir o pedido de adesão por várias vezes. Para o efeito, beneficiámos dos pareceres favoráveis emitidos por várias entidades a nível local e nacional e, felizmente, atingimos esse patamar em 2009.

JR: Quantas atuações fizeram no estrangeiro?
AC: Três. Em França, em 1988, e em Itália, por duas vezes: na Sardenha (1991) e na Sicília (2006). As viagens dos ranchos ao estrangeiro são sempre recheadas de histórias inesquecíveis e originam momentos únicos de diversão, de camaradagem e de grande cumplicidade entre as pessoas.

JR: A nível nacional, para além da participação em inúmeros festivais, estiveram em programas de televisão e de rádio…
AC: A nível televisivo, estivemos em direto na RTP Internacional, aquando da nossa participação no Festival do Algarve, em setembro de 1994, bem como na “Praça da Alegria” (RTP1), num programa sobre a Festa da Cereja de Resende. Participámos, também, num programa para uma televisão holandesa, na Quinta das Carvalhas, em representação do folclore do Douro. A nível radiofónico, estivemos na Emissora Regional de Resende, na Rádio Renascença, na Antena 1 e na Rádio Montemuro, entre outras.

JR: Também participaram numa produção luso-brasileira, o “Rio do Ouro”…
AC: Essa experiência foi muito interessante, para além do privilégio de contracenar com o famoso ator brasileiro Lima Duarte. Alguns elementos do nosso Rancho foram escolhidos para participarem como figurantes em algumas cenas gravadas em S. Martinho de Mouros, em Mesão Frio e em Porto de Rei. No filme, há uma cena de um arraial popular em que se ouve a música da nossa dança “Se eu fosse ladrão roubava…”

JR: Destas vivências, no âmbito do folclore, há sempre histórias engraçadas…
AC: Recordo, com muito carinho, uma cena relacionada com uma pessoa muito especial, a nossa jovem de quase 70 anos, a senhora Mariana, no Festival do Algarve. Estávamos 18 grupos para dançar e como o festival era transmitido em direto pela televisão, o tempo de atuação dos ranchos era controlado com muito rigor. Quando chegou a nossa vez de dançar fomos empurrados para o palco com tanta pressa e foi tudo tão rápido que a Sra. Mariana nem teve tempo de calçar os tamancos e colocou-os sobre a cabeça e assim esteve, muito quieta, durante os três minutos e meio que durou a nossa apresentação. Foi muito divertido ver depois a gravação…

JR: A chula Rabela é a dança ex-libris do Douro e do Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Cárquere. O que a distingue das chulas de outros Ranchos, nomeadamente do Rancho Folclórico e Etnográfico de Paus?
AC: A chula rabela é a dança que melhor representa o Douro e era a única que, nesta região, se dançava em fila. Era acompanhada pela “rabeca chuleira” e cantada em jeito de desafio por um homem e uma mulher.
Há muitas variantes da chula e todas elas são especiais, apesar de diferentes. O Rancho de S. Pedro de Paus dança a sua chula tal como o fizeram, outrora, as pessoas que viveram na encosta por onde se estende a freguesia. A nossa chula é a chula rabela de outras gerações e tem o ritmo e a marcação do Douro.

JR: Presentemente, estão empenhados na conclusão da sede social e do Museu Etnográfico. Qual é o ponto da situação?
AC: A nossa casa, como gostamos de lhe chamar, é um sonho tornado realidade, embora os custos da sua construção sejam muito elevados. A parte da obra da sede social e salão de festas do rancho está quase concluída. Falta-nos, ainda, o mobiliário e o equipamento da cozinha. Estamos empenhados em tentar encontrar ajuda financeira para podermos continuar a obra e iniciar a construção do Museu Etnográfico. Este espaço é fundamental para podermos guardar e expor, em boas condições de conservação, muitos dos artefactos e peças antigas que recolhemos e que merecem ser divulgadas e preservadas para as gerações futuras.

JR: Com quantos elementos conta, atualmente, o rancho e quantas vezes se reúnem para os ensaios?
AC: Frequentam, mais assiduamente, o rancho cerca de 50 elementos, embora na totalidade dos componentes e dirigentes o número seja superior a 60. Todas as semanas, normalmente aos sábados, e nas vésperas das saídas, juntamos todos os elementos do rancho para fazer os ensaios.

JR: Têm outras atividades de cariz recreativo, para além do folclore e da etnografia?
AC: Organizámos várias atividades, ao longo do ano, como por exemplo os convívios e festas, magusto, ceia de Natal, baile de Carnaval, karaoke, torneios de malhas e de cartas, a festa das papas, entre outras.

JR: De que forma divulgam as atividades?
AC: Temos um site (ranchocarquere.com.sapo.pt) e também usamos o facebook como forma de dar a conhecer as nossas atividades.

JR: Na freguesia de Cárquere, há outra associação, o Grupo de Danças e Cantares “Os Moleiros” de Santa Maria de Cárquere, que tem por temática o folclore e a etnografia. Qual o tipo de relação entre este e outros Grupos existentes no concelho?
AC: Cada um dos grupos concelhios, à sua maneira e de formas diferentes, procura desenvolver a sua atividade como lhe é possível, atendendo a que muitas vezes enfrentam limitações e entraves de vária ordem que é necessário ultrapassar. Penso que todos procuram dar o seu melhor. O relacionamento entre os grupos de folclore existentes no concelho é muito limitado, pois raramente existem oportunidades a nível concelhio para que haja intercâmbio e convivência entre os grupos. Em Cárquere, o relacionamento com os nossos conterrâneos Moleiros é de maior proximidade devido à existência de laços de amizade e relações de parentesco que ligam os elementos de ambos os grupos.

JR: Como auguram o vosso futuro e o do Folclore nacional?
AC: O nosso rancho tem 31 anos de existência. Ao longo deste período, fomos construindo um historial que nos enriquece e nos dá vontade de seguir em frente, continuando a trabalhar para dignificar o folclore e divulgar a nossa terra. Temos, entre nós, gente empenhada e disposta a trabalhar e, por isso, o futuro só poderá ser melhor do que foi o nosso passado. Espero que este rancho cresça ainda mais e possa afirmar-se como um defensor acérrimo das raízes e das tradições populares.
*Publicada no Jornal de Resende, n.º de Setembro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ao jantar, no restaurante "Gentleman", com António Campos Barbosa, Presidente da Junta de Miomães*


“Ele é integralmente um gentleman”
Esta citação de Rebeca West, escrita na parede à direita, logo à entrada do restaurante, define e caracteriza o ambiente acolhedor, a arte de bem receber, o bom gosto e a qualidade da comida. Este novo Gentleman, capitaneado por Manuel Pedro Gomes, de decoração sóbria e de muito bom gosto, corporiza o conceito abrangente de restauração: pratos regionais, refeições para dias especiais, almoços muito económicos de preço fixo, pizas, massas e menus infantis, de entre outros destaques. Com bom tempo, poder-se-á desfrutar do espaço convidativo da esplanada.
António Barbosa escolheu bacalhau fresco com puré de feijão preto e crocante de caldo verde; eu escolhi o mesmo prato. Ambas as doses estavam excelentes, tendo contribuído para uma óptima refeição e uma agradável conversa.

Quem é o Presidente da Junta de Miomães
António Campos Barbosa nasceu a 14 de Setembro de 1960, em Freigil, sendo filho de Aires Barbosa e Elisa de Jesus. Tem oito irmãos (cinco raparigas e três rapazes), dos quais só dois residem no concelho (um em S. Cipriano e outro em Anreade). Os outros seis encontram-se “espalhados” por Gaia (dois), por Angola (um) , por Espanha (um) , por Lisboa (um), e por Viseu (um). Veio para Miomães quando se casou, tinha então vinte e três anos. Tem uma filha que é fisioterapeuta.
Fez a escola primária em Freigil. Veio a fazer o 9.º ano há relativamente poucos anos no âmbito das “Novas Oportunidades”. Desde pequeno ajudou os pais, que eram caseiros, na agricultura, tomando também conta do gado, o que continuou a fazer após a conclusão da 4.ª classe. Como o pai também se dedicava ao negócio do gado, acompanhou-o muitas vezes às feiras. Fazendo o balanço desses anos, considera que nunca se sentiu especialmente atraído por esta actividade, cujo acto de compra e venda integrava facetas de representação e jogo. Era necessária muita experiência para decidir qual o momento para fechar um bom negócio.
Após o casamento, ainda trabalhou na zona do Porto na área da construção civil e da agricultura.
Desde há vários anos dedica-se essencialmente ao negócio de madeiras. Compra árvores em Miomães e freguesias limítrofes. O que não é aproveitado para toros é transformado em lenha, que continua a vender-se razoavelmente bem. A sua maior preocupação nesta altura de crise é continuar a garantir o máximo de dias a dois trabalhadores que com ele colaboram.
Tem integrado listas para a eleição da assembleia de freguesia de Miomães desde 1997. Este é o primeiro mandato como presidente da junta, tendo sido eleito pelo PS.

O que tem feito na Junta de Miomães
O atendimento é feito às terças-feiras, quartas-feiras e domingos, de manhã, embora refira que está sempre disponível para dar resposta às solicitações dos cidadãos, quer se insiram no âmbito das competências da junta, quer tenham a ver com problemas que possa apoiar ou encaminhar para os serviços e entidades competentes. Para quem o deseje, a junta disponibiliza serviço de internet.
Tem dado particular atenção à limpeza das estradas e dos caminhos vicinais, tendo recorrido para o efeito a pessoas beneficiárias do rendimento social de inserção ou do subsídio de desemprego.
Alargou e cimentou muitos caminhos, lamentado que haja ainda várias casas na freguesia sem possibilidade de acesso de viaturas, ficando-se isso a dever, na maioria dos casos, à falta de autorização dos proprietários de terrenos confinantes.
Devido ao seu mau estado, procedeu a obras no edifício da junta, o qual foi beneficiado com um novo telhado.
Orgulha-se de ter colaborado na realização de diversos cursos de formação, designadamente de informática, e de qualificação escolar para atribuição do diploma do 9.º ano.
Tal como vem fazendo, irá continuar a envidar todos os esforços junto da Câmara Municipal para que todas as povoações tenham água ao domicílio e serviço de saneamento.

Respostas breves
1. Onde passou as últimas férias?
Nunca tive férias.
2. Compra preferencialmente português?
De preferência, sim; é sempre a minha primeira opção.
3. Quais os seus passatempos?
Gosto de jogar às cartas e ir ao Porto visitar a minha filha e neta.
4. Qual o momento mais feliz da vida?
Foi o nascimento da minha filha, a finalização do curso desta e o nascimento da minha neta.
5. E o mais triste?
A morte do meu pai.
6. Que faz para ultrapassar as “neuras”?
Fico comigo mesmo, dando tempo ao tempo e tentando encontrar uma solução.
7. Qual o seu prato preferido?
Anho assado.
8. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?
A conclusão do saneamento e abastecimento de água a todas as povoações do concelho.
9. O que mais admira nos outros?
A determinação. Gosto de pessoas que saem fora da mediania, que estabelecem objectivos exigentes e os cumprem.
10. O que mais detesta nos outros?
A falsidade. Não gosto de pessoas que não são fiéis à palavra dada.
11. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?
É o magusto/convívio organizado pela Junta de Freguesia.
12. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?
Gosto especialmente do Penedo de S. João, Porto de Rei e Caldas de Aregos.
13. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?
Não.
14. De que mais se orgulha?
Da família que tenho e da forma como tenho exercido as funções de Presidente da Junta. Acho que as pessoas me respeitam e reconhecem o que tenho feito.
15. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?
De entre as muitas obras, destaco os centros comunitários de apoio aos idosos, o novo centro de saúde e os novos centros escolares.
16. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?
Sinceramente acho que não. As condições financeiras não o permitem.
17. O que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da Câmara Municipal?
Não posso adivinhar o que vai na cabeça dele.
18. Associa a palavra Resende a..?
Cerejas.
19. Chegou a levar reguadas na escola?
Sim. Levei algumas, mas não guardo rancor por isso.
20. Já foi multado por infracção ao código da estrada?
Sim; fui multado duas vezes.
21. Já alguma vez deu uma prenda que lhe tinha sido previamente oferecida?
Não.
22. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?
Acho que é uma questão difícil. As matas deveriam estar limpas, mas o próprio Estado como dono de muitos terrenos e florestas não dá o exemplo.
23. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?
Acho que, com apoios, ainda é possível rentabilizar melhor as terras.
24. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?
Eng. António Borges e Dr. Brito de Matos.
25. É favorável à redução de autarquias, designadamente de freguesias?
Não. Acho que há outras medidas que permitem poupar mais dinheiro.
26. Tem argumentos para fixar os mais novos na freguesia de Miomães?
Espero que a revitalização de Caldas de Aregos venha a criar mais empregos.
27. De que mais gostou deste “novo” Gentleman?
Do visual e do atendimento.
*Apontamento de minha autoria, publicado no Jornal de Resende, número de Agosto de 2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Entrevista do Jornal de Resende ao Presidente do CDRC de S. Martinho de Mouros, Jorge Pereira

 Duas afirmações que merecem destaque nesta entrevista conduzida por Paulo Sequeira: “Não temos um único jogador a receber dinheiro” e “O sucesso deve-se à força de vontade de pouca mas boa gente”.
Já é oficial. O CDRC S. Martinho de Mouros vai participar no Campeonato Nacional da 3.ª Divisão de Futsal, série B, na época de 2012/2013, depois de ter aceite o convite da Federação Portuguesa de Futebol, em virtude do 2.º lugar obtido no campeonato distrital de Viseu, da Divisão de Honra.
Em entrevista ao Jornal de Resende (JR), Jorge Pereira (JP), presidente da direção do CDRC S. Martinho de Mouros, explica as causas do sucesso deste clube singular, fundado em 1989, na vila de S. Martinho de Mouros, que a partir da próxima época divulgará, ao mais alto nível, o nome do concelho de Resende no Campeonato Nacional de Futsal.
Perfil
Nome: Jorge Paulo de Melo Pereira

Idade: 36 anos
Estado Civil: Solteiro
Profissão: Engenheiro Civil
Tempos livres: Conviver com os amigos, jogar futebol e praticar ski

Jornal de Resende (JR): O CDRC S. Martinho de Mouros vai participar no Campeonato Nacional da 3.ª Divisão de Futsal, série B, na época de 2012/2013. A subida acabou por ser uma surpresa?
Jorge Pereira (JP): Não. Já havia essa intenção embora nestas coisas não existam certezas absolutas. No entanto, o nosso principal objetivo passava pela conquista da Taça de Futsal da Associação Distrital de Viseu.

JR: Mas se calhar na época de 2011/2012 falou-se menos em subida de divisão do que em épocas anteriores...
JP: Em épocas anteriores tivemos equipas com muitos e bons jogadores do concelho, que falavam constantemente na subida pelos lugares públicos que frequentavam, logo, era mais divulgado. Nesta época foi criada uma nova mentalidade, sem grandes euforias com grande humildade o que contribuiu para que se falasse menos em subida de divisão. Tudo isto se deve ao grande trabalho desenvolvido pelo Ferro o nosso Treinador.

JR: O clube, fundado em 1989, teve como modalidade de eleição inicial o Futebol de 11 até 2004/2005, época em que apareceu o Futsal. A partir daí, participou por 7 vezes na Divisão de Honra do Campeonato Distrital de Futsal de Viseu, sempre com bons resultados, tendo obtido a sua melhor classificação na época passada, o que lhe permitiu a subida de divisão. É a concretização de um velho sonho?
JP: É o culminar de um sonho de muitas pessoas e de muitos anos. É, também, uma grande prenda para quem anda no clube há muito tempo, pois este é um trabalho que vem de longe, nomeadamente dos treinadores que deixaram aqui bons métodos de treino…

JR: A equipa do ano passado ficou em 2.º lugar, com 53 pontos, a 1 ponto do Rio de Moinhos, tendo obtido 16 vitórias, 5 empates e 5 derrotas (111 golos marcados e 63 sofridos). Como define essa equipa?
JP: Grandiosa Equipa!... Pessoalmente, penso que foi a melhor equipa que o clube teve e ficará para sempre ligada a este grande momento do clube.

JR: A que se deve(u) este sucesso?
JP: O sucesso deve-se à força de vontade de pouca mas boa gente. À união, à garra e ao bairrismo das gentes de S. Martinho de Mouros. À equipa de futsal, que é uma família, um grupo de amigos, grande parte deles naturais da terra. Queria realçar que não temos um único jogador a receber ordenado. Todos eles jogam porque gostam da modalidade, do clube e de S. Martinho de Mouros. Para mim são uns heróis…

JR: Esse “amor à camisola” é para manter na 3.ª Divisão?
JP: Sem dúvida. Vamos manter a estrutura da equipa, havendo apenas a saída de dois ou três jogadores que emigraram à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Estamos, também, em conversações com dois atletas que jogaram na 1.ª Divisão Nacional e que gostavam de jogar na nossa equipa, apesar de saberem que não receberão ordenado…

JR: Quais são os grandes objetivos para a próxima época?
JP: A manutenção, apesar de sabermos que será extremamente difícil. Só para se ter uma ideia, vamos participar numa das séries mais difíceis da 3.ª Divisão, a série B, competindo com equipas como o Leça, o Lourosa, o Gondomar, o Lamas e o Alpendorada que ainda recentemente disputava a 1.ª Divisão.

JR: Para uma participação nos nacionais são necessários (mais) apoios...
JP: Em termos institucionais temos tido apenas o apoio da Câmara Municipal de Resende, quer em termos logísticos, quer em termos financeiros. Depois temos a ajuda de alguns patrocinadores, que, por incrível que pareça, são de fora do concelho. Esperamos reverter essa situação, até porque constituímos um bom veículo de promoção e de divulgação.

JR: Qual foi o orçamento da época anterior?
JP: Cerca de 15 mil euros.

JR: O apoio dos sócios e simpatizantes tem sido importante?
JP: Sim. Temos, atualmente, cerca de 200 sócios. Muitos deles estão fora e não têm oportunidade de nos acompanhar, depois resta-nos aqueles poucos mas bons que vão ver os nossos jogos... Vamos tentar levar mais gente aos jogos e esperar que as nossas mentes se apercebam do trabalho que este clube vem a fazer em nome da nossa terra.

JR: Como farão isso?
JP: Vamos tentar angariar mais sócios, até porque o podem ser por apenas 10 euros, e apostar, ainda mais, nas novas tecnologias de comunicação. Vamos desenvolver um novo site (http://smmfutsal.com.sapo.pt) para que os sócios e simpatizantes possam estar ao corrente de toda a atividade do clube, até porque há uma grande comunidade de São Martinhenses a trabalhar e residir no estrangeiro e que gostam de saber notícias do clube da sua terra.

JR: Porque é que acabou a formação no clube?
JP: Deixamos de ter camadas jovens por causa dos custos financeiros. O clube precisa de estar estável para estar bem. Se calhar foi esse o sucesso desta época.

JR: Entretanto apareceu em S. Martinho de Mouros a escola de futebol/futsal “Os Afonsinhos”…
JP: Achamos que “Os Afonsinhos”, que estão a trabalhar muito bem, deveriam estar unidos ao nosso clube. Se começamos a dividir as coisas os resultados nunca serão os melhores…

JR: Nos últimos três anos em que esteve à frente do CDRC S. Martinho de Mouros, o que ou quem gostaria de destacar pela positiva?
JP: Queria entre outras coisas destacar duas pessoas. O Pedro Carvalho, o nosso capitão da equipa e membro da direcção, é sem dúvida o motor deste clube e está presente em tudo o que é necessário. O Jorge Aníbal… grande jogador… o verdadeiro exemplo de um desportista, um talento do concelho, um grande admirador deste clube.
E claro um agradecimento muito especial a todo o grupo de trabalho que foi fantástico e que dedica este grande êxito ao amigo e antigo membro da direção Nelo Xavier.

JR: … e pela negativa?
JP: A nossa Junta de Freguesia que não nos apoiou em nada e que até hoje não teve uma palavra de reconhecimento pelo nosso bom trabalho.

JR: Que jogos de preparação estão previstos?
JP: A pré-época vai começar no dia 13 de agosto e, até ao primeiro jogo oficial da Taça de Portugal de Futsal, em outubro, vamos realizar 7 jogos de preparação: com o Freixieiro, no Torneio “Cidade de Baião” (dia 19), em Baião; com o Castro Daire (dia 25), em S. Martinho de Mouros; novamente com o Freixieiro na apresentação da equipa aos sócios (dia 2); com o Miramar (dia 15), em S. Martinho de Mouros; com o Viseu 2001 (dia 22), em Viseu; e com o Tabuaço (dia 29), em S. Martinho de Mouros.

JR: Quais são os primeiros jogos oficiais do CDRC S. Martinho de Mouros na época 2012/2013?
JP: Começamos a disputar a Taça de Portugal de Futsal, em casa, defrontando o Pinheirense, no dia 6 de outubro. Para o campeonato, na 1.ª jornada, vamos jogar novamente com o Pinheirense, no dia 13 de outubro, e recebemos na 2.ª jornada os Amigos Abeira Douro, da Régua, no dia 20 de outubro.
*Entrevista publicada no Jornal de Resende, número de Agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ao almoço, no restaurante "Gentleman", com Júlio Alberto Francisco, Presidente da Junta de S. Romão*


“Ele é integralmente um gentleman”

Esta citação de Rebeca West, escrita na parede à direita, logo à entrada do restaurante, define e caracteriza o ambiente acolhedor, a arte de bem receber, o bom gosto e a qualidade da comida. Este novo Gentleman, capitaneado por Manuel Pedro Gomes, de decoração sóbria e de muito bom gosto, corporiza o conceito abrangente de restauração: pratos regionais, refeições para dias especiais, almoços muito económicos de preço fixo, pizas, massas e menus infantis, de entre outros destaques. Com bom tempo, poder-se-á desfrutar do espaço convidativo da esplanada.
Júlio Francisco escolheu tiras de vitela grelhadas; eu escolhi peixe espada grelhado. Ambas as doses estavam excelentes, tendo contribuído para uma óptima refeição e uma agradável conversa.

Quem é o Presidente da Junta de S. Romão
Júlio Alberto Francisco nasceu a 11 de Julho de 1938 em Regadinha/S. Romão, sendo filho único de Armando Pinto Ferreira e de Maria Laura da Rocha. Frequentou a antiga escola primária de S. Romão, onde terminou a 4.ª classe, cujo exame final fez na escola da vila, como era costume à época.
A seguir, foi para o Porto, onde serviu como marçano durante três anos. Gostou da vida da cidade, que lhe proporcionou novos horizontes, bem diferentes da monotonia do campo. Caso a decisão lhe pertencesse, gostaria de aqui continuar. Contudo, um dia, o pai apresentou-se na firma para o levar de volta a S. Romão, onde era preciso para o amanho das terras. De facto, embora tivessem um caseiro, os pais tinham de cuidar de vários terrenos de que eram proprietários. Assim, até aos 21 anos trabalhou nas lides do campo e no pastoreio e guarda do gado. Em 1959 foi para a tropa para Vila Real, onde fez a recruta e tirou a especialidade de atirador, daqui transitando para o antigo quartel Metralhadoras 3, no Porto, onde permaneceu um ano. Veio finalmente a ser colocado em Vila Real, onde passaria à disponibilidade, em 1961.
Terminada a vida militar, voltou para casa dos pais, ajudando no cultivo das terras, que produziam essencialmente batatas, milho e trigo. Ainda se lembra de vender cerca de 15 toneladas de batatas Tinha ainda ao seu cuidado o pastoreio de três vacas. Aos 26 anos casou-se, tendo continuado a viver na casa dos pais, aí permanecendo até hoje. A propósito, recorda com saudade o pai, que faleceu em 1997, a quem muito deve na formação da personalidade e nos valores recebidos. Era uma pessoa muito conceituada na freguesia, tendo chegado a ser presidente da junta antes do 25 de Abril. A mãe morreu em 2005.
Continua a viver em Regadinha, S. Romão, onde nasceu, e tem um filho, que reside em Lisboa.
Integrou sempre, desde as primeiras eleições autárquicas, em 1976, uma lista para a assembleia de freguesia de S. Romão, tendo ocupado sucessivamente funções de presidente da assembleia e de tesoureiro até 2001. Nas eleições desse ano, foi convidado a encabeçar a lista pelo PS, que ganhou, o que veio a repetir-se em 2005 e 2009. Cumpre, pois, o terceiro mandato como presidente da junta.

O que tem feito na Junta de S. Romão
O atendimento é feito aos domingos, das 09h00 às 13h00, embora “esteja sempre disponível 24 horas por dia”, como gosta de dizer. Responde no quadro das competências e serviços da junta, como passagem de atestados, certidões e licenças. Faz a gestão e manutenção do cemitério. Procura manter os caminhos e estradas municipais limpos. Colabora com o serviço local da Segurança Social, cedendo um gabinete de atendimento por uma técnica.
A obra de que mais se orgulha é o Centro Comunitário, com a valência lar para 13 idosos , centro de dia e apoio domiciliário, servindo S. Romão e freguesias vizinhas. A necessidade deste equipamento foi apresentada por si aquando das eleições autárquicas de 2001, tendo sido entusiasticamente acolhida pelo Eng. António Borges, ao qual se deve a sua concretização. A respectiva construção teve o apoio da Câmara Municipal, tendo a inauguração ocorrido a 5 de Maio de 2009. Este equipamento dá trabalho a 13 pessoas, estando a gestão a cargo da Casa do Povo de Resende, havendo um acordo de cooperação com a Segurança Social. Importa referir que as vagas do lar são insuficientes face à procura.
Em colaboração com a Câmara Municipal foi construído um novo edifício para sede da Junta, inaugurado a 13 de Setembro de 2007, o qual integra um salão nobre, sala de atendimento, gabinete do presidente, sala de arquivo e casas de banho. Tem serviço de internet disponível à população.
Todas as povoações da freguesia estão ligadas por estrada. A ligação a Regadinha, já alcatroada, e a Malhoa, a alcatroar brevemente, foi da sua responsabilidade, tendo contado com a colaboração da Câmara Municipal. Vários caminhos foram por si alargados e cimentados.
Realizou, durante vários anos, os jogos tradicionais, tendo entretanto desistido devido aos encargos avultados, sobretudo com a prova de motocross.
Organiza um passeio anual para pessoas com mais de 60 anos e uma ceia de Natal com os idosos do Centro Comunitário e da freguesia.
Irá envidar todos os esforços junto da Câmara Municipal para que todas as povoações tenham água ao domicílio e serviço de saneamento.

Respostas breves

1. Onde passou as últimas férias?
Nunca gozei férias

2. Compra preferencialmente português?
Sim, faço todos os possíveis

3. Quais os seus passatempos?
Gosto de ir até aos campos, conversar, ver a bola

4. Qual o momento mais feliz da vida?
Foi o nascimento do meu filho. E estar com ele é sempre um prazer

5. E o mais triste?
Foi a perda dos meus pais

6. Que faz para ultrapassar as “neuras”?
Dando uma volta até aos campos

7. Qual o seu prato preferido?
Cozido à portuguesa

8. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?
Espero que ninguém me leve a mal, mas é a construção de um novo pavilhão no Centro Comunitário de S. Romão para resolver a lista de espera. Não me canso de dar conta ao presidente da Câmara desta situação

9. O que mais admira nos outros?
Honestidade e fidelidade à palavra dada

10. O que mais detesta nos outros?
O facto de algumas pessoas não assumirem os compromissos

11. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?
O Natal, que é a melhor ocasião para juntar a família

12. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?
Vou muitas vezes à vila

13. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?
Uma máquina de costura muito antiga, que já vem do tempo da minha avó

14. De que mais se orgulha?
Da maneira empenhada como tenho exercido as funções de presidente da junta, que vejo reconhecida na confiança que as pessoas em mim depositam

15. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?
Na freguesia foi a construção do lar e da sede da junta de freguesia; no concelho destaco o centro de saúde, as novas escolas e a requalificação da vila

16. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?
Acho que um dia vai ser construída, quando não sei

17. O que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da Câmara Municipal?
Ele gosta muito de Resende. Por isso, irá continuar a apoiar o progresso do nosso concelho

18. Associa a palavra Resende a..?
Progresso

19. Chegou a levar reguadas na escola?
Algumas, mas não estou revoltado por isso

20. Já foi multado por infracção ao código da estrada?
Não tenho carta de condução

21. Já alguma vez deu uma prenda que lhe tinha sido previamente oferecida?
Já aconteceu, pois fazia mais falta a outra pessoa

22. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?
Após devidamente informadas e avisadas, as pessoas têm de arcar com as suas responsabilidades

23. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?
O único caminho que estou a ver é continuar a apostar nas Caldas de Aregos e no turismo

24. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?
Eng. António Borges e Dr. Brito de Matos

25. É favorável à redução de autarquias, designadamente de freguesias?
Não, pois cada freguesia tem a sua história. E agrupar freguesias não traz poupanças praticamente nenhumas

26. Tem argumentos para fixar os mais novos na freguesia de S. Romão?
Infelizmente não

27. De que mais gostou deste “novo” Gentleman?
Do atendimento e, claro, de falar consigo

*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Julho de 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Alexandre Bastos, Presidente do GDR, em entrevista ao JR: "Vamos continuar a crescer de forma sustentada.(…) Todos temos de estar à altura do novo estádio”

Entrevista conduzida por Paulo Sequeira

Alexandre Bastos foi reeleito no passado dia 6 de julho, presidente da direção do Grupo Desportivo de Resende (GDR), para o biénio 2012/2014. Em entrevista ao Jornal de Resende (JR), o dirigente desportivo aborda a atualidade do clube, recordando as dificuldades financeiras do primeiro ano de mandato, o sucesso desportivo da última época e, perspetivando um “crescimento sustentado do clube” na nova época desportiva.

Perfil

Nome: Manuel Alexandre Monteiro Almeida Bastos

Idade: 39 anos
Estado Civil: Casado, duas filhas
Profissão: Mediador de Seguros
Tempos livres: Futebol e jardinagem

Jornal de Resende (JR): O que o levou, em 2010, a candidatar-se à Direção do GDR?
Alexandre Bastos (AB): O gosto que tenho pelo GDR. Entendi, na época, que poderia ser uma mais valia, uma vez que, durante alguns anos, já tinha sido atleta e treinador do clube.

JR: Como encontrou o clube em termos financeiros?
AB: Encontrei um clube com um saldo negativo, a rondar os 20 mil euros.

JR: Isso condicionaria toda a época…
AB: Sim. O saneamento financeiro do clube foi prioritário em detrimento dos resultados desportivos. Por conseguinte, no final da época, os resultados desportivos não foram os melhores em contraponto aos resultados financeiros, que tiveram mesmo um saldo positivo.

JR: A equipa de futebol sénior, que disputou a 1.ª Divisão Distrital Zona Norte da Associação de Futebol de Viseu, ficou em último lugar, com apenas 1 vitória e 3 empates. A qualidade dos jogadores era assim tão fraca?
AB: A equipa não era tão má como indicam os resultados. Tínhamos um grupo muito jovem e inexperiente, com a agravante de andarmos com a casa às costas. O Estádio de Fornelos estava em obras e os jogos eram realizados em Miomães. Os próprios Diretores e Treinadores, que trabalhavam por carolice, suportavam as despesas das deslocações, que não eram tão poucas quanto isso, uma vez que estamos a falar em dois treinos por semana mais um jogo.

JR: Nessa altura, alguma vez pensou em desistir?
AB: Sim. Dei comigo, muitas vezes, a pensar onde me tinha metido, mas depois veio ao de cima o amor ao clube e os bons momentos vividos como atleta e treinador, que acabaram por ajudar a levar o barco a bom porto.

JR: A época seguinte foi completamente diferente…
AB: Começamos a época num Estádio novo, com um novo treinador e com novos jogadores. Os objetivos eram novos mas não passavam pela subida de divisão, face aos resultados da época anterior.

JR: O que é certo é que, no final, obtiveram o 3.º lugar (14 vitórias, 4 empates e apenas 6 derrotas) e ganharam a liguilha ao Santiago de Cassurrães, estando em aberto a subida à divisão de honra…
AB: Contrariamente às expectativas fizemos uma época muito boa. Tínhamos uma equipa mais forte e experiente e uma equipa técnica que fez um excelente trabalho, conseguindo transmitir as suas ideias, nomeadamente um modelo de jogo. A partir da quarta jornada, os resultados começaram a aparecer e, na segunda volta, fomos a equipa que obteve mais pontos, conseguindo depois vencer a liguilha.

JR: A quem, particularmente, se deve(m) o(s) mérito(s) desses resultados?
AB: O mérito é de todos: jogadores, treinadores, direção, fisioterapeuta, roupeiro… Todos juntos fizemos um excelente grupo de trabalho.

JR: As infraestruturas também ajudaram…
AB: O novo Estádio Municipal de Fornelos trouxe novas responsabilidades. Aos dirigentes, aos técnicos, aos atletas... Todos temos de estar à altura das novas e boas condições de trabalho oferecidas pelo novo Estádio de Fornelos. No entanto, devo referir, também, que foi necessário apetrechá-lo com outros equipamentos que permitissem melhorar ainda mais as condições diárias de treino. Estou a falar, por exemplo, de uma lavandaria e de outros pequenos apetrechamentos que fomos realizando ao longo da época…

JR: E em termos de formação?
AB: Os resultados, na sua generalidade, foram razoáveis. Quando cheguei ao clube existiam três escalões de formação. Hoje temos cinco escalões de formação. Os jovens estão a adaptar-se a um novo ciclo, a novos treinadores, a novos métodos e à relva. Temos atualmente 172 atletas de quem muito nos orgulhamos. Tivemos a sorte, também, de contar com uma pessoa da casa que regressou ao clube e assumiu o cargo de treinador de três escalões de formação. Estou a falar do José Rabaça.

JR: O que o “surpreendeu” mais neste último ano?
AB: A integração do Pedro Lima no GDR. É o fisioterapeuta do clube, para quem não o conhece, que está sempre disponível para ajudar. É um excelente profissional e acima de tudo um amigo.

JR: No último jogo da liguilha estiveram cerca de 600 pessoas no Estádio Municipal de Fornelos. Os adeptos e simpatizantes têm correspondido aos anseios do clube?
AB: Na verdade, espero que na próxima época continuemos a ter o apoio dos sócios e simpatizantes e que os mesmos nos ajudem a conseguir mais vitórias para o clube. Sendo certo que há sempre os críticos e que para esses nem as vitórias os satisfazem.
Para estarmos mais próximos dos associados, criámos, na época passada, um site oficial (www.gdresende.pt) que será desenvolvido durante a nova época, para que todos os associados e simpatizantes saibam as últimas notícias e resultados do clube.

JR: Quantos sócios tem o GDR?
AB: Ainda temos muito a trabalhar na questão dos associados. Atualmente, temos cerca de 200, mas queremos, nos próximos dois anos, atingir os 400.

JR: Com que outros apoios conta o clube?
AB: O apoio da autarquia tem sido constante ao longo da época, quer em termos financeiros, quer em termos logísticos. Sem ele o clube não teria sustentabilidade. Depois contamos com o apoio do comércio local através dos patrocínios que disponibilizamos no Estádio Municipal de Fornelos.

JR: O que o levou a recandidatar-se?
AB: Continuar o trabalho iniciado há dois anos para que o GDR possa avançar e crescer de forma sustentada, mas sem entrar em loucuras.

JR: Quais são os objetivos imediatos que ainda não foram concretizados?
AB: Estruturar o clube em termos administrativos. Já compramos um sistema informático e um programa que permitirá emitir cartões de associados, entre outras funções. Depois pretendemos modificar os estatutos que se mantêm inalterados desde a fundação do clube em 1928.

JR: O que os adeptos podem esperar da nova época em termos desportivos?
AB: Ainda não sabemos se subimos à Divisão de Honra. Se isso não acontecer, o objetivo é, desde logo, a subida. Independentemente disso, a equipa técnica mantém-se. O Rui Rebelo é um jovem treinador, natural de Resende, com grande competência. O plantel, que será composto por 23/24 jogadores, manterá o núcleo duro da época passada, no que se refere aos jogadores da terra, teremos a subida de 3 juniores ao escalão principal e 8 novos jogadores reforçarão a equipa sénior.

JR: Algum destaque nas contratações?
AB: Destaco o caso do Rogério, natural de Resende, que fez toda a sua carreira profissional nas divisões nacionais e que, nos últimos anos, fazia parte da equipa do Cinfães.

JR: Que estimativa tem para o orçamento da próxima época?
AB: Entre 50 a 60 mil euros.

JR: O GDR é a segunda filial do Futebol Clube do Porto? Que relação existe entre filiado e a filial?
AB: Não existe praticamente nenhuma relação, sendo certo que, num futuro próximo, tudo faremos para que isso se altere, até porque neste momento já temos instalações desportivas que nos permitem convidar a nossa filial para jogos particulares com as nossas equipas.

(Nota: na próxima edição será entrevistado o presidente da Direção do CDRC S. Martinho de Mouros)

Entrevista publicada no JORNAL DE RESENDE, n.º de Julho de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ao almoço, no restaurante "Gentleman", com...o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Resende*

“Ele é integralmente um gentleman”

Esta citação de Rebeca West, escrita na parede à direita, logo à entrada do restaurante, define e caracteriza o ambiente acolhedor, a arte de bem receber, o bom gosto e a qualidade da comida. Este novo Gentleman, capitaneado por Manuel Pedro Gomes, de decoração sóbria e de muito bom gosto, corporiza o conceito abrangente de restauração: pratos regionais, refeições para dias especiais, almoços muito económicos de preço fixo, pizas, massas e menus infantis, de entre outros destaques. Com bom tempo, poder-se-á desfrutar do espaço convidativo da esplanada. Algumas informações úteis encontram-se no site www.o-gentleman.pt
É um óptimo espaço para quem quiser fazer da refeição um agradável encontro de conversa, como aconteceu com o Dr. José Dias Gabriel.

Percurso pela infância e juventude
José Dias Gabriel, filho de Luís Dias Gabriel e de Ermelinda Colaço, nasceu a 9 de Março de 1949 em Rossas, Ovadas. É o benjamim da família, tendo mais quatro irmãs, uma das quais já falecida. Frequentou durante quatro anos a escola da Granja, onde fez o ensino primário. Preparou-se para entrar no liceu de Lamego, onde chegou a fazer com êxito o exame de admissão, mas veio a ingressar juntamente com um sobrinho no seminário de Resende. Terminado o antigo 5.º ano, transitou para o seminário de Lamego, onde concluiu, durante sete anos, os cursos de filosofia e teologia. Muitas das viagens de Lamego para Ovadas e vice-versa, em início e fim de férias, foram feitas a pé, pelo que o Dr. José Dias Gabriel conhece como ninguém as serras das Meadas e de Montemuro.
Viveu os tempos de mudança e de abertura na Igreja com o Concílio Vaticano II, com repercussões directas na disciplina e na vida dos seminários, determinando a queda de muitos muros. Foi nessa altura, como estudante de teologia em Lamego, que os seminaristas deixaram de usar batina no dia a dia, por exemplo. Recorda com emoção a experiência marcante de dois períodos de férias, respectivamente no 2.º e 3.º ano de teologia, passados na região de Dusseldorf/Alemanha, onde trabalhou com os colegas, em companhia de dois padres, numa fábrica de blocos de cimento e esferovite. Foi o tempo de abertura a um mundo novo que o deixou deslumbrado. Numa dessas férias aventurou-se por Berlim Leste, então sob domínio comunista, tendo assim oportunidade de confrontar duas concepções do mundo, dois regimes políticos antagónicos e dois estilos de vida opostos.
Terminado o curso de teologia, após longa reflexão, resolveu abandonar o seminário. Em 17 de Julho de 1973, ingressou como cadete na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, onde frequentou o curso de oficiais milicianos. A especialidade foi tirada no Centro de Instrução de Operações Especiais (C.I.O.E.), em Lamego, onde terminou com aproveitamento o exigente curso de Ranger. Seguidamente passou por Viseu, Vila Nova de Gaia e Santa Margarida , de onde embarcou para Moçambique, a 1 de Agosto de 1974. Em período conturbado e indefinido, pois ainda não tinha sido implementado o acordo de paz de Lusaka entre Portugal e a FRELIMO, a sua companhia, de que era o comandante, foi objecto de uma grave emboscada e de vários ataques ao aquartelamento, de que resultou a morte de vários militares. Regressou a Portugal a 23 de Julho de 1975.
É casado. Tem 3 filhos. Vive em Anreade.

Percurso como professor e gestor escolar
Antes de iniciar a sua longa carreira ao serviço das escolas, ainda agarrou a oportunidade de responder a uma vaga de trabalho na Casa do Povo de S. Cipriano, onde foi escriturário-dactilógrafo de Janeiro a 13 de Maio de 1976. Convém referir que José Dias Gabriel é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica e frequentou o Mestrado em Administração Pedagógica e Escolar, na Universidade do Minho.
Iniciou funções docentes em 14 de Maio de 1976, na Escola Preparatória de Chaves. Em 1977/78, integrou a Comissão Instaladora da Escola Preparatória de Resende. No ano lectivo seguinte, foi professor em Castro Daire. Depois voltou para Resende, onde leccionou durante dois anos. Em 1981/82, foi professor em Amarante, tendo também leccionado, em acumulação, no Externato D. Afonso Henriques, em Resende. No biénio 1982/84, fez a chamada profissionalização em exercício na Escola Secundária da Sé, na Guarda.
A partir do ano lectivo de 1984/85, iniciou um percurso ininterrupto no âmbito da gestão e administração escolar, primeiro na Escola Preparatória e depois na Escola Secundária, em Resende. Assim, nesse ano, assumiu as funções de Presidente do Conselho Directivo da Escola Preparatória. Nos dois anos lectivos seguintes 1985/86 e 1986/87, foi Presidente da Comissão Instaladora da Escola C+S de Resende. No biénio lectivo seguinte, 1987/89, foi Presidente da Comissão Instaladora da Escola Secundária de Resende, cujo destino influenciou decisivamente, pois, até à sua aposentação foi sempre o seu responsável máximo, por eleição ou designação, em órgão que foi recebendo várias designações (Conselho Directivo, Conselho Executivo, Comissão Executiva…), tendo também sido Presidente do Conselho Pedagógico.
Apesar dos muitos obstáculos, o Prof. Dias Gabriel deixou como herança um estabelecimento de ensino prestigiado, recursos humanos motivados e o exercício de uma liderança baseada na auscultação. Merece especial realce a introdução de novas ofertas educativas, designadamente de cursos profissionais, possibilitando aos jovens um maior leque de alternativas para a sua vida pós-escolar. A atribuição do “Prémio Carreira” pelo Ministério da Educação, em 2010, pretendeu justamente distinguir a sua longa carreira como gestor escolar, em que soube adoptar boas práticas, tornando-se assim uma referência para toda a comunidade educativa.

Intervenção política, social e cultural
Foi Presidente da Assembleia Municipal desde as primeiras eleições autárquicas, em 1976, até Dezembro de 1993, totalizando 17 anos, tendo sido agraciado com um voto de louvor em agradecimento pelo desempenho do cargo, aprovado por unanimidade, na reunião da Câmara Municipal, realizada em 21 de Dezembro de 1993.
Foi fundador e Presidente da Direcção do Rancho Folclórico e Etnográfico de S. Miguel de Anreade, durante 13 anos, até Setembro de 1996. Teve um papel imprescindível na construção do reportório deste grupo pelo contributo que deu para o levantamento dos cantares, trajes, danças, tocata e artesanato em Anreade e nas freguesias vizinhas.
Fundou, integrou e, em alguns casos, continua a integrar os órgãos directivos das seguintes instituições: Associação Recreativo-Cultural “Pró-Resende”, Comissão de Melhoramentos da Freguesia de Anreade e Associação Paroquial Miguelanjo. Integrou, durante 16 anos, o Conselho Económico Paroquial de Anreade. É o maestro do grupo coral da paróquia de Anreade e do grupo coral da Santa Casa da Misericórdia.

Provedor da Santa Casa da Misericórdia
A Santa Casa da Misericórdia de Resende deve a sua criação ao Dr. Rebelo Moniz, administrador do concelho, sendo 1930 considerado o ano da sua existência legal. A edificação de um hospital foi o sonho dos seus primeiros responsáveis, cuja concretização foi consumada em 1939, ano da respectiva inauguração, denominando-se “Hospital Regional da Misericórdia de Resende”, por receber e tratar doentes de Cinfães e Baião. A valência que se seguiu foi a construção do “Patronato”, cuja inauguração ocorreu em 1940. Várias obras e melhoramentos se seguiram até 1975, ano da nacionalização do hospital, vindo a ser efectivamente tomado pelo Ministério da Saúde em 16 de Junho de 1976. Seguiu-se a instituição das valência de Jardim de Infância e Lar de Idosos nos anos oitenta. É a partir deste período que entra em acção o Dr. José Dias Gabriel. De facto, em 1980, integrou a Mesa Administrativa pela primeira vez, acompanhando, no ano seguinte, como Vice-Provedor, o Dr. Albino de Matos, que foi eleito Provedor, em acto eleitoral para os novos corpos gerentes, que decorreu em 19 de Setembro de 1981. Este mandato foi renovado por três vezes. Finalmente, em 5 de Fevereiro de 1994, foram eleitos novos corpos gerentes, tendo assumido o Dr. José Dias Gabriel o cargo de Provedor, permanecendo desde então à frente dos destinos da instituição.
O Dr. Dias Gabriel tem tido uma acção notável ao serviço da Santa Casa da Misericórdia. A ele se deve o aceleramento da devolução pelo Estado do hospital e o acordo das condições e garantias de verbas para a reedificação do mesmo, já que então se apresentava em situação deplorável. O acto da entrega realizou-se em 13 de Setembro de 1995. Nove dias depois foi aberto concurso para a obra de remodelação, tendo a mesma sido adjudicada em 6 de Março de 1996. Esta rapidez foi vital para a consecução deste objectivo, porque, entretanto, ocorreu uma mudança do governo, tendo sido dado o facto como consumado. Caso as obras não tivessem avançado, o Estado não teria cumprido os seus compromissos.
Os novos equipamentos/edifícios e a criação de novas valências, designadamente na área da saúde, devem-se ao seu dinamismo e acção empreendedora. Depois da Câmara Municipal, a Santa Casa da Misericórdia é o maior empregador do concelho de Resende nela trabalhando 130 pessoas. Actualmente, apresenta as seguintes valências de apoio/serviços - i) área da infância: creche, jardim de infância e lar de infância e juventude; ii) área das 3.ª e 4.ª idades: lar de idosos, lar de grandes dependentes acamados e lar hotel; iii) área da deficiência: lar residencial; iv) área da saúde: unidade de cuidados continuados integrados de longa duração, serviço de análises clínicas, serviço de imagiologia com raios x ósseo e digestivo, ecografia e ecocardiograma, eletrocardiograma e holter, serviço de medicina física e reabilitação, consulta de especialidades médicas particulares (ginecologia, obstetrícia, pediatria, oftalmologia, alergologia, pneumologia, ortopedia, fisiatria…) e clínica de medicina dentária (com atendimento diário por 4 médicos). Convém referir ainda que integra uma oficina de artesanato e uma empresa de inserção na área de cafetaria e irá disponibilizar em breve à comunidade um serviço de biscates em carpintaria, pichelaria e electricidade.

Nota: A apreciação do justo mérito da obra do Dr. José Dias Gabriel em prol de Resende, publicamente reconhecida pela Câmara Municipal, União das Misericórdias Portuguesas e outras instituições, decorre da análise do seu percurso, das realizações objectivas e do testemunho de muitas pessoas que contactei. Muita coisa ficou por escrever, devido ao pouco espaço disponível.
*Este apontamento resultante da entrevista foi publicado no Jornal de Resende, número de Junho de 2012
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