Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Casa e Capela do Espírito Santo: um tesouro da época das Descobertas/Capela feita à romana*

Coordenadas GPS
N 41º 5’34.61´´
W 08º 0’32.53´´

A Casa do Espírito Santo é um dos solares mais interessantes e originais do concelho de Resende, com a sua capela (semi)circular, de óculo, a meio da frontaria, ladeado por inscrição (“Esta capela / mandou fazer / António Pereira / Pinto capitão que / foi de Amboíno. / Ano de 1676”) e brasão (armas dos Pachecos, Pereiras, Padilhas (?) e Pintos). A sua construção deve-se a António Pereira Pinto, natural de Vigião, em Freigil, capitão e governador da ilha de Amboíno, no Extremo Oriente, que defendeu, com bravura e sucesso, dos ataques e cercos regulares dos nativos islamizados, e consolidou a sua fortaleza, sob invocação de Nossa Senhora da Anunciada (1592/93).
Diz a tradição oral que ao regressar a Portugal, famoso e rico, mandou construir a Casa e a Capela do Espírito Santo, em Miomães, em cumprimento de uma promessa ou voto feito ao Divino Espírito Santo, quando se viu perdido numa tempestade no alto mar. À capela vinculou, em morgado, várias terras com a obrigação da celebração de duas missas semanais.
Várias tradições religiosas e culturais estão-lhe associadas. Antigos clamores e procissões de ladainhas por aqui passavam e, na ala virada ao rio Douro, da década de 30 à década de 70, do século passado, aí funcionou a escola primária feminina. Pelo seu valor cultural, este bem móvel privado, tal como outros de igual valor concelhio, deveria ser objeto de classificação como “Imóvel de Interesse Municipal”, de forma a salvaguardar o seu interesse histórico e arquitectónico.
Na rubrica “Olhares”, do Jornal de Notícias (edição de 2 de Setembro, pág. 42 e 43), uma iniciativa patrocinada pelo Casino da Figueira com o objetivo de alertar e inventariar o património português de elevado valor arquitectónico, em degradação, a Casa e a Capela do Espírito Santo foi objeto de uma extensa reportagem. O Jornal de Resende reproduz o ensaio efetuado pelo Arquiteto Luís Aguiar Branco, denominado “Capela feita à romana”, com a colaboração de Pedro Cardoso.

“O tempo dos Descobrimentos constitui uma revolução no Mundo, mas também no Homem, contribuindo para uma nova consciência sobre a diversidade paisagística e cultural dos territórios, que coexistem na forma circular do planeta e propiciam infindos caminhos do saber experimentado nas trocas e na miscigenação. O ciclo milionário das especiarias disponibiliza o usufruto de sucessivas gerações de portugueses aos grandes centros do Renascimento cultural europeu, com particular destaque e fascínio por uma Itália que redescobria os valores clássicos da arquitetura romana. A impressão dos tratados de arquitetura clássica difunde os ideais da razão, harmonia, proporção, composição e beleza, aproveitando a música, a matemática, a geometria e o desenho para sistematizar modelos de equilíbrio e perfeição, configurados em gravuras de fachadas, plantas, perspectivas e pormenores construtivos “ao romano”.
Uma descrição existente num dos volumes do “Nobiliário de Famílias de Portugal” de Felgueiras Gayo informa que “António Pereira Pinto, Capitão da Fortaleza de Amboíno no Estado da Índia, Instituidor do Morgado do Espírito Santo com capela feita à romana, que se vê junto do lugar de Miomães, concelho de Aregos, em que se veêm as Armas dos Pintos”, situação comprovada na inscrição exterior da capela existente na mesma freguesia, mas no concelho de Resende por motivo de ter sido extinto o concelho de Arêgos no séc. XIX. O ideal clássico “ao romano” irá ser transposto com uma adaptação vernacular neste solar, eliminando o ornato e procurando a pureza geométrica do retângulo (duplo-quadrado) que recebe, ao centro, a perfeição do volume saliente da capela circular e cobertura em meia-esfera, de evidente simbolismo celeste. Excetuando algumas alterações posteriores, tudo o resto está subordinado a uma ideia geral de regularidade e simetria, nas fiadas graníticas, na composição das fenestrações das fachadas, incluindo no espaço das pedras que ladeiam o óculo central (enquadrando o brasão familiar e parte da inscrição acima descrita), para além da cornija pouco saliente e de uma consciente eliminação da cruz na capela, substituída pela sineira e pela escultura de S. João Baptista que se encontrava, originalmente, no topo da cúpula. Esta simplicidade, quase humanista, é característica de uma época desornamentada do séc. XVI que se prolonga nos séculos seguintes, pelo que me parece plausível que a data (pouco visível) na inscrição corresponda ao ano de 1616. Colabora com esta datação temporal o facto de António Teixeira Pinto ser cunhado de Rui Teixeira de Macedo (fidalgo da Casa Real em 1579), e também por a ilha de Amboíno ter sido definitivamente perdida para os holandeses em 1615.
A geometria desornamentada deste valioso objeto arquitetónico deverá, certamente, ter contribuído para o desinteresse geral que o seu abandono ruinoso inspira, por manifesta incompreensão estética.”

Ornamento e arquitetura

O conjunto da casa e capela do Espírito Santo é um excelente exemplo de arquitetura desornamentada com valor patrimonial a preservar
Na introdução de um livro sobre Arquitetura, já não me lembro bem qual, li a anedota, ou história, como preferirem, de um fabricante de estruturas metálicas que vendia marquises em diversos estilos: colonial, gótico, clássico, moderno, etc. Após um temporal, o representante da fábrica deu-se ao trabalho de telefonar para alguns dos seus clientes, para saber se as marquises tinham resistido. Um deles, cuja marquise tinha sido levada pelo vento, respondeu-lhe: “O edifício resistiu bem, mas a arquitetura voou”.
O ornamento é uma parte essencial da arquitetura, ele surge, desde a Antiguidade, associado a uma ordem e a um cosmos primordial. Os gregos deram-se ao trabalho de o disciplinar e classificar, atribuindo-lhe, exatamente, a designação de “Ordem”. Em certas épocas e diferentes civilizações, contudo, por razões complexas, que incluem fatores históricos, culturais ou simbólicos, ele foi mais utilizado que noutras. O que não transforma a arquitetura desornamentada numa arquitetura de segunda, como o provam, por exemplo as formas geométricas puras das pirâmides do Egito ou o Museu de Serralves do arquiteto Siza Vieira.
Na história da arquitetura portuguesa também surgem, obviamente, períodos em que foi dada maior importância ao ornamento. No início do século XVI, por exemplo, o Manuelino deixou a marca de uma decoração pesada, tardo-gótica e, por vezes, já renascentista. A partir dos meados do século, contudo, surgem – e refiro-me apenas ao Norte do país – construções com uma grande sobrecarga ornamental, a par de outras em que a abstração geométrica “desornamentada” tem tendência a dominar. Seriam os artistas e encomendadores que estiveram associados a esse tipo de arquitetura, mais ignorantes do que os que mostraram a sua preferência por um tipo de construção mais decorado? Obviamente que não, até porque, frequentemente, os mesmos personagens estiveram associados aos dois casos.
O conjunto de casa e capela de que trata o artigo é um excelente exemplo de arquitetura desornamentada. Sei que ele, pelo seu carácter aparentemente menos espetacular, poderá, eventualmente, ser menos apreciado. Por essa razão é urgente chamar a atenção para construções como esta; é necessário ensinar as pessoas a apreciá-las, a estimá-las, a estudá-las e a conservá-las. No fundo, a sua aparente descrição até poderá ser uma qualidade; os maiores tesouros são, como todos sabemos, aqueles que não se deixam perceber à primeira...
João Ferrão Afonso, Escola das Artes, Universidade Católica do Porto / CRP
*Apontamento da autoria de Paulo Sequeira, publicado no Jornal de Resende, número de Setembro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

Conferência do Dr. Adão Sequeira no cinquentenário do Seminário de Lamego

Excelência Reverendíssima Snr. D. Jacinto, bispo de Lamego

Rvmo Snr. Pe. Dr. Paulo Alves, Reitor do Seminário de Lamego.

Revmo. Snr.Pe. José Augusto, pároco de Resende

Senhores Convidados

Estimados Seminaristas

À casa da memória, eu venho, sem história, render a minha homenagem aos 50 anos do nosso seminário neste espaço físico da quinta da Rina ou quinta de S. Lázaro.

Aqui está, nesta casa, a cúpula nobre da nobre evolução do que foi o decreto do Concílio de Trento -(1545-1563)- ao criar um espaço de recolhimento onde o saber e a santidade evoluíssem em força uníssona e convergente para formar homens da palavra, da ação, da virtude, da solidariedade e especialmente verdadeiros pastores de almas.

Longe vai porém o séc XVI, o tempo inicial e difícil da capela e colégio de S. Nicolau, berço inicial dos seminários de Lamego e sua habitação durante muitos anos, até 1800.

Distante está também o 1º seminário, hoje messe de oficiais, na margem do rio Coura, onde durante 111 anos -(1800-1911)- aquele espaço se encheu de generosidade, doação, vida, projetos e saber, e donde também tantos valores humanos saíram para a igreja lamecense e para a sociedade em geral.

Sem recordação digna nos ficam os 10 anos difíceis, de 1911 - 1921, dos bens confiscados em que os jovens candidatos se acolheram a casas particulares e recebiam as aulas na habitação dos professores.

Com saudade de muitos vive-se ainda com memória a história do seminário na Casa do Poço -(1921-1961)-, mesmo frente à Sé, donde em cerca 40 anos tanto saber e santidade brotaram e tanta história se fez e memória por lá ficou. Aí nasceu a «Estrela Polar» em 1951, aí se orou, estudou, brincou e se fez acontecer muito do presente que hoje é passado, e que o Cónego Dr. Mendes de Castro em 2001 imortalizou nas 127 páginas do seu livro «Casa do Poço»

Fica para mim, em testemunho, o seminário atual, o seminário novo, o nosso seminário, o espaço e o tempo da minha entrada de boa memória e a saída por mim recordada como evento ao tempo não desejado.

Não tive em 1961 a honra de vir de Resende inaugurar, como novo aluno, este seminário; isso pertenceu ao curso meu anterior, mas em Setembro de 1962 aqui entrei, alegre, feliz, e esperançado em tornar-me um bom sacerdote para servir a Vinha.

Os planos do Senhor da Vinha eram outros e por isso aqui me preparou devidamente até aos últimos dias de 1968, enviando-me, já em 1969, para outros serviços da mesma Vinha onde Ele superintendia também no espaço destinado aos leigos já devidamente estruturado pelo Decreto do Vaticano II sobre o Apostolado dos Leigos que eu tinha também estudado minuciosamente.

----////----

Ex.mos Senhores

Corria o ano de 1956 e no dia 1 de Abril, domingo da Ressurreição, na igreja de Santiago de Piães, como aliás em todas as igrejas da diocese, é lida a mensagem pastoral de Sua Excelência Reverendíssima D. João da Silva Campos Neves a anunciar a construção do Novo Seminário de Lamego.

A mensagem ia acompanhada de informação e instruções aos párocos para que todo o povo, do abastado ao mais humilde fosse parte dum projeto diocesano que iria depois ser viveiro e jardim donde flores humanas partiriam mais tarde, verdes e robustas, cheias de saber e virtude para levar ao povo a vida espiritual, a esperança divina e um sinal de Deus.

É a partir deste momento e com todo o direito que eu sempre disse e sempre ouvi dizer-« o nosso seminário».

Nosso, porque com esforço de todos nasceu e para o bem de todos exerceu e exerce a sua função.

E é exatamente em 1956 que nasce, de evento simples, a humildade e singeleza deste meu testemunho.

Vocês não imaginam, ninguém faz ideia, o que foi esse grito pastoral : «o nosso seminário».

O que se passou na minha terra, e só dela falo, foi encantador.

O meu pároco, o grande Pe. e Arcipreste Daniel da Costa, contaminou a freguesia e em toda ela, de Vilar a Torneiros ou de Ventuselas a Sanfins, em fins de semana sucessivos, se organizaram cortejos de oferendas, com alma, vida, folclore, e sobretudo bairrismo :- eram carros de lenha, toros de madeira, alqueires de milho, sacos de feijão, notas expostas em bandeiras, alegria, foguetes, cada povo com seu rancho, cada rancho com seu chefe , tudo amador, e a povoação, toda em peso, em manifesta gala de alegria e solidário apoio. E foi neste evento, dizia eu, que eu comecei a ser parte do nosso seminário: - na ornamentação dos carros, no ensaio dos cânticos que animaram o cortejo e na feitura de alguns versos a que se adaptaram músicas que todo o povo cantava e dançava a caminho do leilão no centro da freguesia e que ajudaram a que o lugar de Sanfins não ficasse atrás de nenhum outro.

É pois com direito que eu digo e nós dizemos e a diocese diz «o nosso seminário», seminário, de construção robusta e apresentação imponente, adequado às melhores exigência do seu tempo.

Em 1958, já em plena construção deste edifício eu entro no seminário de Resende com mais 54 jovens para em 5 de Setembro de 1962 e durante 5 dias, por especial deferência nesse ano, frequentarmos, em tempo de férias, um curso de cinema e fotografia dirigido pelo Snr.Dr. Mendes Leal, diretor da revista «Filme».

É logo nesse mês de Setembro, a pedido do Diretor da « Estrela Polar», o atual Pe. Dr. Joaquim Correia Duarte, que eu me sinto envolvido e deveras honrado ao escrever em «Primeiras Impressões» o meu primeiro artigo na Estrela Polar. Rico batismo. Aí falava eu aos alunos de Resende « aqui vos esperamos, ano a ano, na estrada da vida que nos levará aos nossos destinos, aos destinos de Deus ».

Eu recordo o testemunho da minha entrada em Lamego, lembrando a sã amizade existente entre nós, e também o carinho, a estima e o respeito que dedicávamos aos nossos mestres e superiores, homens de bondade, saber, cultura e santidade , sem discriminação de nenhum, embora cada um com o seu nível de capacidades em transmitir essa enorme riqueza de que eram portadores.

O seminário não é necessária e exclusivamente o espaço de formar os jovens que vão ser padres, mas sim a escola de formação de homens, donde saem também e geralmente aqueles que vão exercer o nobre e belo munus sacerdotal, e um bom sacerdote é sempre também parte de um homem humanamente bem formado nas lides do saber, da cultura, do conhecimento do mundo, da filosofia, da teologia, e especialmente das realidades humanas e espirituais.

Era o tempo da teologia, da exegese, da moral, da filosofia tradicional, do latim profundo, do grego suave e do hebraico leve, antecedidos de um conhecimento seguro das letras e das ciências.

Foi a época do ciclo missionário, das conferências Marianas, dos vicentinos e ainda da catequese nas escolas às quintas feiras.

Foram também os anos da nossa banda musical sob regência do Snr. Dr. Rui Botelho, onde surgiram qualificados executantes à custa dos longos ensaios na sala onde hoje funciona o nosso bar.

Foi, evidentemente, o tempo do Vaticano II, estudado, analisado, esmiuçado em profundidade à nossa maneira, na ânsia e busca segura de uma renovação.

O meu livro Vaticano II, em capa amarela, obra completa dos documentos conciliares, é ainda hoje uma fonte abundante de soluções, consulta e inspiração, quando sobre algum tema eu preciso de falar.

Foi nestes corredores e nas reuniões semanais das atividades extra escolares que alguns de nós escalpelizamos esses textos conciliares numa rara consciencialização de igreja e de futuro.

Recordo-me bem ter-se falado numa dessas reuniões, com preocupação e esperança, «a igreja só vai arrancar quando saírem bispos da geração conciliar. Eles aí estão, e a Igreja também, em renovada e constante intervenção e dinamismo, com o selo visível dessa etapa conciliar.

Curioso é ver, a 45 anos de distância, pelas notas apostas à margem nos textos, que os decretos sobre o Apostolado dos Leigos, Sacerdócio e Imprensa são os mais estudados e melhor analisados. Eram os nossos assuntos, o nosso campo direto de ação a muito curto prazo. Ao tempo, as preocupações de análise à vida e evolução política estavam afastadas, rádio só a ocultas, televisão não havia, jornais diários não chegavam cá e fumar um cigarro era muito arriscado.

Neste Seminário e nestes espaços, honra maior da nossa diocese, tudo está repleto de vida, doação, generosidade, e até «dúvidas salutares». Em cada esquina dos corredores, areia dos recreios, salas de aula ou silêncio da capela, há uma vida contada ou esperança desejada, que faz a memória que jamais se esquece e uma história que jamais será contada onde « as saudades» ficaram depois de nós, mas que existem, para louvor dos alunos, honra dos professores, dignidade da instituição e continuidade futura de um passado que não morre.

O presente está acima do passado, mas não pode esquecer os anos e os seus eventos, os séculos e a sua história, a vida e os seus atos, a juventude e os seus feitos.

As estrelas e as núvens do passado, pela voz da memória fazem chegar até hoje e guardarão para o futuro o legado sem tamanho do humanismo e humanidade desta habitação do saber, bom senso e até « jardim de preocupações».

Sempre assim foi e assim será, porque nós, como diz Anselmo Borges, somos titulares de uma vida que não morre com a nossa morte.»

Por isso, eu não vou falar dos campeonatos de futebol entre filosofia e teologia tão vivos e renhidos, das meias vermelhas e festa dos cónegos no domingo de Pentecostes, sob aquela vigilância cerrada e ineficaz dos superiores, das festas de fim de ano e das críticas à gestão e pedagogia dos nossos professores, da falta de meios de abertura ao mundo como a rádio, a televisão, jornais ou revistas, da falta de ligação à cidade e seu povo, até porque tudo se alterou logo em 1969.

Mas quero hoje ressaltar, relembrar e reviver:

-o saber dos nossos mestres e a sua dedicação ao ensino todo ele em regime de internato;

-a preocupação da equipa formadora, a sua dedicação aos alunos e atenção aos sinais;

-o rigor dos horários e o seu pontual cumprimento.

-o espaço de oração e a mística aí vivida;

-o tempo de estudo e a preparação rigorosa das matérias de exame;

-as reuniões semanais das equipas em que estávamos inseridos e os resultados obtidos;

-a lenta e segura evolução do jovem batina e chapéu preto para o jovem despojado, espontâneo, interventivo, com roupas de marca ou calças de ganga.

-a riqueza de manter escrita uma mensagem espiritual diária à porta da capela e a preocupação em viver o seu conteúdo;

-o aguentar um jornal mensal, pontualmente editado sob a responsabilidade do alunos, exclusivamente escrito por eles sob a vigilância atenta e controlo rigoroso dos superiores;

-a memória do 7 de Outubro e 7 de Janeiro com a preocupação amiga de ver se todos os amigos voltavam ou não;

-a recordação do 10 de Junho com a festa dos finalistas onde a glória, alegria e saudade saiam da alma, subiam ao rosto e apelavam a futuro;

-os concursos abertos onde se evidenciava a qualidade de quem a tinha e o espírito de aventura de quem a desejava ter.

A propósito de concursos internos, em honra do Snr. Cónego José Cardoso, de feliz memória, grande dinamizador da catequese na diocese, eu quero somente referir o concurso, por ele lançado, de quadras populares relativas à catequese, com distribuição de prémios em 3 Fevereiro de 1965.

Em 1º lugar ficou o nosso exímio poeta, cónego Esteves Alves com a poesia:

«-Catequese é Deus que fala

A dar a a luz que redime

Não há mestre mais seguro

Nem escola mais sublime».

Em 2º lugar um inesperado rabiscador de rimas que agora vos fala, com a poesia:

«-Se Cristo viesse agora

Nascer nesta diocese

Iria com os meninos

Aprender a Catequese.»

Estas poesias correram depois a diocese gravadas em azulejos de tom azul.

Snr. D. Jacinto, estimados amigos,

Recordar o passado é fazer história e fazer história é honrar o passado garantindo o futuro da memória e abrindo alicerces para a memória do futuro. Sobre este assunto e referente ao seminário antigo e novo seminário, a Estrela Polar de Agosto de 1961 escrevia assim : «uma porta que se abre, um passado que permanece pelos séculos e um futuro que se tornará presente dia a dia».

Esta linha de pensamento é uma espécie de sina que me segue e persegue desde sempre, não morreu ainda e certamente não vai morrer jamais, porque a morte leva os homens mas as ideias ficam através da identidade, da memória e da sua história.

E se não há porto seguro para barco sem rumo, também não há futuro certo para instituições que abdicam do passado ou menorizam os seus anteriores.

Nunca festejaríamos hoje os 50 anos do nosso seminário, como não teríamos festejado os 25, se há 50 anos os nossos anteriores não tivessem arquitetado o seu plano e suportado as dificuldades da sua construção.

Por isso sentimos orgulho e glória da glória difícil do passado e ligamos ao futuro a honra devida da sua existência. Nada de grande se faz e deixa sem o suor e risco, e será sempre o futuro a cantar o louvor à memória do passado e honrar os seus feitos.

Se alguém deseja memória e história sem escalar as encostas da dificuldade e o risco da ação e intervenção, está certamente no caminho certo do esquecimento inevitável.

Esta casa é uma casa de causas sempre novas e diferentes e nada do que aqui se vive se perde depois, mas vai como chuva miudinha ou fio de água invisível alimentar espaços de ação e ideias do bem , porque «o seminário é sempre a memória viva e eterna da igreja» «no mercado da alegria e negócio do bem fazer.»

O seminário perpetua-se no espaço e no tempo, nas pessoas e na vida, nos atos e reconhecimento, na ação e gratidão, nos fins que deu e forneceu, nos padres que foram seminaristas e nos seminaristas que ficaram leigos, uns e outros são glória e memória da sua existência.

O seminário, o nosso seminário perpetua-se pelo que foi, pelo que é, e pelo que será e por isso eu não posso esquecer uma das estrelas, talvez a mais alta e brilhante do nosso seminário - a «Estrela Polar», expoente grande de um passado difícil e nobre que ninguém vai poder ocultar, omitir ou menorizar, porque a sua Antologia, editada em 2007, jamais o vai permitir porque, ela está arquivada nas prateleiras de todas as grandes bibliotecas nacionais, exposta nas bibliotecas públicas e municipais de todo o norte do país, guardada em todos as Casas Episcopais, à disposição de todos os seminaristas nas bibliotecas de todos os seminários, visível em todas as escolas secundárias e juntas de freguesia da diocese, e também nas mesas de muitas centenas de Aselistas e cidadãos anónimos.

Esta obra, filha do seminário e dinamizada pela ASEL, é ainda caso único nos seminários de Portugal e também o expoente máximo e afirmação maior que «a melhor escola é aquela que educa para a gratidão» e reconhecimento.

Se o tempo vai já longo eu abro ainda espaço para dizer ao presente e ao futuro que o passado, em honra e glória da memória, se imortalizou também na nossa ASEL, vigorosamente nascida em 1984 que ainda hoje vive e viverá, e se honra de ao comemorarmos em Resende os nossos 25 anos com a presença e estímulo do Mons Luciano Guerra, ser a génese do 1º Congresso Nacional de Antigos Alunos dos Seminários de Portugal sob o título « Seminários - da Memória à Profecia» realizado em Fátima nos dias 24-25-26-de Abril de 2009 .

Estimados amigos, em todos estes passos humildemente eu estive metido e envolvido, ora entre palmas, hora entre grandes sarilhos.

Seminarista amigos, alguém disse um dia que «os povos morrem quando os senhores do templo nXXX-Assembleia-Aveiroão conseguirem alimentar a esperança», assim sendo recai sobre vós a guarda futura deste passado nobre e ficamos certos que, quando a memória faz história, a história ficará facilmente na nossa memória.

Seminário de Lamego, 17 de Setembro 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

«A Sabedoria» - Um Livro do Pe. Paulo Alves*

Na Aula Magna do Instituto Piaget, em Viseu, teve lugar no dia 7 de Junho o lançamento do livro –«A Sabedoria - Definição, Multidimensionalidade e Avaliação» do Pe. Paulo Alves.
A apresentação de um livro e a sua colocação à disposição pública, (quando o fim não é essencialmente comercial), é sempre um ato de humildade pessoal, coragem inteletual e cedência cultural.
A cultura, o saber, a ciência e a sabedoria são património da comunidade e não reserva protegida dos seus detentores. Nestes termos é quase um dever imperativo partilhar e ceder à comunidade o saber por parte de quem o tem. As mil formas de o fazer têm o seu expoente máximo na apresentação em letra de forma e especialmente a sua publicação em livro.
Certamente assim pensou e por certo assim atuou o Pe. Paulo Alves ao publicar em livro a sua tese de doutoramento.
Padre da igreja católica, e natural de Penude, (terra fértil junto a Lamego) Paulo Alves é um dos expoentes promissores da Igreja Católica.
Após a sua ordenação em Agosto de 1986, foi pároco em Castro Daire, Vice Reitor do Seminário de Resende e agora Reitor do Seminário Maior de Lamego.
Em Castro Daire deixou marcas de apostolado, em Resende ficaram sinais vivos de estratégia pedagógica e gestão administrativa e em Lamego avultam já traços de renovação e rasgos de evolução metodológica na preparação de novos sacerdotes e utilização dos meios existentes.
É neste período e acumulando com a responsabilidade delegada e assumida que obtém a licenciatura em «Teologia» na Universidade Católica do Porto, mestrado em «Psicologia Pedagógica pela Universidade de Coimbra e agora o grau de Doutor em "Psicologia do Desenvolvimento" pela mesma Universidade.

À responsabilidade de Reitor do Seminário de Lamego junta presentemente a Regência Curricular de "Psicologia da Religião" na Universidade Católica, núcleo de Viseu e o de Professor Auxiliar no Instituto Piaget em Viseu onde coordena «o 1º ano da licenciatura em Psicologia» e «o 2º ciclo do Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento».
Esta responsabilidade ativa não o impediu nem impede de acompanhar devidamente a formação dos alunos do seminário de Lamego, conhecendo e vivendo de cada um as suas capacidades, apetências ou problemas, como ainda também lhe deixou espaço como investigador, responsável por uma das áreas do «Centro Internacional de Investigação e Reflexão Transdiciplinar».
Este é o o Homem.
A obra chama-se -«A Sabedoria»-.
Como diria hoje Camões, sabedoria, imagine-a quem não puder entendê-la mas é melhor entedê-la do que imaginá-la.
Nas suas 322 páginas de pensamento corrido, sem contar mais 50 de anexos e índices, entramos pelos meandros ainda não desbravados das perspetivas teológicas, filosóficas e históricas da sabedoria ao longo dos séculos, da sua interpretação psicológica bem como da sua estrutura multidimensional.
«A Sabedoria», este livro do Pe. Paulo Alves não é mais um livro, mas « o livro» de análise cuidada, tema atual, investigação consistente e divulgação necessária onde encontramos e é testada pela primeira vez em Portugal uma Escala Sobre a Sabedoria (ESS) da sua autoria.
Uma tese de doutoramento é sempre um trabalho exaustivo de profundidade e investigação garantidas que atesta a capacidade, atualidade, e visão do seu autor.
Este livro não é uma mera produção de ideias, exposição de fatos ou devaneio mental, é um trabalho profundo, defendido em tese na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra perante um juri qualificado e deveras exigente e a cujas asserções tive o grato prazer de assistir em 11 de Dezembro de 2009 e onde obteve a classificação máxima com «Distinção e Louvor».
Este livro e o seu autor entraram já na galeria das grandes referências do pensamento; ao integrar a coleção « Epigénese, Desenvolvimento e Psicologia» com o nº 105 e uma referência bibliográfica de mais de 300 autores, autor e obra emparceiram ao lado de ilustres pensadores mundiais da psicologia, evolução e desenvolvimento humano.
Se é verdade que a sabedoria está em todo lado e que «todas as culturas têm ou tiveram o seu ideal de sabedoria», é verdade também que ela é o problema central da condição humana que tem passado toda a sua existência na sua procura, aquisição, aprofundamento e evolução em constante caminhada ao longo de uma longa viagem sem termo nem descanso que todos percorremos e só alguns investigam e consolidam.
No gesto nobre de não esquecer na dedicação «todos aqueles com quem tenho aprendido», (e grande foi o número dos invocados), eu realço a ASEL que desde 2003 tão de perto com ele colaborou em Resende e a referência feita a sua mãe, pai e irmã, «pelo sentido de vida, pela sabedoria das coisas simples, pelo suor, pelo amor e pela fé», e foi por isso certamente também que viu a Aula Magna praticamente cheia de alunos, professores e amigos, entre os quais a honrosa presença dos Snrs. D. Jacinto Botelho, D. Ilídio Leandro e D. Manuel António, respetivamente bispos de Lamego, Viseu e S.Tomé e Princípe.
«Eu, sabedoria, habito com a prudência, possuo a ciência e a reflexão». (Prv. 8,12)
...Tal a profundidade deste livro...tal a preocupação do Pe. Paulo Alves a quem deixo o meu público louvor e sinceros parabéns.
*Adão Sequeira (Senhora da Hora, Junho 2011)

terça-feira, 1 de março de 2011

A “falacheira” de São Brás/O dia das falachas*

Quem chegar a Resende e perguntar pela “falacheira” de Cimo de Resende, todos indicam a Maria Rosa Teixeira, ou a Dona Rosa, como é conhecida, que mora no lugar da Codiceira. É esta uma das poucas mulheres do concelho, e da região, que confecciona de modo tradicional as “falachas”, bolo “centenário” de farinha de castanha, cozidas em forno de lenha, vendidas na Festa de São Brás, em Resende.
A origem desta relíquia da gastronomia tradicional remonta à Idade Média, uma época em que a farinha de castanha substituía, em períodos de crise económica, os cereais na confecção do pão caseiro, sendo fundamental na subsistência da população rural. Hoje, são vendidas, apenas, na Festa de São Brás, celebrada anualmente no dia 2 de Fevereiro, no Cimo de Resende, o “dia das falachas”, como reza a tradição. No entanto, a inexistência de projectos e de seguidores ameaça a sua continuidade
.

A tradição vem de família. A faina da Dona Rosa começa quando os primeiros ventos frios de Outono começam a “curar” as castanhas “peladas” e “curtidas” nos caniços das lareiras, previamente colhidas nos soutos de Cimo de Resende. O ciclo acaba em Fevereiro, com a Festa de São Brás, em Resende, onde despacha as últimas falachas.
O doce é feito à base da farinha de castanhas secas no caniço, durante os rigores de Inverno, ao calor e ao fumo da lareira, e moídas no moinho alveiro, de rodízio, no lugar de Xis, em Cárquere, um processo lento, mas necessário, já que a moagem eléctrica “põe a farinha muito grossa”.
Em Dezembro e Janeiro, testam-se os primeiros exemplares, para consumo caseiro ou para venda esporádica a pessoas amigas que o solicitam. Uma semana antes da Festa de São Brás, a azáfama é diária na preparação das centenas de milhar de falachas, consoante o ano, a vender na festividade do dia 2 de Fevereiro.
A confecção não tem segredos para a “falacheira”. “À farinha da castanha adiciona-se uma pequena porção de farinha de trigo, para obter a ‘liga’, água morna e um pouco de sal e amassa-se com a mão”, explica.
Pronta a massa, é paulatinamente colocada, à colher, sobre folhas de castanheiro, lavadas e secas, previamente recolhidas nos soutos, que a doceira dispõe longitudinal e transversalmente. “A folha serve de protecção à massa para que esta não ‘agarre’ à base do forno”, diz.
Cada falacha é, então, calabreada com uma faca, sempre molhada na tigela de água fria, até obter a forma de pequena e achatada broa. “Também fazemos umas maiores, deliciosas, cobertas com salpicão, que têm muita procura”, refere a Dona Rosa.
Prontas a irem ao forno de lenha, numa pá de madeira, aí cozem durante cerca de 10 a 15 minutos, tempo suficiente para adquirirem uma coloração dourada.
O resultado são “bolinhos” redondos, de cor acastanhada e sabor adocicado, que podem consumidos quentes ou frios. Apesar de serem comidas simples, há quem prefira cortá-las às tiras e colocá-las numa frigideira com um bom azeite da região, ou banha de porco, ou polvilhar com um pouco de canela e açúcar, fazendo um doce extraordinário.
Todos os anos, no dia 2 de Fevereiro, manhã cedo, com a ajuda do marido e dos seus filhos, a Dona Rosa carrega as falachas, para a Festa de São Brás, onde as vende, as mais pequenas a 1,5 euros, e as maiores, de salpicão, a 3 euros.

Contactos:

Maria Rosa Teixeira
Codiceira – Cimo de Resende
Telefone 254 877 779

Importância económica da castanha

A castanha assumiu, no passado, grande importância económica. Foi decisiva, em Portugal, para a subsistência das populações de serra, mantendo-se intimamente ligada, pela sua utilização na dieta alimentar, à sobrevivência das gentes rurais. Como nos refere Magalhães (MAGALHÃES, T, “O Castanheiro”, Ilustração Transmontana, 1910) “quanto essa abençoada árvore se desfaz em benefícios para o homem! Quer dos seus fructos quer da sua madeira, ella distilla perenne riqueza: “pinga” sempre! (...) mas só mais tarde eu conheci que as suas “pingas”, juntas, produziam grossa chuva de oiro na minha província”.
Assadas ou cozidas, as castanhas estão intimamente ligadas à tradição gastronómica portuguesa. As falachas são disso exemplo, estando preservadas na memória oral do nosso povo: “as falachas devem ser tendidas no cu de uma velha, para serem mais saborosas” (Leite de Vasconcelos, “Etnografia Portuguesa”). Na nossa região, quando alguém quer dar uma estalada ou um murro a outro diz: “levas uma falacha que não te endireitas!”. Sempre valerá mais comer uma falacha que levar com uma….

Todos ao São Brás…

Ano após ano, no dia 2 de Fevereiro, a tradição repete-se. A azáfama começa manhã cedo, quando chegam as primeiras viaturas, por uma estrada de terra batida, à procura dos melhores lugares, nas redondezas da Capela de São Brás, no Cimo de Resende.
Instalados os recursos materiais e humanos, começam os preparativos para o almoço. Procura-se lenha seca, colocam-se ao lume as panelas de ferro e prepara-se a “matéria-prima”: os enchidos (chouriço e salpicão), a carne de porco (cabeçolas, orelheira, entrecosto, patas, …), salgada, como convém, e as batatas e grelos, tradição da época. Outros estendem os merendeiros, confeccionados de véspera em casa. Para ir matando a fome, parte-se o presunto e abrem-se os garrafões com o bom vinho da região.
“Todos os anos é assim”, diz José Sousa, de Cimo de Resende, que aqui reencontra, anualmente, os amigos que marcam presença, religiosamente, no dia consagrado a São Brás, protector dos males de garganta. O cenário repete-se ao longo da serra: grupos de compinchas e de forasteiros chegam do concelho e da região, embelezando com o seu colorido esta paisagem rural, a troco de fé, convívio e muita comida…
Ao meio-dia, o cheiro a assados e cozidos a pairar no ar não engana ninguém: é hora do almoço. Nota-se que o elemento feminino está em menor número. “Isto hoje é só para homens”, refere João Ferro, de Forjães. “Aqui somos nós a fazer a comida”, segreda.
Ao início da tarde, preparando um novo ataque às panelas e aos garrafões, o elemento pagão dá lugar ao religioso. É chegada a hora da missa na Capela de homenagem ao orago São Brás, a que todos assistem, devotamente.
No fim da cerimónia religiosa, compram-se as tradicionais falachas, feitas de farinha de castanha, doce típico da festividade, preparadas nos dias anteriores para esta ocasião, vendidas durante o dia pelas poucas “falacheiras” que ainda subsistem no concelho. De seguida, continua-se o repasto e o convívio e, à tardinha, para atacar o frio que se aproxima com a noite, acendem-se fogueiras e joga-se à malha e à bola.
Quando a noite cai e os caminhos se turvam aos olhares dos foliões, é altura de regressar a casa com o desejo e a certeza de que no próximo ano, no mesmo dia, tudo se repetirá de novo…
*Apontamento da autoria de Paulo Sequeira, publicado no "Jornal de Resende", número de Fevereiro de 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Anselmo Borges em entrevista à Pública (06.02.2010): "A religião oprime quando impede a alegria a nível sexual"*

A Igreja Católica, como instituição de poder, tem muita dificuldade em lidar com o prazer e a sexualidade, diz Anselmo Borges, padre, teólogo e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra. Autor de vários livros, este crítico de diversos aspectos da doutrina oficial católica explica ainda por que é que a Igreja recuperou causas da morte de Jesus, quando propaga a imagem de um Deus que aterroriza.

ABíblia e o cristianismo trouxeram ao mundo a ideia da dignidade divina de todos os seres humanos. Mas, apesar disso, a Igreja Católica lutou contra ideias como os direitos humanos, a secularização e a separação da Igreja e do Estado. O padre Anselmo Borges, membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, admite que a religião tem sido e pode ser opressora, mas que só pode entender-se como força de liberdade e de libertação.
Nascido em 1944, em Resende, Anselmo Borges é uma das vozes singulares do catolicismo português. Dedicado há anos ao ensino da Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tem privilegiado a ética como área de reflexão. Mas a sua intervenção alarga-se ao campo mediático: colunista semanal do Diário de Notícias, publicou vários livros, entre os quais Janela do (In)visível, Religião: Opressão ou Libertação?, Morte e Esperança, Corpo e Transcendência, Janela do (In)finito. O último, Religião e Diálogo Inter-Religioso, publicado no final de 2010, fala do outro como fascínio e ameaça. "Talvez não seja por acaso que a primeira edição esgotou em três meses", comenta, porque "as pessoas andam preocupadas com a questão do outro, hoje mais sentido como ameaça".
Alimentando o gosto do pensar, Anselmo Borges diz que "a grande crise do nosso tempo é que já não há espaço para as grandes perguntas" Afirma que a Igreja precisa de assumir o valor da autonomia, confrontar-se com o pluralismo e com as neurociências, repensar a questão da sexualidade, da lei do celibato obrigatório e do lugar das mulheres. Organizador de dois congressos internacionais de teologia - sobre Deus no século XXI e o futuro do cristianismo (cujas actas estão publicadas) e, em Outubro, sobre Religião e (In)felicidade -, Anselmo Borges reflecte, aqui, sobre as razões da difícil relação do catolicismo com alguns temas da ética e da modernidade. E diz que a eutanásia é um problema em aberto...
Tomo o título de um dos seus livros para perguntar se a religião é opressão ou libertação.
A religião pode ser, tem sido e é, de facto, uma coisa e outra. Quando esmaga o ser humano, quando em nome de Deus se mata ou se impede a crítica ou o desenvolvimento das pessoas, quando em seu nome se cometem injustiças, aí a religião é opressora. E também oprimiu quando trouxe medos, com coisas como o inferno, com o impedimento da alegria a nível sexual, todo esse universo de pânico. Mas, pela sua própria dinâmica, ela é libertadora. Toda a religião arranca desta pergunta: o quê ou quem liberta e salva? Na sua raiz, ela só pode entender-se enquanto força de liberdade e libertação.
Um dos medos que refere é a sexualidade. O cristianismo tem medo dela?
É importante desfazer equívocos. Uma coisa é a Bíblia e a mensagem originária cristã, com Jesus Cristo. É interessante ver que Jesus, perante a sexualidade, mesmo confrontado com desvios, é tolerante e perdoa. A Igreja parece ter posto o acento no sexo e nos seus desvios, mas Jesus o que condenou de forma veemente foi fundamentalmente a ganância, a avareza, a opressão: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." É necessário distinguir entre a Bíblia, onde se encontra um dos livros mais exaltantes do amor erótico, que é o Cântico dos Cânticos, e, depois, o mal-estar do cristianismo histórico em relação à sexualidade, que provém fundamentalmente dos gnósticos e de Santo Agostinho. Santo Agostinho é herdeiro de uma escola gnóstica, que é o maniqueísmo, que leva a gnose à radicalidade.
Então, Santo Agostinho trouxe também problemas...
Ele é um génio, mas trouxe ao Ocidente e ao cristianismo histórico verdadeiras tragédias do ponto de vista sexual. Ele era maniqueu e, a partir do maniqueísmo, tinha resolvido o problema do mal: há dois princípios, um do bem e outro do mal. Há uma questão que se coloca sobretudo aos crentes: se Deus é infinitamente bom e omnipotente, como se explica o mal? Através do maniqueísmo, ele tinha resolvido o problema. Mas, uma vez convertido, precisa de encontrar uma solução, pois o cristianismo diz que Deus, quando olhou para o mundo, viu que tudo era bom. Donde vem então o mal? Quando se converte ao cristianismo, Santo Agostinho tem de encontrar a origem do mal. Vai à Carta aos Romanos, de São Paulo, e lê: "Adão, no qual todos pecaram." Mas o grego (ele só conhecia o latim) diz: "Porque todos pecaram." Uma coisa é Adão ser o primeiro que peca, outra é dizer que, nele, todos pecaram. E de tal modo pecaram, que todos transportam esse pecado, que tem uma origem sexual e se transmite sexualmente. Este é o mal que vem ao Ocidente através da gnose, do maniqueísmo, de Santo Agostinho. Todos são concebidos em pecado e desse pecado original só o baptismo liberta. Assim, não hesitou em "enviar" para o Inferno as crianças não baptizadas, porque vinham com o pecado original...
Num dos seus textos, diz que a Igreja perdeu a credibilidade em termos de doutrina sexual. É assim?
A sexualidade também tem a ver com o prazer e este confronta-se com o poder. Na medida em que a Igreja se tornou numa instituição de poder, tem muita dificuldade em lidar com o prazer e a autonomia. Não sabe, por isso, como lidar com a sexualidade, com as pessoas que estão no mundo de modo autónomo. Essa é uma das questões fundamentais da Igreja.
Por isso surgem as questões relativas ao planeamento familiar, aborto, eutanásia...
A Igreja lutou contra a modernidade, embora, por outro lado, os grandes valores da modernidade venham, fundamentalmente, da Bíblia. Não é por acaso que é no Ocidente que se dá a modernidade, a secularização, a separação da Igreja e do Estado, que tem a ver com a autonomia, os direitos humanos... São valores que vêm da Bíblia, mas que os iluministas tiveram de impor contra a Igreja oficial.
Há um Papa que proibiu a leitura da Bíblia, outro refere-se à "detestável doutrina" dos direitos humanos. No entanto, são valores que vêm fundamentalmente da Bíblia. Afirmam-se a partir da ideia de um Deus transcendente, que cria por amor, livremente. Se Deus cria livremente, só pode criar criaturas autónomas, homens e mulheres livres, e as realidades terrestres seguem as suas leis, sem precisarem da tutela da Igreja. Por outro lado, o cristianismo trouxe ao mundo a ideia da dignidade divina de todos os seres humanos, independentemente da cor, etnia, sexo, posição social, nacionalidade ou religião.
A autonomia relaciona-se com os limites, que a sociedade também coloca, e com a ética, que foi sempre construída também com base religiosa. Hans Küng propõe uma nova ética mundial. Mas se a religião tem problemas com a modernidade, como se faz o equilíbrio entre os limites e o desejo de autonomia inerente ao ser humano?
Quando Hans Küng fala de uma ética mundial, refere-se mais a um ethos - aquela atitude radicalmente humana perante as grandes questões humanas, em que haja um consenso mínimo. Refere-se a um conjunto de bases éticas em que seja possível o acordo de todos os homens, crentes ou não-crentes: o compromisso com o princípio da humanitariedade, que obriga a respeitar a dignidade inviolável da pessoa humana, o compromisso com a não-violência e o respeito pela vida, o compromisso com a justiça e a solidariedade, o compromisso com a igualdade e companheirismo entre homens e mulheres. Não se pode basear a ética na religião, porque a ética é autónoma, isto é, não é antes de mais uma questão religiosa, mas humana. E é possível e imprescindível um consenso ético mínimo nas questões que hoje nos afligem, como a bioética, a justiça, a ecologia. É possível uma ética autónoma, também porque somos seres racionais e sociais. Sendo livres, somos capazes de nos darmos a nós próprios uma ética na responsabilidade. A liberdade implica a responsabilidade: somos capazes de nos darmos regras, somos capazes de responder por isso. A religião relaciona-se com a ética, mas vincula-se a ela devido a outros problemas, que têm a ver com a culpa, com as vítimas inocentes, com a esperança e com o sentido último...
Também há uma dimensão social da ética...
A ética é fundamentalmente social, pois o ser humano só existe com outros seres humanos. Se só houvesse um, nunca despertaria para si mesmo enquanto tal. O homem só é homem com outros. Ser homem e ser em relação é a mesma coisa. Há sempre uma co-pertença de mim aos outros e dos outros a mim, e aos passados e aos futuros. Porque a identidade própria é sempre atravessada pela mediação do outro. Só tomo consciência de mim passando pelo outro, pela alteridade. A alteridade é constitutiva da identidade.
Fala-se de grandes questões do mundo como problemas éticos: pobreza, direitos humanos, desenvolvimento. De que modo isso se relaciona com o que referiu?
Hoje tomamos consciência de que há uma só humanidade. Se tomamos consciência de que cada pessoa só é pessoa em relação a cada um dos outros seres humanos, é uma vergonha que 20 por cento da humanidade controle 80 por cento da riqueza e que quase metade da humanidade tenha de viver com menos de dois euros por dia. Todos pertencemos a todos. Um homem só é homem na humanidade, no seu vínculo a todos os outros. Mas, se não formos solidários por uma questão ética, de humanidade, então sejamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido. Porque vamos entrar numa conflitualidade sem limites: quem julga que nunca mais haverá revoluções anda enganado.
Esse seria também um modo de resolver o debate sobre se os direitos humanos são uma construção ocidental? Ou esta é uma falsa questão?
Sou contra o relativismo e proponho o perspectivismo, que é diferente. Há algo que transcende o relativismo cultural. Julgo que tem de haver algo de transcultural. Esse mínimo, o que seria? Pelo menos, o entendimento nesta pergunta: "O que é ser homem?" Porque, se não houver algo de comum, como podemos dialogar uns com os outros? Há esta universalidade: a dignidade do ser humano. A partir daqui, é possível e necessário avançar para um ethos mundial, o que se traduz nos direitos humanos, embora eu compreenda que haja quem critique - e não apenas por meros interesses políticos. A Declaração dos Direitos Humanos, tal qual está formulada, incide muito na dimensão individual. Talvez seja necessária também uma carta dos direitos humanos, incidindo mais nos direitos de grupos, das culturas, e também nos deveres...
No seu último livro, Religião e Diálogo Inter-Religioso, escreve que "o outro é vivido sempre como fascinante e ameaça". Não estamos hoje mais a viver o outro (o islão, o estrangeiro, o imigrante) como ameaça do que como fascínio?
As pessoas andam preocupadas com a questão do outro, hoje mais sentido como ameaça, como dizem as sondagens, concretamente na França e na Alemanha. Por um lado, há a crise económica; por outro, o diálogo não pode ser unidireccional.
Não se pode esquecer que o cristianismo é hoje a religião mais perseguida no mundo e, nomeadamente, no Médio Oriente, onde parece haver um plano para fazer desaparecer a presença dos cristãos. Julgo que há condições fundamentais para o diálogo: o fim da leitura literal dos textos sagrados e a separação da Igreja e do Estado. Os Estados não podem ser confessionais. Isso que custou tanto à Igreja Católica tem de ser aprendido também pelos muçulmanos. Depois, as religiões têm de dialogar, porque nenhuma possui a verdade toda sobre Deus e o sagrado. O fundamentalismo - há fundamentalismo religioso, económico, político, filosófico - tem a sua origem na ignorância e na estupidez, pois julga possuir o fundamento. Ora, quem é o ser humano, finito, para possuir o fundamento?
Também nos confrontamos com a crítica da hierarquia católica, a começar pelo actual Papa Bento XVI, ao relativismo ético, que aponta para muitas questões no âmbito da moral sexual...
É evidente que, quanto ao sexo, não vale tudo. Por outro lado, dá a impressão de que a Igreja vive obcecada com o sexo. Ora, o cristianismo é realmente uma religião do corpo. Porque, logo no livro do Génesis, se diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, "homem e mulher os criou" e achou que isso era muito bom. Deus mesmo, em Jesus Cristo, assumiu a corporeidade humana na sua fragilidade. E os cristãos têm como núcleo da sua fé a ressurreição de Jesus e a ressurreição dos mortos. Como é que uma religião do corpo se dá depois tão mal com o corpo, historicamente? É espantoso e é necessário investigar isso...
Dá-se mal e nega a dimensão transcendente do corpo, aludindo ao que trata no seu livro Corpo e Transcendência...
O corpo humano vivo é alguém, alguém que está aberto à transcendência. O cristianismo é a grande resposta a esta corporeidade, que se abre à transcendência do próprio Deus e que espera a ressurreição dos mortos. Mas a Igreja oficial deu-se muito mal com a matéria, com o corpo. Há o problema do poder e, voltando à moral, do celibato não assumido. O facto de a ética ter sido entregue a moralistas que eram padres, com um celibato obrigatório, por vezes não assumido, eventualmente infeliz, tudo isso envenenou o corpo e a sexualidade. E envenenou a mulher, porque a moral esteve entregue a homens, que talvez vivessem uma má relação com o corpo e que tinham de amaldiçoar a mulher como o fruto proibido.
Essa má relação com o corpo não explica também o mal-estar da nossa sociedade em relação à morte?
Quando falamos do corpo, falamos do ser humano, do corpo-pessoa, que é este enigma, esta exaltação, esta alegria, esta pergunta infinita, mas que se confronta com o limite. E é daqui que surge a pergunta religiosa, porque, quando nos damos conta do limite, perguntamos por aquilo que está para lá do limite, perguntamos pela transcendência. Surge aqui a questão da morte. Há realmente hoje um enorme mal-estar em relação à morte, também porque se não quer aceitar o limite. O que se faz para manter o corpo jovem!... Mas envelhecemos e morreremos. E é fundamental reconciliar-se com a mortalidade.
O mesmo mal-estar existe com a sexualidade.
A relação com a sexualidade, hoje, não é boa, não é sadia. Passou-se do tabu ao vale tudo. E as pessoas percebem que não vale tudo. Um grande teólogo, renovador da moral católica, do qual agora se fala pouco, Bernard Häring, disse-me uma vez: "A Igreja Católica também tem culpa disso. Fez tabu de tudo e as pessoas quiseram depois libertar-se, mas libertaram-se mal." Por isso, hoje, vivemos este mal-estar.
Há uma enorme crise de uma sociedade que apostou no espectáculo, voltada para o ter, para o consumir sem limites. A partir daí, a grande pergunta é a da morte. Da qual se fez tabu. Ora, uma sociedade que não sabe conviver com a morte também não sabe viver com a vida. Penso mesmo que, para perceber uma sociedade, mais importante do que saber como é que nela se vive é saber como é que nela se morre e nela se trata os mortos. Ora, na nossa sociedade, sobretudo por causa da desafeição em relação à religião, já não há esperança em relação ao além. Então, numa sociedade sem eternidade, só ficam instantes que não fazem tecido e, por isso, se devoram uns aos outros. A um agora segue-se outro agora... e assim sucessivamente. E é preciso viver sofregamente o instante, consumir, correr, afirmar-se na vertigem, porque, depois, não há mais nada. Este é hoje o nosso problema maior. Não sou a favor do pensamento mórbido sobre a morte - infelizmente, a própria Igreja também utilizou o medo da morte para exercer o poder -, mas penso que o pensamento sadio sobre a morte traz sabedoria ao viver.
O poder é uma questão-chave...
O poder é fundamental para perceber as grandes problemáticas na história da Igreja, concretamente na sua contradição com o cristianismo originário.
O cristianismo tem a ressurreição como resposta à morte, mas não sabe falar dela.
A ressurreição deve entender-se na dinâmica do corpo-pessoa aberto à transcendência. Uma vez que a Igreja não sabe lidar com o corpo, fala da alma. Mas hoje, no quadro da antropologia, não se pode pensar em dualismo de alma e corpo.
De qualquer forma, em relação ao para lá da morte, ficamos sem palavras. É o indizível. Porque nós estamos preparados para pensar no quadro do espaço e do tempo, e a morte retira-nos precisamente do espaço e do tempo. Mas a fé do cristianismo na ressurreição é essencial. Quem acredita em Deus que é amor crê que não será abandonado por Deus nem mesmo na morte. Na morte, em vez de cair no nada, o crente espera entrar na plenitude da vida em Deus.
Nesse seu livro, refere-se às respostas perante a morte: resignação face ao nada, integração no todo, reencarnação, ressurreição...
Julgo que dificilmente se consegue conviver com o nada. Então, como as pessoas não toleram o nada, é interessante observar que 25 por cento dos católicos franceses acreditam na reencarnação. Entendo isso, mas penso que a reencarnação é insustentável até do ponto de vista antropológico. A ressurreição é a proposta da fé cristã. Mas ela não pode ser entendida como a reanimação do cadáver. Só se pode dizer que a pessoa na sua identidade encontrará a plenitude da vida em Deus. É um mistério do qual apenas encontramos acenos no amor e na música.
Por vezes diz que a Igreja esqueceu o essencial: a ressurreição, a proposta de liberdade, a autonomia e transcendência do ser humano...
Quase sou levado a dizer que, desgraçadamente, a Igreja pode ser acusada por alguns de ter recuperado grande parte das causas que levaram Jesus à morte.
Quais?
O que levou Jesus à morte foi a religião oficial dos sacrifícios, que explorava o povo. Jesus enfrentou-se fundamentalmente com o sacerdócio do Templo, pois Deus dizia: "Eu não quero sacrifícios, quero misericórdia." Jesus veio anunciar um Deus de amor, não precisa de sacrifícios. As religiões estão assentes no sacrifício. Jesus enfrentou o sacerdócio do Templo e essa foi uma das causas da sua morte. A outra foi que ele morreu como subversivo, como alguém que subleva a ordem social e política injusta. Encontramos aqui a mensagem nuclear de Jesus, que o leva à morte: um Deus de amor, que não precisa dos sacrifícios e que quer que todos os homens e mulheres se amem, que haja justiça e fraternidade no mundo. A Igreja recuperou, neste sentido, algumas das causas da morte de Jesus: um Deus que mete medo e aterroriza. E nem sempre dentro da Igreja reina a verdade limpa e honesta da transparência e da justiça: pense no Vaticano e na Cúria Romana.
É um Deus imoral que provoca o aparecimento do ateísmo, como sugere em vários dos textos do livro Janela do (In)visível?
Um deus que mete medo, que humilha as pessoas e impede a sua alegria, que leva à violência e à guerra, é um deus em relação ao qual só há uma atitude digna: ser ateu. O mesmo se diga da doutrina que diz que Deus precisou da morte do Filho para aplacar a sua ira. Este deus seria pior que eu, é imoral, porque mata a vida, quer o sangue do Filho, precisa de vítimas. Isso é absolutamente intolerável. Um Deus que exige o sangue das vítimas é o Deus da vingança. Ora, se Deus se vinga, nós também podemos vingar-nos, podemos ir para a guerra. O Deus que Jesus anunciou constituiu uma revolução. Jesus não veio anunciar que há Deus, porque Deus nesse tempo era uma evidência social. O núcleo da sua mensagem é que Deus é amor. Esta é que é a notícia boa e felicitante do Evangelho. Ora, o que a Igreja pregou muitas vezes, ao longo dos tempos, foi uma má notícia, o "disangelho", no dizer de Nietzsche.
O que explica uma parte do ateísmo. Mas, em muitos dos seus textos, tem uma visão positiva do ateísmo.
Sim. Ai de nós se não houvesse ateus que sabem o que isso quer dizer...
Ateus graças a Deus?
Não... Admiro os ateus que, quando ainda não havia liberdade religiosa e ser ateu significava o fogo da Inquisição e implicava, no quadro doutrinal da época, ir para o Inferno, ousaram, em nome da liberdade crítica, da razão e da própria dignidade de Deus e do homem, pôr a questão de Deus e ser ateus. Esses são santos da humanidade, porque foram eles que obrigaram a criticar imagens falsas e ignominiosas de Deus. Perante os ateus, é necessário perguntar em que Deus não acreditam. Os crentes, se também souberem o que isso quer dizer, talvez estejam de acordo com alguns ateus, dizendo: num Deus vingativo, guerreiro, em nome do qual a humanidade é explorada, nesse Deus também não acreditamos.
Tem um texto com o título Karl Marx actual. Vindo de um teólogo, soará estranho a algumas pessoas. Ainda mais hoje, em que o marxismo está fora de moda, mesmo apesar da crise... Como explica isso?
Karl Marx ensinou-nos, por exemplo, que ninguém fala a partir de um lugar neutro. Todos falamos a partir de um lugar social. A leitura que Marx faz em relação ao dinheiro enquanto mediador das relações humanas traduz a monetarização do humano. O dinheiro é o deus que tudo domina, ao qual homens e mulheres prestam culto. Estes aspectos mostram a actualidade de Marx. Tal como Galileu, que mostrou que o homem não era o centro do universo, Darwin, que ensinou que provimos da cadeia da evolução, ou Freud, que mostra que a razão não domina tudo, Marx também nos ensina a ver que nenhum de nós fala a partir de um lugar neutro. A palavra justiça não é neutra, como não há consensos neutros no domínio social, porque cada um fala a partir de um lugar próprio. O conceito de justiça não será o mesmo para um grande capitalista e para um pai ou uma mãe desempregados que têm de alimentar três ou quatro filhos. O chamado "socialismo real" morreu, felizmente, mas Marx tem muita actualidade, sobretudo nestas dimensões.
A religião continua a ser a busca de sentido?
Do sentido, do sentido último. Por isso é que nunca desaparecerá. E aqui reencontramos Marx. Ele tinha razão ao criticar a religião como ideologia. Mas ele não tinha razão ao pensar que, uma vez estabelecida a justiça social, a religião desapareceria. É que, mesmo que fosse possível uma sociedade transparente e sem conflitos sociais, a religião não desapareceria, porque há sempre o problema do sentido final, da morte, do tédio, como dizia Ernst Bloch.
Na prática e na disciplina da Igreja, quais são os aspectos mais importantes a mudar?
Tarefa fundamental é testemunhar, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus e ajudar as pessoas a fazer a experiência de Deus. A Igreja precisa de assumir o valor da autonomia, em vários domínios, como a participação dos leigos, a liberdade de investigação e ensino, abrir-se a uma cosmovisão processual e não estática, confrontar-se com o pluralismo, com as novas ciências, nomeadamente as neurociências. A grande crise do nosso tempo é que já não há espaço para as grandes perguntas, sendo pois missão da Igreja manter acesa a pergunta. Para isso, ela própria tem de deixar-se interrogar. Tem de repensar a questão da sexualidade, nomeadamente, dos contraceptivos, da lei do celibato obrigatório. As mulheres não podem continuar a ser discriminadas. Não sou ingénuo: tem de haver alguma organização dentro da Igreja, mas uma coisa é o ministério e outra é o poder enquanto domínio e carreirismo.
A função clerical de hoje não tem mais a ver com o sacerdócio judaico do tempo de Jesus do que com os ministérios dos primeiros tempos do cristianismo?
A grande categoria religiosa é o sagrado, o mistério. O sagrado é o referente de todas as reli-giões. Se não houvesse experiência do sagrado, do mistério, as religiões não teriam lugar. Mas isso não implica a sacralização dos sacerdotes para oferecer sacrifícios. O Novo Testamento evitou a palavra "hiereus", que significa sacerdote. Na Igreja primitiva, fala-se em ministérios e não em sacerdotes.
Como deveria a Igreja encarar a questão do limite em casos como o aborto ou a eutanásia?
Sou contra o aborto, que é um mal, objectivamente. Deveria haver educação sexual séria, também para que o aborto fosse evitado e para que as pessoas pudessem exercer a sua autonomia sexual no amor, na alegria e na dignidade. Dito isto, a Igreja deveria estar muito atenta aos progressos científicos e distinguir entre vida, vida humana e pessoa humana. Assim, por exemplo, até à nidação, uma vez que pode haver ainda gémeos monozigóticos, não temos propriamente um indivíduo, de tal modo que a interrupção do processo não se pode chamar um homicídio.
Acrescento que a Igreja tem de saber argumentar, também do ponto de vista ético. Quando se diz que só se devem usar meios anticoncepcionais naturais, pergunto: o que são métodos naturais, se foi o homem que os descobriu? A Igreja torna o seu discurso não crível, porque, por vezes, a argumentação é frágil ou inexistente.
Indo à sua pergunta, julgo que um cristão não estava impedido de votar favoravelmente o projecto de lei da descriminalização do aborto. O que é inadmissível é que, depois, segundo a lei, a mulher que aborta não pague taxa moderadora e seja possível fazer dois ou mais abortos por ano.
E quanto à eutanásia?
A eutanásia é um problema em aberto, que não pode ser tabu. Se Deus deu a vida humana, deu-a mesmo. A argumentação que muitos cristãos apresentam de que não se pode intervir no fim da vida porque esta é dom de Deus não tem em conta a autonomia.
Dizia que a vida é um dom de Deus...
Se Deus deu a vida, a vida, para o ser humano, é um dom e não é um fardo. E, com autonomia, tem pelo menos o direito de pôr a questão da eutanásia. É uma questão em aberto. Claro que neste problema, como no aborto, estamos perante questões-limite, que devem ser tratadas com toda a responsabilidade. Ninguém pode acabar com a vida de modo irresponsável, porque nós também pertencemos aos outros. E é preciso sublinhar que só o próprio é que poderá dispor da sua vida, em determinadas circunstâncias e mediante um pedido de ajuda consciente e consistente. Exige-se imenso cuidado no debate, porque vivemos numa sociedade na qual predomina o poder do dinheiro e o economicismo, há pouco respeito pela vida e os velhos são menosprezados e até excluídos.
*Entrevista conduzida por António Marujo
Site Meter