ABíblia e o cristianismo trouxeram ao mundo a ideia da dignidade divina de todos os seres humanos. Mas, apesar disso, a Igreja Católica lutou contra ideias como os direitos humanos, a secularização e a separação da Igreja e do Estado. O padre Anselmo Borges, membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, admite que a religião tem sido e pode ser opressora, mas que só pode entender-se como força de liberdade e de libertação.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Anselmo Borges em entrevista à Pública (06.02.2010): "A religião oprime quando impede a alegria a nível sexual"*
ABíblia e o cristianismo trouxeram ao mundo a ideia da dignidade divina de todos os seres humanos. Mas, apesar disso, a Igreja Católica lutou contra ideias como os direitos humanos, a secularização e a separação da Igreja e do Estado. O padre Anselmo Borges, membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, admite que a religião tem sido e pode ser opressora, mas que só pode entender-se como força de liberdade e de libertação.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
HISTÓRIAS DE UMA VIDA DE UM RESENDENSE… EM SINTRA: Chamo-me Joaquim de Jesus e nasci em Passos, Cárquere, há 75 anos*
Vim ao mundo no dia 1 de Setembro de 1935. Éramos seis irmãos (três rapazes e três raparigas). Fui o penúltimo a nascer; ainda cá continuamos três. A minha mãe foi mãe solteira. Foi servir para uma quinta do Enxertado, onde teve o primeiro filho do patrão, que era casado. A mulher não tolerou tal situação, tendo sido despedida. Mas a ligação ao antigo patrão continuou, tendo tido mais cinco filhos.
A minha mãe, que viria a morrer com 60 e poucos anos, só tinha uma casinha com um pequeno quintal e nada mais. Imagine as dificuldades que teve para nos alimentar e criar. Passámos muita fome. Havia dias que não havia nada para comer. Plantávamos umas couves no quintal, mas não duravam sempre. Recordo-me de ir pedir, mas só as pessoas mais abastadas, que eram poucas, davam qualquer coisinha. A maior parte das vezes, vinha com as mãos abanar. Os vizinhos também eram pobres. Mesmo que quisessem, não nos podiam ajudar. Não tínhamos nada para enganar o estômago. Era terrível.
Na altura não havia cá escola. Mas mesmo que houvesse, nunca iria para a escola. Como era possível aprender, cheio de fome? Onde iria arranjar dinheiro para comprar livros, papel e canetas? Comecei a trabalhar com sete anos. Oferecia-me para ir guardar as vacas e ovelhas para as lameiras e montes. Também ajudava em trabalhos nos campos. Deitava as águas, acartava sacos, rapava as ervas. Não ganhava qualquer ordenado; a paga era em géneros: pão, batatas, caldo…Com treze anos, comecei a trabalhar como ajudante de pedreiro e mineiro. Dei muitos dias nas terras do Presidente da Câmara Municipal de então. Ganhava à volta de catorze, quinze escudos por semana.
Na tropa
No dia 4 de Abri de 1956, fui para a tropa, para a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, no Alentejo. Os primeiros dias custaram-me muito por causa das saudades. Não chorava por vergonha. Depois passou. Considero que foi uma sorte ir para a tropa. Ao menos, tinha onde comer. É triste ter de dizer isto, mas é a realidade. A vida em Cárquere era uma miséria.
A minha especialidade era a de apontador de obus 14. Frequentei a escola de cabos. Fui 1.º cabo. Na verdade, para ir para cabo era preciso ter o exame da 4.ª classe. E eu tirei-a. Esqueci-me de lhe dizer. É que entretanto, antes de vir para a tropa, construíram uma escola em Cárquere, tendo a respectiva professora ido viver para casa do Dr. Brito Dias. Foi ele que me incentivou a aprender a ler e escrever. Formámos um grupo de meia dúzia de pessoas e tínhamos aulas à tardinha ou à noite. Fiz o exame da 4.ª classe na véspera de S. João, na escola primária de Resende. A esposa do Dr. Brito de Matos, a Prof. Odete, também ajudou muita gente, pois ensinou muitos adultos a ler.
Fiz dezoito meses de tropa. Comparado com as dificuldades que tinha passado, a disciplina militar não me metia medo. Enfrentava sem problemas os desfiles, exercícios físicos, treinos de tiro, percursos nocturnos, corridas e outras manobras. Por mais dura que fosse aquela vida, tinha roupa lavada, cama e comida. Como não tinha dinheiro, nunca fui de fim-de-semana. Para matar saudades escrevia à minha mãe. Mas como eu, havia muitos. Poucos tinham dinheiro para vir às terras. Só os oficiais, sargentos e meia dúzia de soldados tinham esse privilégio. Aproveitávamos para dar uns passeios por Vendas Novas e arredores, pois não havia mais nada com que passar o tempo. Era uma vida sadia. Não havia televisão e jornais nem vê-los. Hoje em dia é o contrário. A malta nova vê televisão a mais e está sempre agarrada aos computadores e telemóveis.
Com as poupanças do pré, cheguei ao fim da tropa com 90 escudos. No quartel conheci uns colegas que eram de Sintra. Pelo que me apercebi lá havia muito mais oportunidade de arranjar trabalho. Como sabia que se voltasse para o nosso concelho me esperava a miséria, arrisquei ir para Sintra. De qualquer maneira, pedi para que o destino da guia de marcha fosse Resende, pois, se tivesse azar e não encontrasse trabalho, tinha a viagem paga.
Em Sintra
Lembro-me que era já noite quando cheguei à estação de Sintra. Não conhecia ninguém nem sabia que por aqui já havia muitas pessoas de Resende. Dirigi-me a um motorista de táxi e perguntei-lhe se conhecia alguém que me podia dar trabalho. Ele disse-me: “vai por aqui e por ali e encontra um matadouro, chegando lá desenrasca-se”. Fui dar a uma taberna. Comi lá qualquer coisa e consegui que me dessem cama nessa noite. Deram-me uma manta e dormi assim no chão. Ao outro dia indicaram-me um celeiro. Fui até lá e deram-me logo trabalho. Não hesitei, tendo ficado logo lá. O meu trabalho consistia em encher sacos e levá-los para a estação de comboios de Sintra.
Infelizmente, passadas duas semanas, a minha mãe mandou-me uma carta do Exército que chegou através do Regedor a informar que deveria apresentar-me novamente no quartel de Vendas Novas. Caso não o fizesse, era considerado refractário, podendo ser preso. Embora contrariado, lá fui. De Vendas Novas mandaram-me com outros colegas para Évora, onde fomos substituir uma companhia que tinha sido mobilizada para a Índia. Estive nessa cidade sete meses.
Findo este tempo, voltei para Sintra, mas já não fui para o celeiro. Procurei outra ocupação. Consegui arranjar trabalho na Quinta da Regaleira. Continuei a ir dormir a uma sala pertencente aos donos da tal taberna de que já lhe falei. Entretanto, soube que havia uma casa alugada a um dos trabalhadores que a subalugava a outras pessoas. Nas redondezas era conhecida como a casa dos malteses. E eu fui mais um. Aí estava mais à vontade.
Estive três anos na Quinta da Regaleira. Depois comprei um negócio por trespasse que se dedicava à venda e distribuição de leite. Para poder fazer isso comprei uma carrinha. O leite ia comprá-lo à UCAL (União das Cooperativas Abastecedoras de Leite de Lisboa) , na Portela, próximo de Sintra. Ia de porta em porta. Muitos fregueses pagavam-me a pronto, outros à semana e ainda outros ao mês. É claro que a alguns tinha mesmo de deixar fiado por mais tempo. À UCAL tinha de pagar diariamente em dinheiro vivo. Governei assim a vida durante cerca de dez anos. Trabalhava muito, mas também deu para comprar um terreno onde fiz uma casa, com um grande quintal.
Na UCAL
Findo este tempo, a UCAL propôs-me a compra do trespasse do negócio com a consequente integração nos seus quadros de trabalhadores, o que aceitei. O meu trabalho era ir vender com um camião leite pelas lojas comerciais, restaurantes e cafés da região. Ia com um ajudante. Tinha um vencimento, mas também ganhava à comissão. Os produtos da UCAL eram bem aceites no mercado. Vendia embalagens de leite, manteiga, leite com chocolate, queijos, natas e iogurtes.
Trabalhei na UCAL trinta anos. Estou reformado há quinze. Foi mais ou menos na mesma altura em que a União de Cooperativas foi adquirida pela Parmalat. Este negócio, que aconteceu em 1993, deu na altura muito que falar. Dava a impressão que eles queriam tomar conta do leite em Portugal. E vieram com muita força. Pelo sim e pelo não, preferi retirar-me. Alguns dos meus colegas foram integrados na nova empresa. Recordo-me de se falar muito na Parmalat, mesmo antes de vir para Portugal, pois tinha sido pioneira na utilização de embalagens da Tetra Pak, o que permitia a longa conservação do leite. Isto fez com que tivesse muito sucesso. Ao destacar-se nos anos 70 como patrocinadora desportiva, com presença no Campeonato do Mundo de Ski e da Fórmula 1 e, mais tarde, no mundo do futebol, a marca tornou-se conhecida em todo o mundo. Por isso, os meus colegas viram a chegada da Parmalat com alguma confiança. Sei que em Itália os tribunais declararam a falência da empresa mãe em 2003, mas em Portugal nunca houve problemas, embora a competição sempre fosse grande. Como sabe, a Parmalat/Portugal alargou o negócio aos produtos de forno, sumos e bebidas, mas continua a apostar na imagem e marca UCAL. Por isso comercializa leites, natas e manteigas com a designação UCAL.
Na reforma
Já me esquecia de dizer que casei tinha eu 27 anos. Conheci a minha mulher na sede da UCAL. É natural daqui. Não tenho filhos. Tenho ainda dois irmãos vivos, como lhe disse no princípio da conversa. Um vive Resende e um outro aqui, na região de Sintra. Os que já partiram, um irmão morreu em Cárquere e duas irmãs no Brasil. Estas casaram, foram para o Brasil e nunca mais cá vieram. Sei que tenho sobrinhos, mas para lhe ser sincero nem sei quantos são. Há uns anos, uma sobrinha veio a Portugal conhecer as suas origens, foi a Resende e andou por cá. Esteve vários dias em minha casa.
Tenho passado bem a reforma. Não me tem faltado que fazer. Tenho um quintal com cerca de mil metros quadrados, onde tenho um pouco de tudo: couves, batatas, cebolas, feijão, tomate, alfaces, pepinos e algumas árvores de fruto. Ando sempre ocupado. E agora até demais, pois a minha mulher deu uma queda e tenho de cuidar dela, embora se levante e coma por ela. E agora é que vou perdendo as forças, pois ainda ia cultivando uns terrenos herdados pela minha mulher. Agora infelizmente andam lá umas ovelhas que nem sei a quem pertencem. Tenho pena, mas ninguém quer cultivar esses terrenos. Isto não acontece só por Resende. Nem cultivando de borla as pessoas querem. Talvez com esta crise as coisas mudem. Eu acho que têm de mudar. Por que é que há-de vir tudo do estrangeiro quando podemos cultivar nós? Nem que seja para evitar comprar nos supermercados, como eu faço. Poupo dinheiro e sei o que como.
Continuo a fazer 15 dias ou um mês de férias nas unidades hoteleiras do INATEL. Já estive quase em todas, embora aquela que mais frequentei tenha sido a do Algarve. Também já fui numa excursão à Madeira, Suíça e Espanha.
Estive em Resende oito vezes. Lembro-me muito dos tempos passados, mas acho que foram tempos difíceis. Foram dias de muita fome e de muito trabalho. Não havia futuro. Agora aquilo está muito mudado. Há estradas por todo lado, escolas, piscinas e mais lojas comerciais. No meu tempo, não havia tempo nem dinheiro para os mais novos se divertirem. A única coisa que me dá mais alegria recordar é a música, pois tocava realejo, e as desfolhadas, onde a gente se divertia. Ficam sempre recordações, mas encontro poucas que me tivessem dado felicidade. Ficaram-me as bonitas paisagens dos campos, da serra e do Douro. Espero que não aconteça aos mais novos aquilo que fui obrigado a fazer: ter de procurar trabalho noutras terras.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM OVADAS: Chamo-me Américo Dias Botelho e nasci na Granja, Ovadas, há 90 anos*
Nasci aqui na Granja, no dia 14 de Novembro de 1920. Éramos nove irmãos. Ainda estamos cinco vivos. Falando com franqueza, nunca pensei viver tantos anos e, por isso, dou graças. Antigamente, a esperança de vida era baixa. Posso considerar-me, pois, um homem de sorte. Mas saio a boa cepa, pois o meu pai morreu com 82 anos; a minha mãe é que morreu mais nova, com 64. Era difícil prever uma vida muito longa com tantos filhos.
O meu pai sabia ler e escrever bem. Fabricava terras e negociava gado. Trazia sete, oito vacas nas terras, um grande rebanho de ovelhas e cabras e matava três porcos. Vivíamos razoavelmente bem para a época. A minha mãe era doméstica, tratava dos filhos; só sabia escrever o nome.
Nasci numa casa no meio da aldeia. Esta casa, onde estamos agora, comprei-a aos meus irmãos. Passou-se aqui um episódio de que me recordo muito bem. A casa estava a acabar de ser construída, mas já cá vivia uma minha avó e a minha madrinha. Deveria ter dois anos e meio a três anos, quando um dia a minha avó me trouxe para aqui para a desmama. Senti tanta falta da minha mãe que fugi à procura dela na casa lá de baixo, mas ela escondeu-se, e a criada trouxe-me outra vez à força cá para cima. Não imagina a gritaria; berrava como um cabrito.
Andei aqui na escola da Granja, que ficava numa casa emprestada pelo meu pai. Tirei só a 3.ª classe, porque a professora foi transferida para Felgueiras e nunca foi substituída. Mas foi uma terceira como deve ser.
Depois de deixada a escola, passei a ajudar o meu pai nas lides da terra, acompanhando-o às feiras para vender e comprar gado. Também levava os animais a pastar pelos campos e pela serra.
Em Moçambique
Depois de casar com a Henriqueta, de Ovadas de Baixo, que conheci nas idas à igreja e nas festas que aí se realizavam, fomos viver para casa dos meus pais. A minha mulher tinha um irmão em Moçambique, que me fez despontar a vontade de dar um novo rumo à vida. Pensei que lá haveria outras oportunidades que não deveria desperdiçar. O meu cunhado tratou de tudo: da viagem e da carta de chamada. Deixei cá a mulher e um filho de quinze dias, que infelizmente viria a morrer por volta dos dois anos. Tinha então 22 anos. Estive lá quinze anos sozinho.
O meu primeiro trabalho foi o de praticante de via dos Caminhos de Ferro, na então Lourenço Marques, hoje Maputo. Quem mo arranjou foi o Dr. Aires Pinto Ribeiro, Director dos Serviços de Saúde de Moçambique, que era amigo do meu pai. Entretanto, comecei a estudar à noite para terminar a 4.ª classe, o que aconteceu rapidamente. Passado meio ano, mandaram-me para o norte, mais propriamente para Tete. Preparei tudo e fui-me despedir do Dr. Aires Ribeiro, que, admirado perante esta mudança repentina, me disse: “tu não vais nada para Tete” e pegou no telefone. Feito o telefonema, acrescentou: “amanhã vais ter com o Director dos Correios de Lourenço Marques, que se chama Francisco Paulo Menano, que tem lá uma surpresa para ti. E assim foi. Comecei como distribuidor interino, continuando na capital. Depois, sempre através de concurso com várias dezenas de concorrentes, passei sucessivamente para distribuidor, tendo ficado em 6.º lugar; a seguir para distribuidor de primeira, tendo ficado em 3.º lugar e, por último, concorri para a fiscalização, tendo ficado em 1.º lugar.
Quando me encontrava em acções de fiscalização, por vezes aparecia o Director Geral dos Correios, Eng. Raul Coelho Lopes Duarte, que sabia da qualidade do meu trabalho, e ao ver-me, chegou a desabafar para os meus superiores: “eu bem queria abrir as portas a este homem, mas não consigo, pois é preciso ter o canudo”. Abriu então vaga para chefiar a 8.ª Secção da Estação Central, mas era preciso ter o antigo 7.º e eu só tinha a 4.ª classe. Para ocupar estas funções enquanto não abria concurso, fui designado chefe interino. Entretanto, foram abrindo vagas para 2.º oficial e 1.º oficial a que concorri. Lembro-me de, em mais de 300 concorrentes, ter ficado em 2.º lugar neste último concurso, muitos deles habilitados com o antigo 7.º ano. E como sou um homem de sorte, abriu também concurso para a Chefia da 8.ª Secção, em que uma das condições que possibilitava o acesso, para além de ter o 7.º ano, que eu não possuía, era a experiência do lugar, que me assentava que nem uma luva. Pude assim continuar como Chefe da dita Secção, o que me proporcionava mais algum dinheiro. E como não vim para Moçambique propriamente para passar férias, pouco tempo depois de entrar nos Correios, tornei-me também bombeiro e fiscal/controlador de bilhetes nos cinemas Estúdio e Dica.
Após um ano de férias em Portugal
Passados dez anos desde que cheguei a Moçambique, quando era 2.º oficial, vim de férias à então chamada Metrópole. Foi um ano de que guardo gratas recordações. Pude revisitar estas terras de que tanto gosto e, sobretudo, reencontrar a minha mulher, família e amigos. A pé e a cavalo tive oportunidade de ir várias vezes a Lamego, Resende e aldeias vizinhas e percorrer as serranias, que conheço como as minhas mãos.
De volta a Moçambique, a minha mulher acompanhou-me. Continuei a trabalhar nos Correios e a fazer umas horas como bombeiro e como fiscal nos cinemas. A minha mulher trabalhou sempre como doméstica. Entretanto, nasceu um filho, que viria a ser o único, no qual tudo investimos, procurando proporcionar-lhe a melhor educação. É hoje advogado em Lisboa (Dr. Américo Isidro Castro Botelho). Fez o liceu em Lourenço Marques, tendo a sua vocação sido definida logo no exame de admissão pelo Director de Instrução Pública. Ao notar a forma como falava e como sabia responder a todas as perguntas que lhe foram colocadas na prova oral, aquele responsável sentenciou: “ tens de ir para advogado; será aí o teu lugar certo”. E assim foi com alguma pena nossa, pois teve de vir estudar mais tarde para cá, para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Viemos cá uma segunda vez de férias. Era a chamada licença graciosa, que podia ser gozada, em média de quatro em quatro anos na Metrópole. Era a vantagem de se trabalhar para o Estado. Tínhamos as viagens pagas, continuando a receber uma parte dos vencimentos durante cerca de meio ano. Tive até oportunidade de vir cá mais vezes.
O chefe dos correios disse-me várias vezes que arranjava trabalho para a minha mulher, mas eu preferi sempre que ela tratasse da casa e da educação do filho. É tarefa tão digna como qualquer outro trabalho ou talvez mais. Ainda não percebi por que é que uma mulher não se pode realizar trabalhando em casa e ajudando na educação dos filhos, desde que o marido tenha meios para sustentar o lar.
Regresso após o 25 de Abril
Quando se deu o 25 de Abril, previ que iriam acontecer alterações na vida dos portugueses a viver em Moçambique. Não era preciso ser muito inteligente para se perceber que muitos privilégios iriam acabar, o que não era o meu caso, pois vivia do meu trabalho. Muitos lugares, sobretudo os que não exigiam grande especialização, como na função pública, estradas, caminhos de ferro, portos e mesmo correios, iriam logicamente ser ocupados pelos negros num Moçambique independente. Foi isto que eu previ. Por isso, tratei de me reformar e vir o mais rapidamente possível. Ainda consegui mandar para aqui alguma tralha, mas pouca, porque começaram logo a pôr muitos obstáculos. Vim antes dos acordos de Lusaka, assinados em 7 de Setembro de 1974, que fixou as condições para a independência, tendo Portugal de aceitar as imposições de Samora Machel. Felizmente já cá estava quando aconteceram graves distúrbios em que foram mortos alguns brancos e saqueadas várias lojas na zona de Lourenço Marques, na sequência da ocupação do Rádio Clube por alguns aventureiros brancos. A propósito, peço que escreva que eu sempre convivi com todos e guardo boas recordações daqueles com quem trabalhei, fossem brancos ou pretos.
Deixei lá, em Moçambique, um prédio com seis apartamentos, duas lojas e dois armazéns. Ficaram alugados, mas depois foram nacionalizados. Todas as casas, como sabe, não habitadas pelos próprios proprietários reverteram a favor do Estado moçambicano. O meu filho deslocou-se lá, aqui há uns anos, e foi pedir esclarecimentos, mas disseram-lhe o seguinte: “se quiserem o prédio de volta, venham para cá habitá-lo que nós devolvemo-lo”. Ficava na então Av. Paiva de Andrade, n.º 999.
Em Ovadas
Recordo-me muitas vezes da vida que levava em Lourenço Marques. Lá era mais conhecido que o Borda d’Água. Embora trabalhasse bastante, gostava daquela maneira de viver. Fazíamos amigos com facilidade e as pessoas eram muito abertas e alegres. Deixei lá muitos amigos. Tenho trinta e nove afilhados espalhados pelo mundo, a maioria dos quais em Moçambique. Lá querendo trabalhar, não faltava nada. Aqui as pessoas são mais fechadas e desconfiadas, talvez devido às dificuldades por que passaram.
Sinto-me aqui bem. Gosto muito desta terra, que palmilhei em pequeno. Esta encosta de Ovadas é muito bonita. Entre herança e compras com o dinheiro que fui juntando, tenho duas quintas em Miomães, de bastante rendimento, onde tenho dois caseiros. Aqui, na Granja, tenho terras que já deram lugar a três caseiros, que chegaram a criar 15 vacas. Agora, ninguém está interessado nisto. Não consigo que venham trabalhar, nem que fosse de graça. Acho que as pessoas habituaram-se ao rendimento mínimo, pago pelo Estado, e não lhes interessa trabalhar.
Quando vim, ainda levei uma vida boa. Comprava e vendia gado para os caseiros e andava por todo o lado. Retomei a minha actividade de caçador de que sempre gostei. Ainda fizemos caminhadas por esses montes à procura de coelhos e perdizes, que era um pretexto para conviver. Agora, tenho de ficar mais por casa, pois não posso deixar a minha mulher sozinha, como vê. Há uns tempos sentiu uma dor na cabeça, talvez tivesse um derrame cerebral, e nunca mais foi a mesma. Fala, mas não se lembra de nada. Sou eu que tenho de fazer a comida e tratar da casa. Vem cá uma rapariga, que é minha afilhada, limpar a casa e passar a roupa. Para distrair a minha mulher vamos a todas as feiras a Resende. Ando lá com ela pela mão e depois levo-a a comer. Quem conduz o meu carro é um irmão meu que vive aqui na Granja, e que já viveu no Brasil, onde teve um táxi. Tenho receio de conduzir. O meu filho telefona-me todos os dias. Vem cá quinzenalmente com a mulher. Nessas alturas, escuso de me preocupar, porque eles tomam conta da cozinha. Gosto muito de os cá ver assim como os meus netos.
Gostei de o conhecer e de saber que é de Paus e que conhece o Antoninho, casado com a Adelinha, de Moumiz. O António (Dias Pinto Alberto) é meu cunhado, irmão da minha mulher. Também esteve em Moçambique, onde trabalhou nos caminhos de ferro. O mundo é pequeno. E agora vou mostrar-lhe a minha casa e, no fim, tem de comer um bocado de presunto caseiro e provar o meu vinho.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
CASA DO CONCELHO DE RESENDE EM SINTRA ORGANIZOU FESTA DE NATAL*
Como já vem sendo hábito, a Casa do Concelho de Resende em Sintra levou a efeito, no passado dia 12 de Dezembro, na sede do Sporting Clube de Lourel, uma festa de Natal, de cujo programa fez parte um almoço e uma tarde de convívio. Durante toda a manhã, voluntários deram o seu melhor na cozinha para que do almoço saísse um manjar. Enquanto na cozinha se trabalhava afanosamente, uma mesa ao lado ia-se embelezando de aperitivos e sobretudo de sobremesas que iam chegando, fruto da arte e colaboração de várias famílias.
A partir das 12h começaram a aparecer os primeiros convivas. Até ao início da refeição, pelas 13h, quem chegava ia pondo a conversa em dia. Os vínculos a Resende foram ditando as palavras, dichotes e silêncios, sendo a razão do à vontade entre todos. Foi lá, na mesma terra comum, que se moldaram personalidades, se forjaram os primeiros sonhos, se construiu a paisagem indelével das geografias pessoais e se desenrolaram os acontecimentos que se converteram em referências da memória e em escudos contra a saudade. Para quem vive longe, Resende é um conjunto de lugares e pessoas que povoam recordações, tendo o condão de desencadear, mais que um sentimento de melancolia, uma força tranquilizadora que, não importando onde se viva, convoca para convívios entre conterrâneos como este, ou para o refúgio originário onde se nasceu e cresceu, para onde se pode retornar ou regressar definitivamente.
Marcaram presença neste almoço, servido a preceito por uma equipa com adereços do Pai Natal, 167 pessoas. O Presidente da Direcção, Joaquim Pinto, desejou a todos Boas Festas de Natal, fazendo simpaticamente questão de sublinhar a presença do repórter do “Jornal de Resende” nos últimos eventos da Casa do Concelho de Resende, tendo lançado o desafio aos presentes para que assinassem e lessem este jornal, pois, além das notícias, “tem a vantagem de não sujar os dedos”.
Tarde de convívio
O programa da tarde esteve muito voltado para os mais novos, como convida esta quadra natalícia. Por volta das 16h, teve início uma representação teatral por um grupo de dez jovens, que levou ao palco a peça “Noddy salva o Natal”, escrita pela Educadora Carolina Pinto Dias. Durante cerca de um mês, “o encenador” Joaquim Botelho deu vida e ajudou a interiorizar personagens tão divertidos como o Noddy, o Pai Natal, o Sonso, o Orelhas ou o Mafarrico, que prenderam a atenção e fizeram soltar gargalhadas à numerosa assistência. “Era uma vez no país dos brinquedos…” foi o mote inicial que teve o condão de calar toda a gente.
Seguiu-se a actuação do Grupo Coral da Casa do Concelho de Resende, que brindou a assistência com várias canções alusivas ao Natal. Refira-se que a sua próxima actuação acontecerá no dia de Reis, nos espaços da Câmara Municipal de Sintra, onde mais uma vez serão os arautos de canções assentes num reportório com origem, quase exclusivamente, no concelho de Resende. Na sequência desta actuação, foi dada a oportunidade para alguns dos mais novos mostrarem os seus talentos musicais.
Quando menos se esperava, um grupo de palhaços entrou em cena, pondo as crianças de olhos em bico, e que serviu para preparar a chegada da personagem mais desejada, ou seja, o Pai Natal. Quando este apareceu, com o sonoro “Ho!Ho!Ho!...”, foi o encantamento para as 27 crianças presentes, que seriam contempladas com brinquedos, retirados de um grande saco vermelho. Para marcar ainda mais a diferença desta tarde, dedicada sobretudo às crianças, as mesmas, antes de irem para suas casas experimentar os brinquedos recebidos, foram obsequiadas com um lanche, à base de bolos e pastéis, que já tinham feito crescer muita água na boca.
Refira-se que esta tarde de animação, que mereceu o aplauso de todos, foi fruto exclusivo do empenhamento e da criatividade de elementos ligados à Casa de Resende, o que deve ser devidamente realçado.
*Apontamento da autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
HISTÓRIAS DE UMA VIDA… EM BARRÔ: Chamo-me Henriqueta de Jesus e nasci em Vales, Barrô, há 76 anos*
Venho das minhas territas, onde continuo a trabalhar. Semeio batatas e feijões, planto cebolas, alfaces, tomates e couves; apanho fruta, vindimo e faço a poda. Parar é morrer. Para cismar já me basta à noite, pois tenho de tomar uns comprimidos para dormir. Então, quer falar comigo acerca da minha vida? Tenho pena em desapontá-lo, mas eu não tenho muita coisa boa para lhe contar. Tive uma vida muita dura, sabe? Passei uns maus bocados e alguma fome. Antigamente, vivia-se com pouco. Não podíamos exigir muito, pois as dificuldades eram muitas. Até aos cinco, seis anos, morriam muitas crianças. Comia-se mal e, em caso de febres e doenças, não havia dinheiro para ir ao médico. Havia anos, por causa do codo, que queimava tudo, em que nem couves havia para fazer o caldo. Para enganar a fome fazia-se uma sopa de água com unto ou de ramas de batata, de casca de favas e até de urtigas. Sobreviver a tudo isto era um milagre. A juventude de hoje não faz a mínima ideia de quanto a vida era dura antigamente. Estou convencida que a gente nova de hoje não aguentaria. Foi habituada a ter tudo e a não fazer nada. Por isso, não se esforça como devia ser. Ao menos que estudasse para compensar os esforços dos pais. Mas não vejo isso. A malta nem estuda como devia nem ajuda os pais. Não vejo os jovens preparados para enfrentar o que aí vem. As notícias que dão na televisão não são muito animadoras. O país está muito endividado. Quiseram viver todos à grande e à francesa à custa dos outros. E claro, não havendo trabalho, nada feito. Só espero que ainda sobre dinheiro para pagar os remédios e as pensões dos mais pobres. Mas até nisso, segundo dizem, também vão mexer.
Está a ver esta encosta, por aí acima? Desde criança era percorrida a pé e descalça, quer fizesse sol, quer caísse chuva. Muitas vezes, fui à feira a Lamego descalça e carregada, com uma côdea de pão para o caminho. Em dia de festa, como a de Nossa Senhora dos Remédios, ia descalça, levando os sapatos num saco, só os calçando no destino. Mas era uma alegria, pois púnhamos a conversa em dia com os nossos vizinhos e gentes das aldeias próximas. Desde pequena aprendi com a minha mãe o quanto era a vida dura para uma mulher. Cedo vi como se amassava a farinha, se acendia o forno e se cozia o pão, e logo comecei a ajudar. Também comecei muito nova a lavar a roupa. Era preciso branquear os lençóis já gastos e tirar o surro das calças, camisas e saias, ensaboando-as bem, mexendo aqui, torcendo ali, em horas seguidas de muito esforço. Depois de posta a corar e secar, engomava-a, como agora se diz, com um ferro já velho, bufando lá para dentro de vez em quando para que as brasas avivassem.
Comia-se do que havia. Mas se aparecia algum pobre, daqueles que andavam de terra em terra e nada tinham, porque eram doentes ou já não tinham forças para trabalhar, não iam embora sem lhes oferecermos uma malga de caldo ou um naco de broa. Naquele tempo, era a miséria e não havia reformas. Tínhamos de ser uns para os outros. Alguns dormiam para aí em palheiros e em lojas.
Era muito difícil ser mãe e ter filhos. Não havia consultas nem se ia para o hospital como agora. Conheço algumas mulheres que morreram ao tê-los. Eram ajudadas por uma mulher com experiência e era o que Deus quisesse. Por isso se dizia, quando uma mulher andava grávida, “oxalá o tenhas numa boa hora”. O único luxo, que vinha a seguir, era comer uma canja e ficar na cama, não por muitos dias. No terceiro ou quarto, já tinham de se levantar para a rotina do dia a dia, sabe-se lá com que sacrifício, porque a vida não podia esperar e, se as mulheres ficavam de cama, o mundo parecia que acabava lá em casa.
Crescer com a apanha de tojo
Nasci aqui perto, em Vales, no dia 18 de Abril de 1934. Éramos seis irmãos. Felizmente, ainda cá estamos quatro vivos. O meu pai andava ao dia aqui na freguesia de Barrô, S. Martinho de Mouros, Cambres e Penajóia. A minha mãe tratava dos filhos e de uma territas, onde se semeava e plantava o essencial para não se morrer à fome.
Não fui à escola. Para os meus pais era uma perda de tempo, pois tinha de trabalhar. Tenho pena de não saber ler nem escrever. Desde pequena comecei a ir ao tojo por esta serra acima. Íamos para lá de manhã e à tarde fazer molhos, que vendíamos a quatro e cinco escudos. O tojo era arrancado à enxada e apanhado à mão. É uma planta que até dá umas flores bonitas na Primavera, mas tem muitos picos. Tínhamos de lidar com elas sem luvas ou qualquer protecção. O tojo era para a renova das vides, servindo de adubo, sendo enterrado por altura do Natal e Janeiro. Era muito procurado pelos proprietários das quintas daqui de Barrô, Penajóia e S. Martinho de Mouros. Ao longo de todo o ano, também se vendia para estrumar os campos e as lojas onde estavam os animais. E até, junto de cada casa, se fazia uma estrumeira a partir de tojos e fetos, onde as pessoas despejavam os caldeiros de urina e faziam as necessidades.
Chegávamos a ir três vezes à serra. Por volta dos oito, nove anos já era obrigada a ir por aí acima. Tomávamos o mata bicho com uma côdea e um pouco de aguardente de manhãzinha, indo a maioria das vezes o sol nascer no monte. Chegávamos a juntar-nos cinquenta pessoas. Esta vida de ir e vir ao tojo durou até casar.
Após o casamento
Casei com vinte anos e o meu marido com vinte e dois. Namorámos um ano e chegou bem para nos conhecermos. Naquele tempo, a malta nova estava ansiosa por sair de casa dos pais para ser independente e ter vida própria. Agora, é o contrário; os jovens namoram anos, trabalham e querem continuar em casa dos pais, com comida e roupa lavada.
O meu marido andou na escola e sabia ler e escrever. Foi com cerca de doze anos para a Quinta de Noval, perto do Pinhão, onde era paquete, fazendo toda a espécie de recados, e levava a merenda aos trabalhadores. Foi levado por um tio, que era lá feitor. Vinha cá de quinze em quinze dias. Depois de casado, continuou a trabalhar na mesma quinta. Eu fui viver para Cêtos para uma casa pertencente aos avós do meu marido.
Tive um filho, o único, após cinco anos de casada. Mas era difícil endireitar a vida. Por isso, em 1968, o meu marido foi para França, juntamente com outros homens daqui. Pagou vinte e cinco contos a um angariador, que depois fez as contas com os passadores. Partiu com um saco às costas e nada mais em direcção à fronteira espanhola, onde teve de passar a salto para não ser visto pela guarda. Depois, meteu-se novamente no comboio até junto da fronteira francesa. Lá foi enfiado numa carrinha e andou por lá às voltas para enganar a polícia, tendo sido deixado numa montanha. Depois de subir muito e rapado muito frio, conseguiu chegar a terras de França.
Mesmo assim teve sorte. O meu marido contava-me que muitos não chegavam ao destino, pois eram enganados pelos passadores, que os deixavam abandonados, morrendo de fome e de frio ou afogados, vindo ainda alguns a cair pelos pedregulhos abaixo. Outros eram mortos ou apanhados pela polícia, que os recambiavam para cá e os castigavam.
Foram todos em busca de uma vida melhor, deixando a mulher e filhos, e acontecia-lhes isto. O meu marido esteve por lá seis anos, sempre na agricultura. Mas aquilo não dava assim tanto dinheiro. Tornou para junto de nós, indo ganhar o dia nas terras. Morreu já lá vão treze anos.
O meu filho também esteve emigrado uns anos juntamente com a mulher na Suíça. Tem uma barbearia em Resende e lá se vai governando. Vivo aqui nesta casa com ele e com a minha nora. Tenho dois netos.
Antigamente, era pior. Há noites em que me custa mais adormecer, pois começo a cismar e tenho de tomar um comprimido. De resto, tomara eu cá andar mais uns anos. A minha nora lá vai tendo paciência para me aturar e trata-me bem.
Tristezas não pagam dívidas
Mas nem tudo era mau. Quando íamos para as festas e feiras, era uma alegria. E mesmo no trabalho, quando nos juntávamos, era costume começarmos a cantar. E as pessoas ajudavam-se umas às outras naquilo que podiam.
Aos domingos à tarde, quando era nova, ia aos bailaricos, que eram organizados pelo Adriano da venda, aqui em Cêtos. A música vinha da grafonola. Ainda me recordo de ver o dono da venda a dar à manivela, punha um disco, baixava a cabeça da agulha e a maquineta lá tocava. Quando a corda começava a faltar, a voz ficava cada vez mais fanhosa e acabava. Outras vezes, arranjava-se um tocador de concertina ou outro instrumento.
Havia ainda as festas religiosas da freguesia e da região. E cheguei a ir algumas vezes à festa de Nossa Senhora dos Remédios. Levava uma merenda para aguentar a caminhada de ida e volta. Em Junho, divertíamo-nos na noitada de S. João. A gente nova fazia fogueiras nas eiras com pinhas e alecrim. Os rapazes e raparigas juntavam-se, saltando às fogueiras. Por esses dias, os rapazes lá conseguiam arranjar dinheiro para comprar bombas e sobretudo “rabioscas”, que atiravam para o meio das pernas das raparigas. E faziam muitas partidas durante a noite.
Um outro divertimento acontecia pelo Carnaval. Os homens faziam a comadre e as mulheres o compadre, que ficavam escondidos. No domingo gordo e na segunda e terça-feira de Entrudo faziam-se grandes bailaricos e corria-se o compadre e a comadre pelos caminhos. As raparigas levavam “em procissão” o compadre que tinham feito, sempre aos gritos, mas atentas aos homens, que faziam tudo para o roubar. Os homens faziam o mesmo, mas por outros caminhos, levando a comadre.
Durante o carnaval, as raparigas tinham de estar muito atentas. É que os rapazes apareciam repentinamente para darem “mantas em seco” às raparigas. Às desprevenidas, depois de as agarrarem, um pegava-lhe pela cabeça e outro pelos pés, e batendo-lhe com o cu no chão, diziam: “Um…dois…três…Um pró pai, outro prá mãe e outro pra quem o fez…”. Se quer acreditar, eu nesses dias evitava sair de casa e nunca fui apanhada.
Ficam-nos estas recordações de coisas que eram uma alegria. Às vezes, penso que antigamente sofria-se mais e até se morria mais cedo, mas as pessoas pareciam mais comunicativas. Não se pode ter tudo. Gostava que houvesse mais gente nova nas aldeias para animar isto. Custa-me pensar que estes campo irão ficar ao abandono e as casas desabitadas. Quem sabe se isto não irá levar uma volta?
Nota: “Histórias de uma vida…” é fruto de uma conversa não gravada, podendo não corresponder exactamente ao que nela foi afirmado.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Pedro Namora falou ao "Jornal de Resende": "Trago sempre Resende no coração"*
Ligações familiares a Resende
Tornou-se uma figura mediática com o despoletar do chamado escândalo da Casa Pia. Recordamos as suas aparições na televisão e a sua determinação na defesa das vítimas de abuso sexual. Pela sua vivência na instituição e pelos contactos e testemunhos que foi recolhendo junto destas crianças e jovens, foi-se persuadindo de que os mesmos não mentem. Para dar ainda mais ênfase e consistência a esta convicção publicou em 2005, com a chancela da Bertrand, o livro “ A dor das crianças não mente”, estando prevista para este mês a sua reedição na Alêtheia Editora. A defesa dos direitos das crianças, especialmente das abusadas, maltratadas e mais fragilizadas, transformou-se no combate da sua vida.
A sua persistência parece advir-lhe das suas raízes e dos ascendentes familiares no nosso concelho, que sempre tiveram de lutar por uma vida digna.
O Dr. Pedro Namora, embora nascido em Lisboa, está muito ligado a Resende. A sua mãe Alzira Namora, filha de Joaquim Namora e Maria do Céu Namora, nasceu em Cardoso, S. Martinho de Mouros. O seu avô era um comerciante muito conhecido e respeitado. Ainda retém com emoção a imagem de um grupo de idosos que se levantaram e tiraram o chapéu da cabeça quando referiu o seu nome aquando de uma das duas deslocações a Resende. No nosso concelho tem alguns primos dos quais destaca o Antoninho Namora e as irmãs, “pelo carinho, amizade e dedicação com que me receberam nessa terra maravilhosa”.
Questionado sobre o que representa Resende na sua vida, respondeu o seguinte:
“Por ser órfão desde muito cedo, o que sei do meu passado foi adquirido através de relatos dos feitos do meu avô, que nunca conheci. Resende é para mim uma terra mítica, que apesar de conhecer tão mal trago sempre no coração. Das duas vezes que visitei Resende fui a Cardoso, porque gosto de ver o eido, onde a minha mãe e tios foram criados, apesar da casa estar infelizmente adulterada. Aliás, se um dia tivesse possibilidades financeiras, o que é pouco provável, gostava de concretizar o sonho de reaver essa casa para que retomasse a traça original”.
Desejava muito poder reviver e passar temporadas nesse espaço, deixando-o como legado de um reportório de encontro de raízes familiares e de memórias aos seus três filhos, uma menina e dois rapazes, com 7, 10 e 13 anos, respectivamente.
Na Casa Pia de Lisboa
Pedro Namora nasceu em Lisboa em 1965. Por ser órfão de pai e pelo facto de a mãe não ter condições para o criar juntamente com a sua irmã, entrou na Casa Pia de Lisboa em 1971, com seis anos. Está grato a esta grande instituição que o educou e lhe moldou a personalidade. “A ela devo parte do que sou. Os princípios em que fomos educados e a existência de um magnífico corpo docente conferiram-me as bases para o futuro”, confidenciou-nos.
Guarda boas recordações dos onze anos de frequência. Foi ganhando consciência das vantagens da integração numa grande instituição, que foi interiorizando como uma família alargada de pertença, cuja educação era prestigiada e donde saíram muitas personalidades de relevo que se destacaram e destacam nas mais diversas áreas.
Reconhece também as desvantagens da institucionalização, como o abandono a que as crianças e jovens estavam sujeitos, a falta de carinho, a despersonalização e até “as torturas que eram infligidas por educadores sem perfil nem vocação para o desempenho das diversas tarefas, que implicam muito sentido de responsabilidade e de sensibilidade e qualidades de relacionamento”.
Confessou ter sido alvo de uma tentativa de abuso por parte de Carlos Silvino, “de que felizmente consegui escapar”, confessou. Naquele tempo, as coisas passavam-se muito em surdina. Comentava-se apenas que era necessário ter cuidado com aquele condutor e com alguns alunos, nomeadamente os que andavam sempre bem vestidos e com dinheiro e que tinham amigos estranhos, arranjados principalmente nos jardins circundantes.
A mãe, que entretanto também já faleceu, visitava-o sempre aos fins de semana e férias, indo a casa muitas vezes, ao contrário do que se passava com a generalidade dos seus colegas.
Curso de direito
Saiu da Casa Pia em 1981, com 17 anos e o diploma do 9.º ano de escolaridade. Nesse mesmo ano, após seis meses como empregado de balcão numa loja de fotografias, conseguiu entrar para a Associação Industrial de Lisboa como aprendiz de electricista, o que lhe permitiu recomeçar os estudos no ano seguinte. Com muita força de vontade, estudando à noite, completou o 12.º ano. Não satisfeito, abalançou-se a fazer o curso de Direito na Universidade Lusíada como trabalhador estudante, tendo concluído o 5.º ano sem nunca ter chumbado.
Actualmente, trabalha numa comissão de protecção de crianças e jovens e exerce advocacia, sobretudo em Lisboa, onde tem escritório.
Reacção à recente decisão do tribunal
Questionado pelo JR sobre a decisão do tribunal que condenou seis arguidos por abusarem sexualmente de menores da Casa Pia, a sua reacção foi de satisfação, porque representa o culminar de uma luta difícil com mais de oito anos. Segundo as suas palavras, “ficou provado que, ao contrário do que alguns andaram a dizer, as vítimas sempre falaram verdade e, talvez pela primeira vez em Portugal, criminosos com imenso poder foram investigados, julgados e condenados”.
De forma desassombrada, como é seu timbre, revelou que também era atingido por alguma insatisfação. Este sentimento devia-se ao facto de “tantas cadeiras terem ficado vazias durante o julgamento. E ao desrespeito que ainda persiste pela infância: se Portugal respeitasse as suas crianças, os seis arguidos deveriam aguardar os recursos em prisão preventiva”.
Palavra final
Pedro Namora teve oportunidade de contactar e conhecer muitos conterrâneos que demandaram Lisboa em busca de melhores condições de vida, numa altura em que as dificuldades eram muitas e até a fome imperava. “Assisti à forma heróica como, partindo do nada, souberam constituir família e triunfar na vida, sem nunca perderem orgulho na terra que deixaram por necessidade. Nunca conheci ninguém mais corajoso, honrado e leal”, referiu convicto.
Já mesmo na despedida, disse emocionado: “ Sinto-me orgulhoso por, tendo nascido em Lisboa, poder dizer que o sangue que me corre nas veias é de Resende”.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Outubro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
A ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA VAI CELEBRAR 190 ANOS*
Do programa, constam como actos principais uma celebração solene da Eucaristia na Capela do Colégio de S. João de Brito, e uma Sessão Solene no Salão Nobre da Academia, em que serão oradores especiais o Prof. Dr. Veríssimo Serrão, seu Presidente de Honra, a actual Presidente, Prof. Dra. Manuela Mendonça e o Secretário de Estado da Cultura, Dr. Elísio Summavielle.
A Real Academia da História Portuguesa (assim se chamava na sua primeira vigência), foi fundada pelo rei D. João V, por decreto de 8 de Dezembro de 1720 – dia da solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora - e teve como seu primeiro inspirador Manuel Caetano de Sousa, clérigo regular e grande homem de letras. O programa inicial da Academia era que “se escrevesse a história eclesiástica destes Reinos, e depois tudo o que pertencesse à história deles e das suas conquistas”.
Estimular e coordenar esforços tendentes ao rigoroso conhecimento da história nacional, no sentido de esclarecer a contribuição portuguesa para o progresso da Cultura e da Civilização, e promover a publicação sistemática de fontes documentais que interessem à História Portuguesa, são os grandes objectivos actuais da Academia.
Depois de um interregno de alguns anos, a Academia foi recriada pelo Decreto-Lei n° 26611, de 19 de Maio de 1936.
Constituída actualmente por 40 “Académicos de Número” (30 de nacionalidade portuguesa e 10 de nacionalidade brasileira), 46 “Académicos Honorários” (36 portugueses e 7 estrangeiros), 183 “Académicos Correspondentes” (84 de nacionalidade portuguesa, 18 de nacionalidade brasileira e 81 de outros países estrangeiros) e 91 “Académicos de Mérito” (24 portugueses e 71 estrangeiros), a Academia Portuguesa da História poderá definir-se como uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado», sendo igualmente o “órgão consultivo do Governo na matéria da sua competência» (art°. 3 dos respectivos estatutos).
Cada um dos seus membros, para além do seu diploma de académico, e do colar de honra que deve usar em todas os actos da Academia, possui um cartão de identificação que lhe facilita a entrada nos Arquivos e nas Bibliotecas Nacionais.
Como publicações habituais da academia, o “BOLETIM ANUAL” donde constam os nomes, o endereço e as obras publicadas por cada um dos seus académicos e as actas de todas as sessões realizadas ao longo do ano, e os “ANAIS”, onde são publicadas todas comunicações apresentadas na academia pelos senhores académicos.
A Academia, com uma Biblioteca riquíssima, tem actualmente a sua sede no Palácio dos Lilases - Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa. É aí que se reúnem os senhores Académicos para debaterem os grandes temas da História, e para homenagearem os seus membros mais ilustres.
Como é costume dizer-se em bom latim
“AD MULTOS ANNOS”!
Resende, 25 de Novembro /10
*Joaquim Correia Duarte