domingo, 25 de maio de 2014
CÁRQUERE/Igreja de Nossa Senhora*
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
História do Externato D. Afonso Henriques*
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Nossa Senhora do Souto em Paus: fé e crenças*
O fenómeno da Senhora do Souto ficou localmente circunscrito, pois nunca ali assentou arraiais uma ordem religiosa para disseminar a sua devoção. Ao contrário da Senhora da Lapa, cujos prodígios levaram à construção de um Santuário no local, tendo os jesuítas, que ali se instalaram, sido exímios na sua divulgação, transformando-o no segundo centro de peregrinação mais importante da península ibérica, após Santiago de Compostela. E, contudo na base da génese dos dois fenómenos estão dois relatos semelhantes. Em ambos os locais, há uma imagem de Nossa Senhora escondida, cujos prodígios se revelam no processo ou após o seu achamento. No caso da imagem da Senhora da Lapa, o seu poder expressa-se, quando, após o seu encontro numa gruta por uma jovem pastora (muda), e já em casa, é atirada à lareira pela mãe, tendo a filha, falando pela primeira vez, rogado para que não o fizesse. Em S. Pedro do Souto, o sinal prodigioso reside no pretexto que leva à descoberta da respectiva imagem. Perante a estranheza de uma silva alta e viçosa, anteriormente inexistente, o proprietário do respectivo terreno corta-a. Contudo, no dia seguinte, apresentar-se-á ainda mais alta e viçosa, pelo que o lavrador volta a cortá-la. Nada feito. Face a esta “teimosia”, resolveu cortar o mal pela raiz, ou seja, escavar para a poder arrancar. Estranhamente, contudo, no fundo da pequena cova que teve de fazer, encontrou uma imagem de Nossa Senhora e um sino, sendo a mesma colocada na capelinha da povoação.
Quanto ao sino, tentaram levá-lo para a Sé de Lamego. Curiosamente, até ao cimo da serra das Meadas, tocava lindamente. Dobrada a mesma “recusava-se” a tocar, tendo, por isso, retornado para S. Pedro do Souto e sido colocado na respectiva capelinha.
Esta imagens, encontradas após a reconquista cristã, foram provavelmente escondidas no período do domínio dos mouros na península ibérica. É natural que estes achados, por serem tão significativos e por envolverem uma dimensão religiosa, não fossem vistos pelas pessoas de então como simples acontecimentos ocasionais, requerendo, no quadro da sua mundivisão, a intervenção divina. Estes acontecimentos foram assim coloridos de registos de natureza fantástica, originando estórias que, antropologicamente, não são redutíveis a meras lendas.
Festa da Senhora do Souto
Anualmente, no domingo seguinte, ao dia da Senhora dos Remédios, realiza-se a festa em honra da Senhora do Souto. É constituída de missa solene e procissão com percurso pelo interior da povoação e pelo “campo da Senhora” (local do “aparecimento” da imagem), onde será proferido um sermão, retornando à capela. Seguidamente, surge um momento de muita expectativa e emoção, que é o lançamento de pão ou “regueifas” pelas janelas de uma casa junto à capela. Cada um dos presentes irá disputar a maior quantidade de pão possível, que será guardado nas respectivas casas, pois tem o condão de afastar doenças e maleitas. Outrora cozido num forno da aldeia, é agora cozido na padaria do Barreiro, sendo benzido na missa e levado em sacos na procissão, tendo a particularidade de não ter fermento e de não se estragar, de acordo com vários testemunhos.
Sino milagroso
Sempre que há trovoadas e tempestades, há a preocupação de tocar o sino. Sempre ouvi dizer que o seu toque tem sido eficaz. O encarregado da guarda da capela, Sr. Joaquim Pinto, confidenciou-me que já o tocou duas vezes este ano e “a trovoada foi por aí abaixo...”.
Há uma segunda versão sobre o achamento deste sino, havendo pessoas que referem que o mesmo foi encontrado juntamente com a imagem de Santa Bárbara numa casa da aldeia, tendo esta também sido colocada na capelinha. Como esta santa é a protectora em caso de trovoadas e tempestades, está “explicada” a eficácia do sino.
Crucifixo bizantino
Pertencente à capela da Senhora do Souto, há um crucifixo, antiquíssimo, de estilo bizantino, de valor incalculável, que já integrou várias exposições. Para diminuir os riscos de furto, o mesmo vai sendo guardado em locais diferentes ao longo do ano.
Nota: Este pequeno artigo baseou-se em registos orais ouvidos desde criança, “avivados” na última festa da Senhora do Souto e enriquecidos com o cotejo das descrições incluídas na monografia do nosso concelho, da autoria do Sr. Dr. Joaquim Correia Duarte.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Outubro de 2oo6
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
A ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA VAI CELEBRAR 190 ANOS*
Do programa, constam como actos principais uma celebração solene da Eucaristia na Capela do Colégio de S. João de Brito, e uma Sessão Solene no Salão Nobre da Academia, em que serão oradores especiais o Prof. Dr. Veríssimo Serrão, seu Presidente de Honra, a actual Presidente, Prof. Dra. Manuela Mendonça e o Secretário de Estado da Cultura, Dr. Elísio Summavielle.
A Real Academia da História Portuguesa (assim se chamava na sua primeira vigência), foi fundada pelo rei D. João V, por decreto de 8 de Dezembro de 1720 – dia da solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora - e teve como seu primeiro inspirador Manuel Caetano de Sousa, clérigo regular e grande homem de letras. O programa inicial da Academia era que “se escrevesse a história eclesiástica destes Reinos, e depois tudo o que pertencesse à história deles e das suas conquistas”.
Estimular e coordenar esforços tendentes ao rigoroso conhecimento da história nacional, no sentido de esclarecer a contribuição portuguesa para o progresso da Cultura e da Civilização, e promover a publicação sistemática de fontes documentais que interessem à História Portuguesa, são os grandes objectivos actuais da Academia.
Depois de um interregno de alguns anos, a Academia foi recriada pelo Decreto-Lei n° 26611, de 19 de Maio de 1936.
Constituída actualmente por 40 “Académicos de Número” (30 de nacionalidade portuguesa e 10 de nacionalidade brasileira), 46 “Académicos Honorários” (36 portugueses e 7 estrangeiros), 183 “Académicos Correspondentes” (84 de nacionalidade portuguesa, 18 de nacionalidade brasileira e 81 de outros países estrangeiros) e 91 “Académicos de Mérito” (24 portugueses e 71 estrangeiros), a Academia Portuguesa da História poderá definir-se como uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado», sendo igualmente o “órgão consultivo do Governo na matéria da sua competência» (art°. 3 dos respectivos estatutos).
Cada um dos seus membros, para além do seu diploma de académico, e do colar de honra que deve usar em todas os actos da Academia, possui um cartão de identificação que lhe facilita a entrada nos Arquivos e nas Bibliotecas Nacionais.
Como publicações habituais da academia, o “BOLETIM ANUAL” donde constam os nomes, o endereço e as obras publicadas por cada um dos seus académicos e as actas de todas as sessões realizadas ao longo do ano, e os “ANAIS”, onde são publicadas todas comunicações apresentadas na academia pelos senhores académicos.
A Academia, com uma Biblioteca riquíssima, tem actualmente a sua sede no Palácio dos Lilases - Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa. É aí que se reúnem os senhores Académicos para debaterem os grandes temas da História, e para homenagearem os seus membros mais ilustres.
Como é costume dizer-se em bom latim
“AD MULTOS ANNOS”!
Resende, 25 de Novembro /10
*Joaquim Correia Duarte
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
A implantação da República em Resende*
Apesar de, geograficamente, a revolução se ter circunscrito apenas a Lisboa, o resto do País aderiu à República. Como afirmava um jornalista da época, “o resto do País soube da implantação da República por telegrama”, todavia, aceitaram-na e, em muitas povoações, regozijaram-se com o acontecimento, não se registando manifestações contrárias, nem militares nem civis.
Foi o caso de Resende. No nosso concelho, onde a “notícia da mudança das instituições” foi recebida com “grande enthusiamo”, a República foi proclamada no dia 11 de Outubro de 1910, pelo Presidente da Comissão Municipal Republicana do concelho, João Canavarro Crispiniano da Fonseca, nos paços do concelho (actual quartel da G.N.R.), que, perante “enorme concorrencia do público”, leu a seguinte proclamação enviada da capital:
“Concidadãos! Está finalmente libertada a glorioza Pátria Portugueza! Depois de um longuíssimo período de verdadeira escravidão e violenta opressão, raiou enfim a aurora luminosa da liberdade!”
Finda a sessão, “coberta por inumeras assignaturas de pessoas de todas as categorias sociaes”, foi içada a bandeira Republicana na fachada dos paços do concelho, “tocando então uma phylarmonica a «Portugueza», ao mesmo tempo que subiam ao ar duzias de foguetes e se ouviam freneticos vivas de acclamação”.
Transcrevemos os relatos publicados, em 12 de Outubro de 1910, pelo correspondente no concelho de Resende do Comércio do Porto, que constituem um importante documento histórico para o conhecimento integral da implantação da República no nosso concelho:
Rezende, 10 – Com grande enthusiasmo se recebeu aqui a notícia da mudança das instituições, sendo enorme a anciedade nos primeiros dias.
Ante-hontem tomou posse da administração d’este concelho o nosso amigo snr. dr. João Canavarro Crispiniano da Fonseca, chefe republicano local e distincto advogado, tendo o acto enorme concorrencia de amigos e correligionarios.
Amanhã será proclamada a republica nos paços do concelho e investida na posse a commissão republicana.
Preparam-se grandes festejos.
Rezende, 11 – Acaba de tomar posse a comissão municipal republicana d’este concelho, ficando presidente o dr. João Canavarro e vogaes effectivos: Aquilino Borges Carneiro, dr. Joaquim Antonio Vaz Pereira, dr. Adriano Anthero Cardoso Vieira, dr. José Joaquim Loureiro Dias, dr Manoel Joaquim Esteves e dr. Antonio Aurelio Pereira Monteiro de Araujo; substitutos: Antonio Loureiro da Fonseca, Jeronymo Pinto Moreira, Joaquim de Vasconcellos, Antonio Alexandre Gonçalves, Raphael Pinto da Fonseca, Antonio Teixeira do Amaral Cirne e Alberto Pinto Osorio.
Com enorme concorrencia do público, declarada aberta a sessão pelo presidente com a annuencia da anterior vereação, foi proclamada a republica, lendo o presidente a proclamação.
Em seguida, n’uma brilhante oração, fez a apologia do novo regime, sendo muito applaudido.
Fallaram depois Máximo Rangel e dr. Vaz Pereira, terminando por enthusiasticos vivas á republica e á patria portugueza.
A proclamação foi coberta por inumeras assignaturas de pessoas de todas as categorias sociaes.
Levantada a sessão em signal de regozijo, foi içada a bandeira republicana pelo sargento José Pinto Ferro, de artilheria 4, tocando então uma phylarmonica a «Portugueza», ao mesmo tempo que subiam ao ar duzias de foguetes e se ouviam freneticos vivas de acclamação. Enthusiasmo delirante.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Notícia relativa à homenagem a Monsenhor Carlos Resende*
Aos organizadores, tão bem «orquestrados» pelo nosso Dr. Adão Sequeira, desde já os meus sinceros Parabéns não só pela ideia, como também por toda uma organização que se prezou por uma abordagem completa sobre a vida do homenageado testemunhada não só pelos responsáveis, Sr. D. António Francisco dos Santos – Bispo de Aveiro e pelo Dr. Adão Sequeira da Fonseca, mas também, em gesto de grande Amizade e respeito, por Suas Excelências Reverendíssimas: Sr. D. Jacinto Botelho - Bispo de Lamego e Sr. D. António Rafael – Bispo Emérito de Bragança/Miranda, por vários sacerdotes da nossa Diocese, grande representação de Antigos Alunos dos Seminários de Lamego e nossos presentes Seminaristas de Teologia. Mas, não só elementos ligados aos Seminários se fizeram presentes. Os principais responsáveis políticos da região, tiveram o propósito de também prestarem homenagem ao seu conterrâneo Cinfanense; assim, desde o Sr. Presidente da Câmara, Prof. José Manuel Pereira Pinto ao Sr. Presidente da Assembleia Municipal, Sr. Mário Luís Correia da Silva, foram muitos os Cinfanenses que também marcaram presença no Sala Magna da Câmara Municipal, onde começou o programa de Homenagem.
Como não podia deixar de ser, o Seminário Maior de Lamego representado por toda a sua equipa directiva e seus estudantes, na pessoa do seu Reitor, Pd. Prof. Dr. Paulo Alves quiseram prestar a sua homenagem entoando o Hino do Seminário, dirigidos pelo Sr. Pd. Marcos Alvim. Surpreendentemente, o Sr. Reitor acumulou uma outra simples homenagem, chamando o Grande Mestre Dr. Rui Botelho e solicitou-lhe que também ele, num gesto de Amizade e gratidão, dirige-se os seminaristas e a plateia na repetição do mesmo Hino que ele no passado tantas vezes dirigira. Lindo gesto também, a este Grande Homem da nossa Diocese…
Finda esta homenagem pelo Seminário de Lamego, onde o homenageado passara a maioria dos seus anos, coube ao Sr. Presidente da Câmara. Abriu a sessão saudando os presentes e tecendo demasiados pormenores pessoais, familiares e demais que o ligaram e ligam ao homenageado. Foi agradável ver a grande inter-acção existente entre Mons. Resende e os Cinfanenses, embora quase metade da sua vida tenha sido passada entre os muros daquela grande casa que é o Seminário Maior de Lamego.
Em seguida, tomou a palavra o Dr. Adão Sequeira que no computo geral trouxe a todos os que enchiam a sala (e muitos ficaram de pé…) um testemunho pessoal de como conheceu, conviveu, opinou e recorda Mons. Carlos Resende, seu Perfeito, seu Professor, seu Reitor e por fim seu Amigo.
Tal como eu, fomos muitos os que num silencio total ouvimos este testemunho que, confirmou tudo o que já ouvira falar de Mons. C. Resende que não conheci directamente como seminarista por não ter passado pelo Seminário Maior. O Dr. Adão deixou transparecer a qualidade de um Homem, de um Amigo e de um Grande Orientador de jovens preparando-os não só para o Sacerdócio ou, como no seu caso pessoal, para uma vida laical.
Mas, se este testemunho nos silenciou e muito em especial aos que de algum modo estivemos ligados ao Seminário, ao tomar a palavra, o Sr. D. António Francisco debruçou-se mais no mencionar toda uma Família a que Mons. Carlos Resende pertencia. Desde seus Pais e seus Irmãos, em todos D. António Francisco ao mencionar, encontrou um grande valor humano, cristão e enraizados à sua terra. O orador pormenorizou alguns aspectos íntimos e espirituais que houvera tido com o Homenageado, sensibilizando todos os que o escutávamos.
Como sempre, a eloquência nas suas palavras, pareciam-nos transportar ao tempo e ao momento. Seria talvez difícil encontrar melhores oradores, todos eles também filhos da terra, para recordar Mons. Reitor Carlos Resende… E como colmatar de uma sincera gratidão, o Grupo Coral de Cinfães, entoou duas ou três peças tipicamente regionais, dando por terminada a primeira parte deste reconhecimento.
A Homenagem teve o seu seguimento com o descerrar de uma lápide, na sua própria moradia, frontal à Igreja Paroquial, em que ficou gravada toda a gratidão que a ASEL-Assoc. dos Antigos Alunos dos Seminários de Lamego querem perpetuar com o seu ex-Reitor. A Direcção da Associação, representada pelo seu Presidente, Avelino Pereira e muitos outros Antigos Alunos chamaram a si a total responsabilidade desta oferta e contribuição nesta Homenagem.
Atravessando a rua, dirigimo-nos para a Eucaristia presidida pelo nosso Bispo, D. Jacinto Botelho e coadjuvado pelos dois Bispos mencionados, por vários sacerdotes e diáconos. A Igreja Paroquial estava repleta. O grupo coral local com a colaboração dos nossos Seminaristas e dirigidos pelo Sr. Pd. Marcos Alvim alegraram este novo momento de Homenagem onde o Sr. D. Jacinto Botelho, no momento próprio, recordou Mons. Carlos Resende com quem havia colaborado também na Direcção do Seminário e de quem guarda grandes valores como Homem, como colega sacerdote, como Superior e como Amigo. A todos convidou para em comunhão elevar-mos as nossas preces e dar-mos graças ao Bom Pastor pela Felicidade de um Homem como Mons. Carlos Resende ter nascido na nossa Diocese, ter sido Seminarista e posteriormente Grande Responsável em um dos nossos Seminários: a Diocese apenas saiu valorizada com todo o seu trabalho, dedicação, competência e devoção.
Foi, sem dúvida, uma tarde de Sábado plena de sentimentos, de gratidão e de reconhecimento. Cada um partiu de regresso aos mais diversos pontos de destino, mais rico humana e cristãmente pelo exemplo deste Homem que deixou marcas não só nos que orientou, mas também em todos os seus conterrâneos cinfanenses.
Na companhia de todos os Anjos e Santos goze a sua alma o Eterno Descanso; será sem dúvida o desejo de todos os que o homenagearam e recordaram.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Homenagem a Monsenhor Carlos Resende*
-1 -Do Santo Cura d´Ars, exemplo grande de humildade e santidade, escreveu o papa, Bento XVI - «com exemplar obediência ficou sempre no seu lugar porque o consumia a salvação das almas», santo este que dizia «para mim sacerdócio é amar a Jesus».
Estas duas frases fazem-me pensar que é uma feliz coincidência a celebração do ano sacerdotal em honra do santo Cura d´Ars, o Pe João Maria Vianey, conter no seu âmbito temporal o centenário do nascimento de Monsenhor Carlos Alberto Pinto Resende, homem e sacerdote exemplar para quem a obediência foi bandeira que sempre assumiu e para quem o sacerdócio foi também amar a Deus e os que lhe estavam entregues.
Filho ilustre da nossa terra, Carlos Resende, Monsenhor de título, Reitor de função e homem de actos e vida, dedicou aos alunos, ao seminário, à diocese e a Deus a sua vida.
Sem ruído, sem barulho, sem ostentação e sem vaidade, honrou e dignificou a sua terra, o seu povo, a sua família, o seminário e seus alunos.
Homem bom nos seus actos, recto nas intenções, edificante na apresentação, elevado na intenção, despido de maldade e intenções secundárias, vendia gratuitamente do seu rosto e oferecia em abundância espontânea um sorriso que irradiava serenidade, bem-estar e bondade.
A celebração e homenagem que hoje aqui fazemos é um dever imperioso de seus antigos alunos consubstanciados à volta da sigla ASEL que em boa e justa verdade não podiam deixar passar a data centenária do seu nascimento sem de modo singelo mas vivo e expressivo dizer aos presentes (e para memória futura aos vindouros) que é nosso dever enaltecer os actos e acontecimentos, os nomes e as pessoas que nos antecederam no tempo e marcaram o passado com exemplo profundo de valor futuro, guardando e resguardando deste modo a herança moral dos antepassados.
Esta homenagem é, além do mais, o grito afirmativo de que homenagear o passado é semear, fertilizar e defender sementes de futuro.
Ai do povo, país, ou instituições que desprezam os valores do seu passado e menorizem as virtudes e valores dele recebidas.
E o passado é feito de homens, pelos homens e para os homens, isto é, o passado é memória para se recordar e viver no futuro, na hora exacta em que o futuro começa a deixar de o ser.
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Não sou a pessoa mais indicada para falar do valor, das virtudes, do projecto, da alma, da sabedoria ou da santidade do nosso homenageado; a minha incumbência é de vos deixar um testemunho singelo de antigo aluno que ao fim de 11 anos, mudou de rumo e enfrentou novas realidades.
Eu queria, antes de iniciar, regozijar-me por ver aqui, entre nós:
- a diocese no seu melhor espírito;
- os seminários de Lamego e Resende na sua mais alta e expressiva representatividade;
- a autarquia e o poder local , na sua melhor expressão, autoridade e importância.
Se eu pudesse avisar Mons Carlos Resende que estamos aqui reunidos na sua terra…ou se ele pudesse fazer-nos um sinal lá do alto onde se encontra, como sorriria abertamente e à sua maneira ao ver à sua volta:
-um bispo,-Snr D.Jacinto Botelho- que foi seu aluno e colega de formação no seminário;
-outro bispo,-Snr. D.António Francisco-que foi seu aluno e esperança querida dos seus olhos;
-outro bispo também, Snr. D.António Rafael, emérito de Bragança/Miranda, seu antigo aluno e colega de ensino.
-um leigo e antigo aluno, a falar das suas virtudes e valores;
-outro leigo e aluno notável, a gerir os sons e melodiosos acordes musicais em sua honra e louvor;
-tantos outros (dele queridos),antigos alunos, sacerdotes ou leigos que aqui significam toda a juventude que passou pelas suas mãos debaixo dos seus olhares;
-os seus virtuais pupilos e actuais alunos do nosso Seminário;
-os seus familiares queridos que em acto colectivo acorreram hoje a saudá-lo de modo mais aberto e expressivo;
-os cinfanenses, filhos da sua e nossa terra que em reconhecimento devido se associaram a esta iniciativa tão justa como oportuna.
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Era mais agradável para mim deixar o coração falar e a alma exprimir-se ao sabor do sentimento real e verdadeiro, em devaneios de considerações e deduções mas vamos ao que fui incumbido, a factos, realidades e referências através das quais objectivamente se possa deduzir e em parte entender a essência e a causa desta homenagem centenária.
2-Quem era Mons Carlos Carlos Resende do meu tempo?
Era só o venerável reitor, nobre de aspecto, respeitável de apresentação, bondoso de gestos, afável de convívio, ou superior por função?
Assim muitos o viram, assim muitos o entenderam, assim muitos o respeitaram.
De simplicidade linear, envolvia dentro de si uma sabedoria que atraía e uma respeitabilidade que encantava. Deixava a disciplina viva aos seus pares na formação e enchia o seminário com a imagem alta da sua função.
Sem vara nem bastão, sem ferrete nem humilhação, sem opróbrio nem grosseria, deixou um rasto de mensagem que marcou passos, entusiasmou destinos e sedimentou futuros.
As fronteiras deste testemunho têm o limite das minhas limitações e o âmbito da minha experiência. Fica portanto de fora toda a riqueza anterior à minha vivência no seminário, toda a acção posterior à minha saída e toda a mensagem da qual não possuía dados em memória nem documentos ao meu alcance.
Vejamos um pouco do que existe e leiam, (estimados amigos), aquilo que eu não consegui escrever para vos ler, porque a sua valia e virtude vão além, muito além do que eu disse ou vou dizer.
Do homem de quem vos falo:
-a quem nunca ninguém viu uma nódoa na batina, uma engelha na sobrepeliz, um sapato menos limpo, a barba por fazer ou cabelo em desalinho;
-a quem nunca ninguém ouviu uma ofensa, uma repreensão ou censura indevida;
-a quem nenhum antigo aluno refere como injusto, inoportuno ou excessivo, a não ser na bondade e compreensão
;…deste homem eu vou referir alguns passos da sua pedagogia e acção sempre dados e feitos a coberto de uma simplicidade e bondade que enchiam espaços e resultavam em frutos.
Deste homem, reitor, mestre e professor, eu, simples aluno, distante do seu melhor círculo de proximidade, tenho em meu poder fotografias que historiam e descrevem a sua estratégia de relação:
-a dar o ponta pé na bola,com os jogadores no campo dos Remédios-(junto dos seus);
-sentado no meio na nossa banda a ouvir atentamente os sons saídos dos nossos instrumentos - (no meio dos seus);
-nas ordenações sacerdotais a apoiar o futuro -(ao lado dos seus);
-nas missas novas a beijar as mãos dos novos sacerdotes -( a acompanhar os seus);
-no meio da sua equipa formativa com os finalistas do ano-(a dar garantia aos seus);
-no comando de todos os alunos na escadaria do seminário,-(a sorrir com os seus);
-em cortejo musical no meio da nossa banda,- (a conviver com os seus );
-no campo de jogos a ver os alunos na disputa da vitória-(a bater palmas com os seus);
…Sempre nos seus e com os seus, e sempre com o mesmo sorriso contido na forma espontânea de quem está bem e se sente bem onde está e com quem está.
-3- Deste homem que falava mais com o que fazia do que com o que dizia, eu tenho escrito, nós temos citações, mensagens e afirmações que escritas e parte delas guardadas agora na Antologia Estrela Polar continuam pelos tempos fora a nortear quem as quiser ler, ouvir e seguir.
E eu vou referir algumas para que todos nos apercebamos da mensagem expressa, ou do espírito intencional existente em cada um dos escritos.
-Em 1951, no lançamento da Estrela Polar, acto grande e momento alto da nossa vida estudantil, escrevia à guisa de editorial ou mensagem:
«jovens rapazes, que ousais entregar-vos às lides da imprensa, felicito-vos com toda a sinceridade (…) não esmoreçais, erguendo e projectando mais longe a luz da Estrela que há-de rasgar horizontes e iluminar inteligências».
-Em 1952, numa despedida de 4 alunos que se ordenaram e iam para a vinha do Senhor, escrevia no nº 7 do nosso jornal:
«ides partir, e partir significa sentir saudade da casa que se deixou, e daqueles com quem se vive (…) que esse sentimento jamais se extinga, (…)amai sempre o seminário que é também vosso e atraí a ele a simpatia, o afecto, a compreensão e os benefícios dos nossos fiés».
Nos anos seguintes e no mês de Dezembro, lá o encontramos no jornal escrito em boa letra de forma, com frases de vida e marcas de futuro afirmando e afirmando-se:
-No 1º aniversário, ainda em 1952 -«faz 1 ano o querido jornal, ele é o ambão onde os mestres da verdade ensaiam as 1ªs lições».
-Ou então ainda no ano seguinte, em 1953:
-«a arte de bem escrever, a cumplicidade e a elegância não se improvisam».
-Algum tempo depois incentiva os seus alunos, dizendo -«eu rendo a minha homenagem àqueles que acolhem o nosso jornal e lhe facilitam ambiente e simpatia ou prestam o auxílio necessário».
-Ao 10º ano, em 1961, afirma -«faz 10 anos (…) deveis deixar aos vindouros este facho de luz, ou não lhe désseis o nome de estrela (…) ide em frente, norteados por um nobre ideal e na ânsia de sempre mais e melhor».
-E depois (ainda e também) em 1967 -«que esta Estrela não veja ocaso, mas continue sempre na rota de espargir luz e que a abundância das bênçãos do Senhor desça sobre todos os que a dirigem, são votos do vosso amigo neste 16º aniversário da Estrela Polar».
-E nas bodas de ouro sacerdotais dos Snr. D. João da Silva Campos Neves, em Maio de 1962, deixa um sinal de vida, ainda hoje e sempre actual, que deve orientar pela vida os jovens alunos em formação ou os sacerdotes em acção operando na vinha do Senhor : -« entre os sentimentos que devem encher a alma dos seminaristas e incendiar a sua vida está a devoção, o afecto e a submissão ao seu bispo.»
Frases, pensamentos, mensagens, orientações, ânimo e estímulo, era este o posicionamento do nosso Reitor, dando força e vida à vocação sem que ninguém quase desse conta donde soprava esse ar de estabilidade, firmeza e acção.
…Assim falava e falou por escrito o homem, o mestre, o Reitor!
-4- e que dizem ou diziam os alunos que ele era?
Que pensavam os alunos a seu respeito?
Que escreviam e escreveram esses jovens alunos sobre o seu Reitor ao longo desses anos?
Eu vou citar extractos do nosso jornal, acerca do homem que todos os anos festejava no dia 12 de Fevereiro o seu dia aniversário.
-Ao saber da sua nomeação para Reitor, assim falou a Estrela Polar pela voz e pena dos seus alunos:
-«Em Outubro de 1954 foi elevado ao cargo de Reitor do nosso seminário o Snr. Cónego Dr. Carlos Alberto Resende.
Bem merece esta distinção.
Regozijamo-nos com esta decisão ».
-Em diferentes datas e na rubrica mensal -Entre Nós ,do nosso jornal encontramos: o nosso reconhecimento, a sua preocupação, o nosso regozijo, a sua referência e o marco futuro.
-Em 1955, o reconhecimento de que -«é justo que rendamos homenagem a quem a merece, e a festa do dia 12 foi homenagem merecida por quem há tantos anos serve o seminário, gastando nele as melhores energias».
-Em 1958 a sua preocupação « para que nada falte aos seus seminaristas».
-Em 1959 o seu regozijo, escrevendo -«a 12 de Fevereiro o nosso seminário vestiu-se de gala,(...) num imperativo do nosso reconhecimento».
E nessa envolvência vivida há um aluno, hoje aqui presente, o nosso Maestro Pereira Pinto, que no remate de uma espontânea e belíssima poesia que escreveu, declamou, (e da qual só encontrei os 3 versos finais), dizia:
«Oh Deus, que não seja em vão
Que se dá de coração,
O Snr Reitor, a vós somente».
-Em 1962 é reconhecido como referência, porque: -«há longos anos que o dia 12 de Fevereiro é um marco referencial na vida do nosso seminário».
-Em 1963, elegem a data como ícone de agradecimento pois aguardamos com esperança este dia, desejamos-lhe um aniversário feliz, pleno de bênçãos para que possamos cantar por muitos anos um solene Te Deum» e dizem que «a parte musical esteve a cuidado do nosso orfeão, que pela 1ª vez cantou a missa de S.Pio X, de Bartoluccci», imponente composição a 4 vozes cujos acordes enchem de vida uma Sé e elevam a Deus as almas dedicadas.
-Em 1965 reconhecem que -«a simplicidade tem o condão de agigantar as íntimas coisas desde que elas levem o rótulo do amor». E por isso fui encontrar que -«durante o recreio a banda espontaneamente se organizou e procedeu a uma arruada através dos corredores» em honra do Snr.Reitor
-Em 1966 surge escrita a síntese dos opostos aos dizer-se que -«a homena-gem de aniversário que todos os anos dedicamos a Mons Reitor é sempre emoldurada pela singeleza da nossa pequenês, realçada e engrandecida pela humildade do aniversariante». Afirmando-se ainda que -«não é fácil exprimir quanto Mons é…», isto é, quanto Mons Vale; e nesse mesmo ano, o pedagogo, o intelectual e o superior é reconhecido como amigo do desporto pois lê-se nos arquivos que na tarde desse dia - -«se disputou no ginásio a finalíssima do campeonato de Ping Pong, tendo o vencedor recebido a Taça Mons Carlos Resende.»
-Em 1968,marcou-se definitivamente a primeira fase de um novo futuro nesse dia iniciado, ao escrever-se alegremente no nº 192 da Estrela Polar, que -«para ultimar a nossa satisfação o Snr. Reitor anunciou que íamos a casa nos feriados do carnaval…(arrancando) um espontâneo F.R.A, símbolo da nossa alegria …(rematando que) o dia passou, mas a amizade que nos liga a Mons Reitor não passará jamais».
…E não passou.
E por isso estamos agora aqui, os jovens de hoje e os jovens de há 50 anos.
5- E tu Adão, que dizes do Reitor?
Eu faço minhas todas as palavras que já disse, e gostaria muito de ser autor de tudo o que de belo, bem dito e escrito, ainda hoje aqui se vai dizer, mas especialmente dele eu, e só eu, guardo em arquivo sentimental e físico alguns documentos dele, assinados e em original guardados que marcam a relação: superior/aluno:
-a sua carta de 27 de Dezembro de 1968 a indicar-me o caminho do laicado e o fim da minha vida no seminário, dizendo a findar: «esforce-se por levar também a sua família a aceitar esta situação, que o Senhor o abençoe nestes momentos difíceis em que tem de dar novo rumo à sua vida».
-a certidão de habilitações e média final do curso, que permitiram alguns anos mais tarde, aquando da lei da equivalência, entrar na faculdade de Letras isento de exame de admissão à Universidade.
-a declaração em que abona o meu bom comportamento moral durante o meu tempo de seminário e que se supunha necessário e útil para na vida militar vestir a farda ou manejar uma arma na função oficial de oficial.
-a sua conversa íntima e última, ele eu e minha esposa, suas mãos nas minhas, no seu leito de esperada recuperação na cidade do Porto cujos termos e sentido guardo para sempre sem revelação verbal ou exposição escrita.
Mons Carlos Resende mostrou pelos seus actos e honrou com o seu valor a casa que estava à sua responsabilidade.
E se a vida andante não existe sempre porque a morte lhe dá fim, aqui estamos nós hoje em simbologia de continuidade a dizer que a morte não é o fim mas a portagem para outra existência bem real e diferente desta certamente.
Nesta época, caracterizada pelo domínio do egoísmo, as celebrações desta natureza têm um significado especial e obedecem à nobre intenção de guardar e resguardar a herança moral e intelectual do nossos anteriores, porque é nosso dever enaltecer as pessoas e os acontecimentos que fizeram o passado que chegou até ao nosso presente e que nós devemos deixar com valia acrescida para os nossos futuros.
E finalizo dizendo ao presente e ao futuro, aos professores e alunos, aos leigos e sacerdotes, ao povo da sua terra e familiares da sua família que Mons Carlos Resende foi e é:
-a expressão rigorosa da modéstia;
-um sinal vivo do saber dedicado;
-uma luz acesa no caminho;
-uma docilidade que encanta;
-uma voz actuante sem ruído;
-uma autoridade sem imposição;
-um respeitador das ideias alheias;
-…e o titular de uma alegria esfusiante
… que alimentou vidas e segurou vocações .
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Snr. Presidente da Câmara e estimado amigo, depois disto agora ouvido, do melhor que vai ainda ser dito, e do que todos sabemos e reconhecemos, deveria a autarquia orgulhar-se deste munícipe, assumir a diferença e honrar esta Vila com um espaço –(largo, rua ou avenida)- em honra do homem a quem hoje orgulhosamente todos homenageamos – Monsenhor Carlos Alberto Pinto Resende.
*Discurso proferido pelo Dr. Adão Pereira Sequeira da Fonseca, em 13 de Fevereiro de 2010, em Cinfães, na sessão de homenagem a Mons. Carlos Alberto Pinto Resende, no centenário do seu nascimento
sábado, 26 de dezembro de 2009
Igreja de S. Martinho de Mouros: Uma relíquia do românico / Um misto de fortaleza e casa de Deus*
A Igreja matriz de S. Martinho de Mouros, classificada como Monumento Nacional por decreto de 2 de Junho de 1922, constitui um dos mais importantes edifícios religiosos da arte românica portuguesa, um “estilo” artístico que se desenvolveu durante a Idade Média.
Fruto de uma época profundamente militarizada, em que se procurava consolidar o território nacional, este monumento constitui um verdadeiro templo fortificado, um misto de fortaleza e casa de Deus (PINTO, 1982), que se explica pela necessidade das populações cristãs se defenderem contra os ataques dos muçulmanos refugiados nas vizinhanças, no processo da reconquista cristã.
De facto, a Igreja de S. Martinho de Mouros abarca, num só edifício, as funções religiosas e militares, constituindo-se como uma das mais notáveis construções das igrejas-fortalezas do românico nacional, com a sua singular estrutura que passa das três naves mais altas da torre fronteira, abobadadas, à nave única com cobertura de madeira do corpo. O mais importante presbitério rural que, no seu estilo, se ergue em terras da Beira Alta, no dizer de Vergílio Correia (CORREIA, 1924).
Com um primeiro foral concedido, em 1057, por D. Fernando Magno de Leão a uma população maioritariamente formada por mouros, tal acabaria por influenciar o topónimo, que se manteve até aos nossos dias. D. Teresa confirmou este foral em 1111, tendo a Igreja sido construída entre a segunda metade do século XII e a primeira do século XIII, época em que o priorado é entregue aos Hospitalários (RODRIGUES, 1995). Com a morte de D. Guiomar Coutinho, último membro da Casa de Marialva, a que a igreja pertencia, o padroado foi transferido para a Universidade de Coimbra por D. João III, através do Breve CIRCA OFICII QUOD, do Papa Paulo III (1537, 14 Março).
Características
A fachada deste templo fortificado é marcada por um corpo rectangular, que lhe confere a sua individualidade, é suportada, interiormente por arcos de volta perfeita, que descarregam em pilares sustentados, exteriormente, por contrafortes.
No centro, um portal de arco apontado, com quatro arquivoltas, envolvidas por uma faixa axadrezada, e capitéis de ornatos zoomórficos e vegetalistas, debruado por uma banda de enxaquetado, com características semelhantes ao da Igreja de Santa Maria de Almacave, em Lamego.
Numa época em que poucos eram aqueles que liam (e esses eram essencialmente monges e clérigos) e raros eram os livros existentes, penosa e pacientemente copiados nos scriptoria dos mosteiros e conventos, importava fazer chegar a todo o crente, a todo o espaço da Cristandade, a palavra divina. E na impossibilidade de a dar à leitura, impunha-se encontrar um meio em que a forma e conteúdo vissem preservados a sua sacra dignidade e fossem, ao mesmo tempo, acessíveis a todos. “A imagem é a escrita dos iletrados”, escreveu Gregório I, o Grande, Papa de
Suporte da mensagem, o templo afirmava-se sólido, imutável, simbolicamente eterno, frequentemente inexpugnável, atraindo a atenção dos crentes para a sua massa pétrea e, sobretudo, para a fachada e porta axial, onde se concentrava o mais importante acervo da decoração escultórica exterior (RODRIGUES, 1995).
Na fachada de S. Martinho de Mouros encontram-se outras particularidades, nomeadamente no lado esquerdo da porta de entrada, onde são visíveis dois sulcos sobre a parede. Trata-se da “vara” e do “côvado”, antigas medidas de comprimento equivalentes respectivamente a 110cm e a 70cm, que serviam de padrão legal aos comerciantes que aqui vinham, periodicamente, em dias de feira, aferir as suas medidas perante o povo (FURTADO, 1986, COSTA, 1979).
Transposta a “porta” exterior, intensamente iluminada, entra-se no interior de estudada escuridão, onde apenas algumas frestas lançam uma ténue luz sobre o espaço e a decoração interna, convidando ao recolhimento. O mistério é assim reforçado por um efeito cenográfico, contando com a lenta adaptação da vista do observador à penumbra, dificultando a total e imediata percepção do que o rodeia: começando no portal, continuando nos capitéis da nave e culminado no cruzeiro (a manifestação de Deus) que, pela sua luminosidade, eleva o olhar do crente.
Destaca-se a cobertura da capela-mor, que sobreviveu à intervenção de restauro purista dos anos 50 do séc. XX, formada por vinte e quatro caixotões de madeira policromada, de produção barroca, com temática hagiográfica, onde podemos identificar alguns santos jesuítas e cistercienses, São Jerónimo, o “Baptismo de Cristo” e os quatro Evangelistas.
A ladear o arco triunfal, no lado do Evangelho, existe uma pintura mural quinhentista representando São Martinho, o orago do templo, com vestes de bispo, com mitra e báculo, abençoando com a mão direita e, no lado da Epistola, em muito mau estado, uma figura feminina religiosa e um cavalo.
Intervenções
A Igreja de S. Martinho de Mouros contempla, a nível da sua arquitectura, vários estilos (românico, gótico, maneirista e barroco), fruto de intervenções sofridas ao longo dos séculos. No entanto, foi no século XX que diversas intervenções, pelo seu grau e dimensão, mutilaram a estrutura deste templo religioso, com consequências, em alguns casos, irreparáveis.
Para cumprir os propósitos da ditadura criou-se a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), cuja acção, embora frequentemente controversa, permitiu conservar grande parte dos monumentos religiosos e militares românicos que sobreviveram às vicissitudes do século XIX ou do início do século XX, com o anticlericalismo dominante da Primeira República.
A sua acção iniciou-se logo na primeira metade da década de 30, privilegiando o restauro de monumentos românicos, ao qual procuravam assegurar, por vezes a um preço demasiado elevado, a sua “pureza” original (DGEMN, 1937).
Os meados do século XX motivaram diversas intervenções neste edifício religioso, em consequência, nomeadamente, da derrocada do campanário em 1944 (18 de Novembro). Mais recentemente, em 2002, foram efectuadas obras de reparação e beneficiação geral das coberturas; intervenções de conservação da talha e estatuária dourada e policroma do retábulo da Epístola; reparação da estrutura da cobertura e substituição de telhas; limpeza dos paramentos exteriores, com refechamento de juntas e reparação e pintura de caixilharias e portas.
Hoje, a Igreja de S. Martinho de Mouros constitui um local obrigatório de passagem para quem quer conhecer o vasto e rico património medieval do Douro Sul, uma importante zona de passagem e de cruzamentos culturais.
ACESSO
ENQUADRAMENTO:
Peri-urbano, isolado, a meia encosta, em superfície plana artificial, sustentado por muro alto, em alvenaria de granito, formando um adro, dentro do qual se encontra um cruzeiro de pedra, inserindo-se em zona de interesse paisagístico. A fachada principal confina com a via pública, pavimentada a cubos de granito e, junto, situa-se a residência paroquial.
CONSTRUÇÃO:
Século XII / XIII. O templo actual parece ter três momentos de construção: o primeiro corresponde ao corpo da nave; depois reconstruiu-se a capela-mor quadrangular, com o arco triunfal levemente abatido, e capitéis decorados; finalmente, ergueu-se a torre e da facada, acabada já no século XIII, como atesta o portal axial, apontado, com capitéis vegetalistas de decoração tardia. Nota-se uma forte influência da escultura bracarense nos capitéis de ousia, aparentados aos de Rates, revelando a capacidade de penetração da reforma beneditina até zonas bem mais longínquas da área de intervenção da diocese; e atestando, ao mesmo tempo, a relativa antiguidade desta fundação, seguramente iniciada ainda no século XII.
BIBLIOGRAFIA ESPECÍFICA PARA O ARTIGO:
CORREIA, 1924
CORREIA, Vergílio, Monumentos e Esculturas, Lisboa, 1924.
COSTA, 1979
COSTA, M. Gonçalves da, História do Bispado e da Cidade de Lamego – Paróquias e Conventos, vol. II, Lamego, 1979.
DGEMN, 1937
Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), n.º 10, Lisboa, 1937.
FURTADO, 1986
FURTADO, Maria Leonor de Moura, Igreja de São Martinho de Mouros, Lisboa, 1986/87.
PINTO, 1982
PINTO, Joaquim Caetano, Monografia do seu Concelho – Resende, Braga, 1982.
RODRIGUES, 1995
RODRIGUES, Jorge, O mundo românico (séc. XI - XIII), in História da Arte Portuguesa, (Dir. Paulo Pereira), vol. I, Lisboa, 1995.
VASCONCELOS, 1918
VASCONCELOS, Joaquim de, A Arte Românica em Portugal, Porto, 1918.
*Artigo da autoria do Dr. Paulo Sequeira, docente de história na Escola Secundária D. Egas Moniz, publicado no Jornal de Resende (edição de Novembro de 2009)