quarta-feira, 7 de julho de 2010

Comunicação do Dr. Vítor Borges na apresentação do livro “NUNO DE SANTA MARIA – Fragmentos de Memória Persistente” *

É uma honra e um privilégio poder estar presente nesta sessão de apresentação do Livro do Professor Doutor Aires Nascimento – Nuno de Santa Maria, Fragmentos de Memória Persistente.
Conforme resulta da investigação do autor constante de um dos ensaios, Nuno Álvares Pereira nasceu em 25 de Junho de 1360, pelo que estamos a comemorar os 650 anos do seu nascimento.
Tal como para o autor, também para mim “há circunstâncias particularmente influentes na construção de afectos. A de lugar toca-nos particularmente, sobretudo quando a ele nos prende a devoção, a piedade e um imaginário que se desenvolve em torno da figura de um herói com quem entramos em relação mais frequente por se dizer ligado ao local onde vivemos parte da vida (que despontava e conduziu as escolhas decisivas) e nos descobrimos também na rememoração da história pátria”.
Em Cernache do Bonjardim, estive em 6 de Junho de 1960 aquando da celebração dos 600 anos do nascimento de São Nuno.
Posteriormente, estive na Escola Prática de Infantaria de que D. Nuno ainda é o patrono.
Ontem, 24 de Junho que é suposto ser a data oficial dos 650 anos do seu nascimento, verifiquei que só em Cernache do Bonjardim foi celebrada a efeméride com a presença do Chefe da Casa Militar do Senhor Presidente da República e, evidentemente, com a representação da Escola Prática de Infantaria.
E quanto a comemorações oficiais parece que nada mais há, a não ser um concurso da Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação, que, ao que parece, teve muitos concorrentes e cujos resultados serão apresentados no próximo dia 30 de Junho.
O concurso intitulado “Vamos Contar a História de Nuno Álvares Pereira” tem por objectivo a realização de trabalhos de natureza diversa que contribuam para promover o estudo alargado desta figura multifacetada (D. Nuno), o conhecimento da sua acção como protagonista dos fenómenos históricos do tempo em que viveu e a sua projecção ao longo de diferentes épocas.
Conforme é referido na justificação do concurso, D. Nuno é “personagem da nossa memória colectiva, que desde muito cedo mereceu a atenção de vários sectores da sociedade portuguesa, como se pode constatar, nomeadamente, através de numerosos textos escritos desde o século XV (a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes e a Crónica do Condestabre, texto anónimo), às múltiplas obras dos tempos actuais, bem como na poesia portuguesa de Camões e Pessoa”.
Quando se refere às obras dos tempos actuais, julgo que tem em conta a investigação feita pelo Professor Aires Nascimento nos 10 ensaios constantes do Livro “Nuno de Santa Maria – Fragmentos de Memória Persistente”.
A persistência do Presidente da Associação Regina Mundi, José dos Santos Ponciano, fez com que dos dois ensaios iniciais ainda publicados antes da canonização de S. Nuno de Santa Maria em 26 de Abril de 2009, resultassem mais oito e a introdução que fazem parte do presente livro.
Tenho que saudar o meu amigo José Domingues dos Santos Ponciano por ter desafiado o Professor Aires Nascimento para este projecto que julgo, conforme resulta do livro, que aceitou o desafio com todo o prazer e pôs em funcionamento todas as suas capacidades e talento de professor universitário, académico e investigador.
Como sabem, o Professor Aires Nascimento é licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras de Lisboa e é seu professor catedrático (actualmente jubilado) desde 1985.
Ao longo da sua brilhante e profícua carreira desempenhou várias funções universitárias, desde coordenador do Departamento de Estudos Clássicos daquela Faculdade, Vice-Presidente do seu Conselho Científico e Pró-Reitor da Universidade de Lisboa.
É membro das mais diversas instituições científicas nacionais e estrangeiras incluindo a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Portuguesa de História, a SISMEL, de Florença, a ISIEME, de Roma, a Academia de Bones Lletres, da Catalunha, etc, etc.
Foi durante 25 anos Director da revista de Filologia Clássica “Euphrosyne” e 15 anos Director do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa. Pertence ao Conselho Científico de diversas revistas científicas (nacionais e estrangeiras).
Dirigiu projectos científicos em colaboração com instituições universitárias, assegurando o ensino de diversas disciplinas (no domínio dos Estudos Clássicos, Grego e Latim), iniciou em Portugal o estudo da tradição dos textos e do livro manuscrito (Filologia, Codicologia, Tratamento Electrónico de Textos).
No seu currículo científico destacam-se edições críticas de textos latinos medievais de tradição portuguesa (30 monografias), estudos filológicos e literários com incidência maior no domínio medieval ou renascentista (c. 300 artigos), estudos críticos (em recensões e pareceres científicos).
Entre os prémios com que foi distinguido conta-se o Grande Prémio de Tradução pela tradução da Utopia de Tomás Moro (Prémio União Latina e FCT). Pelo mesmo trabalho recebeu também Prémio de Tradução do PEN Club.
O que disse vem na capa do livro mas quis destacar o último ponto relativo à tradução de Utopia de Tomás Moro por me parecer haver uma certa coincidência entre Tomás Moro e D. Nuno Álvares Pereira. Ambos foram políticos e são santos. S. Tomás Moro foi designado por João Paulo II como patrono dos políticos. Por sua vez, do livro do Professor Aires Nascimento, da personalidade de S. Nuno de Santa Maria são destacadas as suas virtudes humanas e morais (virtudes com o significado de excelência, conforme é referido pelo autor) mais do que aquelas que é costume destacar na biografia de um santo.
As virtudes, chamadas virtudes cardiais: prudência, justiça, fortaleza e temperança que já os filósofos gregos consideravam como fundamentais e, por isso, cardiais, são realçadas quer no “Sumário que o Infante (D. Duarte) deu a Mestre Francisco para pregar do Condestabre Dom Nuno Alvarez Pereyra”, quer na oração que o Infante D. Pedro fez em 1437 e que o autor traduziu e que é distribuído com o livro: D. Nuno é modelo de governantes, exemplo dos senhores, espelho de contemplativos, firme e forte em combate, comedido e apiedado na vitória, justo e misericordioso na paz, obediente e forte no claustro. Em toda a situação se afirmou com dignidade e brio e assim como nos seus dias de vida alcançou honra e glória assim também é merecedor de alcançar no céu a eterna bem-aventurança.
Por que é um académico e investigador, os ensaios constantes do livro não podiam deixar de ser, como o são, produto de uma rigorosa e fundamentada investigação.
O ensaio sobre a antiguidade do culto de S. Nuno levou o autor até Parma para poder in loco verificar na Biblioteca Palatina de Parma o manuscrito litúrgico nela conservado e que seria o primeiro testemunho litúrgico do culto a S. Nuno de Santa Maria.
A vasta cultura do autor permite também que sejam analisados em pormenor a importância de D. Nuno Álvares Pereira nos Lusíadas ou na Mensagem de Fernando Pessoa.
O facto de o autor também ser considerado o maior codicologista português e um dos maiores da Europa e ter sido Presidente do Instituto Português de Arquivos permitiu que muitos documentos históricos que se encontram citados no original e, sobretudo, que no livro se encontrem ilustrações, iluminuras e ícones que muito provavelmente não se encontrarão em mais livro nenhum.
Sei que o Professor Aires Nascimento acompanhou toda a edição do livro e escolheu as ilustrações que o acompanham.
Por isso, além do mais, o livro hoje apresentado é um livro belo.
Não se trata de uma hagiografia tradicional ou vulgar, pois como se disse, mais do que as virtudes tradicionais dos santos, são relevadas as virtudes humanas, morais e intelectuais dos homens, neste caso de D. Nuno Álvares Pereira.
Não é um livro fácil, pois, apesar do esforço, o Professor Aires Nascimento rege-se pelo princípio de que não vale a pena fazer seja o que for se não for bem feito. E o Professor, o Académico e o Investigador estão sempre presentes no que faz e no que escreve.
Eu li com muito prazer e proveito o livro “Nuno de Santa Maria – Fragmentos de Memória Persistente”. Espero que os presentes tenham o mesmo prazer intelectual de o ler como eu tive.
*Em sessão que decorreu no Casino da Figueira da Foz, em 2010-06-25

Pe. Marcos Alvim lançou em Lamego novo trabalho discográfico*

No passado dia 2 de Julho, o Auditório o Centro Paroquial de Almacave - Lamego, acolheu várias centenas de pessoas para participarem na apresentação do CD/Livro de músicas de mensagem do Pe. Marcos Alvim, lançado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil da Diocese de Lamego e pelas Edições Salesianas.
A palavra de abertura coube ao responsável da Pastoral Juvenil da Diocese, Pe. Bráulio, que começou por saudar todos os presentes e de modo particular o Pe. Marcos Alvim a quem dirigiu palavras de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido no campo da música e da produção musical.
Seguiu-se a apresentação das músicas interpretadas pelo Pe. Marcos Alvim, acompanhado ao piano pelo seu produtor, Prof. Alberto Mendonça.
A meio da apresentação o Pe. Marcos Alvim, dirigiu uma palavra a todos os presentes, agradecendo o apoio e estímulo para a continuidade do seu trabalho. Salientou ainda a importância que a música tem na sua vida, no seu ministério e na vida da Igreja.
Seguiu-se a palavra do Sr. Bispo de Lamego, D. Jacinto, que felicitou o Pe. Marcos Alvim, o Secretariado da Juventude e as Edições Salesianas por este trabalho e convidou-nos a “louvar e saborear a presença do Bom Mestre no meio de nós ao ouvir estas belas melodias”.
O CD/Livro “Bom Mestre…” está nas livrarias católicas ao dispor de todos aqueles que gostam de sonoridades mais jovens, onde o ritmo e a melodia se conjugam numa harmonia bela. Este é certamente mais um instrumento de trabalho para párocos grupos corais, grupos de jovens e para todos aqueles que gostam de louvar a Deus “com arte e com alma”.
*Artigo elaborado por Prof. Aquilino Rocha Pinto

sexta-feira, 18 de junho de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA COMO PADRE… EM RESENDE: Chamo-me António Martins Teixeira e nasci em Touro, Vila Nova de Paiva, há 84 anos*

Percurso de vida
Nasci em 27.06.1926, na freguesia de Touro, concelho de Vila Nova de Paiva. Aos doze anos entrei no Seminário de Resende, onde permaneci quatro anos, findos os quais ingressei no Seminário de Lamego para frequentar, durante oito anos, os cursos de filosofia e teologia. Fui ordenado sacerdote em 22.07.1951, tendo celebrado a Missa Nova três dias depois, em 25 de Julho, na minha terra natal, quando era bispo de Lamego D. João da Silva Campos Neves.
Em 03.08.1951, tomei posse como pároco de Mós do Douro, concelho de Vila Nova de Foz Côa, onde estive quatro anos. Em 20.10.1955, fui transferido para as paróquias de Cabaços, Baldos e Vilar, concelho de Moimenta da Beira, onde permaneci também quatro anos. Em 19.09.1959, fui para a paróquia de Paredes da Beira, S. João da Pesqueira, onde estive oito anos. Finalmente, em 17.09.1967, tomei posse como pároco da paróquia de Resende, tendo também sido nomeado arcipreste por D. João da Silva Campos Neves.
Fui apresentado aos cristãos e população de Resende pelo então bispo auxiliar D. Américo Henriques. Fui muito bem recebido. Notei apenas alguma desconfiança por parte dos padres do arciprestado de Resende, o que é natural, pois naquele tempo não havia o processo de consultas e o arcipreste era nomeado.
De 1975 a 1979, frequentei como aluno voluntário o curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e ainda cheguei a ser professor desta disciplina na então Escola Preparatória de Resende.

Acção na área da educação/Papel na consolidação do Externato D. Afonso Henriques
A minha preocupação primeira, enquanto pároco, sempre foi a acção pastoral, organizando a catequese, preparando as pessoas para os sacramentos e formando os cristãos na fé. Nem sempre o terei conseguido. Também sempre fui sensível às questões de natureza social e da educação. O facto de ser o único dos meus irmãos que teve possibilidade de ir além da 4.ª classe marcou-me muito e responsabilizou-me. Antes do 25 de Abril, quem queria continuar a estudar após a escola primária tinha de ir para Lamego, o que exigia posses. Os pobres, mesmo que fossem inteligentes, estavam condenados ao trabalho na lavoura ou nas artes.
Antes de ser nomeado para a paróquia de Resende, em Paredes da Beira, pertencente ao concelho de S. João da Pesqueira, criei o que se pode chamar uma mini-escola, na casa paroquial, onde cheguei a ter vinte alunos. Era eu quem leccionava sozinho todas as disciplinas e preparava as crianças/jovens para os exames que eram feitos no Liceu Nacional de Lamego. Entre os alunos havia catequistas, jovens ligados à igreja e sobrinhos meus. Quando fui transferido para Resende, alguns mostraram vontade de vir comigo.
De facto, quando vim para Resende em 1967, o Externato já funcionava, com instalações em Massas, tendo aí sido professor. Leccionava-se aí até ao antigo 5.º ano (actual 9.º ano), tendo os alunos de prestar provas de exame nos então 2.º e 5.º anos. Com o 25 de Abril e a abertura da Escola Preparatória em Janeiro de 1977, o Externato foi obrigado a encerrar no final do ano lectivo de 1976/77, mas apenas por um ano, pois persistia a questão da continuidade para quem desejasse prosseguir estudos após o 9.º ano. Entretanto, por coincidência, consegui negociar a aquisição dos terrenos junto da igreja paroquial, postos à venda pela respectiva proprietária, onde em 1977, no limite dos mesmos edifiquei umas instalações para fins pastorais. Por acaso, o bispo da altura, D. António Xavier Monteiro, veio a Resende, tendo aproveitado para visitar essas instalações. Vários pais dirigiram-se ao senhor bispo, expressando a sua preocupação pela inexistência de um estabelecimento de ensino que possibilitasse a prossecução de estudos após o 9.º ano e pedindo-lhe para mediar a resolução deste problema. Virou-se para mim, dizendo: veja lá o que pode fazer; esta é uma carência que necessita de ser resolvia. E foi assim que pus mão à obra, tendo iniciado, em Outubro de 1978, o 10.º com uma turma de 17 alunos em instalações precárias, construídas para actividades paroquiais, sendo as aulas dadas por professores em regime de voluntariado. No fim desse ano, consegui estabelecer um contrato de associação com o Ministério da Educação, que se tem mantido até hoje, o que possibilitou obter recursos para melhorar as instalações e contratar professores e pessoal não docente. O panorama foi melhorando, pois no ano seguinte matricularam-se 35 alunos e depois 73. Houve um ano em que se matricularam 80 alunos no 10.º ano. Contudo, para este projecto continuar a ter viabilidade era necessário adequar a situação às novas condições criadas com a entrada em funcionamento da Escola Secundária D. Egas Moniz, em Outubro de 1987, com alunos desde o 7.º ao 12.º anos. Com esta nova oferta, só com a possibilidade da frequência de alunos a partir do 7.º ano era viável manter uma dupla oferta educativa em Resende, dando aos pais a oportunidade de opção. Para levar este objectivo avante, não esperei pela autorização do Ministério da Educação, tendo iniciado, no ano lectivo de 1991/92, o 7.º ano sem os correspondentes boletins de transferência, que deveriam ser passados pela Escola Secundária, onde os alunos estavam formalmente matriculados. A situação de irregularidade prolongou-se durante todo ano, com muitas idas ao Ministério da Educação, tendo desencadeado a vinda de Inspectores da Educação a Resende para solucionar a questão. Só no fim do ano lectivo, não podendo os alunos ser prejudicados, a situação das matrículas foi regularizada.
Tenho de reconhecer que me empenhei muito neste projecto e que gastei nele muitas das minhas energias. Vi-o nascer e crescer para bem da educação e dos jovens de Resende, sendo seu Director desde o seu arranque nesta segunda fase, em 1978, até 1991. Tive ao meu lado uma equipa competente. E este legado foi entregue em boas mãos. Primeiro ao Padre Manuel Esteves, que foi Director até 2007, e finalmente ao Padre José Augusto, actual Director, ambos possuidores de uma grande cultura, imbuídos de dinamismo, ponderados e com provas dadas no domínio das relações com os jovens.

Incursão pelo empreendedorismo social na área agrícola
No final dos anos setenta do século passado, verificou-se no concelho de Resende algum desenvolvimento e aposta na criação de vacas turinas para a produção de leite. Quem percorresse as nossas encostas e lameiros podia registar, de forma dispersa, uma ou outra vaca turina a pastar. Não havia qualquer organização para o escoamento do leite. Em 1981, foi posta à venda a Quinta das Trapas, tendo sido uma oportunidade para investir nesta área. Em conjunto com mais cinco pessoas, criámos uma empresa chamada Bovidouro, que chegou a ter 80 vacas turinas, que vieram directamente de uma quinta da Holanda. Diariamente, o leite era recolhido por um camião de uma cooperativa leiteira, que aproveitava também para recolher o leite dos outros pequenos agricultores, o que não aconteceria caso não houvesse uma empresa de alguma dimensão. Foi nesta altura que o Seminário de Resende também adquiriu algumas vacas turinas para a produção de leite, cuja aposta ainda continua.
Com a subida exponencial do preço das rações (de 80 chegaram a rondar os 800 escudos) e as profundas alterações na agricultura, com a entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia, registou-se uma crise no sector do leite, pelo que, em 1986, a sociedade Bovidouro foi dissolvida. A quinta, entretanto, foi loteada e é lá, numa vivenda, onde vivo. Parte dos resultados destes investimentos facilitou a aquisição do edifício na vila, onde está instalado o Centro Paroquial, que foi inaugurado em 22.07.2001.

Ser padre em Resende
Sempre quis ser padre. Nasci e cresci numa família crente e bastante religiosa. Aliás, o meu padrinho de crisma era um padre, que era primo da minha mãe. A minha freguesia, Touro, deu vários padres e até bispos à Igreja, como D. Cosme do Amaral, mais velho que eu dez anos, que veio a ser bispo da diocese de Leiria/Fátima. Na altura, ir para o sacerdócio era uma honra e a garantia de continuidade de estudos. Chegámos a ser onze irmãos, estando vivos quatro, sendo eu o único que estudei. Por isso, como compensação investi muito e foi sempre uma preocupação a educação dos meus sobrinhos, dos quais seis são formados. Dei-lhes explicações e muitos deles passaram pelo Externato de Resende.
Os meus pais viveram no fim das suas vidas comigo. Trouxe-os para cá. A minha mãe morreu em 1981 e o meu pai em 1987. Uma irmã minha acompanhou-me sempre. Morreu há 18 anos. Desde então vivo sozinho. Em Touro, não tenho nada. Disse aos meus irmão para fazer a partilha entre eles. Vou lá poucas vezes. O centro da minha vida é Resende. Vivem cá um irmão meu e três sobrinhos com os quais posso contar.
Durmo bem e levo uma vida simples. Normalmente, celebro a missa de manhã. A seguir, vou até à vila, onde muitas vezes tomo o pequeno almoço num café. Gosto de cozinhar, mas para mim, tendo a oportunidade de condimentar a comida ao meu gosto e para bem da minha saúde. Não tenho o atrevimento de cozinhar para os amigos. Leio, consulto a internet, ando a pé e gosto de ir até à vila dar um pouco de conversa. Paro num ou noutro café e na barbearia do Sr. Sílvio.
Nos trabalhos da paróquia, tenho a incumbência da pastoral dos adultos. A catequese, os escuteiros e a pastoral dos jovens estão entregues ao dinamismo do Padre José Augusto. Acompanho a acção da conferência de S. Vicente de Paulo e dos cursistas. Ao longo da minha vida, tenho apostado muito na formação e no empenhamento cristão através dos Cursos de Cristandade. Este é um movimento, nascido em Espanha, implantado em Portugal há 50 anos, cuja finalidade é tornar o mundo mais cristão e mais cristãos os homens, nas palavras do seu fundador. Actualmente, há cerca de trinta cursistas na paróquia. Procuro seleccionar pessoas da classe média, com alguma influência na sociedade, que sirvam de modelos. Na paróquia de Resende, menos de metade dos seus habitantes não pratica. Por isso é que investimos muito na catequese e na formação e acompanhamento de jovens. Estes, para persistir, precisam de referências e de testemunhos. Felizmente, frequentam a catequese cerca de trezentas crianças e jovens, tendo como catequistas muitos estudantes universitários.
Embora gostasse de ensinar, sempre pus a vida da paróquia em primeiro lugar. É como pároco que me sinto realizado.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Abril de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA...EM FELGUEIRAS: Chamo-me Ilídio de Almeida e nasci em Felgueiras há 64 anos

Salto na vida

Uma das coisas que ainda me dói foi ter de deixar a escola no fim da 3.ª classe para ir servir. Era um dos melhores alunos. Fui guardar gado, continuando o filho do patrão, de quem era colega, a frequentar a 4.ª classe. Só da minha idade havia treze rapazes. Fomos todos no mesmo dia à inspecção. Muitas vezes, ao longo da vida, me perguntei, com alguma revolta, por me achar injustiçado face ao filho do patrão: por que razão teria de ser eu a guardar o gado que não era meu ? É a vida de pobre. Foi a necessidade. Mais tarde, fiz a 4.ª classe em Vila Paiva de Andrade, Moçambique, e o 6.º ano aqui, em Felgueiras, na Escola Primária, onde tive três professores. Na altura, eram necessários, no mínimo, dez alunos para constituir uma turma. A minha esposa também fez o 6.º ano.

Sente-se e aconchegue o estômago. Pode comer este salpicão e estas moiras, pois são de confiança. Os porcos são cevados aqui em casa, à moda antiga, e sou eu quem os mata. Como aprendi? Fui vendo como e em que sítio se espetava a faca. Os cordeiros também sou eu quem os mata. Também me ajeito a fazer outras coisas. Por exemplo, sou capaz de fazer cestas. Estas fui eu que as fiz, mas não ponha lá isso, senão ainda se põem p’ra aí a pedir para que as faça para fora.

Nasci sem nada. Hoje, tenho uma razoável vivenda e alguns terrenos. Mato anualmente dois porcos e um ou dois anhos. E sobretudo eduquei duas filhas. Uma tirou o curso de engenharia de madeiras e vive em Cinfães; a outra tirou o curso de história e dá aulas no Externato de Resende. Orgulho-me dos três netos. Nunca pensei chegar até aqui.

Até à tropa, em Angola

Sou filho de pai incógnito, embora ninguém faça segredo de quem é realmente o meu pai. E o senhor é até capaz de desconfiar quem seja. A minha mãe casou-se tinha eu 11 anos, até me lembro do mês; foi em Fevereiro. Até aí, trabalhou no campo a dias e foi acarretadeira, transportando mercearias de Resende para aqui, para a venda de Albertino Ferrão, que era o meu padrinho de baptismo.

Após a saída forçada da escola, fui servir para vários patrões. Lá comia e dormia, recebendo uns trocos. Com 15 anos, fui trabalhar como contínuo no Colégio S. Pedro, em Coimbra, por pedido do Padre Albino Matos. Mas só lá estive três meses. Atribuíram-me funções para as quais não tinha habilitações. Ainda me lembro bem da Rua Alexandre Herculano, da Praça da República, das Escadas Monumentais…Mas tive de regressar ao trabalho com o mesmo patrão, o Sr. Alexandre Borges, onde ganhava 150 escudos por mês.

Com 17 anos, tentei a minha sorte em Lisboa, onde comecei por trabalhar para um depósito de madeiras, onde fazia a selecção e ajudava a carregar camiões. Ficava na Rua Vale Formoso de Cima e ganhava 20 escudos por dia. Aqui estive pouco tempo, pois consegui transitar para um trabalho de comércio de ferro velho, onde estive três anos, até ir para a tropa. Ficava na zona do Poço do Bispo, junto à doca, começando por ganhar vinte e dois escudos e cinquenta centavos por dia. Vivia numa barraca com um vizinho, no Bairro Chinês.

Fui à inspecção na Câmara Municipal de Resende, assentei praça no Regimento 14, em Viseu, e tirei a especialidade de armas pesadas, em Abrantes. Pouco depois, fui mobilizado para Angola. Parti de Portugal em 4 de Janeiro de 1968, com destino a Vila de Tamboco, a 100km de Ambrizete, no Norte de Angola. Estive nessa zona durante 11 meses, tendo prestado serviço em várias localidades, onde morreram nove camaradas do meu batalhão. Depois fui para uma zona menos perigosa, a cidade de Malange, onde permaneci até ao meu regresso a Portugal, o que aconteceu em 14 de Março de 1970.

Casamento

Depois de cumprida a tropa, regressei a Felgueiras, onde estive a abrir valetas na estrada de terra batida, que cá tinha chegado em 1963. Aguentei este trabalho por conta da Câmara Municipal, durante dois meses. Em seguida, fui tentar outra vez a sorte em Lisboa. Depois de me acolher em casa de um vizinho, fui viver para uma barraca no Pátio do Colégio, em Marvila, tendo arranjado trabalho, em Junho, numa empresa de transportes ao domicílio, chamada Freitas e Araújo, situada na Rua do Açúcar.

No ano seguinte, com a namorada longe, em Felgueiras, resolvemos casar, o que aconteceu em 4 de Setembro de 1971. Fomos viver para a tal barraca, mas não por muito tempo. Em Dezembro, despedi-me para me aventurar num novo rumo de vida.

Por terras de Moçambique

Sempre tive vontade de sair da cepa torta. Para o efeito, fui desafiado pelo meu padrinho, Albertino Ferrão, então comerciante em Moçambique, para ir trabalhar com ele. Aceitei. Saímos de Lisboa, no fim da noite de 31 de Dezembro de 1971, tendo aterrado, na cidade da Beira, em dia de Ano Novo. Daí fomos para Canda, localidade da Gorongosa, onde estavam instaladas quatro casas comerciais, duas das quais pertença do meu padrinho, em sociedade com um seu cunhado. Durante dois anos e meio, fui empregado comercial. Ainda tive tempo para tirar a carta de condução de pesados na Beira, tendo estado hospedado na Pensão Marques. Em Novembro de 1973, nasceu a minha filha mais velha.

Já depois de 25 de Abril, em Junho de 1974, por falta de condições, sobretudo de segurança, mudámo-nos para a cidade da Beira, para a pensão que já conhecia e onde vim a trabalhar, assim como a minha mulher. O casal proprietário, que actualmente vive em Braga, gostava muito de nós, tendo-me confiado a responsabilidade pelo funcionamento da pensão. Essa amizade continua, visitando-nos amiúde.

Até à saída da tropa portuguesa, a afluência da pensão era muita. Depois as coisas começaram a complicar-se. Ainda me lembro de uma cena de provocação de dois soldados da FRELIMO a um velhote branco, com frases do género “passaste a vida a explorar os pretos”, “vai para a tua terra”, que me estavam a fazer espécie. Então virei-me para eles e disse-lhes: “camaradas, deixem o velhote em paz”. Furiosos, viraram-se para mim, a berrar: “o poder é do povo; estás proibido de abrir a boca, reaccionário”.

Abandonei Moçambique em 25 Janeiro de 1976 sem nada, pobre como parti. Não adquiri bens. Mas se os tivesse, de nada valia, pois foi tudo nacionalizado. Até as casas funerárias passaram para o controle do Estado. E quanto a dinheiro, nada feito; teve de lá ficar. No embarque, só autorizavam a cambiar 500 escudos. Uma miséria.

Refazendo a vida

Voltei de mãos a abanar para Felgueiras, tendo ido trabalhar para as obras com o Sr. Abílio. Passado quase um ano, abriram quatro vagas para cantoneiro municipal, em 16 de Dezembro, e não deixei perder esta oportunidade. Fui um dos seleccionados. Durante 22 anos, tive a responsabilidade do troço da estrada Felgueiras/S. Cristóvão, que só veio a ser asfaltada vários anos mais tarde. Não imagina o frio e o calor que apanhei por aí acima. Não havia sítio onde nos acolher. Com a chuva e neve, foram muitos os carros, especialmente táxis, que ajudei a desempenar. Pergunte ao Sr. Inácio dos táxis como eram aqueles tempos. Os carros de praça tinham de se fazer serra acima para ir levar doentes ao médico. Há uma data que não esqueço neste período: o nascimento da minha filha mais nova, em Março de 1978.

Depois deixei o serviço na estrada e vim para a vila, onde cumpri outras tarefas na Câmara, durante 8 anos, fazendo um pouco de tudo: pedreiro, carpinteiro, jardineiro e porta-miras. Foi um trabalho muito diferente, para melhor, relativamente ao trabalho de limpeza e manutenção de estradas.

Na reforma

Estou reformado desde 2006. Cheguei a trabalhar com três presidentes de Câmara: Sr. Couto, Dr. Brito de Matos e Eng. António Borges. Não entrei por cunhas, o que foi bom. Sempre me dei bem com o Dr. Brito de Matos, mas tenho de reconhecer que o Eng. António Borges fez todos os possíveis, em relação a mim e a outros, para que progredíssemos e beneficiássemos de uma reforma maior. Nunca tive problemas com ninguém. Sempre fiz o que me mandaram e respeitei toda a gente

Vou aqui ao café e, de vez em quando, à vila. Gosto de ir às feiras. Ainda no ano passado fui à feira de S. Cristóvão, onde reconheci o Padre Fausto, que me casou e que entretanto deixou de ser padre. Nunca mais o tinha visto. Gosto de me entreter por casa e nos terrenos, onde crio animais e tiro vinho, batatas, feijão… para as despesas.

A freguesia de Felgueiras sofreu grandes alterações. Antigamente, havia aqui alguns patrões, que viviam dos terrenos. Os mais fortes eram os chamados Brasileiros (os Duartes). Enriqueceram no Brasil e depois voltaram para cá. Ainda conheci dois deles, que nunca chegaram a casar. Ainda me recordo da existência de alguns rebanhos. A maioria das pessoas vivia do trabalho duro da terra, que não chegava para dar de comer aos filhos. A alternativa era pôr as despesas no rol, que se pagavam com as vindimas e podas no Douro e as vendas de gado, pelo S. Miguel.

Sinto-me satisfeito por ter chegado onde cheguei. Reconheço que as pessoas que por cá ficaram não se podem queixar. Vivem muito melhor. Não há comparação.

*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Março de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… NA PANCHORRA: Chamo-me Serafim Pinto e nasci na Talhada há 82 anos*

Dados familiares
Antigamente, aqui na Talhada morava muita gente e era uma alegria. Havia 35 fogos com uma média de 8 pessoas por família, o que dava cerca de 280 pessoas. Hoje, só cá vivem 39. Os meus pais tiveram 5 filhos (3 raparigas e 2 rapazes) e já cá só ando eu e uma irmã.
O meu irmão morreu há 60 anos. Tinha ido à inspecção em Maio, vindo a falecer logo a seguir, em Outubro, com uma febre muito alta. Na mesma altura e da mesma doença, morreram aqui na aldeia 6 rapazes, todos com cerca de 20 anos, e 1 menina de poucos meses. Todos tinham muita sede e frequentemente arrebentava-se-lhes muito sangue no nariz. Ia-se muito pouco ao médico. Não havia dinheiro, era uma miséria. Ainda por cima, tinha de se lhe mandar um cavalo para subir a serra. Ainda me lembro de ter cá vindo um doutor e o conselho que deu foi dizer para dar água quente aos doentes, depois de fervida, o que lhes custava muito a beber. Foi uma espécie de gripe A, com a sorte de hoje haver injecções e medicamentos.
Uma das minhas irmãs morreu com mais quatro pessoas há 28 anos, num acidente em Santa Comba Dão. Vinham de Lisboa numa carrinha que se despistou, tendo ido embater numa coluna de pedra. A outra minha irmã morreu há cerca de um ano. Andava a fazer hemodiálise.
Tenho 8 filhos, felizmente todos vivos. Cinco deles, casados, vivem em Lisboa. Moro na companhia de um filho e de uma filha, ambos solteiros. Por cá, ficou também outra filha, que se encontra casada. Ainda tive mais dois filhos, um deles já vinha morto e outro veio a morrer poucos dias depois de nascer. Todos tinham muitos filhos. Eram aqueles que Deus queria e cá se criavam. Infelizmente, a minha mulher faleceu há quatro anos.

Frequência da escola na Panchorra
Durante 5 anos, frequentei a escola na Panchorra, tendo feito o exame da 3.ª classe. Saí de lá bem preparado, a ler e a escrever como deve ser. As aulas começaram por ser dadas numa casa alugada de colmo sem muitas condições. Depois mudámo-nos para a residência do padre, que nunca lá viveu.
Tive como professora a mãe do Dr. Hamilton, falecido há pouco tempo. Nos primeiros anos, a escola era só frequentada por moços. As raparigas eram mais precisas para fazer a lide da casa e os pais tinham receio de alguns matulões. Nos dois últimos anos, já andei com três ou quatro raparigas.
Gostei de lá andar. Em dias de muito inverno, ficávamos em casa ao lume. A professora não batia muito. Quando o fazia, era com uma vara. Só me lembro de ter apanhado uma vez. Estava ao lado do Zé Tareco na brincadeira, por ele não conseguir pronunciar o l de lobos. Pronunciava lhobos, o que me dava uma grande vontade de rir e a professora não esteve para brincadeiras.

Trabalhando como criado
Após a saída da escola, com 12 anos, fui servir para casa do Contador de Forjães, substituindo um rapaz (o tio Manuel Glória, da Talhada). O meu trabalho era tratar de um cavalo, ir diariamente (menos aos domingos) buscar leite a S. Martinho de Mouros e ir esperar à tardinha, com o cavalo, um dos filhos à vila, que lá tinha uma loja de ferragens (de manhã, na descida, ia a pé). O Contador era muito rico. Era dono de três quintas (em S. João de Fontoura, Forjães e perto do Arco). Só podia comer depois dos patrões, na cozinha, juntamente com as duas criadas. Estive lá a servir dois anos. Um dia pelo Natal vim cá passar, na Talhada, um fim de semana. Na volta para Forjães, numa segunda-feira, acompanhei a D. Piedade, natural daqui, responsável da Casa de S. José, da Quinta do Bairro, onde ia à missa, que me disse várias vezes para ter calma e ir mais devagar, que o mundo não iria acabar. Sabendo do atraso, o patrão ao ver-me, disse: Se estivesse aqui, viravas a cara para onde tinhas o rabo. Fiquei a cismar nestas palavras. Queria ele dizer que teria dado meia volta, indo para casa. Pensei: nem é cedo, nem é tarde. Juntei a roupa e pedi para fazer as contas. Ainda me disse: És um badamerda; vais embora por uma coisa de nada… Comecei a ganhar vinte e sete escudos por mês, tendo subido depois para trinta escudos. As criadas nunca me mudaram a roupa da cama. Vim de lá com muitos piolhos. A minha mãe recebeu-me bem, dizendo: Nesta casa, ainda há uma malga de caldo a mais para te dar.
A seguir, fui servir para a casa dos fidalgos do Fornelo, em Paus, onde estive uma semana. Lembro-me de lá haver 11 cães. Fui para lá só com a roupa que tinha vestido para tratar de um cavalo. Diariamente, tinha de ir lá em baixo às ínsuas buscar um carrego de erva, ficando com a camisa toda molhada, que secava no lombo. Quando, no fim de semana, a minha mãe viu o estado da camisa e lhe contei o que se passava, disse: Não é precisa qualquer muda de roupa; já não vais mais para lá.
Depois, fui servir para a Panchorra, para casa do regedor, onde estive dois anos. Dormia no quarto com o filho. O meu trabalho era sobretudo guardar o gado.

Rumo à independência
Entretanto, o meu pai foi trabalhar para Lisboa, vindo cá um mês por ano. Vi que a minha mãe precisava de mim. Coitada, fazia com as minhas irmãs umas territas a meias. Consegui arranjar uma vaca, comprada por um negociante de gado, com rendimentos a meias. Depois, pedi para tomar conta de uma toira. Assim, já as podia jungir para trabalhar.
Seguidamente, tive de ir à tropa, tendo estado em Torres Novas e Entroncamento dezassete meses. Tirei a especialidade de condutor. Tinha um carro de combate atribuído. Não troquei a carta de condução militar, pois para tal precisava de trezentos escudos, que não tínhamos. Depois passou o prazo. E fiquei sempre sem carta.
Regressado da tropa, continuei a trabalhar as terras e a guardar gado na Talhada. Aos 27 anos, altura em que me casei, a minha vida deu uma volta, para melhor. A minha mulher, por morte da mãe, já tinha herdado alguns bens (os meus sogros tinham caseiro). Eram seis irmãos, tendo tocado a cada um deles uma junta de vacas. Em tempos, cheguei a criar seis vacas, um cavalo, um jumento e várias ovelhas. Actualmente, ainda tenho uma vaca, um carneiro e duas ovelhas.

Inter-ajuda e especificidades da aldeia
A maioria das pessoas vivia com dificuldades. Nem para comprar sardinhas salgadas havia dinheiro. Aparecia por cá um senhor de Boassas a vendê-las num jumento, mas os fregueses eram poucos. Apesar de tudo, não é da minha lembrança conhecer gente da Talhada a pedir. Quando se sabia que havia pessoas que passavam mal, procurávamos ser uns para os outros. Exceptuando quatro ou cinco famílias, todas matavam um porco, mas a carne não durava sempre. Havia anos em que a geada queimava tudo. Muitas vezes, ao pequeno-almoço, comia-se uma malga de caldo, ao almoço batatas cozidas com feijão e sopa e ao jantar caldo e pão. Todas as famílias coziam pão, de acordo com as suas posses. Ainda há três moinhos a funcionar. Hoje em dia, o pão que como continua a ser cozido lá em casa.
As famílias eram auto-suficientes e faziam tudo: cobertores de lã, mantas de panos, camisolas, camisas e vestidos de linho, capuchas em burel, meias, croças, capelos, socos e chapéus de palha. Comprava-se muito pouca coisa, tudo fiado, normalmente numa venda da Gralheira, sendo o pagamento anual. Os homens compravam, quando muito, um fato pelo casamento, que servia também para o seu enterro.
As moças da ceifa, que iam para a apanha da castanha, eram uma ajuda para as famílias. Traziam quarenta quilos de castanha, que eram o nosso alimento durante o inverno. Uma das minhas irmãs foi durante vários anos para as Quintãs de Paus. Ainda me lembro de lá ir buscar vários carregos.
As famílias juntavam-se para cozinhar o pão, escarpiar a lã e tascar o linho. Muitas vezes, enquanto as mulheres fiavam a lã ou faziam meias e camisolas, os homens jogavam à bisca de seis. Ninguém sabia o que era jogar à sueca. Em Julho, colmávamos as casas, cuja cobertura durava cerca de dez anos. O colmo não deixava entrar o frio no inverno nem o calor no verão. Só as duas capelas estavam cobertas de telha. Os vizinhos ajudavam-se, por troca, nas vessadas, segas e malhas. Havia seis ou sete eiras na aldeia. As malhas podiam ser feitas por eirada, em que os molhos do centeio eram espalhados por toda a eira, sendo percorrida por malhadores, e por mascoto, em que a malha era feita com duas fieiras de molhos voltados ao centro contra as espigas, estando os malhadores frente a frente.
Na Talhada e Panchorra, ao contrário de outras aldeias da serra, nunca houve o costume do gado ser guardado por “ vigias”, que se iam revezando e em que todos os animais saíam juntos num grande rebanho. Aqui cada um sempre tomou conta do seu gado. Sempre houve e há muito pasto, já que se podia e pode ir para todos os terrenos desde que não estejam vedados com calços.

Nostalgias
Conheço muito bem a Panchorra e a Talhada, até porque fui secretário da Junta de Freguesia antes e depois do 25 de Abril. Naquela altura, vieram ordens para demitir o pessoal das Juntas e Câmaras. Mas poucos dias depois vieram cá uns tipos da Câmara de Resende a pedir para ficar na Comissão Administrativa da Junta de Freguesia. Disse-lhes que, se não servia antes, também não servia para depois. Porém, tanto insistiram que tive de aceitar. E fui ficando, só tendo saído há oito anos.
As pessoas ajudavam-se mais. Estavam mais atentas às necessidades dos outros. Os mais novos recebiam de boamente os conselhos dos pais e havia muito respeito pelos mais velhos. Agora, todos têm a mania que já nasceram ensinados. Os jovens beijam-se muito, mas isso não é amor. São como as raposas novas que estão sempre a brincar boca com boca. E olhe que foi assim que matei uma.
Não havia prendas de Natal, mas havia muita alegria. A consoada, com batatas, tronchas e bacalhau, era um manjar. Enquanto esperávamos, jogávamos ao par e pernão com figos, pinhões e confeitos.
Gostava de ver mais gente nova por aqui. Tenho pena que não nasçam mais crianças.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Janeiro de 2010
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