domingo, 10 de outubro de 2010

RESENDE NA PRIMEIRA REPÚBLICA*

Ex.ma Senhora representante da Câmara Municipal, profª Dulce Pereira

Ex.. ma Senhora Presidente do Rotary Club de Resende

Senhores Rotários

Ex.mos Senhores Professores e alunos da Universidade Sénior

Senhores Convidados

Minhas Senhoras e meus senhores

Sólon, ilustre poeta, sábio legislador e pai da democracia ateniense, que viveu no século VI a. C., ao ver-se em estádio adiantado na sua caminhada existencial, costumava dizer e repetir:

Envelheço todos os dias mais um pouco, aprendendo mais, aprendendo sempre, sem nunca me cansar de aprender.

No “Jornal de Resende” do passado mês de Julho, com compreensível gáudio e natural contentamento da minha parte, li a notícia da tomada de posse da senhora dra. Carla Silva como presidente do Rotary Clube de Resende e da sua intenção de prosseguir os trabalhos de implementação de uma Universidade Sénior, aqui, na vila e no concelho, para utilidade e estímulo dos resendenses menos jovens que desejem continuar a desenvolver as suas capacidades literárias e artísticas e a enriquecer ainda, e sempre mais, o acervo já bem rico das suas experiências de vida nos caminhos que trilharam. Não imaginava eu nessa hora que tão depressa se concretizasse esse sonho e que me coubesse a mim a honra de abrir as actividades da escola com esta simples e despretensiosa comunicação.

Muito obrigado!

Quando a Dra. Anabela Oliveira, ilustre coordenadora do projecto, me dirigiu tão honroso e amável convite, fiquei na dúvida sobre o tema que haveria de abordar na circunstância. Atendendo porém à data deste soleníssimo acto de abertura e à efeméride que o país inteiro celebra nestes dias, achei oportuno e interessante falar um pouco do que se terá passado em Resende na implantação do novo regime e em todo o período da Primeira República, desde a revolução de 5 de Outubro de 1910 até ao golpe militar de 28 de Maio de 1926.

Não é fácil fazer a história de um período da nossa vida municipal de que não existem outras informações para além das actas da Câmara, que pouco dizem, e de uma outra notícia resumida e rara, enviada daqui para os jornais do Porto.

Mesmo assim, e apesar de tudo, espero corresponder de algum modo ao que poderiam esperar de mim.

Minhas Senhoras e meus senhores

Para compreendermos melhor o fenómeno da República cujo centenário estamos a celebrar, permitam que eu faça uma súmula rápida e despretensiosa sobre o caminho da nossa história política e social.

Nascidos como nação independente em meados do século XII, e sendo um dos mais velhos países do continente europeu, vivemos os muitos séculos da nossa gloriosa e longa história num regime de monarquia hereditária.

Sob a tutela e orientação de um rei ou de uma rainha, cuja sucessão estava regulada por leis próprias que alguns, ainda hoje querem reportar às discutidas e quiçá lendárias Cortes de Lamego, mas também, e em simultâneo, com uma longa experiência democrática de âmbito essencialmente municipal, fomos cavando alicerces, abrindo caminhos, alargando fronteiras, domando mares e oceanos, desbravando florestas e sertões e construímos um grande império, talvez o maior império de sempre, com espaços e pessoas em todos os continentes.

Aquele século XV foi um século inolvidável.

Levamos o Evangelho, a Língua e a Cultura Portuguesa aos mais recônditos lugares da terra e aí deixamos marcas indeléveis e incomparáveis da nossa civilização cristã, plural e humanista.

Ao longo de mais de um século, Portugal foi o âmago real do mundo, e Lisboa, o grande empório do comércio e o ponto de encontro de várias civilizações.

Alexandre Herculano achava que fora possivelmente um destino honroso e privilegiado que Deus nos dera, e que nós cumprimos com zelo, audácia e dedicação.[1]

Queridos ouvintes

Ao longo da nossa monarquia, nuns reinados mais e noutros menos, os soberanos sempre se conduziram como príncipes aparentemente respeitadores dos interesses do país. Pesem embora as questões havidas entre os reis, por um lado, e o clero e a nobreza, pelo outro, frequentes, a verdade é que os nossos monarcas sempre deram ouvidos às queixas e às reivindicações da população. As chamadas Cortes, convocadas periodicamente por eles próprios, eram verdadeiros espaços de diálogo, em que os representantes da nação faziam ouvir as suas queixas e apresentavam os seus alvitres em ordem à boa governação.

Tal costume, entretanto, foi-se esbatendo cada vez mais a partir de D. João II e desapareceu mesmo, por algum tempo, com o rei D. Manuel I.

“Senhores do Comércio e da Conquista”, tinham os dois monarcas enormes benesses para distribuir aos grandes do reino que, desse modo, se lhes mantinham fiéis e viviam controlados. Foi esta a primeira experiência manifesta ou a primeira fase enfática do absolutismo régio em Portugal.

O problema viria a agudizar-se ao longo dos séculos XVII e XVIII. Aos poucos, os monarcas europeus e também os portugueses, foram impondo cada vez mais a sua autoridade indiscutível, estendendo o seu domínio absoluto à vida social, política, económica, cultural e religiosa e abatendo todos os que de algum modo pusessem em questão essa mesma autoridade.

“L’Etat cest moi! – dizia Luís XIV, o conhecido “Rei-Sol” que governou a França no início do século XVIII.

Em Portugal, a um D. João V, magnânimo e opulento, que não precisava de nada nem de ninguém, com o muito ouro que lhe vinha do Brasil, sucedeu um D. José insonso, mais interessado na caça e no teatro do que na governação do país. O seu reinado, entregue a um ministro ambicioso e plenipotenciário – o Marquês de Pombal - vestiu a pele e as atitudes de um intolerável e incrível despotismo. Basta recordarmos a expulsão geral dos padres jesuítas e o enforcamento público de diversos fidalgos que lhe eram desafectos.

A este absolutismo poderoso e prepotente, responderam em França os filósofos da Enciclopédia, proclamando a igualdade de todos os homens, a necessidade de se pôr fim aos privilégios de pessoas e de grupos e a urgência de o poder ser repartido.

Tais ideias, trazidas até Portugal no início do século XIX pelas Invasões Francesas e logo depois pelas folhas e jornais que chegavam de Paris, foram germinando e crescendo aos poucos na mente da burguesia portuguesa e foram o rastilho que veio a acender a revolução liberal de 1820.

Resende orgulha-se por ter tido na preparação de tal mudança, como figura de topo e membro destacado do Sinédrio, um dos seus notáveis filhos: o juiz Manuel Borges Carneiro, da Casa das Cotas.

Com a revolução liberal, a monarquia baseada até então no poder absoluto e indiscutível do rei ou da rainha foi substituída por uma Monarquia Constitucional, com uma lei a balizar os poderes dos dirigentes e uma regra a definir os direitos dos cidadãos.

O que aconteceu, porém, é que o país mergulhou pouco depois numa guerra civil entre os saudosistas do Antigo Regime e os entusiastas das novas ideias expressas na Constituição e, para além da guerra civil, generalizaram-se as ambições da média e da grande burguesia (proprietários, comerciantes e burocratas), na conquista rápida de lugares, de títulos e de propriedades, a desinteligência dos partidos, a instabilidade na governação e o aproveitamento corrupto das cadeiras do poder.

Para se obter um lugar de deputado nas Cortes, vendia-se então a alma, a consciência e a própria dignidade. Eça de Queiroz, cultor da grande escola realista na literatura portuguesa do século XIX, um dos maiores críticos da política do tempo e da sociedade da época, deixou essas ambições magistralmente retratadas na pessoa e nas atitudes do nosso fidalgo da Torre, Gonçalo Mendes, no seu imortal romance “A Ilustre Casa de Ramires”. [2]

No meio de tudo, o arranjismo, a pobreza mental e o oportunismo dos políticos, o parasitismo de muitos em relação ao Estado e a passividade da maioria em relação aos inúmeros e graves sintomas da decadência social - o que levava Alexandre Herculano a chamar a Portugal uma “nação decadente”. [3]

Henriques Nogueira, o primeiro e principal ideólogo da República, escrevia o seguinte logo nos meados do século XIX:

“quisera que, num país como o nosso, emancipado por cruentos esforços da tutela humilhante, egoísta e sanguinária da monarquia absoluta, cansado do regímen espoliador, traiçoeiro e faccioso da monarquia constitucional, necessitado de restaurar as forças perdidas em lutas estéreis e de cicatrizar feridas que ainda gotejam, ávido, enfim, de gozar as doçuras da liberdade por que tanto há sofrido,(quisera que) o governo do Estado fosse feito pelo povo e para o povo, sob a forma nobre, filosófica e prestigiosa de REPÚBLICA”. [4]

A instauração de um regime verdadeiramente democrático – um governo do povo em favor do povo – implicava necessariamente o derrube da monarquia.

Basílio Teles, um dos ideólogos da República, em resposta à pergunta sobre o programa do partido republicano que então se ia delineando lentamente, assim deixava escrito: “A Monarquia, em Portugal, tem sido isto: a incompetência, o impudor, a opressão. E concluía: “não há senão um acto de caridade a contrapor: a demolição sumária do regime”. [5]

Na mente dos defensores de uma nova ordem, e sobretudo nas suas actividades de propaganda, a Igreja Católica aparecia entretanto estreitamente aliada ao regime que se queria derrubar. O anticlericalismo, filho do positivismo francês, dominava as mentes e os corações dos vanguardistas da República

Nas vésperas e nos dias da revolução, ser republicano era, antes de mais, ser contra a Monarquia e contra a Igreja, particularmente contra os Jesuítas. A Igreja tinha nas suas mãos e ao seu cuidado, desde os tempos medievos, o ensino e a assistência do país e exercia uma enorme influência nas mentalidades e na vida da sociedade portuguesa, o que não era bem visto nem aceite pelos livres-pensadores. Para derrubar a monarquia, entendia-se que era necessário também desacreditar a Igreja, chamando-a, entre outras coisas, retrógrada e obscurantista.

Estando a monarquia cada vez mais desacreditada, mesmo aos olhos de muitos ilustres monárquicos, a ideia da República aparecia então aos olhos dos seus defensores com a aura de um certo messianismo vago e mal definido, mas suficiente para se acreditar que bastava a sua proclamação para libertar o país de todas as injustiças e salvá-lo de todos os males.

Sonhava-se com um regime perfeito “ do povo para o povo”, baseado numa completa igualdade e cimentada na chamada justiça democrática.

No último lustro do século XIX, as gerações mais jovens do país já não acreditavam mais no regime monárquico constitucional. A este caldo favorável à mudança, habilmente aproveitado pelo Partido Republicano criado em meados da década de 1870, veio juntar-se a crise económica europeia de 1890 que trouxe consigo inúmeras falências de empresas com um desemprego galopante, o aumento assustador da dívida pública, e ainda a questão do humilhante Ultimato enviado a Portugal pela Inglaterra, em 11 de Janeiro de 1890.

O Partido Republicano, interessado em derrubar a monarquia, e já presente em todo o país através de comissões políticas municipais e paroquiais organizadas, apoiava-se cada vez mais nas forças da Maçonaria e, no início do século XX, na famosa e terrível Carbonária, sociedade secreta com grande influência nas massas populares, presente e actuante nas cidades e na província, e treinada e disponível para usar a violência, o enxovalho e o insulto, a qualquer hora e em qualquer circunstância.

Provavelmente, eram elementos da Carbonária e instigados por essa organização, os dois homens que, em 1 de Fevereiro de 1908, com o objectivo de matar a monarquia mais depressa e com menos dificuldade, mataram o rei D. Carlos e o filho herdeiro do trono, no Terreiro do Paço, quando regressavam de Vila Viçosa.

O Partido Republicano, por seu lado, foi tentando assumir o poder ou minar o mesmo poder apresentando-se às eleições locais e nacionais que iam acontecendo, e muitos êxitos alcançou. No Círculo de Lisboa, já tinha a maioria na Câmara.

Por esse caminho porém a viagem era longa, morosa e complicada, e o objectivo talvez inatingível.

Só a revolução. Tinha que fazer-se uma revolução.

Uma primeira tentativa para derrubar a monarquia, levada a cabo por sargentos e cabos das guarnições militares do Porto, em 31 de Janeiro de 1891, na sequência do Ultimato e da revolta geral que o mesmo criou entre o povo, de norte a sul, foi esmagada ao cabo de duas horas pelas baterias da Serra do Pilar e pelas forças da Guarda Municipal da cidade, postadas ao cimo da rua de S. António. [6]

A tentativa definitiva viria a ter início na capital pela meia-noite de 3 para 4 de Outubro de 1910, quando sua majestade o rei D. Manuel II jogava uma partida de bridge com o presidente da República do Brasil, de visita a Portugal.

Organizado pela Carbonária - os caceteiros da maçonaria - apoiado pelo Directório do Partido Republicano e contando com as figuras então mais gratas às massas populares da capital, o movimento durou cerca de 19 horas, e esteve em risco de abortar. O chefe principal do movimento, o almirante Cândido dos Reis, convicto do desastre, suicidou-se com um tiro de pistola. Algumas forças acampadas na Rotunda, ao cimo da Avenida da Liberdade, chegaram a desertar. Só ficou o comissário naval Machado dos Santos a comandar uns duzentos homens, civis e militares que, barricados, aí aguentaram mais tempo e, no meio de enorme confusão e de grandes manifestações populares, acabaram por vencer.

Ao tempo, com exagero certamente, alguns como Guerra Junqueiro, chamaram à revolução um “milagre,” e outros, como Gomes da Costa, apelidaram-no de “bambúrrio”, ou seja, um golpe de sorte ou de magia.

Disse o primeiro: “Fez-se o milagre da Rotunda. Milagre que eu comparo aos de Lurdes. Ali vedes um paralítico erguer-se de repente: salvou-o a fé em Nossa Senhora de Lurdes. Aqui, um povo paralítico há trinta séculos, ergueu-se poderoso, porque tinha fé em Nossa Senhora da Liberdade ou da Pátria”.

Escreveu o segundo: “Vejam a Revolução. Que foi? Uma fuga; uma debandada! Fugiu tudo! Fugiram monárquicos, fugiram republicanos, fugiram todos…[7]

A verdade é que, pelas 9 horas da manhã do dia cinco, no meio de gritos e ovações e ao som de várias bandas musicais que circulavam pelas ruas da Baixa a tocar a “Marselhesa”e a “Portuguesa”, a um mar de gente apinhada no Largo do Pelourinho, numa das janelas da Câmara, anunciou José Relvas a instauração da República

Esta fora uma revolução essencialmente popular. Enquanto as demais revoluções portuguesas tiveram como actores altas patentes das forças armadas, esta foi o povo que a organizou e foi o povo que a salvou, com o contributo e a ajuda natural de umas centenas de sargentos e praças do exército e da marinha sedeados na capital.

Uma revolução dá-se apenas num lugar. Neste caso, na capital. E a província? Como chegar à província?

Conta Raul Brandão que João Chagas, durante o último ministério da monarquia, lhe dissera a esse propósito: Que me importa a província? Que me importa mesmo o Porto? A República, fazemo-la nós depois pelo telégrafo.

E assim foi.

Seis minutos depois da sua proclamação, o novo governador de Lisboa, Eusébio Leão, telegrafou para todas as vilas e cidades do país, enviando a seguinte mensagem:

Administradores do Concelho do continente.

Sirva-se arvorar bandeira republicana e aguardar ordens. Comunique à Câmara e mais repartições públicas para devido cumprimento.

Governador Civil de Lisboa, Eusébio Leão.

Em Resende, havia telégrafo desde 1888. Funcionava então numa casa particular, à beira do edifício da Câmara e hoje o Quartel da GNR, do outro lado da rua. [8]

Foi através desse telégrafo que chegou a Resende o referido texto vindo de Lisboa a dar conhecimento do que acontecera.

Era então Administrador do Concelho, como representante do governo central, o advogado Dr. João de Miranda Mendes, natural de Freigil mas com ascendência de S. Cruz do Douro e casado na Casa do Choupal, em S. Martinho de Mouros., e era presidente da Câmara o senhor José Cardoso Vieira.

Como é habitual em momentos como este, foi necessário mudar os rostos da equipa camarária, depondo os que estavam e substituindo-os por pessoas mais afectas ao regime entretanto instaurado.

Em obediência a um decreto emanado do Ministério do Interior da República, logo em 11 de Outubro, tomou posse da gestão da Câmara uma nova Comissão Municipal, constituída pelos seguintes munícipes: o Dr. João Canavarro Chrispiniano da Fonseca, de Barrô, que assumiu a presidência; Aquilino Borges Carneiro, das Cotas, que ficou como vice-presidente; e os Dr. Joaquim José Loureiro Dias, Dr. Manuel Joaquim Esteves e Joaquim Anthero Cardoso Vieira, na qualidade de. Vogais.

Nessa reunião de tomada de posse, foi lida por um membro da comissão a seguinte proclamação:

Concidadãos! Está finalmente libertada a glorioza Pátria Portuguesa! Depois de um longuíssimo período de verdadeira e violenta opressão, raiou enfim a aurora luminosa da liberdade![9]

Uma semana depois, para celebrar a instauração da República, a Câmara decidiu na sua reunião “iluminar a sede da comarca”.

Em 27 de Outubro, por incompatibilidade com o novo regime, foram substituídos o administrador do concelho e o vereador Dr. Joaquim José Loureiro Dias.

Tendo entretanto o Dr. João Chrispiniano sido nomeado director da Casa de Correcção de Vila do Conde, foi substituído em 3 de Novembro na presidência da Câmara pelo Dr. António Aurélio Monteiro de Araújo, um jovem advogado com residência em Minhães, na Casa de Aldeia de Baixo, que se manteve em funções até 30 de Novembro de 1911, sendo então substituído pelo Dr. Manuel Rebelo Moniz, nascido em Ponta Delgada e casado na Quinta do Monte, em Anreade.

O Dr. Rebelo Moniz manteve-se em funções até 1920 e, mais tarde, de novo, de 1927 a 1942, perfazendo 24 anos de mandato à frente da Câmara.

O Governo Provisório da República, entretanto, decidiu coisas tão boas como a liberdade de imprensa, o horário de trabalho, o dia de descanso semanal obrigatório e o direito à greve; criou o ensino pré-primário; estabeleceu o ensino obrigatório para todas as crianças dos 7 aos 11 anos; fomentou maior igualdade entre o homem e a mulher nos seus direitos; e instituiu o registo civil obrigatório de nascimentos, casamentos e óbitos, que até então não existia, e que fora sempre um cuidado exclusivo e benemérito da igreja em Portugal. [10]

A este propósito, não posso deixar de referir que o governo republicano, cometendo um crime inqualificável, extorquiu todos os livros de assentos de Baptismos, Casamentos e Óbitos que existiam nos nossos arquivos paroquiais, fruto do trabalho cuidadoso de muitas gerações de sacerdotes que passaram pelas paróquias, ao longo de quatro séculos, para os fazer seus e os guardar nos arquivos distritais, o mesmo acontecendo aos livros e documentos dos ricos arquivos da Sés e dos Paços Episcopais que foram depositados no Arquivo da Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional.

Isto foi muito doloroso para os párocos e para as paróquias: sem apelo nem agravo, extorquiram-lhes todos os livros que continham a história demográfica das suas famílias e das suas freguesias.

Formado em maioria por maçons, eivado de um anticlericalismo doentio e ansioso por laicizar a vida pública, depressa começou também o governo a tomar outras medidas humilhantes e insultuosas contra a Igreja, que me dispenso de enumerar por me escassear o tempo e para não ser fastidioso.

Não contente com isso, em 11 de Abril de 1911, publicou a Lei da Separação do Estado das Igrejas, redigida pelo maçon Afonso Costa, que então exercia funções no governo como Ministro do Interior.

Em consequência dessa lei, a hierarquia eclesiástica deixava de ser reconhecida e respeitada, substituindo-se ao poder eclesiástico o poder civil, e tomando este último o controle quase absoluto da vida e da organização da Igreja.

Pretendia-se laicizar o Estado, e bem. O Estado não tem que ser confessional. Nunca o devia ter sido.

Se a Lei da Separação tivesse sido apenas e verdadeiramente uma Lei de Separação, com respeito mútuo pela missão e função das duas partes, como se verifica actualmente, teria sido para a Igreja Católica o melhor presente de todos os tempos. Tal separação, desejada há muito por amplas camadas da Igreja, pelo menos desde 1904, [11] só podia ser benéfica para todos: uma Igreja protegida, subjugada ou instalada perde o seu dinamismo e torna-se tíbia, medíocre e preguiçosa. A Igreja sempre ficou prejudicada na sua acção de evangelizar e promover as pessoas quando esteve junta, casada ou amancebada com a política e com o poder.

O que se pretendia porém era controlar a Igreja, desligá-la de Roma, retirar-lhe toda a influência na sociedade, calar a sua voz, torná-la dependente do governo e subjugada ao poder político. E aí é que nasceu a chamada “questão religiosa” que tão prejudicial se veio a tornar depois para a própria República.

Na linha do que já tinha ocorrido nos tempos do liberalismo com as Ordens Religiosas, especialmente em 1834, a Igreja viu-se privada por esta lei de personalidade jurídica e foi expropriada da maior parte dos seus bens incluindo agora os seminários, as igrejas, os santuários e as capelas, e ainda as residências e os passais dos párocos, cabendo às comissões concelhias fazer o arrolamento e a inventariação desses bens. [12]

Em simultâneo, e para além de outras medidas ofensivas à Igreja e à liberdade religiosa, estabelecia-se a criação das chamadas “cultuais” – organismos laicos constituídos em maioria por maçons e livres-pensadores locais, afectos ao regime, encarregados de gerir os bens das igrejas e o exercício do culto, nomeadamente o toque dos sinos e o horário das Missas e das Procissões, que só podiam concretizar-se no interior dos templos – ficando expressamente excluídos de fazer parte delas os sacerdotes. Para substituir as côngruas paroquiais para as quais contribuíam os fiéis católicos, então foram abolidas pelo governo, estabeleceu-se um sistema de “pensões” a pagar pelo Estado “aos ministros da Religião Católica” que as requeressem.[13]

Para levar a lei à prática, para além de um rede complicada de comissões distritais e concelhias, difíceis de constituir e de coordenar, criou-se a chamada “Comissão Central de Execução da Lei de Separação”,[14] e uma “Comissão Nacional de Pensões Eclesiásticas”, dependentes do Ministério da Justiça.

Resende não era excepção, logicamente, e foram então as nossas paróquias todas espoliadas das igrejas e capelas e também dos passais e das residências dos párocos. Tudo foi devidamente arrolado e inventariado por comissões locais às ordens do governo e tudo ficou a pertencer ao Estado. Passais e residências dos párocos foram todas vendidas depois em hasta pública pela melhor oferta, revertendo todo o lucro para os cofres do Estado, e as igrejas e capelas foram cedidas gratuitamente aos sacerdotes e ao povo que o requeressem, para aí celebrarem o culto religioso que desejassem.

As igrejas e capelas vieram a ser devolvidas às paróquias mais tarde, já em 1940, com Lei da Concordata entre o Estado Português e a Santa Sé. Ao contrário, as residências e os passais acabaram por ficar para sempre na posse de quem as adquiriu nos ditos leilões realizados na sede do distrito. Exceptuam-se os passais e as residências de Freigil, de Cárquere e de S. Martinho de Mouros que, tendo sido arrematadas por particulares, foram depois generosamente entregues pelos mesmos às paróquias.

Quanto aos párocos do concelho, sem qualquer fonte de subsistência (o governo tinha-lhes retirado a côngrua e os passais para se verem na necessidade de aceitar a tal pensão do Estado e assim ficarem dependentes dele), permaneceram firmes no seu posto e, dos 15 que então havia, só um aceitou a tal pensão do governo. [15]

Outro facto digno de nota é que, por informação de professores que eu ainda conheci, quando os professores do país receberam ordens para retirarem os crucifixos das escolas e não fazerem mais qualquer referência à Fé ou à Religião no exercício do seu múnus, nenhum professor de Resende obedeceu, mesmo sabendo que ficava em risco a sua própria subsistência. Honra lhes seja!

Quando, em 1914, a Comissão Central de Aplicação da Lei da Separação enviou a todas as Câmaras do país um minucioso questionário sobre o modo como estava a ser aplicada a mesma lei e sobre as reacções das populações sobre o assunto, o nosso presidente da Comissão Executiva da Câmara, Rebelo Moniz e o nosso administrador do concelho Aquilino Borges Carneiro, ao contrário de outros, foram notavelmente correctos e respeitadores.

Rebelo Moniz, mais claro e expressivo nas respostas, à pergunta sobre a qualidade da Lei da Separação, respondeu:

A intransigência demagógica tem sido a maior calamidade para a República.

Quando o questionaram sobre a reacção do povo, em relação à Lei, disse:

É geral o protesto, e maior seria se não houvesse moderação na aplicação da lei.

Sobre o aumento ou a diminuição da fé e da prática religiosa do povo, na sequência dessa lei, declarou:

Aumentou como não há memória. Assim lavram os católicos o seu protesto.

Quando, no último ponto do questionário, lhe pediram o para dar o seu parecer pessoal sobre a lei, escreveu:

Este quadro cor-de-rosa (que acima referi) deve-se exclusivamente à prudência e ao tacto administrativo das autoridades e individualidades políticas que nos primeiros anos da República preponderaram no concelho. Legitimamente se foi aplicando a lei em tudo o que não pudesse levantar o protesto popular nem escravizar a consciência dos crentes. Na revisão (da lei), devia-se atender às constantes e conhecidas reclamações do povo português, se querem que um dia ele sirva a República. [16]

Este é um assunto de grande interesse que eu irei apresentar em Lisboa, na próxima Primavera, em assembleia-geral da Academia Portuguesa de História, com um ângulo mais alargado e profundo, a focalizar todo o distrito de Viseu.

Nesse mesmo ano de 1914, começou a 1ª Grande Guerra. A Alemanha, a Turquia, a Bulgária e a Áustria-Hungria de um lado, e a França, a Sérvia, a Inglaterra e a Itália do outro, envolveram-se num enorme conflito que flagelou e dizimou a Europa durante quatro anos.

Aliados da Inglaterra e vendo-nos na necessidade de defender as nossas colónias africanas disputadas há muito pela Alemanha e pela Inglaterra, acabamos por ter de nos envolver também na Guerra, dois anos depois, ao lado da Inglaterra e da França. Os soldados portugueses foram enviados para Angola e Moçambique, primeiro, e mais tarde para França, e, apesar de mal armados e mal alimentados, deram provas de especial bravura e enorme coragem em todas as circunstâncias.

De Resende, era o capitão Nunes da Ponte, filho do médico Nunes da Ponte que era natural dos Açores, e que tem aqui na vila uma rua com o seu nome. O filho, esteve em Moçambique envolvido nas operações militares de 1918.

No Corpo Expedicionário Português, através do Regimento de Infantaria nº 9 de Lamego, seguiram muitos rapazes de Resende para França, onde lutaram como verdadeiros heróis. A maior parte regressou e ainda conhecemos alguns deles, mas oito perderam a vida nas trincheiras e nos campos de batalha e os seus corpos ficaram sepultados nos cemitérios de França: quatro de Resende, três de Barrô e um de Anreade. Na mesma altura, morreram de pneumónica, em África, onde se encontravam ao serviço da pátria, mais três soldados do concelho: um de Anreade, um de Barrô e outro cuja freguesia não consegui identificar. [17] Julgo que, ao contrário de muitas outras terras, Resende nunca lhes rendeu a homenagem que eles mereciam.

Andavam os soldados na Guerra, o país estava arruinado economicamente, o povo andava magoado, descorçoado e sem esperança, quando, de 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917, apareceu Nossa Senhora a três miúdos na Cova da Iria, em Fátima, pedindo a conversão e a oração de todos para que se renovasse o país e o mundo, para que acabasse a guerra e os soldados voltassem para casa.

Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz e o fim da Guerra![18]- disse Nossa Senhora em 13 de Maio.

Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz! A Guerra vai acabar, mas, se não deixarem de ofender a Deus, começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo dos seus crimes por meio da guerra, da fome e da perseguição à Igreja e ao Santo Padre! – avisou no mês de Julho.[19]

A Guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para as suas casas. – afirmou a Virgem em 13 de Outubro.[20]

O fenómeno das aparições foi então muito mal visto pelas autoridades, eivadas de descrença e interessadas em minimizar a Igreja e em destruir a fé em Portugal. Na noite de 23 de Outubro de 1917, os carbonários de Santarém foram a Fátima e cortaram o tronco da azinheira onde Nossa Senhora aparecera. A primeira capelinha das aparições, foi dinamitada em 6 de Março de 1922. Os miúdos, por ordens vindas de Lisboa, chegaram a ser presos, interrogados e ameaçados pelo Administrador de Ourém, por terem inventado uma “mentira” tão grande.

Entre parêntesis, lembrarei que ainda hoje há alguns historiadores que acusam a Igreja, então em dificuldades, de ter inventado as aparições de Fátima para atrair de novo as multidões à Fé e à prática religiosa, o que não tem cabimento. Pergunto: Crianças tão pequenas, analfabetas, tímidas e aldeãs, interrogadas nessa mesma hora por pessoas insuspeitas (jornalistas do Século, por exemplo), eram capazes de inventar coisas tão sérias, dizer informações doutrinalmente tão seguras, prever o fim duma guerra tão grande e anunciar o princípio de outra que só viria a acontecer vinte anos mais tarde?

A verdade é que as palavras dos miúdos estavam certas: a Primeira Grande Guerra acabou no ano seguinte; uma rara e estranha “aurora boreal” - o sinal anunciado por Nossa Senhora - aconteceu na noite de 25 para 26 de Janeiro de 1938; e a Segunda Grande Guerra, que dizimou a maior parte da Europa, começou em 1 de Setembro de 1939.

A minha queria mãe, que observou o tal sinal, contava-nos que um certo dia, ao anoitecer, o sol ficou vermelho, aos poucos todo o firmamento ficou em chamas de lume, parecendo que tudo iria arder, e que as pessoas, pensando que era o fim do mundo, apertavam as mãos na cabeça, gritavam por socorro e corriam para as igrejas e capelas a rezar e a pedir perdão dos seus pecados.

O ano de 1918, para além de ser o ano em que a Primeira Grande Guerra terminou, no mês de Novembro, ficou marcado na história por outros importantes motivos.

O primeiro foi a “gripe pneumónica” também conhecida por “peste espanhola”: uma enorme epidemia que atingiu o país de norte a sul, matando famílias inteiras e causando o pânico por toda a parte. Entre 1918 e 1919 morreram da peste no país 102.750 habitantes. Em Resende, só no ano de 1918, faleceram 839 pessoas, quando, em anos normais, o número de óbitos não ultrapassava as 400. Meus pais diziam que, no mesmo funeral, chegavam a ir 4 e 5 pessoas a enterrar e que houve casas que ficaram sem ninguém.

O caso foi tão complicado que, ainda hoje, a recordá-lo, se encontra no átrio do Hospital de S. António, no Porto, uma lista enorme de médicos e enfermeiros que morreram também nessa época, infectados pelos doentes que tratavam.

Outro facto importante ocorrido em 1918 foi a restauração da monarquia no norte do país.

Como reacção ao assassínio do presidente da República, Sidónio Pais, na estação do Rossio, em 14 de Dezembro desse ano, quando ele se preparava para viajar de comboio para o Porto, e na tentativa de acabar com os males de que a República e o país sofriam, as guarnições militares do Porto pegaram em armas e, no dia 19 de Janeiro do ano seguinte, instauraram de novo a monarquia, conseguindo em pouco tempo controlar toda a região do norte do país, excepto a vila de Chaves. A Junta Governativa do Reino que então se constituiu, presidida por Paiva Couceiro, tentou organizar política, militar e administrativamente todo o território que lhe obedecia, inclusivamente nomeando governadores civis para todos os distritos de Viana até Coimbra, e revogou toda a legislação promulgada em 5 de Outubro de 1910.

Seguiu-se então uma guerra civil entre os que procuravam impor a monarquia e os que tentavam defender a república.

Foi nesta fase, que ficou conhecida por “Monarquia do Norte”, que se tornou famoso mais um resendense, natural de Anreade, o Eng.º Alberto Teixeira dos Santos.

Segundo consta, pôs ao dispor dos monárquicos os seus conhecimentos de engenharia e, com a ajuda dos amigos da monarquia nesta nossa região do sul do Douro, dinamitou a Ponte de Mosteirô, no início de Fevereiro desse ano, para tentar impedir o progresso das forças republicanas que avançavam para o norte, vindas de Lisboa e do sul. [21]

Consta também que, nessa mesma altura, um grupo de habitantes de Felgueiras proclamou solenemente a restauração da monarquia, conseguindo rapidamente a adesão da maioria da população. O líder do grupo, Manuel de Almeida, pai do nosso saudoso Pe. Dr. Albino de Almeida Matos, obrigou uma sua irmã que estava com gripe a erguer-se da cama para lhe bordar com toda a urgência uma bandeira da monarquia e percorreu a aldeia toda dando vivas à Monarquia restaurada, com a oposição revoltada de um seu conterrâneo vindo do Porto que, sendo republicano, não tirou o seu chapéu à monarquia e esteve à beira de provocar um incidente de grandes proporções.

Minhas senhoras e meus senhores, essa bandeira ainda existe. Pena tenho de que não seja possível apresentá-la hoje aqui, como esperava, por se encontrar em Coimbra, na casa das dedicadas irmãs do senhor Pe. Dr. Albino Matos.

O reino da monarquia foi porém muito fugaz. As forças republicanas, depois de repetidas escaramuças, acabaram por entrar no Porto, logo em 13 de Fevereiro, e restauraram a República e a Constituição de 1911.

Tanto o nosso engenheiro de Palma como os monárquicos de Felgueiras passaram então um mau bocado. Conhecida a sua intervenção, os republicanos andaram no seu encalço, tentando prendê-los e aplicar-lhe o”castigo” que ele mereciam.

Uns e outros andaram fugidos de suas casas, com receio do pior.

Em relação ao Engº de Palma, conta-se que, durante muito tempo, o homem saía de manhã de casa, antes de aclarar o dia, refugiava-se nas minas das cercanias e numa furna da Alagunta, perto de S. Romão, e só regressava a Palma, depois de escurecer por completo. Consta ainda que um seu irmão, que o ajudou na operação da ponte, se fora esconder numa loja de gado em S. Romão, no lugar de Garrafola.

Querido ouvintes

Da Primeira República, podemos dizer hoje que não foi muito mais que um sonho e um abrir de horizontes. Um sonho de liberdade e de democracia que depressa se esvaiu em desilusão e descrédito; mas um abrir de horizontes que viria a deixar entrar de novo o sol, 64 anos mais tarde.

Efectivamente, em toda a Primeira República, os problemas do país, que já vinham da monarquia, continuaram e agudizaram-se ainda mais: os partidos políticos guerreavam-se ferozmente; as lutas pelo poder eram encarniçadas e constantes; o parlamento punha e depunha os governos com contínuas moções de censura, não lhes dando tempo para legislar e governar: em 16 anos de regime tivemos 45 governos e 8 presidentes de república, o que dá, em relação aos governos, uma média de 3 a 4 meses de gestão para cada um; a corrupção dos políticos era uma doença considerada incurável; as greves sucediam-se umas às outras como rajadas de vento, a abanar e a destruir a economia do país: só no ano de 1911, 247; a má governação, os maus anos agrícolas e as despesas com a Guerra lançaram o país na bancarrota e na fome; a dívida pública aumentava sempre mais; a moeda desvalorizava-se; o crédito internacional era cada vez mais difícil; os juros dos empréstimos ao país subiam assustadoramente; a insegurança nas ruas era cada vez mais insustentável; os atentados à bomba e os assassinatos na rua traduziam uma enorme agitação social; a carestia de vida não parava de crescer; e a emigração de portugueses para o Brasil era uma verdadeira “sangria nacional”: só em 1813, saíram 67 mil concidadãos.

No meio disto, Resende não era excepção. Havia muito analfabetismo e passou-se muita fome por aqui. Quando a República se impôs, o drama do analfabetismo atingia em Resende 80% dos nossos conterrâneos. A população, que rondava então as 20.000 pessoas (quase o dobro da população actual) vivia exclusivamente do que a terra produzia. Não havia qualquer subsídio ou apoio do Estado às crianças, aos pobres, aos doentes ou aos idosos. Muitos tiveram de emigrar para o Brasil, tentando fugir à pobreza.

A tudo isto, em Resende e no país, acrescia ainda um descontentamento geral, pela forma como a República tratava a Igreja e a Religião.

O insuspeito historiador Fernando Rosas, deputado do Bloco de Esquerda, dizia há dias, em Fátima, que os maus-tratos que a República deu à Igreja, foram a causa principal da sua perdição. [22]

Estava o ambiente mais que preparado para que alguém, contando com o apoio da maior parte da população, tomasse conta do poder e pusesse ordem no país. Foi o que aconteceu em 28 de Maio de 1926. Um movimento militar saído de Braga sob a direcção do general Gomes da Costa, apoiado aos poucos pelos demais quartéis do país, tomou conta do poder e propiciou o aparecimento do estado autoritário que se designou por Estado Novo, que só veio a ser derrubado em 25 de Abril de 1974.

Vamos concluir

Resende, ao longo dos 16 anos da Primeira República, não recebeu nenhum benefício que se conheça. Apenas dificuldades, doenças e misérias.

Efectivamente, a estrada nacional nº 37 (hoje 222) já estava no ribeiro do Paço no início do século.

A sua continuação até S. Gens só veio a acontecer em 1926, já depois do 28 de Maio, tendo sido para o efeito apeada a Capela de S. Gens que dava o nome ao lugar, e substituída pela actual da Senhora da Livração.

Foi porém durante o Estado Novo, já no 2º mandato de Rebelo Moniz, mais concretamente em 1828, que o nome do povoado de S. Gens se mudou para “Vila de Resende”, se criou o brasão com as armas do concelho, e se deu início a um período de grandes obras que ainda hoje emolduram a nossa sede municipal: a continuação da estrada para Caldas de Aregos, o edifício dos Paços do Concelho e a electricidade a S. Martinho de Mouros; o Jardim Municipal e o abastecimento de água à Vila; o Hospital da Misericórdia e a Avenida D. Afonso Henriques; o Patronato D. Maria Rosa Soares da Silva; e a construção dos edifícios das Escolas Primárias de Resende e de S. Martinho que agora foram substituídos pelos novos Centros Escolares.

Conclusão:

Na Primeira República, Resende teve muita democracia e poucos benefícios. Durante o Estado Novo, não teve democracia mas recebeu assinaláveis benefícios. A Terceira República, a que agora vivemos, tem vindo a dar-nos, até ao momento, uma coisa e a outra: liberdade e progresso, democracia, e muitas e grandes obras.

Que seja sempre assim.

Termino, saudando esta feliz iniciativa do Rotary Clube, desejando longa vida e grandes êxitos à nossa primeira “Universidade”, e ambicionando as maiores e as melhores felicidades aos seus mestres e aos seus alunos.

Bem hajam por me terem ouvido.

*Conferência proferida pelo Dr. Joaquim Correia Duarte na Sessão Solene de Abertura da "Universidade Sénior"em Resende, em 9 de Outubro de 2010



[1] ---Herculano, Alexandre – O Bobo, Biblioteca Ulisseia, Lisboa, p. 46

[2] --Duarte, J. Correia – Resende na vida e na obra de Eça de Queiroz, Ed. da Câmara Municipal, 1996, pág. 9 (esgotado)

[3] --Herculano, Alexandre – Idem, idem

[4] ---Nogueira, José Félix Henriques Estudos sobre a Reforma em Portugal, Lisboa, Typographia Social, 1851, pág. IX-X

[5] ---Teles, Basílio –Do Ultimatum ao 31 de Janeiro, pág. 101

[6] ---Parece que o famoso “Fado do 31” que mais tarde Rodrigo cantou e imortalizou, tem relação com o que aconteceu nesse dia no Porto, mais propriamente junto do Café da Brasileira. Eis parte do texto: “À porta da Brasileira, dois tipos encontram dois. Juntam-se os quatro, e depois, lá começa a cavaqueira. Agrava-se a chinfrineira…vai aumentando o zum- zum. Vai bum, arrebenta…pum! Depois, agora, vereis - vinte e quatro, vinte e seis - vinte e nove e trinta e um!

[7] ---Costa, Manuel Gomes da – Memórias, Clássica Editora, Lisboa, 1930, p. 146

[8] -Duarte, J. Correia – Resende e a sua História, Vol. I, Resende, 1994, pag. 479

[9] ---Livro de Actas da Câmara de Resende, 1910.

[10] ---Muitos párocos do país, desde tempos imemoriais, tiveram o cuidado de registar os baptismos, os casamentos e os óbitos dos seus paroquianos. A partir do século XVI, tal serviço foi tornado obrigatório pelos decretos do Concílio de Trento (1545-1563), e são esses assentos a única informação que temos se quisermos saber alguma coisa sobre os nossos ascendentes antes de 1911.

[11] ---O Papa Leão XIII (1878-1903) aconselhara a Igreja a praticar a chamada política de “ralliement”, ou seja, a conveniência de a Igreja colaborar com o regime instituído no seu país.

[12] ---Lei da Separação, Cap. IV, artº 62

[13] ---Idem, Cap. II, artº 17

[14] --Nomeada por Portaria de 18.05.1911 ( Diário do Governo nº 116, de 19/05)

[15] ---Resposta do Presidente da Câmara e do Administrador do Concelho ao Questionário enviado em 1914 pela Comissão Central de Aplicação da Lei da Separação.

[16] --- Respostas ao “Questionário sobre a Lei da Separação” (Lamego e Viseu), anexas ao ofício nº 69 do Governo Civil de Viseu, de 16 de Março de 1914, in ACMF- Arquivo -CJBC-INQUE-VIS., fls. 27 e 28

[17] ---Livros de Assentos de Óbitos da Conservatória do Registo Civil de Resende.

[18] ---Aparição de 13 de Maio de 1917, segundo o testemunho da Irmã Lúcia.

[19] ---Aparição de 13 de Julho de 1917.

[20] ---Aparição de 13 de Outubro de 1917, minutos antes do famoso “milagre do sol”

[21] ---Esta informação chegou-me apenas por via oral. Há quem diga que Teixeira dos Santos – o Engenheiro de Palma – apenas teria fornecido aos defensores da monarquia as técnicas e os conhecimentos necessários para dinamitarem a ponte.

NOTA: A ponte de Mosteirô fora inaugurada em 1889 , veio depois a ser recuperada em 1927, e totalmente transformada em 1973 quando subiram as águas da Barragem de Carrapatelo, para permitir a passagem aos barcos no rio.

[22] ---Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, Fátima, 23 e 24 de Setembro. Textualmente: “ A questão religiosa precipitou o fim da I República”…foi um erro mortal e imperdoável, fatal para a República iniciada em 1910”

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Padre José António parte em missão para o Brasil*

No próximo dia 29 de Setembro vou partir para o Brasil até Julho de 2011. Como foi possível?
Depois de 20 anos de pároco, por terras de Penedono, onde sempre fui bem acolhido e me sentia bem, partir para um ano sabático é uma loucura, porque sem ordenado, sem certezas do futuro, mandaria a sábia prudência que colhesse os frutos da sementeira realizada, da bela comunidade construída, e da casa, onde comodamente vivia.
A idade vai avançando e vamos perdendo forças e entusiasmo… Este novo desafio chegou na altura certa. Agradeço aos padres do arciprestado de Penedono e ao padre Samuel a amabilidade com que aceitaram outras paróquias e assim possibilitaram a minha partida. Não podemos viver sem esperança, alegria e entusiasmo. Um ano de estudo, descanso e distanciamento da realidade pode ajudar a crescer e a abrir novos horizontes.
Não seria altura da Assembleia do Clero e dos arciprestados aprofundarem estas realidades? Na obediência e fidelidade a nós próprios, saibamos lutar por aquilo que e a consciência nos dita.
Este ano sabático surge da experiência em Moçambique, onde desenvolvemos nove micro-projectos (como já pude partilhar neste jornal) e também após uma incursão na Amazónia – Brasil onde pude apoiar um padre holandês no seu trabalho com uma comunidade de trinta e cinco mil pessoas. Nesse tempo vivi na Mariápolis Glória, uma das 18 cidadelas (pequenas “cidades” espalhadas pelo mundo onde se procura viver o Evangelho, cuja lei é a do mandamento novo que o movimento dos Focolares criou pela mão da sua fundadora Chiara Lubich.
Esta experiência concreta de amar e ser amado na simplicidade de todos os dias fascinou-me. As grandes dificuldades dos padres, em viver o celibato num tempo em que o individualismo, relativismo e hedonismo reinam, perde sentido porque sem comunidades autênticas somos generais sem exército a lutar contra moinhos de vento, fazendo o papel de “palhaços”, como alerta o Papa Bento XVI num dos seus livros. Esta experiência deu-me esperança e tornou possível alargar os horizontes culturais e religiosos. E porque nem só de receber se fazem estas experiências, foi possível desenvolver alguns pequenos projectos apoiados pelo Centro Social Paroquial de Penedono (ajudar a construir duas igrejas, uma casa, duas instituições de toxicodependentes que vivem em casas muito pobres e duas bicicletas para possibilitar a deslocação de pessoas para o seu trabalho). Numa perspectiva de continuação do projecto estabeleceu-se um protocolo entre o Centro e a escola Fiore que acolhe crianças de um bairro pobre da cidade. Tantas vezes ouvi “primeiro nós depois os outros”, quando o Evangelho afirma precisamente o contrário.
Depois de tudo o que foi feito em Moçambique e no Brasil, a Segurança Social aumentou o protocolo do Centro Social em 33 por cento, depois de tantas dificuldades que pareciam inultrapassáveis. Podemos assim contratar uma nova funcionária e abrir o apoio a duas paróquias vizinhas. Para quem acredita, a revolução do Evangelho vai -se realizando e o “Dai e dar se-vos- à” torna-se concreto nas nossas comunidades fortalecendo a nossa vontade de ir contra a corrente, da mentalidade pouco cristã, que encontramos em alguns dos nossos colaboradores. Pequenas gotas, é certo, mas que ajudavam a reparar um oceano de injustiças que os nossos antepassados cometeram.
No último encontro de despedida, num jantar na Mêda, fiz o apelo aos sacerdotes para se encontrarem, como fazíamos semanalmente em Penedono, pois só assim nos sentiremos mais fortalecidos.
“Quem diz o que sente não peca nem mente”, mas pode estar errado. Espero não magoar ninguém com esta partilha. Quero partir em paz, continuar em comunhão com todos e regressar feliz e com mais entusiasmo.
Um abraço fraterno.
P. José António Rodrigues
*Testemunho transcrito do blogue da Diocese de Lamego (link)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cinfães Homenageou o Cónego Acácio Soares*

Em 5 de Setembro a paróquia e o povo de Cinfães homenagearam o Sr. Cónego Acácio Soares em oportuna e justa iniciativa, pois além de se tratar dum notável homem da terra, dedicou a maior parte da sua vida à paroquia de Cinfães no seu múnus pastoral.
Nascido em Algereu da freguesia de S.Cristóvão em 1924, frequentou os seminários de Lamego para ser ordenado Presbítero em1950.
Antes de assumir a responsabilidade de Cinfães em Janeiro de 1969 que serviu até 2007,o Pe. Acácio foi pároco de Chavães e Vale de Figueira, Prefeito do Seminário, Director espiritual e Director da Obras Diocesana das Vocações (O.V.S).
A presente e louvável iniciativa deve-se ao dinamismo do actual Abade de Cinfães, Pe. Francisco Marques que juntou na homenagem os 86 de idade , os 60 de sacerdócio, os 37 de paroquialidade e a fez coincidir com a inauguração das obras de recuperação da residência, motivo por que aos actos religiosos presididos Pelo Snr. D. Jacinto, Bispo de Lamego com a presenças de muito clero e povo de Cinfães se juntou o poder civil com a presença e colaboração da Câmara, Governo Civil, Secretário de Estado e deputado do Distrito, unidos todos no acto religioso, sessão solene no salão e convívio acompanhado de lanche aberto à população.
Sem acaso ou distração deixei intencionalmente passar este tempo.
Amante da palavra, quase viciado na intervenção e com um quase imperativo interior, dei comigo e sem utilidade a quebrar a riqueza do silêncio.
Sem nada que valha e acrescente mais à valia, bondade e disponibilidade do homenageado já expressa noutros jornais deixei ao teclado do computador a liberdade e o dever:
-de lembrar à comunidade cinfanense e à diocese que dos 86 anos oferecidos à vida, 41 foram directamente dedicados a Cinfães numa constante intervenção e testemunho pastoral;
-de recordar ao povo que toda a população da freguesia com menos de 40 anos por ele foi batizado, com ele aprendeu a catequese, conviveu ou dele recebeu a bênção nupcial e o testemunho da sua decisão matrimonial;
-de mostrar a quem vive e quer ver que do silêncio dos seus conselhos saiu muito bálsamo para as agruras que a vida às vezes oferece quer aos jovens que estão a ser, aos adultos que o são ou aos irmãos que já foram e no além nos esperam;
-de agradecer todo o bem que fez e as condições que criou nas raízes que deixou para que outros ( O Snr. Pe Francisco), possam fazer ainda melhor a partir do que já está feito.
Muitos homens são uma referência, o Sn. Cónego Acácio foi um sinal. Um sinal mais nas vidas de quem com ele viveu e conviveu, um sinal com sinais de vida e espírito enviados à paróquia e à diocese, não só desde Cinfães onde está, como no tempo que em Lamego presidiu à O.V.S. (Obras das Vocações Sacerdotais) e Sinal era o jornal do contacto e da mensagem.
Nesta Homenagem, abarcante de uma trilogia de datas, a que compareceu, além do povo, muito clero, os seminários de Lamego e Resende com seu Reitor e Vice Reitores, tomaram a palavra (na Igreja ou no salão) o Snr. D. Jacinto, o Snr. Pe. Francisco, o Secretário de Estado e o Presidente da Câmara.
O homenageado não falou. Na sua tradicional humildade, junto ao altar no fim da missa apenas agradeceu a tudo e todos para dizer:
…« é possível, esquecendo as minhas fragilidades, descobrir em mim uma página de beleza divina escrita por Ele Deus, servindo-se de mim como mero instrumento».
…«a residência a inaugurar de seguida fez também parte das minhas preocupações, mas isso não passou de mero sonho e hoje é uma realidade graças à dinâmica do nosso Abade a quem felicito».
…« como é consolador ver agora esta paróquia confiada ao zelo dum pároco, o melhor entre os melhores, tal é o nosso Abade, Pe. Francisco Marques.»
Ao reconhecer que foi humilde instrumento na mão de Deus, que a ação do seu sucessor teve já mais brilho visível que o sonho do seu passado, que o novo pároco está no topo das qualidades entre o irmãos, demonstrou aos 86 anos e nestas três frases a beleza da humildade, do reconhecimento e da colaboração. E esta é a maior coroa do seu trabalho e o melhor testemunho da sua valia, porque só quem vale tem vida, ânimo e virtude para elogiar os outros.
Obrigado e ainda longo vida, Cónego Acácio Soares.

*Apontamento do Dr. Adão Sequeira

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM S. JOÃO DE FONTOURA: Chamo-me Antonino Loureiro e nasci na Quinta do Bairro, S. João de Fontoura, há 97 anos*

Ligação à Casa de S. José
Devo ser o homem mais velho da freguesia de S. João de Fontoura. Nasci a 19 de Setembro de 1912, pouco depois da implantação da república. Mas, naquele tempo, falava-se pouco de política. Jornais não havia e pouca gente sabia ler. Ainda andei na escola, aqui ao lado, talvez durante dois anos, embora não fosse obrigado. A professora batia muito. Apanhei muita reguada e bastantes vergastadas. Por isso, fui perdendo a vontade de ir à escola. E depois os meus pais também me obrigavam a trabalhar. Era preciso fazer recados, mondar erva ou guardar gado por esses montes acima. Ainda cheguei a saber escrever o nome e a ler devagar. Mas é preciso prática, conforme diz o ditado “usas e serás mestre”.
Os meus pais foram sempre caseiros da Casa de S. José. Tiveram sete filhos. Ainda tenho um irmão vivo, que mora para além de Moimenta da Beira. Por isso, conheço bem a história da Casa de S. José, que ajudou a educar muitas raparigas.
Com quinze anos, comecei a ganhar o dia fora. Com essa idade, fui para as vindimas pró Douro carregar cestos. Cheguei a ir quatro ou cinco vezes em rogas às vindimas. De dia carregava cestos. À noite, ia pró poço sovar as uvas durante quatro horas. Íamos numa roga e levávamos uma broa. Só se vinha no fim das vindimas. Mas nem tudo era mau. No fim do dia, havia música, bailes e muita animação. Estive numa quinta, em Loureiro, onde o dono, o senhor D. Manuel Vasco, comprou uma concertina para que não faltasse música. Ele e a sua esposa, a senhora D. Leonor, vinham para a varanda para nos ver cantar e dançar. A sua maior alegria era ver-nos satisfeitos.
Também fui em várias rogas para a poda no Douro. Quem me ensinou a podar foi o meu pai. Mas a maneira de podar as videiras no Douro é diferente. Fui vendo e aprendendo.
Na inspecção fiquei apurado para auxiliar, mas nunca me chamaram.

Namoro e casamento
A minha mulher, que está aqui ao seu lado, chama-se Sidónia Fonseca e nasceu aqui perto, na Quintã, que já pertence à freguesia de S. Martinho de Mouros. Tem este nome, porque o pai andou na 1.º guerra mundial, tendo sido com Sidónio Pais, como Presidente da República, que terminou a guerra e regressou a Portugal. Em agradecimento, prometeu chamar Sidónio a um dos filhos, mas como nasceram só filhas, conforme pedido a Deus para não irem para a guerra, disse aquando do nascimento da minha mulher ”já que não podes ser Sidónio, ficas Sidónia”. Eram sete irmãs. A Sidónia mais as irmãs passavam por estes caminhos quando iam para as feiras vender chapéus. Engracei com ela e ela comigo. Namorámos três anos. Casei com 28 anos e a Sidónia com 22 anos. O namoro foi sempre às escondidas. O meu sogro era cesteiro e a minha sogra chapeleira. O meu sogro não queria que as filhas se casassem, talvez com medo de não poder contar com a ajuda de tantos braços para fazer e vender chapéus de palha pelas feiras. Era capaz de desconfiar, mas não dizia nada.
O casamento foi combinado sem os meus sogros saberem. Foi já nas vésperas que um vizinho disse ao meu sogro e uma das minhas futuras cunhadas contou a novidade à mãe.
Como já lhe disse, o dinheiro que fui ganhando entregava-o aos meus pais. Não ficava nada para mim. Só comecei a ver a cor do dinheiro dois anos antes do casamento. Foi com este dinheiro, que fui juntando e poupando, que consegui pagar as despesas. E mesmo assim tive sorte, pois o Sr. P. Zé, o Reitor de S. Martinho, não levou nada, pois era o meu padrinho de baptismo. O casamento foi na igreja matriz de S. Martinho de Mouros, por causa da minha mulher ser da freguesia. A boda foi feita em casa dos meus pais. A minha mãe fez um arrozinho melhor com uma carninha. Estiveram presentes os meus irmãos, duas cunhadas e dois ou três amigos mais chegados. Os meus sogros não quiseram vir. Não tinham alegria em que a filha se casasse, embora gostassem de mim e dos meus pais. Eram até amigos. Quanto à minha mulher, os meus pais sempre gostaram dela. Queriam-lhe como filha.

Filhos e netos
Depois de casados, fomos viver para uma casa arrendada, que depois comprámos. A minha mulher continuou a fazer chapéus e eu ganhava os dias fora. Cheguei a ganhar 25 tostões. Quando nasceu o terceiro filho, agarrámo-nos também a umas terrinhas como caseiros. E a minha mulher deixou a arte de chapeleira.
Tivemos nove filhos. Sete (três rapazes e quatro raparigas) ainda estão vivos. Uma menina morreu com seis semanas e um rapaz morreu com vinte e três anos, num desastre de jipe, em trabalho. Terminou o antigo 9.º ano no Seminário de Resende e não quis ir para o Seminário de Lamego para não sobrecarregar os pais. Foi um desgosto muito grande. Talvez seja por causa disso que nunca consegui deixar de fumar. Se não tivesse abandonado o Seminário, talvez ainda fosse vivo. Mas só Deus sabe.
Os meus filhos fizeram todos a 4.ª classe, pelo menos. Muitos continuaram a estudar mais tarde. Aprendi a falta que faz não saber ler nem escrever. A minha mulher é que teve juízo, pois fez a terceira classe, o que deu muito jeito para nos podermos corresponder com os nossos filhos. Por isso, quando estes fizeram sete anos e entraram na escola, fizemos tudo para que não faltassem às aulas e fizessem os deveres marcados pelos professores. Só depois é que nos ajudavam.
Viveram connosco até aos quinze/dezasseis anos. Depois foram trabalhar para a zona de Lisboa ou emigraram. Agora vivem nos concelhos à volta de Lisboa. Estão todos casados.
Temos doze netos e três bisnetos.

Vida de trabalho
Vivemos sempre aqui na Quinta do Bairro. Para poder educar tantos filhos tivemos de trabalhar muito. Dava dias fora para ganhar mais algum dinheiro e, ao mesmo tempo, amanhava as terras como caseiro. Para arranjar tempo cheguei a sachar e a cavar noite dentro, à luz do luar, muitas vezes até depois da meia-noite.
Antigamente era difícil arranjar patrões para ganhar o dia. Havia muita gente nova. Mas eu posso gabar-me de nunca me ter faltado trabalho. Numa casa, cheguei a trabalhar durante nove anos. E não queriam outro. Havia gente que me pedia para ir trabalhar, mas já estava comprometido.
Nas terras que fiz nunca criei vacas para lavrar os campos ou puxar carros. Quando precisava, tinha de pedir. A paga era depois feita com o corpo ou em dinheiro. Só criava uma vaca. Depois de parir, deixávamos crescer a cria para depois a vendermos com a mãe. A seguir comprávamos outra. Precisávamos de fazer dinheiro, pois as despesas eram muitas.
O dono da casa onde vivíamos pô-la à venda e não pudemos perder a oportunidade de a comprar. Na altura, só tínhamos dinheiro para a escritura. O Leitão de Forjães é que nos emprestou o dinheiro. Houve um senhor que ficou por nós como fiador e lá a fomos pagando aos poucos. Depois também apareceram para aí umas territas que comprámos. Mas hoje está tudo de velho, cheio de silvas.
Deixei de ser caseiro, quando tinha à volta de setenta anos. Não podia continuar a trabalhar por causa das pernas.

Mazelas da idade
Deveria ter 25 anos quando tive um acidente com uma vista. Fui à caça com uma daquelas armas de carregar pela boca. Quando estava a carregá-la, tive azar e saltou um estilhaço para uma das vistas. Os médicos ainda tentaram tudo, mas a vista ganhou infecção e não houve outro remédio a não ser tirá-la. Mas consigo ver bem. Sou capaz de ver melhor com uma vista do que você com duas.
Há bastantes anos tive uma úlcera no estômago. À base de medicamentos receitados pelo Sr. Dr. Ribeiro, dieta e chás, consegui curá-la ao fim de nove anos. Na altura sofri muito, pois doía-me muito o estômago e tinha muitas indisposições. Felizmente hoje posso comer de tudo.
O grande problema são as pernas. Já fui operado três vezes. Por isso, aqui em casa ando devagarinho para não cair. O médico já me disse “se um dia tiver o azar de cair, fica todo partido e já não tem conserto”. É por isso que não posso sair de casa.
Durmo bem. E ainda me recordo de tudo. Para a idade que tenho tomo poucos medicamentos. Aqui a Sidónia é que toma muitas pastilhas. Não se contenta com uma ou duas. É aos punhados de cada vez. Veja bem, há uns dias ela disse a um filho meu para ir à farmácia aviar uma receita e deu-lhe cem euros. O meu filho perguntou “para que é preciso tanto dinheiro?”. O que é certo é que só trouxe cinco euros de troco.
A minha mulher também está muito lúcida. Sente-se muito cansada dos braços e das pernas e custa-lhe a dormir. Desde há cerca de sete anos que uma senhora vem cá a casa ajudar a fazer as refeições e a lida da casa.

Amor à terra
Ultimamente temos ido passar a época de Natal com os nossos filhos. Vamos em Dezembro e voltamos em Março. Lá pelas bandas de Sintra ou Mafra atura-se melhor o Inverno. E sempre estamos junto da família. Mas lembra-me sempre a terra onde nascemos e vivemos. Eu tenho mais saudades que a minha mulher. Aqui a água é que mata bem a sede e os ares dão saúde. Desta minha varanda avisto o mundo todo. Daqui consigo ver S. Martinho, a serra das Meadas, o Marão e o rio Douro. Sinto-me bem na Quinta do Bairro. Já não tenho forças para trabalhar a terra, mas gosto de a ver e de lhe sentir o cheiro.
O meu pai morreu com setenta e tal anos e a minha mãe com oitenta e tal. O meu sogro viveu cinquenta e três anos e a minha sogra noventa. Nada mau para quem viveu com dificuldades. A média de idades é bonita. Nós temos de viver um dia de cada vez.
Gosto muito de conversar. Antigamente conhecíamos toda a gente. Trabalhávamos uns com os outros. Andávamos sempre a pé. Íamos às festas e feiras. Éramos obrigados a encontrar-nos. Agora as pessoas metem-se em casa a ver televisão e andam de carro. E há cada vez menos gente. Eu mesmo que queira não posso sair de casa para não malhar no chão. Mas ainda há uma gentinha que passa cá por casa. E no Verão os filhos e netos vêm até cá.
Ao seu pai, o Alfredo, e ao seu tio, o Delfim, conheci-os muito bem. Foram grandes artistas. Trabalharam muitos anos na Casa de S. José. Os fidalgos e as pessoas importantes da altura só os queriam a eles. Não calcula a amizade que lhes tinha.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Agosto de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM FREIGIL: Chamo-me Maria Alice Teixeira de Sousa e nasci em Freixo de Cima, Amarante, há 82 anos*

De Amarante para Resende
Vim aqui parar, porque o meu pai veio trabalhar como pedreiro e lavrista para as obras de construção da central hidroeléctrica, no rio Cabrum. Começou por vir sozinho, mas passado algum tempo mandou vir a mulher e os dois filhos. Vim com dois anos. Três dos meus irmãos nasceram em Freigil.
Antigamente, as crianças começavam a trabalhar muito cedo. Desde pequena comecei a cuidar dos meus irmãos, a fazer recados e tudo o que a minha mãe me mandava. O meu pai saía para ganhar o dia. Só vinha à noite e, muitas vezes, saía na segunda-feira e só voltava na sexta ou sábado, dormindo em palheiros. A minha mãe tinha de ir ajudar os outros nos campos, sendo a paga em comida ou por troca daquilo que a terra dava. Por isso, só cheguei a andar alguns meses na escola e pouco aprendi. Sei escrever o nome e pouco mais. Ainda consigo ler qualquer coisa, desde que seja devagarinho e as letras sejam grandes.
A partir dos 10 anos, fui muitas vezes apanhar resina para os montes, contratada por empreiteiros de Resende e de Leiria. Ainda me recordo de uns homens cuja tarefa era fazer um corte nos pinheiros com uma grande lâmina, pondo de seguida um pucarinho por baixo. O meu trabalho, tal como a de outras raparigas e mulheres, era apanhar a resina para um balde. Depois de cheio, despejava-o para grandes barris em forma de pipo. Estes eram depois transportados em carros de bois para seguirem em barcos ou em comboios.
Também ia trabalhar nos campos. Muitas vezes, a recompensa era só comer ou a troco de pão, batatas e outros produtos da terra. Além disso, acarretei muitas sacas de cereais para o antigo celeiro de Caldas de Aregos e muitos molhos de lenha para junto da estrada e do rio, que depois seguiam para as cidades.
Cheguei ainda a trabalhar na escola de Nogueiró, onde preparava a sopa para as crianças.

Ligações ao Zé do Telhado
Embora tivesse nascido na Aldeia de Castelões, pertencente ao concelho de Penafiel, o meu pai sempre contou, lá por casa, que era parente do Zé do Telhado, por parte do seu avô que era seu primo. Era com orgulho que nos contava que roubava aos ricos para dar aos pobres. Mas o que pouca gente sabe é que foi também um soldado valente que combateu nas guerras liberais sempre a favor dos que menos tinham e contra os que queriam que tudo continuasse na mesma, com D. Miguel a mandar. Contava que, depois de muitos assaltos e algumas mortes, tentou fugir para o Brasil, mas foi apanhado. Felizmente, conseguiu livrar-se da forca, tendo sido condenado ao degredo em Angola, onde casou e teve alguns filhos, segundo dizia.
Nunca pude saber mesmo se de facto sou parente do Zé do Telhado. À aldeia onde nasci só fui duas vezes pouco depois de casar. É natural que ainda lá tenha alguns primos. Nunca tive ocasião de perguntar à família que por lá ficou o que pensavam disto.

Casamento
Comecei a namorar com 19 anos. Vim a casar oito anos depois. Vai fazer 55 anos, no próximo dia 9 de Julho. Naquele tempo, a gente não se podia casar assim sem mais. Para onde é que se ia viver e de quê se vivia?
Encontrávamo-nos nalguns bailes; eu gostava muito de dançar. Também aproveitávamos as desfolhadas para convivermos. Quando aparecia uma espiga preta era uma alegria, pois podia-se abraçar uma pessoa à vontade. Estou convencida que muitos já levavam uma espiga preta de casa. Naquela altura, tinha de se ser muito cuidadoso a namorar, caso contrário os nossos pais caiam-nos em cima e os vizinhos não perdoavam no falatório. Os tempos eram outros. Era muito difícil um rapaz arrancar-nos um beijo. Hoje é tudo muito rápido. Mas também as separações e os divórcios acontecem por dá cá aquela palha.
O meu marido, que está aqui ao seu lado, chama-se Fernando Pinto Campos e nasceu em 24 de Março de 1926. Teve 7 irmãos. Eu nasci, passados dois anos, a 1 de Março de 1928. Os seus pais eram caseiros; pouco tinham. Ainda frequentou a 3.ª classe, mas com a falta de prática deixou de saber ler e escrever. Como deixou de ver bem, mesmo para assinar o nome prefere pôr o dedo. Quando o conheci ajudava os pais na lavoura.
Como não tínhamos para onde ir, quando casámos, fomos viver para casa dos meus sogros durante dois anos. Passado este tempo, o meu sogro teve um desastre com uma malhadeira e nós tivemos de o substituir e tomar conta das terras. Aí nos mantivemos, como caseiros, durante 34 anos.

Família numerosa
Tivemos 9 filhos, estando felizmente todos vivos, e 10 netos. A diferença de idade entre dois filhos é de treze meses. Chegaram a andar cinco ao mesmo tempo na escola. Quando eram pequenos, levava-os para os campos e aí ficavam dentro de um caixotinho. No inverno, para se protegerem da chuva, punham uma saca de serapilheira na cabeça. As roupas eram depois secas ao lume.
Em pequenos ajudaram-nos nas terras e em casa. Com catorze ou quinze anos, começaram a procurar trabalho fora; os rapazes procuraram a construção civil e as raparigas foram servir. Um filho casou aqui em Freigil. Uma filha, por ter um atraso, vive connosco. Dois filhos e uma filha moram em Matosinhos e três filhas em Rio Tinto. Uma outra vive aqui perto, em Ribais, Cinfães. Alguns estudaram à noite. Um deles faz parte de uma Junta de Freguesia e trabalha nos seguros.
São todos muito nossos amigos. Como pôde ver, só durante esta conversa consigo, já recebemos quatro telefonemas. Querem saber se está tudo bem, se precisamos de alguma coisa. Vêm cá muitas vezes. A minha nora, que é tesoureira na Junta de Freguesia de Freigil, que vive lá em cima e que o senhor acabou de conhecer, também se preocupa muito connosco e está sempre disponível para nos ajudar. No Natal, podem não vir todos consoar connosco, pois ano sim, ano não, vão a casa dos sogros, mas, no dia seguinte, estão cá todos.
Temos o nosso quintal todo cultivadinho também a pensar nos nossos filhos, sobretudo os que vivem em Rio Tinto e Matosinhos. Quando cá vêm, podem levar das nossas curiosidades: alfaces, tomate, fruta, batatas…
Às vezes, o meu marido diz-me: temos isto tão bonito, até parece um jardim, mas, quando morrermos, isto vai ficar tudo ao abandono; nenhum filho quer vir para cá viver, pois já têm as suas vidas organizadas e têm lá, na cidade, mais comodidades. Eu não me preocupo. De que me serve? Vê estas terras aqui ao lado; já fomos caseiros lá e agora está tudo ao abandono; nunca os meus patrões imaginaram que as coisas haveriam de ficar assim.

Vida dura/vida tranquila
Depois de casados, fomos caseiros, sempre com os mesmos patrões, durante 34 anos. Tivemos de trabalhar muito para criar os nossos filhos. Felizmente, umas vezes comiam melhor, outras pior, mas nunca houve fome cá em casa. Muitas vezes, comíamos uma cebola, partida ao meio, com sal e vinagre, e pão. Os meus pais e os meus sogros também lutaram muito para que os filhos não passassem necessidades. O meu pai foi um moiro de trabalho. Muitas vezes, saía na segunda-feira e só voltava na sexta ou sábado, ganhando os dias serra acima.
Criávamos uma junta de vacas, duas ou três ovelhas, galinhas, coelhos e um porco. Cozíamos pão todas as semanas. Trazíamos a mercearia e outras coisas fiadas do vendeiro, que eram pagas pelos Santos com o preço equivalente em cântaros de vinho, que o mesmo recolhia pelas casas num odre. Na maioria dos anos, em Abril, já não havia vinho e, a partir daí, tinha de se beber fiado. Mas, no fim, tudo se pagou e tudo veio a bater certo.
Era raro sair daqui. Íamos à vila de Resende, às feiras e ao médico, e a Lamego, à Senhora dos Remédios, e pouco mais. Apanhar o comboio era uma novidade. Há cerca de 50 anos, o meu marido teve de ir ao Porto a uma consulta médica com um filho. Não esteve com meias medidas. Em Mosteirô, apanhou o primeiro comboio que apareceu. Quando se informou junto do revisor, apercebeu-se que ia em sentido contrário. E lá saiu na estação de Caldas de Aregos para apanhar o comboio devido.
Não se comprava roupa nenhuma. Era tudo feito em casa por uma costureira. Ela trazia a máquina de costura e era paga ao dia. Depois comprei também uma. Dava jeito para fazer pequenos arranjos e para remendar. Aprendi a coser com a minha mãe.
Há 20 anos entregámos as terras, deixando de ser caseiros. Algum tempo antes, uma das patroas resolveu dar-nos um bocado de terra para fazer uma casa, com um quintal. Começámo-la a construir há 25 anos. Foi sendo feita aos poucos. É só de um piso, como vê. O quintal dá-nos tudo. É uma forma de nos distrairmos. Nunca tivemos o costume de ir ao café. Agora, o meu marido também não pode por causa das pernas. Não pode andar muito nem ficar de pé. Por isso, com grande pena, deixou de ir à missa. Mas continua a trabalhar no campo. A lida da casa e as refeições são feitas por mim.
De vez em quando, vamos passar uns dias com os filhos a Matosinhos ou Rio Tinto. Eu não me importo e até gosto de mudar de ares. O meu marido quer logo vir embora. Aqui é que se sente bem. Repete com muita frequência que o que gostava mais era ter sessenta anos. Estes ares dão-lhe saúde. Para ele esta terra é um paraíso.
O meu marido tem mais saúde que eu. Foi operado às cataratas há dois anos. Eu já fiz várias operações. Já estive no IPO durante dois meses. Também já me rebentou uma veia na cabeça há 20 anos, tive duas pneumonias e já fui operada à garganta e às cataratas. Tenho de tomar 10 medicamentos diferentes por dia; o meu marido toma 7. Tenho falta de apetite e o meu marido acha que estou um bocado esquecida.
Preocupa-me a situação da minha filha, que precisa de apoio, e que se encontra connosco.
Beba mais um copinho. Não imagina como gostámos de falar consigo. Razão tinha a minha nora quando lhe disse que precisava pelo menos de duas horas para conversar connosco, pois para falar o que custa é começar.
Os fins de semana são sempre uma novidade. Quando menos se espera, um ou outro filho telefona a dizer que vem cá almoçar. E a casa de repente enche-se de alegria.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Julho de 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM CÁRQUERE: Chamo-me Manuel Augusto Alves, mais conhecido por Manuel Guerra, e nasci em Cárquere há 70 anos*

História familiar
Tal como o meu pai, nasci aqui na aldeia de Pedreira em 1 de Dezembro de 1939. A minha mãe morreu em 1997 com 87 anos. O meu pai morreu mais novo, tinha ele 77 anos. Embora tivessem uma casa e umas terrinhas, foram sempre caseiros. O meu pai, quando podia, dava uns dias fora. Éramos cinco irmãos: três rapazes e duas raparigas. Um, infelizmente já morreu; suicidou-se há cerca de um ano.
Os meus irmãos saíram daqui para Lisboa quando tinham cerca de 15 anos. Já lá vivia um cunhado que os chamou e orientou. Os dois rapazes aprenderam a arte e tornaram-se carpinteiros.

Percurso pessoal
Foi já tarde quando comecei a ir às aulas. Inaugurei a escola de Passos. A Professora Odete, mulher do Dr. Brito de Matos, que foi Presidente da Câmara, foi quem me ensinou. Entrei com 10 anos, porque não havia escola na zona. Da primeira classe passei para a terceira. Não cheguei a conhecer o livro da segunda. Na terceira classe adoeci e tive de a repetir. Saía de manhã e voltava por volta das 5 horas da tarde. Vinha comer a casa. Embora aprendesse bem, não gostava de andar na escola. O meu pai é que me ameaçou em caso de desistência: se não vais à escola, irás trabalhar comigo no duro. Um dia, andava o meu pai a fazer um calço e tive de ir ajudá-lo. Estávamos a partir uma pedra; o meu pai segurava no pistolo e eu carregava na maceta. Às tantas, enganei-me e acertei na mão do meu pai. Sei que ele se enfureceu e ia para me dar uma coça, mas fugi. Foi remédio santo. A partir daí, comecei outra vez a frequentar a escola. Fui explicar a situação à Professora Odete, que me recebeu de braços abertos. Ainda me lembro bem de ter ido fazer o exame da quarta classe a Resende. Ia bem preparado. Naquele tempo, sabia-se a história toda e a geografia completa. As linhas do caminho de ferro, serras, rios e afluentes andavam na ponta da língua, não falhava nada. Agora há menos exigência.
Até aos 10 anos, antes de ir para a escola, guardei duas vacas e ajudei o meu pai nos campos.
Depois de fazer a 4.ª classe, pedi a um cunhado meu, que vivia em Lisboa, para lá me arranjar trabalho. Fui para uma oficina de serralharia, mas ganhava pouco. Preferi ir trabalhar nas obras onde andei até ir para a tropa.

Militar em Goa
Fui à inspecção em Resende, tinha eu 19 anos. Com 20 anos fui para o quartel de Caldas da Rainha, onde fiz a recruta e a especialidade de armas pesadas. Entretanto, fui mobilizado para a Índia. Saí daqui a 3 de Março de 1961, no barco “Niassa”, tendo desembarcado lá a 27 de Março. Fui pelo Egipto, Canal do Suez, porto de Áden, costa este de África e aportámos finalmente em Mormugão. Comia-se bem. Tenho as melhores recordações da viagem. Fomos para uma localidade chamada Alparqueiros render uma companhia.
Os dias iam correndo de feição. Goa era uma cidade muito bonita e desenvolvida. Ficava admirado com a imponência de casas senhoriais e de igrejas. A população, muito simpática, falava português e parecia muito instruída. Aquilo tudo punha a nossa terra num chinelo.
A certa altura, fomos informados que ia ocorrer uma invasão. Sabíamos que a Rússia estava a armar a União Indiana com navios de guerra e aviões. Criou-se um ambiente tenso, pois assistíamos, junto à fronteira, à invasão de centenas de indianos desarmados. Preparámo-nos para o pior escavando abrigos durante dois meses.

Invasão pela União Indiana
Na madrugada do dia 18 de Dezembro de 1961, aviões da União Indiana arremessaram centenas de mensagens, avisando: ou se rendem ou bombardearemos tudo. Nesse dia estava num abrigo com o municiador da metralhadora pesada e um ajudante. Eram cerca de 30.000 soldados indianos contra 3.500, se contarmos com a polícia e guarda fiscal. A invasão foi feita por terra, mar e ar. Uma granada quase nos ia apanhando. Por isso, tivemos de ir fugindo com a metralhadora até ao mar. Totalmente cercados, os soldados indianos gritavam exigindo a nossa rendição, caso contrário seríamos todos mortos. Contudo, havia ordens do governador e chefe das forças armadas para continuar a combater. Os oficiais de patente mais baixa eram de opinião que nos devíamos render para evitar a mortandade geral. Às 3 horas da manhã do dia 19, fui atingido com uma bala no capacete. O alferes tirou-me o capacete e disse: este já foi desta p’ra melhor. Felizmente, a bala foi desviada. Vi ainda morrer alguns. A ordem de rendição do Governador e Chefe das Forças Armadas Vassalo e Silva chegou ao princípio da tarde desse dia 19.

Cativeiro
Na altura da rendição, tinha comigo uma pistola e um sabre. Como castigo, estive algemado com as mãos atrás das costas, durante três dias, juntamente com cinco colegas, encontrados na mesma situação. Realmente, devia ter abandonado as armas para não os enfurecer.
Fomos levados para um campo, vedado com arame farpado. Estavam à volta de 1.500 prisioneiros. Semelhante a este, havia mais dois campos. Fiquei aqui 5 meses em condições muito duras. As refeições eram pão e água. As necessidades eram feitas numa cabine improvisada, sem papel higiénico nem água. Muitas vezes, limpei-me a uma pedra. Só sei que antes da prisão pesava 75 quilos e quando cheguei a casa pesava 49.
Arrebentou-se-me o corpo todo. Nasceram umas bolhas, formando chagas. Pensei que ia morrer. Um alferes deles que falava português disse-me: tens de ir para o hospital. Mas um nosso graduado, o alferes Mota, disse-me: tu não vais nada para o hospital que nós estamos prestes a sair daqui. No campo podíamos ouvir rádio. A certa altura, correu a notícia de que a nossa libertação estaria eminente e havia conversações com diversos países, nomeadamente com a França.

Libertação
E esse dia chegou finalmente. Foi a 5 de Maio de 1962. Fomos em aviões franceses até Karachi, no Paquistão. Lá estavam à nossa espera três barcos, vindos de Portugal (“Pátria”, “Moçambique” e “Vera Cruz”). Também nos esperavam alguns médicos. Fui logo atendido por uma médica, que me desinfectou e pôs alguns pensos. Tinha de me embrulhar num lençol por causa das dores e facilitar a recuperação. Ela animou-me, dizendo que brevemente estaria bom.
No princípio, não tinha apetite e custava-me muito engolir. Fui comendo aos poucos. E as chagas lá foram sarando e desaparecendo aos poucos.
Cheguei a Lisboa a 23 de Maio. O meu cunhado foi-se despedir à partida, mas não teve coragem para estar presente à chegada. Seguimos para o quartel de Caldas da Rainha para receber a guia de marcha para a “peluda”, terminando finalmente a viagem em Cárquere.
Depois da invasão, durante algumas semanas, não chegou nenhuma correspondência à família. E mesmo os aerogramas, que tinha escrito um pouco antes, arderam. Com a falta de notícias, a minha mãe chegou a desmaiar. Na prisão autorizavam que escrevesse, mas não podia dizer mal da situação que aí se vivia. Havia censura.
Nos primeiros tempos, andei muito perturbado. Ainda me recordo que na primeira festa de Santa Maria de Cárquere, que aqui passei, ao ouvir fogo, deitei-me logo para o chão. E fiquei desvairado. Pensei que eram os indianos a atacar. Acontecia-me o mesmo sempre que ouvia fogo nas festas. Depois lá foi passando.

Nova vida em Cárquere
Comecei a trabalhar como trolha, tendo casado quando tinha eu 24 anos. O namoro começou antes da tropa. A minha futura mulher ainda pensou que ficava sem namorado, mas teve-me de volta. Ainda lhe escrevi muitos aerogramas de Goa.
Vim para a casa onde ainda hoje moro, que era dos meus pais, sendo obrigado a pagar-lhes duzentos escudos de renda por ano. Depois comecei a fazer-lhe as terras a meias, continuando a ganhar o dia como trolha ou nas terras.
Nasceram três filhos, mas um morreu com 25 meses e outro veio já morto. Vingou a minha filha, que aqui ficou e casou. Não tenho netos.
Já tive duas tromboses. A primeira teve lugar em 29 de Dezembro de 1997. Fui internado no hospital de Vila Real. No mesmo dia em que tive alta, morreu a minha mãe. Cheguei aqui à noite; às 3 horas da manhã, morreu. Tive um segundo ataque em 2005. Dessa vez, fui internado no hospital de Viseu. Estou a tomar 21 comprimidos por dia, para tensão, diabetes, colesterol…Só mais de 100 euros são para a farmácia. E a minha mulher, que ainda vai trabalhando, só recebe de reforma 83 euros. A nossa filha também nos vai ajudando.
Continuo a ser conhecido por Manuel Guerra. Se chegar aqui e perguntar por Manuel Alves, as pessoas pensam duas vezes. Se disser que quer falar com Manuel Guerra, toda a gente conhece. Esta alcunha vem do meu pai e a história conta-se assim. Na altura, pelos Reis, gente da mesma casa aparecia a pedir três vezes. De manhã, eram as mães; à tarde, os filhos e à noite, os pais. O meu tinha casado há pouco tempo e, naquela altura, a vida estava muito difícil. O meu pai não estava muito receptivo. Então uma mulher disse: ó homem dê lá qualquer coisinha que vem lá uma guerra e não fica cá ninguém. E o meu pai respondeu: oiça lá, mesmo que morra metade nessa guerra que aí vem, ainda cá fica muita gente. A partir daí, ficou conhecido por Guerra. No princípio, para o meu pai era um nome manhoso. Quanto a mim, sempre o aceitei bem e é um nome de respeito.
Custa-me a dormir. Tenho muitas dores. Durmo uma hora, acordo e depois durmo outra vez. De dia, vou-me distraindo com os vizinhos. Aos cafés escuso de ir, porque não posso beber. Mesmo assim gosto de cá andar. Tomara eu viver mais uns aninhos.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Junho de 2010

domingo, 18 de julho de 2010

HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM S. CIPRIANO: Chamo-me Vicente António Dias e nasci em S. Cipriano há 100 anos*

Qualidade de vida aos 100 anos
Tenho razões para ser uma pessoa feliz. Sempre me dei bem com a minha mulher, que está aqui ao meu lado, ajudando-nos mutuamente numa vida difícil. Continuo a ter sorte, pois os nossos filhos apoiam-nos muito. O nosso filho, que vive numa casa perto da nossa, vem frequentemente perguntar e ver se está tudo bem. E as duas filhas, uma das quais vive em Gondomar e a outra em Vila Nova de Gaia, revezam-se, vindo cá quase todos os fins de semana. Desde Agosto do ano passado, o almoço vem do Centro Comunitário de S. Romão. À noite, aquecemos o resto da sopa e assim ficamos aconchegados para dormir.
Só fui operado às cataratas. Também estive bastante mal, tinha eu trinta e tal anos com uma febre intestinal, que atingiu muitas pessoas de S. Cipriano, tendo morrido muitas delas. Estive várias semanas de cama. A partir de uma certa altura, comecei a perder o apetite e não metia nada à boca. Até que fiquei mirradinho de todo e perdi a consciência. Um dia, uma irmã minha veio a casa visitar-me e chamou por mim. E eu olhei para ela e sorri. Parece que foi milagre. A minha mulher foi logo fazer um chá de cidreira e lá fui bebendo a custo. Depois deu-me a comer um pedaço de uma batatinha cozida, esmagada e embebida em azeite. Fui comendo aos poucos e cá estou. Houve uma outra vez, tinha eu mais de 60 anos, em que também estive acamado, mas por palermice minha. Estava eu a ajudar a meter a bagagem de uma senhora daqui de S. Cipriano, no comboio, na estação de Mosteirô, quando as carruagens começam a andar comigo lá dentro. Fiquei todo atrapalhado. Quando o comboio já tinha andado uns bons quilómetros, ganho coragem e atiro-me cá para fora. Claro que fiquei todo partido. O comboio entretanto pára, porque alguém puxou o alarme. Sei que fiquei junto a umas silvas. Pouco depois, chegaram os bombeiros que me levaram para o hospital de Marco de Canaveses. Fiquei com uma perna engessada. Queriam que eu lá ficasse uns dias, mas pedi para vir logo para S. Cipriano, pois é aqui que me sinto bem. Fiquei imobilizado durante três meses. Ainda fui a um endireita do outro lado do rio. Por causa desta brincadeira, ainda tive de pagar uma multa aos Caminhos de Ferro. Ah, também tive uma úlcera que consegui curar.
Mesmo com os achaques da idade, a máquina lá vai funcionando mais ou menos bem. Há pessoas muito mais novas que têm muito mais razões de queixa.
Tomo 5 medicamentos diferente por dia, para prevenir algumas doenças e outras maleitas, como o colesterol. Não preciso de tomar nada para dormir. Descanso lindamente. Felizmente não dependo de ninguém no dia-a-dia. Gosto de falar com as pessoas. Depois do pequeno almoço, quando está bom tempo, dou um passeiozinho. Depois do almoço, gosto de sair. Ao meio da tarde, sou capaz de dormir uma sesta. Gosto disto. Quando as minhas filhas me levam para Gondomar ou Vila Nova de Gaia, sinto logo saudades. Não me estou a ver num lar.

Descendência numerosa
Nasci em Covelinhas, em 25 de Dezembro de 1909. A minha mulher fez 96 anos no dia 24 de Maio. Éramos 10 irmãos. Uma irmã morreu com cerca de 30 anos. Há 11 anos morreu a última irmã, tinha ela 92 anos. Os outros morreram com a idade à volta de 65 anos. Agora sou o último. Estou preparado para partir quando Deus quiser. Ele é que sabe.
Tenho um filho e duas filhas, como já lhe disse. Netos são 12; bisnetos já somam 20 e trinetos já chegam aos 6. Tenho assim 41 descendentes directos. Dão para encher uma carreira. As pessoas que estiveram na festa em que fiz 100 anos davam para encher um campo de futebol.

Em casa dos pais
Naquela altura, começava-se a trabalhar no duro com cinco ou seis anos. O meu pai sempre foi caseiro, embora de seu tivesse uma casinha com um pequeno quintal. Desde pequenino que comecei a guardar o gado, a rapar as ervas, a empalhar as vacas.
Nunca entrei numa escola. Aprendi a ler e a escrever com um jeitoso, tinha eu 12 ou 13 anos. Aprendi à noite. O tal senhor começou por me ensinar em casa dos meus pais. Deixava lá uma vara para me arriar. De vez em quando era cada vergastada que eu sei lá. Até que um dia, uma irmã minha, com pena de mim, escondeu a vara. E o senhor ficou muito aborrecido. A partir daí, as aulas começaram a ser em casa dele. Como paga, a minha mãe dava-lhe qualquer coisita ligada à agricultura. Cheguei a ler e a escrever mais ou menos bem. Quanto à tabuada, não passei das contas de somar. Noutras contas senti mais dificuldade. Sabe, ler e escrever deram-me muito jeito. Na tropa, em Santarém, escrevia todas as semanas à minha namorada, àquela que é hoje a minha mulher. Enquanto eu escrevia quando queria e o que queria, a minha mulher tinha de pedir a outra pessoa para o fazer.
Até casar, trabalhei sempre para os meus pais. Mesmo quando dava algum dia fora, tinha de lhes entregar o dinheiro. Levei muitos carregos às costas e ajudei a levar muitas carradas de cereais para o celeiro de Caldas de Aregos, mas o dinheiro não passava pelas minhas mãos.
Trabalhava-se bem, mas comia-se mal, como se costuma dizer. Havia uma malga de caldo, uns painços e a cabeça ou rabo de uma sardinha, de vez em quando. A vida era trabalho. Ia-se para os campos antes das Ave-Marias e voltava-se já noite cerrada. Chegava-se ao fim do dia completamente estafado. A única distracção era ir à missa. Não se sabia nada. Veja bem que mesmo o 25 de Abril, soube-o por vizinhos. Mesmo nessa altura não tinha rádio, nem a casa, onde era caseiro, tinha electricidade.
Ouvia falar da monarquia, da implantação da república, mas mais nada. Aqui não chegavam notícias nem havia tempo para discutir política. A nossa preocupação era arranjar pão para comer.
Ainda estive um ano a servir, quando tinha pra aí 18 anos. Ganhava uns tostões. O dinheiro que ganhei deu para comprar as primeiras botas. Além desse dinheiro, o patrão deu-me uns socos, duas camisas e dois chapéus, um de pano e outro de palha. Para ter uma ideia da dureza daqueles tempos, o filho do patrão arranjou tudo sozinho e fugiu pró Brasil. Veio depois, passados 12 anos e cá casou.
Tropa
Fiquei apurado para a tropa. Tive um ano de espera. Fui para a arma de cavalaria, em Santarém. Estive lá 15 meses. Nunca vim de fim de semana a casa. Fiquei sempre por lá. Não havia dinheiro para vir de comboio. Comparado com o que se comia e trabalhava em casa, passava-se lá bem. Quando um patrão que tivemos, conhecido pelo Sr. Reitor ou Padre Rocha, nos disse todo contente que tinha comido um prato de arroz, veja lá bem a miséria.
Ainda me lembro de me encarregarem de ir buscar um cavalo a Lisboa. Para baixo, fui de comboio e levei os arreios. O cavalo, como não estava habituado, era um bocado teimoso, mas lá vim, com as rações que um soldado me deu. Trazia umas guias para ficar em casa da guarda, em Vila Franca de Xira. Dormi com o cavalo numa cavalariça. Depois lá fiz a viagem até Santarém.
No quartel tinha um cavalo atribuído de que era responsável. Também montava e treinava outros cavalos. Acho que era uma vida boa. No fundo, ficava satisfeito por não poder vir a casa. Estou convencido que o meu pai me obrigaria a trabalhar, se cá viesse.

Namoro e casamento
Um dia, vinha com um vizinho de Covelinhas para S. Cipriano. Vi aquela que é hoje a minha mulher e perguntei-lhe se a podia acompanhar. Só para fazer o papel dela, ainda disse: vá ter com o seu companheiro. E virou para casa. Insisti: posso acompanhá-la? Fui atrás dela, não mostrando, desta vez, qualquer reacção. Nesse dia, demos uma volta. Estava o destino traçado. Ainda tive duas moças que gostaram de mim, mas era da que é hoje minha mulher que gostava mesmo. Este primeiro encontro aconteceu tinha eu 21 anos e a minha mulher 16. Namorámos durante 6 anos. Na tropa, como já disse, escrevia-lhe todas as semanas. Normalmente, comprava uma folha de papel, envelope e o selo. Um dia, escrevi a carta, meti-o dentro do envelope e fechei-o. Fui à procura do selo e não o encontrei. Tinha-o deixado dentro do envelope, que o tive de inutilizar. Lá foi mais uma despesa para a qual não esperava.
Casei em 28 de Julho de 1936. Na véspera, ainda fui trabalhar. E vá lá, o meu pai permitiu que ficasse com o dinheiro que ganhei nesse dia. Foi o único dinheiro que tinha. Para o casamento escolhi a melhor roupa que havia lá em casa. Para as despesas tirei dinheiro a juros.

Vida de caseiro
Logo que nos casámos, fomos para caseiros. Era a nossa sina. Como é que havíamos de governar a vida? Para comprar os arreios para as vacas e outras coisas indispensáveis também tirei dinheiro a juros. Pertencia a uma família honrada, por isso havia sempre gente que mo emprestava. Os presuntos e salpicões do primeiro porco que matei foi para pagar a quem devia.
Tive vários patrões, mas sempre saí de bem com eles. Todos me disseram que podia voltar sempre que quisesse. Tive sempre a porta aberta. Mas nós tínhamos de estar abertos a quem nos oferecia melhores condições. Tudo o que era criado no chão (batatas, milho, centeio…) era de meias. O que vinha do ar (fruta e vinho) era de terços. As vacas eram do patrão, sendo o lucro das crias dividido a meias. Caso morressem, tínhamos de suportar metade da perca. Claro que podia criar um porco, galinhas e coelhos, mas alguns patrões exigiam o lombo do porco, 6 frangos por ano e duas dúzias de ovos pelo Natal e Páscoa.
A altura mais difícil ocorreu por alturas da Segunda Guerra Mundial com o racionamento do arroz, do sabão e de outros produtos. Podia não haver carne, que ficava mais para as vessadas e dias de festa. Podia não haver fartura, mas fiz todos os possíveis para que não houvesse fome em casa.
Trabalhei até aos 90 anos. Partirei quando Deus quiser.

Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Maio de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Comunicação do Dr. Vítor Borges na apresentação do livro “NUNO DE SANTA MARIA – Fragmentos de Memória Persistente” *

É uma honra e um privilégio poder estar presente nesta sessão de apresentação do Livro do Professor Doutor Aires Nascimento – Nuno de Santa Maria, Fragmentos de Memória Persistente.
Conforme resulta da investigação do autor constante de um dos ensaios, Nuno Álvares Pereira nasceu em 25 de Junho de 1360, pelo que estamos a comemorar os 650 anos do seu nascimento.
Tal como para o autor, também para mim “há circunstâncias particularmente influentes na construção de afectos. A de lugar toca-nos particularmente, sobretudo quando a ele nos prende a devoção, a piedade e um imaginário que se desenvolve em torno da figura de um herói com quem entramos em relação mais frequente por se dizer ligado ao local onde vivemos parte da vida (que despontava e conduziu as escolhas decisivas) e nos descobrimos também na rememoração da história pátria”.
Em Cernache do Bonjardim, estive em 6 de Junho de 1960 aquando da celebração dos 600 anos do nascimento de São Nuno.
Posteriormente, estive na Escola Prática de Infantaria de que D. Nuno ainda é o patrono.
Ontem, 24 de Junho que é suposto ser a data oficial dos 650 anos do seu nascimento, verifiquei que só em Cernache do Bonjardim foi celebrada a efeméride com a presença do Chefe da Casa Militar do Senhor Presidente da República e, evidentemente, com a representação da Escola Prática de Infantaria.
E quanto a comemorações oficiais parece que nada mais há, a não ser um concurso da Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação, que, ao que parece, teve muitos concorrentes e cujos resultados serão apresentados no próximo dia 30 de Junho.
O concurso intitulado “Vamos Contar a História de Nuno Álvares Pereira” tem por objectivo a realização de trabalhos de natureza diversa que contribuam para promover o estudo alargado desta figura multifacetada (D. Nuno), o conhecimento da sua acção como protagonista dos fenómenos históricos do tempo em que viveu e a sua projecção ao longo de diferentes épocas.
Conforme é referido na justificação do concurso, D. Nuno é “personagem da nossa memória colectiva, que desde muito cedo mereceu a atenção de vários sectores da sociedade portuguesa, como se pode constatar, nomeadamente, através de numerosos textos escritos desde o século XV (a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes e a Crónica do Condestabre, texto anónimo), às múltiplas obras dos tempos actuais, bem como na poesia portuguesa de Camões e Pessoa”.
Quando se refere às obras dos tempos actuais, julgo que tem em conta a investigação feita pelo Professor Aires Nascimento nos 10 ensaios constantes do Livro “Nuno de Santa Maria – Fragmentos de Memória Persistente”.
A persistência do Presidente da Associação Regina Mundi, José dos Santos Ponciano, fez com que dos dois ensaios iniciais ainda publicados antes da canonização de S. Nuno de Santa Maria em 26 de Abril de 2009, resultassem mais oito e a introdução que fazem parte do presente livro.
Tenho que saudar o meu amigo José Domingues dos Santos Ponciano por ter desafiado o Professor Aires Nascimento para este projecto que julgo, conforme resulta do livro, que aceitou o desafio com todo o prazer e pôs em funcionamento todas as suas capacidades e talento de professor universitário, académico e investigador.
Como sabem, o Professor Aires Nascimento é licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras de Lisboa e é seu professor catedrático (actualmente jubilado) desde 1985.
Ao longo da sua brilhante e profícua carreira desempenhou várias funções universitárias, desde coordenador do Departamento de Estudos Clássicos daquela Faculdade, Vice-Presidente do seu Conselho Científico e Pró-Reitor da Universidade de Lisboa.
É membro das mais diversas instituições científicas nacionais e estrangeiras incluindo a Academia das Ciências de Lisboa, a Academia Portuguesa de História, a SISMEL, de Florença, a ISIEME, de Roma, a Academia de Bones Lletres, da Catalunha, etc, etc.
Foi durante 25 anos Director da revista de Filologia Clássica “Euphrosyne” e 15 anos Director do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa. Pertence ao Conselho Científico de diversas revistas científicas (nacionais e estrangeiras).
Dirigiu projectos científicos em colaboração com instituições universitárias, assegurando o ensino de diversas disciplinas (no domínio dos Estudos Clássicos, Grego e Latim), iniciou em Portugal o estudo da tradição dos textos e do livro manuscrito (Filologia, Codicologia, Tratamento Electrónico de Textos).
No seu currículo científico destacam-se edições críticas de textos latinos medievais de tradição portuguesa (30 monografias), estudos filológicos e literários com incidência maior no domínio medieval ou renascentista (c. 300 artigos), estudos críticos (em recensões e pareceres científicos).
Entre os prémios com que foi distinguido conta-se o Grande Prémio de Tradução pela tradução da Utopia de Tomás Moro (Prémio União Latina e FCT). Pelo mesmo trabalho recebeu também Prémio de Tradução do PEN Club.
O que disse vem na capa do livro mas quis destacar o último ponto relativo à tradução de Utopia de Tomás Moro por me parecer haver uma certa coincidência entre Tomás Moro e D. Nuno Álvares Pereira. Ambos foram políticos e são santos. S. Tomás Moro foi designado por João Paulo II como patrono dos políticos. Por sua vez, do livro do Professor Aires Nascimento, da personalidade de S. Nuno de Santa Maria são destacadas as suas virtudes humanas e morais (virtudes com o significado de excelência, conforme é referido pelo autor) mais do que aquelas que é costume destacar na biografia de um santo.
As virtudes, chamadas virtudes cardiais: prudência, justiça, fortaleza e temperança que já os filósofos gregos consideravam como fundamentais e, por isso, cardiais, são realçadas quer no “Sumário que o Infante (D. Duarte) deu a Mestre Francisco para pregar do Condestabre Dom Nuno Alvarez Pereyra”, quer na oração que o Infante D. Pedro fez em 1437 e que o autor traduziu e que é distribuído com o livro: D. Nuno é modelo de governantes, exemplo dos senhores, espelho de contemplativos, firme e forte em combate, comedido e apiedado na vitória, justo e misericordioso na paz, obediente e forte no claustro. Em toda a situação se afirmou com dignidade e brio e assim como nos seus dias de vida alcançou honra e glória assim também é merecedor de alcançar no céu a eterna bem-aventurança.
Por que é um académico e investigador, os ensaios constantes do livro não podiam deixar de ser, como o são, produto de uma rigorosa e fundamentada investigação.
O ensaio sobre a antiguidade do culto de S. Nuno levou o autor até Parma para poder in loco verificar na Biblioteca Palatina de Parma o manuscrito litúrgico nela conservado e que seria o primeiro testemunho litúrgico do culto a S. Nuno de Santa Maria.
A vasta cultura do autor permite também que sejam analisados em pormenor a importância de D. Nuno Álvares Pereira nos Lusíadas ou na Mensagem de Fernando Pessoa.
O facto de o autor também ser considerado o maior codicologista português e um dos maiores da Europa e ter sido Presidente do Instituto Português de Arquivos permitiu que muitos documentos históricos que se encontram citados no original e, sobretudo, que no livro se encontrem ilustrações, iluminuras e ícones que muito provavelmente não se encontrarão em mais livro nenhum.
Sei que o Professor Aires Nascimento acompanhou toda a edição do livro e escolheu as ilustrações que o acompanham.
Por isso, além do mais, o livro hoje apresentado é um livro belo.
Não se trata de uma hagiografia tradicional ou vulgar, pois como se disse, mais do que as virtudes tradicionais dos santos, são relevadas as virtudes humanas, morais e intelectuais dos homens, neste caso de D. Nuno Álvares Pereira.
Não é um livro fácil, pois, apesar do esforço, o Professor Aires Nascimento rege-se pelo princípio de que não vale a pena fazer seja o que for se não for bem feito. E o Professor, o Académico e o Investigador estão sempre presentes no que faz e no que escreve.
Eu li com muito prazer e proveito o livro “Nuno de Santa Maria – Fragmentos de Memória Persistente”. Espero que os presentes tenham o mesmo prazer intelectual de o ler como eu tive.
*Em sessão que decorreu no Casino da Figueira da Foz, em 2010-06-25

Pe. Marcos Alvim lançou em Lamego novo trabalho discográfico*

No passado dia 2 de Julho, o Auditório o Centro Paroquial de Almacave - Lamego, acolheu várias centenas de pessoas para participarem na apresentação do CD/Livro de músicas de mensagem do Pe. Marcos Alvim, lançado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil da Diocese de Lamego e pelas Edições Salesianas.
A palavra de abertura coube ao responsável da Pastoral Juvenil da Diocese, Pe. Bráulio, que começou por saudar todos os presentes e de modo particular o Pe. Marcos Alvim a quem dirigiu palavras de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido no campo da música e da produção musical.
Seguiu-se a apresentação das músicas interpretadas pelo Pe. Marcos Alvim, acompanhado ao piano pelo seu produtor, Prof. Alberto Mendonça.
A meio da apresentação o Pe. Marcos Alvim, dirigiu uma palavra a todos os presentes, agradecendo o apoio e estímulo para a continuidade do seu trabalho. Salientou ainda a importância que a música tem na sua vida, no seu ministério e na vida da Igreja.
Seguiu-se a palavra do Sr. Bispo de Lamego, D. Jacinto, que felicitou o Pe. Marcos Alvim, o Secretariado da Juventude e as Edições Salesianas por este trabalho e convidou-nos a “louvar e saborear a presença do Bom Mestre no meio de nós ao ouvir estas belas melodias”.
O CD/Livro “Bom Mestre…” está nas livrarias católicas ao dispor de todos aqueles que gostam de sonoridades mais jovens, onde o ritmo e a melodia se conjugam numa harmonia bela. Este é certamente mais um instrumento de trabalho para párocos grupos corais, grupos de jovens e para todos aqueles que gostam de louvar a Deus “com arte e com alma”.
*Artigo elaborado por Prof. Aquilino Rocha Pinto
Site Meter