terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A AVÓ EUROPA DE FRANCISCO*

A Europa mítica é uma princesa de Tiro. Como que a lembrar que é a Eurásia, a Europa ecuménica, de fronteiras imprecisas. Zeus disfarçado de touro aproximou-se da bela princesa fenícia, deixando que o acariciasse e trepasse para o seu dorso. Entrou então pelo mar, dirigindo Eros o casal para Creta, onde fizeram amor. Foi a esta Europa, ao mesmo tempo divina e terrena, e agora em crise, envelhecida e sem confiança, que o Papa Francisco se dirigiu na semana passada com dois discursos: ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa. 1. Francisco quis deixar "uma mensagem de esperança e de alento" a uma Europa que, num mundo cada vez mais global, é cada vez menos "eurocêntrica" e dá a impressão de "cansaço e envelhecimento", a ponto de "os grandes ideais que a inspiraram parecerem ter perdido força de atracção".

No centro do ambicioso projecto europeu tem de estar o homem, "não tanto como cidadão ou sujeito económico", mas como "pessoa dotada de uma dignidade transcendente". A promoção desta dignidade significa reconhecer que a pessoa possui "direitos inalienáveis". Mas o homem não é uma "mó- nada", é um ser em relação, de tal modo que direitos e deveres de cada um estão em conexão com os dos outros e com o bem comum.
Denunciou a "doença da solidão", que atinge velhos, pobres, imigrantes, jovens sem referências, advertindo que "o ser humano corre o risco de ser reduzido a uma mera engrenagem de um mecanismo que o trata como um simples bem de consumo para ser utilizado". Este equívoco surge quando prevalece "a absolutização da técnica", que acaba por causar "uma confusão entre os fins e os meios", e é o resultado da "cultura do descarte", do "consumismo exasperado", da "globalização da indiferença".
No famoso fresco de Rafael, que se encontra no Vaticano e representa a Escola de Atenas, no qual Platão aponta para o alto e Aristóteles estende a mão para diante e para o chão, vê "uma imagem que descreve bem a Europa na sua história, feita de um permanente encontro entre o céu e a terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas".
Entre os problemas, lembrou a importância fundamental da família, "as numerosas injustiças e perseguições que sofrem as minorias religiosas e particularmente cristãs", "é hora de favorecer as políticas de emprego e voltar a dar-lhe dignidade", a questão migratória: "não se pode tolerar que o Mediterrâneo se torne um grande cemitério", a ecologia: devemos ser "guardiões" e "não donos" da natureza.
"Chegou a hora de construir juntos a Europa que não gire à volta da economia mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis", que abrace com valentia o seu passado, com o seu "património cristão", e olhe "com confiança o futuro", vivendo "o presente com esperança", abandonando "a ideia de uma Europa atemorizada". Para promover "uma Europa protagonista, transmissora de ciência, arte, música, valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e persegue ideais, que caminha sobre a terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a humanidade".

2. 0 que Francisco pensa de verdade sobre a Europa disse-o, em Outubro, ao Conselho das Conferências Episcopais da Europa, ao abandonar o discurso oficial e falar ex corde.
"Que se passa hoje na Europa? Continua a ser a nossa mãe Europa ou é a avó Europa? É ainda fecunda? É estéril? Por outro lado, esta Europa cometeu algum pecado. Temos de dizê-lo com amor: não reconheceu uma das suas raízes." Por isso, já não se sente cristã "ou sente-se cristã um pouco às escondidas, mas não quer reconhecer esta raiz europeia".
A Europa "está a ser invadida". "Será a segunda invasão dos bárbaros, não sei. Agora, sente esta 'invasão' entre aspas, de gente que vem à procura de trabalho, liberdade e uma vida melhor."
"A Europa está ferida." E fala da crise e do desemprego, sobretudo dos jovens. "A Europa descartou as crianças. De modo um pouco triunfal. Recordo que quando era estudante num país as clínicas que faziam abortos depois mandavam o resultado para fábricas de cosméticos. A beleza da maquilhagem feita com o sangue dos inocentes."
A Europa está cheia de velhos. E "cansada de desorientação". "Eu não quero ser pessimista, mas digamos a verdade: depois da comida, da roupa e da saúde, quais são os gastos mais importantes? A cosmética e os animais de estimação. Não têm filhos, mas afecto ao gatinho, ao cãozinho. É este o segundo gasto depois dos três principais. O terceiro é toda a indústria para favorecer o prazer sexual. Os nossos jovens sentem isto, vêem isto, vivem isto."
Mas não é o fim, pois a Europa "tem muitos recursos para andar para diante. E o recurso maior é a pessoa de Jesus". No meio das feridas, esta é "a nossa missão: pregar Jesus Cristo, sem vergonha".
*Transcrição do DN da crónica de Anselmo Borges, publicada neste jornal no sábado passado, dia 6 de Dezembro de 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O LAMAÇAL: ÉTICA E POLÍTICA*

1. Tenho aqui escrito muitas vezes que, ao contrário do q ue se pensa, fé e acreditar não são em primeiro lugar categorias religiosas. Trata-se do fundamental da existência, no sentido de que, sem fé, crédito, confiança, ninguém pode viver bem. O que mais falta faz no país não é precisamente a confiança e o crédito? A nossa vida está baseada, em todos os domínios, na confiança (vem de fides, fé) e no crédito (vem de credere, crer, acreditar) que damos aos outros e à vida e que eles nos dão a nós, de tal modo que podemos crer e confiar em nós próprios, abrindo futuro pessoal e colectivo.
Assim, a crise em que o país está mergulhado é a pior, porque minou a confiança. No meio deste lamaçal, em quem se pode confiar?


2. A nossa tragédia está aqui: perdemos o essencial. E o essencial somos nós mesmos. Os seres humanos somos constitutivamen- te abertos à questão ética. De facto, dada a neotenia - nascemos por fazer-, a nossa tarefa essencial, diria mesmo a única, no mundo é fazermo- -nos a nós próprios. Sendo livres, fazermo-nos moralmente bem. Temos a experiência de sermos dados a nós próprios. Assim, somos donos e senhores de nós mesmos - essa é a experiência radical da liberdade -, de tal modo que, no fim, desta tarefa de nos fazermos - e é sempre o que está acontecer: fazendo o que fazemos, estamos a fazer-nos a nós próprios - tanto pode resultar uma obra de arte como uma porcaria (desculpe-se a expressão, mas ela é a que traduz a realidade). Isto, individualmente e também colectivamente, pois fazemo-nos sempre em comunidade e sociedade. Desgraçadamente, é a segunda alternativa que nos está a acontecer.

3. 0 que é que se impõe então com toda a urgência? Uma conversão moral. Cada uma, cada um, tem de assumir-se a si mesma, a si mesmo, na sua intrínseca tarefa: realizar-se na dignidade. Temos de habitar o mundo eticamente (um dos étimos da nossa palavra ética é êthos, que significa morada).
Precisamos de política? Claro. Mas, em última análise, precisamos da política no sentido estrito, que implica o Estado enquanto organização política da sociedade, detendo ele o monopólio da violência, porque não somos todos éticos.
Se todos fossem éticos, segundo a ética desinteressada, no quadro do fazer-se bem moralmente a si próprio, não era necessária a política, que ficava reduzida à administração das coisas. Só porque somos egoístas, interesseiros, corruptos e corruptores, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir de modo não violento os conflitos. Como escreve o filósofo A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de leis, de tribunais, de forças armadas, de prisões.
"Não é possível legislar sobre tudo, até porque o indivíduo tem mais deveres do que o cidadão, pois há o pré-político e o pré-jurídico"
Deste modo, entende-se que ética e política não se identificam nem confundem, mas os seus objectivos são os mesmos: a realização verdadeiramente humana da humanidade de todos. Mas, precisamente aqui, uma vez que a política aparece como necessária, porque não somos éticos, surge o núcleo da questão: como encontrar políticos que sejam precisamente políticos, mas com ética?
Retomo o que já aqui tenho defendido. O grande desafio do nosso tempo é a formação ética, moral (uso aqui os termos como idênticos, sem as distinções que tecnicamente se imporiam), para os valores, que não se esgotam nem se identificam com o dinheiro e a riqueza, embora o valor dinheiro seja necessário. Quando isso não acontece, remetemos constantemente para a política, para as leis, para a regulação, para os tribunais... Ora, neste quadro, fica-se confrontado com questões temíveis. Primeira: não é possível legislar sobre tudo, até porque o indivíduo tem mais deveres do que o cidadão, pois há o pré-político e o pré-jurídico. Depois, seja como for, sem ética assumida - e acrescentaria: sem referência religiosa ao Absoluto -, fica apenas a lei e a sua sanção, o medo e a esperança de não se ser apanhado. Por exemplo, corrompe-se, é-se corrupto, não se paga impostos, precisamente na esperança de não se ser apanhado: se isso acontecer, tanto pior... De qualquer forma, nesta lógica, sem valores éticos assumidos, acaba, no limite, por ser necessário colocar um polícia junto de cada cidadão, para que cumpra a lei, mas, como os polícias também são humanos, é preciso pôr um polícia junto de cada polícia. O totalitarismo no meio de um lamaçal! Juvenal viu bem: Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes?  (A guarda  guarda-nos. Quem guardará a própria guarda?).

4. É extraordinário, não deixando mesmo de ser paradoxal e estranho, que, precisamente no meio do lamaçal em que nos afundamos, seja notícia três trabalhadores anónimos da recolha de lixo da Câmara da Póvoa de Varzim terem, honradamente, entregado no respectivo serviço a quantia de 4400 e tal euros que encontraram num contentor. E ouvi-os dizer, na sua simplicidade honrada: foi isto que nos ensinaram em casa e na escola, quando éramos miúdos.
*Transcrição do DN da crónica de Anselmo Borges, publicada neste jornal no sábado passado, dia 29 de Novembro de 2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

REFORMADOS, EMÉRITOS, ETC.*

Há muito que me pergunto porque é que uns são reformados, outros jubilados, outros eméritos, outros pensionistas ou aposentados. Pus-me no encalço das palavras, à procura do seu sentido originário. O que aí fica é o resultado, confesso que um pouco apressado, desse exercício.

1. Claro que reformado vem de reforma. A reforma que, em certos contextos, aparece mais imediatamente é a Reforma protestante. Aqui, porém, ela tem que ver com a situação de ir para a reforma e receber uma reforma, que é, em princípio, um quantitativo em dinheiro. Reformado é, pois, o que passou à reforma, por ter atingido uma certa idade e trabalhado um certo número de anos, com os respectivos descontos, ou porque ficou pura e simplesmente incapacitado para o trabalho. De modo estranho, reforma vem do latim reformare, com o significado de voltar à primeira forma, restabelecer, alterar, e reformado é o que torna à sua primeira forma, mas também o desfigurado, modificado.

Quem diria que pensionista tem na sua raiz o verbo latino pensar e (pensar e pesar)? De facto, pensar e, palavra vinculada a pendere, em latim, significa pesar, no sentido de comparar pesos. Daí, pensar significa pesar razões, para entender, julgar e decidir. No caso de pensão, lá está o facto de pesar uma mercadoria e ter de pagá-la e, daí, pensionista como aquele ou aquela que recebe uma pensão.
Entre nós, os bispos, ao chegarem aos 75 anos, tornam-se eméritos, palavra que também se pode aplicar, sobretudo noutros países europeus, aos professores universitários. Emeritusé o particípio do verbo latino emerere, merecer, ter cumprido um serviço, ganhar algo a partir daí. O emérito é merecedor de um determinado status (pense-se, por exemplo, no Papa emérito Bento XVI) ou recompensa por ter terminado ou concluído adequadamente o seu serviço. Na Roma Antiga, emeritus aplicava-se concretamente ao veterano retirado do exército, mas também a outros casos. De qualquer modo, deve-se recompensar o mérito; mas será que ele existe em todos os casos?
O aposentado remete para o verbo latino pausar e, que significa parar para descansar, pousar, repousar. O hóspede "pousa" na casa de um amigo. Quem peregrina pela vida tem direito a pousar, repousar, descansar, fazer pausa, aposentar-se, cessando o trabalho.
Nomeadamente os magistrados e os professores universitários são jubilados. A palavra vem do latim jubilare, que significa lançar gritos de alegria, - originariamente, referia-se aos gritos e silvos dos camponeses para comunicar entre si e chamar o gado -, mas também tem que ver com a palavra hebraica yobel, som da trombeta a anunciar o jubileu, festa judaica que se celebrava cada 50 anos e que trazia a libertação e o repouso inclusivamente às terras. No jubileu cristão, o Papa concede indulgências especiais. A jubilação nasce da conexão entre o retirar-se após o ciclo do trabalho realizado e dos serviços prestados e a consequente satisfação - dizem as más línguas que, por vezes, no caso dos professores, o júbilo é sobretudo dos estudantes, que se vêem libertos de alguém incompetente, porque sabe pouco ou não sabe ensinar.

2. Apesar das diferenças nas categorias, nos títulos e sobretudo no quantitativo, por vezes miserável e escandalosamente diferente, da reforma, todos - pensionistas, eméritos, jubilados, aposentados-são sobretudo isso: reformados.
Claro, a reforma pode trazer alegria e o tal júbilo, porque se deixa de trabalhar com horários e todo o peso institucional e se pode repousar, fazer outras coisas que nunca se tinha podido fazer, ler, reflectir e recordar a vida e dedicar-se mais à família e aos amigos e recolher os frutos de uma vida preenchida. Mas ela pode também trazer o aumento dos achaques, uma solidão amarga e corrosiva, e, de qualquer modo, lembra a todos que se está na última fase da existência e que o futuro neste mundo será cada vez menos pujante. Decisivo é então esforçar- se por manter a actividade física, mental, social, criar a sedução por novos interesses e talvez dar a Deus o lugar que nunca teve. É preciso viver sempre intensamente cada instante do milagre exaltante do mundo e do existir.

3. Mas é preciso reconhecer também que há algo de cínico e sarcástico na palavra jubilação (em Espanha, usa-se para todos) , sobretudo quando se pensa como são tratados os reformados, os tais que a sociedade abandona porque são velhos, e deixaram o trabalho por invalidez e velhice, considerados agora socialmente inúteis, porque não produtivos, e, por isso, colocados em depósitos à espera do fim.
Cá está: em tempos de crise, os governos, para a austeridade, têm sempre facilmente à mão os reformados, com este ou aquele nome, porque pouca ou nenhuma falta fazem - podem até ser considerados um peso para os outros e sobretudo para o erário público -, e, assim, nem protestar podem, muito menos com uma greve, porque ninguém precisa deles. Que júbilo!
*Transcrição do DN da crónica de Anselmo Borges, publicada neste jornal no sábado passado, dia 22 de Novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

MORAL, VÍTIMAS E DEUS*



Vínculo inevitável 
entre moral e religião 
dá-se pela esperança, 
sobretudo quando se pensa
 nas vítimas inocentes

Após conflitos e condenações, a Igreja reconheceu a legítima autonomia das realidades terrestres, o que significa que, por exemplo, a ciência, a medicina, a política, a economia se regem pelas suas própria leis, sem a tutela da religião. Sobretudo quando se olha para o mundo islâmico, fica bem patente a importância desta autonomia nomeadamente na política, exigindo a separação da Igreja e do Estado.
Também a moral é autónoma. Aliás, na perspectiva cristã, autonomia e teonomia acabam por coincidir, na medida em que, se Deus cria por amor, então a plena e adequada realização humana, que deve constituir a norma e o critério da acção humana boa, coincide com a vontade de Deus, cujo único interesse são as criaturas totalmente realizadas: a vontade de Deus é o bem da criatura. De qualquer modo, a exigência moral não surge do facto de se ser crente ou não, mas da condição humana de querer ser pessoa autêntica e plena, o que significa que, como escreveu A. Torres Queiruga, "desde que um e outro queiram ser honestos, não existe nada que no nível moral um crente deva fazer e um ateu não". Assim, só para dar um exemplo, a propósito da jovem Brittany Maynard, que decidiu a sua morte por suicídio assistido no passado dia 1, depois de os médicos lhe terem diagnosticado um cancro incurável no cérebro, que lhe causaria uma morte dolorosíssima: mesmo do ponto de vista cristão, está-se perante uma situação de decisão moral legítima, no quadro da autonomia, que, aliás, como é sabido, o famoso teólogo Hans Küng reclama também para si, ao colocar-se a mesma possibilidade próxima: "Precisamente porque creio na vida eterna, posso, quando for o tempo, com responsabilidade, decidir sobre o momento e o modo da minha morte."
O que aí fica dito não quer dizer que não haja relações entre moral e religião. Isso acontece, por exemplo, quando se procura aprofundar o fundamento incondicional e definitivo da moral. Neste sentido, veja-se este texto de Sigmund Freud, numa carta a um amigo: "Pergunto-me a mim mesmo porque aspirei sempre a comportar-me com honra, a mostrar consideração e afecto para com os outros, sempre que as circunstâncias o permitiram. Perguntei-me permanentemente o porquê disto, mesmo depois de dar-me conta de que me prejudicava a mim mesmo e de que choviam os golpes sobre mim, porque as pessoas são brutais e traiçoeiras, e não fui capaz de dar uma resposta a mim mesmo, o que está longe de ser razoável."
A Escola Crítica de Frankfurt é particularmente sensível neste domínio. Assim, Max Horkheimer disse: "Visto sob o aspecto meramente científico, o ódio não é pior do que o amor, apesar de todas as diferenças sociofuncionais. Não existe nenhuma argumentação lógica concludente pela qual não deva odiar, se, desse modo, não me causo nenhuma desvantagem na vida social. Como pode fundamentar-se com exactidão que não devo odiar, se isso me causa prazer? O positivismo não encontra nenhuma instância transcendente aos homens que distinga entre disponibilidade e afã de proveito, entre bondade e crueldade, avareza e entrega de si mesmo. Também a lógica emudece: não reconhece primado algum à dimensão moral. Todo o intento de fundamentar a moral em prudência terrena, em vez de fazê-lo a partir do ponto de vista do Além - nem mesmo Kant resistiu sempre a esta tendência -, baseia-se em ilusões harmonizadoras. Tudo o que tem relação com a moral baseia-se, em última análise, na teologia."
Jürgen Habermas, que vê na religião uma capacidade especial de mobilização moral: "Certamente, a filosofia pode continuar a explicar ainda hoje o ponto de vista moral a partir do qual imparcialmente julgamos algo como justo ou injusto; portanto, a razão comunicativa não está de maneira nenhuma à mesma distância da moralidade e da imoralidade. Mas coisa distinta é encontrar a resposta motivante à questão de porque é que temos de ater-nos às nossas convicções morais, de porque é que temos de ser morais. Neste aspecto, poderia talvez dizer-se que é vão querer salvar um sentido incondicionado sem Deus."

Vínculo inevitável entre moral e religião dá-se pela esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Aliás, Kant, teorizando sobre a autonomia da moral, postulou Deus pela exigência da esperança. Nessa linha, Paul Ricoeur falou "da carga da ética e da consolação da religião". Por isso, segundo Walter Benjamin, não é possível pensar a história sem teologia. E, neste contexto, Júrgen Habermas, referindo-se às vítimas inocentes e à dívida da história para com elas, cita Jens Glebe-Mõller: "Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos de reclamar uma realidade que esteja para lá do aqui e do agora e que possa vincular-nos também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama Deus."
*Transcrição do DN da crónica de Anselmo Borges, publicada neste jornal no sábado passado, dia 15 de Novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

HAWKING E FRANCISCO*

1. Que disse o cientista inglês Stephen Hawking? "Antes de termos entendido a ciência, o lógico era crer que Deus criou o universo, mas agora a ciência oferece uma explicação mais convincente. Não há Deus. Sou ateu. A religião crê nos milagres, mas estes não são compatíveis com a ciência."
Pensa que o homem acabará por entender a origem e a estrutura do universo. "De facto, já estamos perto de conseguir este objectivo. Na minha opinião, não há nenhum aspecto da realidade fora do alcance da mente humana." Por isso, julga que a exploração espacial deve continuar e os grandes avanços científicos e tecnológicos neste domínio poderão "evitar o desaparecimento da Humanidade, graças à colonização de outros planetas".

2. O Papa Francisco veio afirmar que o Big Bang "não contradiz a intervenção criadora divina; pelo contrário, exige-a", desacreditando assim completamente os "criacionistas" e a sua leitura literal da Bíblia.
Duas declarações fundamentais. Por um lado, não há incompatibilidade entre o Big Bang e a fé no Deus criador, a evolução da natureza não contradiz a ideia de criação. Por outro lado, Francisco desfez a ideia infantil de um Deus mágico ou feiticeiro. Deus, que dá o ser a todos os seres, respeita a autonomia das criaturas, nomeadamente a autonomia do ser humano.
Textualmente: "Quando lemos no livro do Génesis o relato da criação, julgamos imaginar que Deus é um mago que com uma varinha mágica fez todas as coisas. Mas não é assim. Ele criou os seres e deixou-os desenvolver-se segundo as leis internas que deu a cada um, para que alcançassem o seu próprio desenvolvimento. Deu a autonomia aos seres do universo ao mesmo tempo que lhes assegurava a sua presença contínua, dando o ser a toda a realidade. E assim a criação prosseguiu a sua marcha por séculos e séculos, milénios e milénios, até transformar-se no que hoje conhecemos; precisamente porque Deus não é um mago mas o Criador que dá o ser a todas as coisas. O início do mundo não é obra do caos que deve a outro a sua origem, mas deriva directamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se situa na origem do mundo, não contradiz a intervenção de um Criador divino; pelo contrário, exige-a. A evolução da natureza não se opõe à noção de criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem".
O ser humano, que constitui na história da evolução "uma mudança e uma novidade", tem "uma autonomia diferente da da natureza": chama-se liberdade. Participando do poder de Deus, é sua missão investigar a natureza e as suas potencialidades, colocá-las com responsabilidade ao serviço da humanidade, salvaguardar a criação e "construir um mundo humano para todos os seres humanos e não para um grupo ou classe de pessoas privilegiadas".

3. Aí estão duas tomadas de posição frente ao enigma do universo, mais concretamente, do enigma da existência humana. Elas contrapõem-se, mas nem uma nem outra assenta na ciência. De facto, com argumentos científicos, não se chega a Deus, mas também não se demonstra o ateísmo. Deus não é objecto de saber científico. A ciência não sabe se Deus existe ou não existe. Quem afirma que Deus existe fá-lo baseado na fé, com razões. Quem afirma que Deus não existe fá- -lo também num acto de crença, com razões. Há razões para acreditar em Deus e razões para não acreditar.
Segundo as exigências do seu próprio método, a ciência não pode pronunciar-se sobre as grandes questões metafísicas. Mas, na presente situação do conhecimento científico, são os próprios resultados da ciência que desembocam num universo enigmático, aberto a um fundo último, misterioso, deixando o ser humano numa profunda incerteza metafísica, como escreve o neurólogo e filósofo Javier Monserrat. Quando se pergunta pelo fundamento último, o homem fica aberto a duas hipóteses metafísicas, não sabendo com certeza se se trata de um puro mundo sem Deus ou se o universo se fundamenta em Deus.
A imagem que a ciência segundo o modelo-padrão nos dá é a de um universo que se produz a partir do Big Bang e terminará numa morte energética, portanto, um universo finito e, assim, "um universo que nasce a partir de um 'fundo' desconhecido no qual ficará reabsorvido". A pergunta que então se coloca é como entender esse fundo ou "mar de energia", essa espécie de meta-realidade a que o universo está referido. O ateísmo poderia ser uma conjectura metafísica filosoficamente possível: "O metafísico seria uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo." Mas o teísmo é uma conjectura metafísica igualmente possível: "O metafísico poderia ser uma Inteligência Pessoal capaz de criar o universo."
*Transcrição do DN da crónica de Anselmo Borges, publicada neste jornal no sábado passado, dia 8 de Novembro de 2014

domingo, 25 de maio de 2014

CÁRQUERE/Igreja de Nossa Senhora*

Parecem poucos os mais de 70 anos vividos por Afonso para tanto que realizou. Alexandre Herculano diz que sem esse príncipe "não existiria hoje a nação portuguesa e, porventura, nem sequer o nome de Portugal". Com muita fé, inteligência, destreza política, valentia, talento militar, ilimitada capacidade de risco-sem dúvida, mas também com um poder físico invulgar a que não dava repouso, combatendo, dormindo e comendo quando e onde calhava.
Pois este assombroso atleta nasceu e viveu os primeiros cinco anos tolhido das pernas.
Seu grande educador, Egas Moniz, perante esta debilidade do infante, sofreria tanto como os condes portucalenses, pais de Afono Henriques, e rezava por ele a Nossa Senhora.
Dividem-se as narrativas tradicionais. Segundo algumas, teria aparecido numa cavidade de velho carvalho uma imagem da Virgem Maria que logo ganharia fama de milagrosa e a ela dedicaria Egas Moniz uma igreja em Cárquere; outras dizem ter sido revelado em sonhos a Egas Moniz que mandasse escavar .em certo lugar e encontraria ruínas de antiquíssima igreja e uma imagem da Virgem. 
De uma ou de outra forma, Egas Moniz-proprietário da quinta de Resende e mais tarde senhor do couto destas terras por doação do nosso primeiro rei-mandou levantar sobre ruínas, que nem saberia de quando datavam, uma igreja para serviço dos cristãos e digna protecção da imagem encontrada, e sobre o seu altar colocou o pequeno infante, passando o nobre cavaleiro aquela noite em vigília frente ao altar. O menino curou-se e fez-se o homem que se viu.
Assim explicam as velhas crónicas o motivo da edificação da Igreja de Nossa Senhora de Cárquere; o povo repete-o há oito séculos e até hoje nenhuma prova em contrário se conhece.
O Morro das Procissões contém incalculável riqueza arqueológica, de onde saiu já volumoso espólio de lápides para museus de Lisboa, Porto e Guimarães.
O castro céltico que era Cárquere tornou-se depois importante povoação romana, mas quanto a provável existência pré-céltica nada se sabe, por enquanto.
Aventaram-se hipóteses acerca da igreja arruinada sobre a qual Egas Moniz edificou a de Nossa Senhora-teria sido templo pagão romano, talvez dedicado a Diana, depois suevo e visigodo, convertido mais tarde em mesquita muçulmana derrubada na Reconquista.
Referem ainda outras antigas vozes populares que o último rei visigodo, D. Rodrigo, não teria sido morto pelos Sarracenos na decisiva Batalha de Guadelete (711), mas fugira para o Ocidente e continuara lutando contra os invasores até morrer em Viseu, e que na fuga enterrara num destes cabeços um cofre cheio de preciosas relíquias, uma cruz e uns sinos.
À igreja de Cárquere, fundada quando D. Afonso Henriques era menino, acrescentou-se, perto de 20 anos depois, um pequeno convento que foi entregue aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho-para alguns autores a primeira comunidade do cenóbio era de monges negros, beneditinos.
A igreja situa-se num avançado cabeço da serra de Montemuro, verdadeiro maciço de grandes montes e soberbos vales que procuram o Douro e o Paiva.
Recuperava-se o povoado de Cárquere graças à igreja e ao pequeno mosteiro onde a vida correria tranquila neste lugar de acesso então algo trabalhoso, mas muito propício à meditação. Porém, talvez do isolamento, começou a comunidade dos "Crúzios" a deixar-se acomodar e a desleixar as exigências da regra, mesmo depois de D. João III entregar o cenóbio aos Cónegos de Santa Cruz de Coimbra.
No entanto, o Mosteiro de Cárquere, embora mantendo-se de cónegos regrantes, não se integrou na Congregação de Santa Cruz, à qual aderira a maior parte dos mosteiros agostinianos após a reforma da segunda metade do século XVI.
Pouco tardou nessa situação de certo desapego, pois o Papa Gregório XIII ordenou a extinção da comunidade de Cárquere, entregando-a à Companhia de Jesus, e as suas rendas ao Colégio que a mesma ordem edificara em Coimbra.
Os Jesuítas deram nova vida ao mosteiro instalando nele um hospício onde prestavam assistência aos moradores de Cárquere e recolhiam, tratavam e alimentavam gente pobre.
Após a expulsão dos Jesuítas em 1759, o Marquês de Pombal entregou o mosteiro e o padroado da igreja à Universidade de Coimbra. A partir daí, vazio e desprezado-só não abandonada a cobrança das rendas-, o mosteiro entrou em progressiva ruína.
Passou a igreja a pertencer ao padroado real do concelho de Resende e conservou-se como sede da paróquia de Santa Maria de Cárquere.
Classificada como monumento nacional e devidamente restaurada, a igreja conserva parte do seu carácter primitivo, românico do século XII. 
Na bela torre sineira, quadrangular, erguida no século XIII, junto à cabeceira, abrem-se janelas geminadas nas suas faces e o eirado constitui privilegiado miradouro das deslumbrantes panorâmicas de grandeza, formas e cores inolvidáveis.
Nos fins do século XIII ou princípios do XIV realizaram-se obras de vulto. A elas se deve a capela-mor, com abóbada de bem lançadas e executadas nervuras.
Mais tarde, no primeiro terço do século XVI, remodelou-se a nave-talvez por degradação do estado da primitiva-obras que lhe imprimiram o cunho manuelino que conserva.
O espaço interior, harmoniosamente proporcionado, envolve-nos num ambiente de austera religiosidade para o qual contribui a cor e a simplicidade da silharia.
As obras manuelinas vieram acrescentar elementos de elaborado decorativismo sem, no entanto, perturbar o sabor monástico; a elas se refere, com demonstração da beleza plástica da arte manuelina, Aarão de Lacerda: "...os arcos das portas, os do cruzeiro e do coro e a cachorrada da cornija".
Mas duas encantadoras peças escultórias enriquecem particularmente a valia estética da igreja. Uma delas mede pouco mais de um palmo de altura, delicado marfim que representa Nossa Senhora de Cárquere. A outra, de Nossa Senhora-a-Branca, foi esculpida no século XIV em calcário de Ançã.
Integrada no núcleo mais antigo da igreja, a capela dos senhores de Resende contém vários sepulcos de pessoas da nobre família.
As casa que restam do antigo mosteiro, restauradas, completam aprazível e belo conjunto arquitectónico.
*Texto transcrito d' "As mais belas igrejas de Portugal", vol. II,  de Júlio Gil e Nuno Calvet, colecção Património, Editorial Verbo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

História do Externato D. Afonso Henriques*

O EXTERNATO EM BODAS DE OURO

O Externato D. Afonso Henriques está a celebrar 50 anos de existência e de trabalho.
Bonita idade para uma pessoa e para uma escola.
Vamos evocar os seus primeiros dias.
No início da década de sessenta do século passado, não havia ainda em Resende uma escola de nível secundário, aberta aos jovens adolescentes que pretendessem continuar os seus estudos, depois de concluído o exame da quarta classe do Ensino Primário.
Apenas existia o Seminário de Resende, desde 1928. Sendo porém um seminário, só podia acolher os moços da diocese que pretendessem ascender ao sacerdócio. Para os demais (rapazes ou raparigas), nada existia até então. Apenas podiam continuar os seus estudos os jovens cujos pais possuíssem rendimentos que lhe permitissem frequentar como internos um dos dois colégios que havia então em Lamego (o da Imaculada Conceição para meninas e o Colégio da Ortigosa para rapazes) ou o Liceu Latino Coelho, hospedando-se em alguma casa particular. E eram poucos, esses privilegiados. Muito poucos.
O bispo de Lamego, D. João da Silva Campos Neves, grande pastor e excepcional administrador, preocupado com a formação humana e cristã da juventude da diocese, começou a sugerir aos sacerdotes de cada concelho ou arciprestado que se implicassem na criação de escolas concelhias que facilitassem os estudos também aos jovens mais pobres a quem estava vedada a frequência de colégios e liceus.
Em Resende, agarrando a sugestão do ilustre prelado, um grupo de sacerdotes e de leigos entusiasmaram-se com a ideia, constituíram uma Sociedade de Ensino – “Sociedade de Ensino D. Afonso Henriques” -  e fizeram nascer o Externato.
Arrendado o fidalgo mas degradado edifício da Casa de Massas, então propriedade da senhora D. Maria Joana de Castro da Câmara Leme, aí começaram as aulas em Outubro de 1963.
A primeira acta da sociedade tem a data de 15 de Outubro de 1963. Dessa acta, constam como presidente da Assembleia-Geral o Pe. Manuel Cardoso, pároco de S. Romão, e membros efectivos da gerência, os padres Manuel da Fonseca e Armando Meneses, professores do seminário e o Pe. Artur Figueiredo, pároco de Anreade.
A referida sociedade foi legalmente constituída em 3 de Dezembro desse mesmo ano, por escritura lavrada no cartório notarial de Resende, a folhas 42 a 49 v. do livro nº 38 – B para Escrituras Diversas. Tratou-se de uma sociedade por cotas, e dela constavam como sócios fundadores: com seis cotas, no valor de trinta contos de réis, a Diocese de Lamego representada no acto pelo Pe. Manuel Mota de Sá; com uma, no valor de 5 mil escudos, as seguintes personalidades: Dr. Amadeu da Fonseca Sargaço (advogado); Dr. Albino Brito de Matos (advogado); António Loureiro Emídio (proprietário); Amílcar Teixeira Dias (funcionário público e ex-seminarista); Pe. António Cardoso Júnior (pároco de Barrô); Pe. Manuel Vieira Pinto (pároco de Paus); Pe. Adelino Teixeira, Capelão do Hospital da Misericórdia; Pe. Artur Figueiredo (pároco de Anreade); Pe. Fernando Teixeira Dias (pároco de Freigil); Pe. Manuel Cardoso (pároco de S. Romão); Pe. Manuel da Fonseca, Pe. Armando Meneses e Pe. António Santos Silva (professores do seminário); Pe. Alberto Ferreira, de Forjães (pároco de Queimada); Pe. Joaquim Andrade Ferreira (pároco de S. Martinho); Pe. Abel de Sousa (pároco de Cárquere); Dr. António Correia e Vale (advogado em Lisboa e casado em Cárquere); Pe. Antonino Duarte (pároco de Fontoura); e Manuel Ribeiro Choça, (bancário em Lamego e casado em Fonseca).
A escritura foi publicada no Diário do Governo – III Série, de 16 de Janeiro de 1964. O registo da sociedade na Conservatória do Registo Comercial de Resende tem a data de 5 de Novembro de 1966.
Ao longo dos anos, os sócios foram desistindo das suas cotas (doando-as, cedendo-as ou vendendo-as). Todas essas decisões foram legalizadas por uma escritura de 17 de Dezembro de 1986, data em que a “Fábrica da Igreja de Resende” passou a ser detentora de toda as cotas, mantendo-se desde então sua única proprietária.
Segundo reza a escritura de constituição, o objectivo inicial dessa sociedade de ensino era ministrar o ensino primário e secundário, de carácter particular.
O primário nunca funcionou nem era necessário funcionar, dado que em todas as freguesias estava garantido esse nível de ensino. Funcionou sim o ensino preparatório (Telescola) e o ensino secundário até ao antigo 5º Ano (9º actual), apenas com a interrupção de um ano (1977/1978), em que foi substituído pela Escola Preparatória (hoje EB2). Em Outubro de 1978, reabriu já nas instalações atuais, junto da igreja, para dar seguimento aos alunos que completavam o 9º ano na Escola Preparatória e não tinham então ainda em Resende outra escola para poderem continuar os estudos. Começou com alunos do 10º ano e continuou com os demais anos do ensino secundário, abrangendo também depois o 3º ciclo do Ensino Básico. 
Dirigiram o estabelecimento de ensino, ao longo  destes cinquenta anos: o Pe. Adelino Teixeira (1963-1966); o Pe. António José dos Santos Silva (1966-1972); o Pe. Manuel Mota de Sá e o Pe. António Martins Teixeira (1972-1977); o Pe. António Martins Teixeira (1979 - 1992); o Pe. Manuel Esteves Alves (1992-2007); e, actualmente, desde 2007, o Pe. José Augusto Almeida Marques.
De todos os externatos que se criaram nas sedes dos concelhos da diocese na mesma altura do de Resende, este é o único sobrevivente. Tal facto fica a dever-se à persistência do Pe. António Martins Teixeira e dos seus mais próximos colaboradores que merecem a nossa justa e sincera homenagem.
 Nesta benemérita escola, prepararam-se para a vida e para o futuro, inúmeros adolescentes e jovens do concelho de Resende e de algumas freguesias d’além Doiro (sobretudo Santa Marinha e Gestaçô), desempenhando hoje muitos deles altos cargos e serviços relevantes na sociedade: no Ensino, na Medicina e na Administração….
Honra ao Externato.
Louvor aos seus pioneiros.
Parabéns aos seus professores e alunos.
Que os êxitos continuem a ver-se e a sentir-se, para bem do concelho e da região.
*Texto da autoria do Padre Dr. Joaquim Correia Duarte, publicado no "Jornal de Resende", edição de Novembro de 2013


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Percurso pessoal e profissional do barbeiro Sílvio Alípio Pinto*


Da escola para o ofício de barbeiro
Sílvio Alípio Pinto, filho de Américo Pinto e de Angelina Jesus, nasceu em Mirão a 30 de setembro de 1937. É o mais velho de cinco irmãos (quatro rapazes e uma rapariga). Frequentou a antiga escola primária de Resende, cujo edifício já foi sede da Câmara Municipal, da Associação dos Bombeiros Voluntários e da GNR. Terminada a 4.ª classe, deu entrada no Seminário de Resende, do qual teve de desistir no final do 1.º ano, a meio dos exames, por dificuldades económicas. O seu pai não tinha condições de pagar a mensalidade de cem escudos. 
Como bom aluno que foi, se continuasse a estudar, Sílvio Pinto poderia ser hoje um brilhante homem das letras ou das ciências, mas o destino encaminhou-o para outro rumo, para um percurso profissional nas artes de bem escanhoar e bem cortar e pentear cabelos, onde atingiu um patamar que prestigia a classe. Como era costume na altura, como filho mais velho, seguiu as pisadas do pai. Sílvio Pinto tornou-se assim aprendiz de barbeiro, com apenas 11 anos, no Salão Avenida, tendo como mestre o pai. 
Combinando as qualidades de flexibilidade, coordenação, segurança e equilíbrio no manuseio das tesoura e das navalhas com a noção do bom gosto e do sentido da estética e também com a sua proverbial simpatia, Sílvio Alípio Pinto tornou-se um dos mais conceituados barbeiros/cabeleireiros do concelho. Não admira por isso que haja muitos clientes que, forçados a trabalhar e a residir fora, sempre que vão a Resende não deixam de ainda hoje o visitar e pedir os seus préstimos para cortar e pentear o cabelo. Nas suas deslocações às redondezas e ao Porto, é abordado e cumprimentado com carinho por muitas pessoas, que foram seus clientes ou antigos aprendizes da arte.
Vive na vila de Resende. É casado. Tem um filho e duas netas.

Percurso profissional
Sílvio Alípio Pinto é herdeiro de uma nobre linhagem de barbeiros/cabeleireiros, com cerca de 150 anos, que se iniciou com o Sr. Ribeiro. A continuidade foi dada pelo Sr. António Pimenta com quem Arménio Pinto, pai de Sílvio Pinto, aprendeu e trabalhou. A barbearia começou por estar sedeada na garagem da Farmácia Avenida, tendo-se mudado depois para as instalações onde agora funciona a papelaria Lina & Couto e, por fim, para o local atual. Embora seja conhecida por barbearia do Sr. Sílvio, denomina-se “Salão Avenida”, que foi adquirida por trespasse ao Sr. Pimenta por Arménio Pinto, pai do atual proprietário, Sílvio Pinto.
A aprendizagem era feita por observação, sendo a prática efetuada com “a matéria prima” dos profissionais ou aprendizes da casa. Isto é, os futuros barbeiros e cabeleireiros praticavam a arte fazendo a barba e cortando o cabelo aos mestres e colegas de ofício. Foi assim a aprendizagem de Sílvio Pinto, cujo mestre foi o pai, como já foi acima referido.
Ainda muito jovem, com menos de 15 anos, já bastante seguro profissionalmente, começou a atender os primeiros clientes de forma autónoma. O grande tirocínio foi-lhe dado nas andanças pelas muitas localidades do concelho, onde prestava serviço ao domicílio. Sobretudo, no fim de semana, de maleta na mão, deslocava-se à residência dos clientes, onde, num terraço, alpendre, junto à soleira ou no interior das casas, conforme o tempo, fazia as barbas e cortava os cabelos, que poderia abranger, neste caso, toda a família, incluindo os elementos do sexo feminino. Ainda se recorda dos preços então praticados: 15 tostões por barba e cabelo; 7,5 tostões por um corte de barba ou 7,5 tostões por um corte de cabelo. Muitas vezes, o ajuste era feito ao mês, cujo preço variava de acordo com o número de cortes de barba semanais e cortes de cabelo mensais. Os caseiros e pequenos lavradores preferiam pagar normalmente em espécie, designadamente em alqueires de milho.
Um dos maiores clientes era o Seminário de Resende, ao qual destinava todas as quintas-feiras para o corte de cabelo dos seminaristas. Pelo manejo das suas navalhas e tesouras passaram quase todos os padres do concelho, médicos, autoridades concelhias, advogados, grandes e pequenos lavradores, ou seja gente de todas classes, do mais rico e culto ao mais pobre e analfabeto. Uns mais assiduamente; outros só em dias de feira.
Por morte do pai em 1960, por afogamento no rio Douro, quando o mesmo tinha apenas 48 anos, Sílvio Pinto, então com 22 anos, teve de tomar conta da barbearia. Refira-se, a propósito, que este acidente abalou então o concelho, tendo envolvido a morte de mais quatro pessoas. Tudo aconteceu num fim de tarde fatídico em que várias pessoas que regressavam da festa de Santa Eufémia, após a saída no apeadeiro de Mirão, vindas da Régua, apanharam um barco de pesca para a passagem para a outra margem, e que a certa altura começou a meter água. Como o pai do Sr. Sílvio, Américo Pinto, sabia nadar bem, num gesto de grande coragem, deitou-se à água para diminuir o peso. Impensadamente, quatro pessoas seguiram-lhe o exemplo, mas como não sabiam nadar agarraram-se a Américo Pinto, que embora tudo fazendo para os salvar, foi vítima do descontrole então gerado, vindo todos a morrer nesta tragédia. Sílvio Pinto, também regressado de Santa Eufémia, tinha apanhado a barca do serviço de travessia regular, não lhe tendo acontecido nada.
Da sua longa carreira profissional orgulha-se de ter ensinado a arte a cerca de 250 jovens. Como nota curiosa, nas provas do curso para diretor técnico de cabeleireiro, tirado no Porto, em que é diplomado, alguns dos avaliadores tinham sido seus alunos.
Sílvio Pinto, além de fazer barbas e cortar cabelos, juntamente com os seus dois colegas, continua a desempenhar um papel social inestimável. O Salão Avenida é um local onde muitos aproveitam para se encontrar e trocar notícias locais (doenças, acidentes, furtos, regresso de emigrantes, andamento de obras…). É o paradeiro obrigatório para integrar e atualizar resendenses de visita ao concelho. O autor destas linhas é disso testemunha. Após cortar o cabelo, sente-se como se aqui sempre tivesse vivido.
 
Outras facetas e artes de Sílvio Pinto
As freiras que então prestavam serviço de enfermagem no hospital da Santa Casa da Misericórdia de Resende não podiam de lá sair. Tornava-se necessário encontrar alguém com apetência e que se dispusesse a dar injeções, deslocando-se às respetivas residências. Face à vivência familiar onde se cultivava o espírito de entreajuda e às suas características pessoais de responder a desafios, Sílvio Pinto mostrou-se disponível para fazer face a esta necessidade, que se fazia sentir na vila e nas aldeias vizinhas. A aprendizagem foi feita com o Dr. Eurico Esteves, médico no hospital da Misericórdia e delegado de saúde. Desde a juventude até há relativamente poucos anos, Sílvio Pinto foi o cuidador que respondeu às necessidades de centenas de pessoas em situações de doença e fragilidade, deslocando-se às suas casas para dar injeções e distribuir palavras de conforto e incentivo.
Esta competência na aplicação de injeções estendeu-se ao gado, quando estava com a “malina”. Meio brincar, Sílvio Pinto refere que foi o primeiro enfermeiro ambulante e o primeiro veterinário do concelho.
É um homem multifacetado. Também revelou ter “poderes especiais” na deteção de água. Deveria ter à volta de 20 anos quando, após ver o Sr. Padre Esteves, atual pároco de S. João de Fontoura, a caminhar com uma vara dobrada em forma de V, a qual repentinamente se começou a torcer perante aquilo que dizia ser um veio de água, também quis experimentar. A experiência foi um sucesso. A força na vara, agarrada nas extremidades por cada uma das mãos, foi tanta, que parecia ir desmaiar, segundo as suas palavras. O Padre Alfeu, que lá se encontrava, também experimentou, mas para sua deceção nada aconteceu. Muitas minas se romperam e alguns furos se concretizaram, graças aos seus dotes de vedor. E nunca se enganou. Indicou sempre com precisão a localização e a quantidade da água. Dizia, por exemplo, “há água aqui a 5 metros de profundidade, mas o veio principal passa a 10”.
Convém referir que sempre respondeu a estas solicitações pelo prazer de ajudar e ser útil, nunca tendo havido qualquer contrapartida. O mesmo aconteceu com a sua esposa, a quem inúmeras pessoas também recorreram para aplicação de injeções.
O seu percurso de vida integra ainda o exercício de atividades no âmbito associativo, desportivo e político. Fez parte dos corpos sociais da Casa do Povo, da Associação dos Bombeiros Voluntários e do Grupo Desportivo de Resende. Foi membro, durante cinco mandatos, da Assembleia Municipal de Resende. Foi jogador e treinador de futebol.

Nota: Como é do conhecimento público, foi atribuída recentemente ao Sr. Sílvio Alípio Pinto a Medalha de Ouro de Mérito do Município de Resende, “pelas qualidades humanas, profissionais e intelectuais, e pelo seu contributo para a dignificação de uma das mais tradicionais profissões dos resendenses, por ser dos mais antigos profissionais de barbearia em funções”. A fundamentação desta atribuição realça também o seu papel na formação de jovens barbeiros/cabeleireiros ao longo de décadas e ainda o seu contributo para a divulgação do nosso concelho.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, edição de Julho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Perfil do Prof. Aquilino Rocha Pinto*

Ele é integralmente um gentleman
 Esta citação de Rebeca West, escrita na parede à direita, logo à entrada do restaurante, define e caracteriza o ambiente acolhedor, a arte de bem receber, o bom gosto e a qualidade da comida. Este novo Gentleman, capitaneado por Manuel Pedro Gomes, de decoração sóbria e de muito bom gosto, corporiza o conceito abrangente de restauração: pratos regionais, refeições para dias especiais, almoços muito económicos de preço fixo, pizas, massas e menus infantis, de entre outros destaques. Com bom tempo, poder-se-á desfrutar do espaço convidativo da esplanada.
É um ótimo espaço para quem quiser fazer da refeição um agradável encontro de conversa, como aconteceu com o Dr. Aquilino Pinto. A escolha recaiu no “polvo à Gentleman”. Uma delícia.

Dados da vida pessoal
O Prof. Aquilino Rocha Pinto nasceu a 25 de setembro de 1974 no Rio de Janeiro, sendo filho de Aquilino Pinto, já falecido, natural de S. Cipriano/Resende, e de Maria Helena Rocha Pinto, natural do concelho de Vagos/Aveiro. Os pais conheceram-se e casaram no Rio de Janeiro, onde viveram bastantes anos. Devido a problemas de saúde, o pai foi aconselhado a mudar-se para uma região de clima mais temperado. Foi assim que resolveu retornar ao concelho de Resende, onde adquiriu a Quinta do Engenho, em Rendufe, ao Dr. Fernando Sampaio, médico do antigo hospital da Santa Casa da Misericórdia e do seminário de Resende. Tem uma irmã.
Frequentou a antiga escola primária de Rendufe de Cima (escola velha), em Minhães, tendo depois transitado para a então Escola Preparatória de Resende e posteriormente para a Escola Secundária, onde fez o 7.º ano. Terminou o 3.º ciclo no Externato D. Afonso Henriques, tendo aqui prosseguido os estudos, durante o 10.º e 11.º anos. Concluiu o 12.º ano na Escola Secundária.
Desde muito novo manifestou grande apetência pela prática do desporto. Assim, no âmbito do desporto escolar, participou nas modalidades de atletismo (estafeta e salto em comprimento) e foi jogador de futsal e voleibol. No âmbito do desporto federado foi jogador de voleibol no Clube Náutico de Aregos e jogador de futebol de 11 no Juventude de Anreade, no Clube Desportivo de Aregos e no Grupo Desportivo de Cárquere (INATEL).
Foi treinador de futebol de 11, do escalão juvenis, no Clube Desportivo de Aregos. Coordenou, ao serviço do Futebol Clube do Porto na época 2006/2007, um grupo de 14 observadores de jovens talentos na modalidade de futebol.
Tem dado um contributo importante na esfera da intervenção cívica e associativa, sendo de destacar a propósito que é membro do conselho geral da Associação Pró-Ordem dos Professores, foi um dos fundadores do Agrupamento de Escuteiros de Resende e integrou os corpos sociais do Clube Desportivo de S. Martinho de Mouros. É casado e tem um filho. Vive em Rendufe, Resende.

Percurso profissional
A sua apetência pelo desporto fez com que optasse por um curso ligado a esta área. Nessa altura, havia falta de professores de educação física nas escolas, o que também pesou nesta escolha. Tirou o curso no Instituto Piaget de Viseu, sendo licenciado em Motricidade Humana, no ramo de Ciências de Educação Física e do Desporto. Findo o curso, começou a trabalhar no Externato D. Afonso Henrique, iniciando funções docentes no ano letivo de 1999/2000, onde continua a ministrar a disciplina de educação física.
É formador na Escola Profissional de Resende. Ministrou diversos módulos no âmbito de cursos de formação para jovens e adultos, organizados por empresas ligadas a esta área.

Papel no desenvolvimento do ténis de mesa no Distrito de Viseu
O Prof. Aquilino Pinto é, desde os tempos de aluno da Escola Secundária e do Externato D. Afonso Henriques, onde o ténis de mesa era rei, um entusiasta da prática desta modalidade. Ainda como estudante em Viseu, foi convidado por algumas pessoas de Resende a fundar uma Associação Distrital de Ténis de Mesa, pois havia na altura excelentes jogadores na Escola Secundária e no Externato, treinados respetivamente pelo Prof. António Loureiro e pelo Prof. António Correia.
O trabalho não foi fácil, por vários motivos. Na altura, com 24 anos, muitos desconfiavam da concretização do projeto. Criar uma associação distrital parecia um sonho irrealizável. Mobilizar vontades e responder aos obstáculos de natureza administrativa não foram tarefas fáceis. Convicto de que este objetivo não poderia ser concretizado sozinho, rodeou-se de um grupo de trabalho, formado por pessoas de confiança e dispostas a abraçar este desígnio. Assim foi possível conquistar paulatinamente a credibilidade junto dos responsáveis locais e regionais, incluindo autarcas e políticos, já que na altura esta iniciativa não era bem vista em alguns setores, pois havia uma instituição na cidade de Viseu ligada ao ténis de mesa, que “vegetava”, não fomentando a modalidade a nível federado.
A convicção e o trabalho persistente conduzem quase sempre a bom porto. Foi o que aconteceu neste caso. Nasceu assim em 1999, data da respetiva escritura pública, a Associação de Ténis de Mesa do Distrito de Viseu, com sede em S. Martinho de Mouros, onde se mantém.
Graças ao dinamismo do Prof. Aquilino Pinto, que em 2012 foi reeleito presidente da direção para um novo mandato de quatro anos, e das equipas diretivas que tem vindo a liderar, esta associação goza de grande prestígio a nível regional e nacional, o que honra o concelho de Resende. Em 2010, viu coroado este esforço com a obtenção do estatuto de Instituição de Utilidade Pública. Continua a ser a única associação distrital da modalidade, sedeada numa localidade/vila, neste caso, em S. Martinho de Mouros.
Conseguiu ultrapassar pela primeira vez, na presente época desportiva, a barreira dos 120 atletas federados e, consequentemente, o maior número de clubes filiados (13).
A Associação de Ténis de Mesa do Distrito de Viseu (ATDMV), para além dos clubes filiados do Distrito de Viseu, tem um clube federado do Distrito da Guarda e outro do Distrito de Castelo Branco, respetivamente a Associação de Bombeiros Voluntários de Seia e o Clube Desportivo de Alcains. Assim, esta é a única associação distrital da modalidade com clubes filiados de três distritos, afirmando-se desta forma como uma estrutura cada vez mais inter-regional.
Na presente época desportiva, a ATMDV tem um clube (Currelos, em Carregal do Sal) a disputar o Campeonato Nacional da 2.ª divisão em equipas na categoria de seniores masculinos, havendo a possibilidade de mais dois clubes subirem, na próxima época, às competições nacionais.
A título de curiosidade, importa realçar a existência de apenas um clube federado no concelho de Resende, que é a Associação de Pais e Encarregados de Educação do Centro Escolar e Escola Básica do 2.º Ciclo (EB2) de Resende. Está filiado pela primeira vez na presente época e, até ao momento, tem apresentado resultados positivos, que se devem em grande medida à dinâmica dos seus dirigentes, nomeadamente da sua presidente, a Dr.ª Sandra Pinto, e do Prof. Sérgio Sousa, que acumula as funções de Diretor Técnico Distrital da ATM Distrito de Viseu.

Para além dos jogos previstos no calendário a nível federado, o Prof. Aquilino Pinto tem procurado promover o ténis em todo o distrito com várias atividades e torneios. Convém referir que, até há dois anos, todos os torneios anuais de abertura (de arranque da respetiva época desportiva a nível federado) foram realizados no pavilhão gimnodesportivo de S. Martinho de Mouros, constituindo um evento de relevância de divulgação desta vila e do concelho de Resende.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, edição de Maio de 2013
Nota: A conversa que lhe deu origem decorreu ao longo de um almoço no restaurante Gentleman
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