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domingo, 25 de maio de 2014

CÁRQUERE/Igreja de Nossa Senhora*

Parecem poucos os mais de 70 anos vividos por Afonso para tanto que realizou. Alexandre Herculano diz que sem esse príncipe "não existiria hoje a nação portuguesa e, porventura, nem sequer o nome de Portugal". Com muita fé, inteligência, destreza política, valentia, talento militar, ilimitada capacidade de risco-sem dúvida, mas também com um poder físico invulgar a que não dava repouso, combatendo, dormindo e comendo quando e onde calhava.
Pois este assombroso atleta nasceu e viveu os primeiros cinco anos tolhido das pernas.
Seu grande educador, Egas Moniz, perante esta debilidade do infante, sofreria tanto como os condes portucalenses, pais de Afono Henriques, e rezava por ele a Nossa Senhora.
Dividem-se as narrativas tradicionais. Segundo algumas, teria aparecido numa cavidade de velho carvalho uma imagem da Virgem Maria que logo ganharia fama de milagrosa e a ela dedicaria Egas Moniz uma igreja em Cárquere; outras dizem ter sido revelado em sonhos a Egas Moniz que mandasse escavar .em certo lugar e encontraria ruínas de antiquíssima igreja e uma imagem da Virgem. 
De uma ou de outra forma, Egas Moniz-proprietário da quinta de Resende e mais tarde senhor do couto destas terras por doação do nosso primeiro rei-mandou levantar sobre ruínas, que nem saberia de quando datavam, uma igreja para serviço dos cristãos e digna protecção da imagem encontrada, e sobre o seu altar colocou o pequeno infante, passando o nobre cavaleiro aquela noite em vigília frente ao altar. O menino curou-se e fez-se o homem que se viu.
Assim explicam as velhas crónicas o motivo da edificação da Igreja de Nossa Senhora de Cárquere; o povo repete-o há oito séculos e até hoje nenhuma prova em contrário se conhece.
O Morro das Procissões contém incalculável riqueza arqueológica, de onde saiu já volumoso espólio de lápides para museus de Lisboa, Porto e Guimarães.
O castro céltico que era Cárquere tornou-se depois importante povoação romana, mas quanto a provável existência pré-céltica nada se sabe, por enquanto.
Aventaram-se hipóteses acerca da igreja arruinada sobre a qual Egas Moniz edificou a de Nossa Senhora-teria sido templo pagão romano, talvez dedicado a Diana, depois suevo e visigodo, convertido mais tarde em mesquita muçulmana derrubada na Reconquista.
Referem ainda outras antigas vozes populares que o último rei visigodo, D. Rodrigo, não teria sido morto pelos Sarracenos na decisiva Batalha de Guadelete (711), mas fugira para o Ocidente e continuara lutando contra os invasores até morrer em Viseu, e que na fuga enterrara num destes cabeços um cofre cheio de preciosas relíquias, uma cruz e uns sinos.
À igreja de Cárquere, fundada quando D. Afonso Henriques era menino, acrescentou-se, perto de 20 anos depois, um pequeno convento que foi entregue aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho-para alguns autores a primeira comunidade do cenóbio era de monges negros, beneditinos.
A igreja situa-se num avançado cabeço da serra de Montemuro, verdadeiro maciço de grandes montes e soberbos vales que procuram o Douro e o Paiva.
Recuperava-se o povoado de Cárquere graças à igreja e ao pequeno mosteiro onde a vida correria tranquila neste lugar de acesso então algo trabalhoso, mas muito propício à meditação. Porém, talvez do isolamento, começou a comunidade dos "Crúzios" a deixar-se acomodar e a desleixar as exigências da regra, mesmo depois de D. João III entregar o cenóbio aos Cónegos de Santa Cruz de Coimbra.
No entanto, o Mosteiro de Cárquere, embora mantendo-se de cónegos regrantes, não se integrou na Congregação de Santa Cruz, à qual aderira a maior parte dos mosteiros agostinianos após a reforma da segunda metade do século XVI.
Pouco tardou nessa situação de certo desapego, pois o Papa Gregório XIII ordenou a extinção da comunidade de Cárquere, entregando-a à Companhia de Jesus, e as suas rendas ao Colégio que a mesma ordem edificara em Coimbra.
Os Jesuítas deram nova vida ao mosteiro instalando nele um hospício onde prestavam assistência aos moradores de Cárquere e recolhiam, tratavam e alimentavam gente pobre.
Após a expulsão dos Jesuítas em 1759, o Marquês de Pombal entregou o mosteiro e o padroado da igreja à Universidade de Coimbra. A partir daí, vazio e desprezado-só não abandonada a cobrança das rendas-, o mosteiro entrou em progressiva ruína.
Passou a igreja a pertencer ao padroado real do concelho de Resende e conservou-se como sede da paróquia de Santa Maria de Cárquere.
Classificada como monumento nacional e devidamente restaurada, a igreja conserva parte do seu carácter primitivo, românico do século XII. 
Na bela torre sineira, quadrangular, erguida no século XIII, junto à cabeceira, abrem-se janelas geminadas nas suas faces e o eirado constitui privilegiado miradouro das deslumbrantes panorâmicas de grandeza, formas e cores inolvidáveis.
Nos fins do século XIII ou princípios do XIV realizaram-se obras de vulto. A elas se deve a capela-mor, com abóbada de bem lançadas e executadas nervuras.
Mais tarde, no primeiro terço do século XVI, remodelou-se a nave-talvez por degradação do estado da primitiva-obras que lhe imprimiram o cunho manuelino que conserva.
O espaço interior, harmoniosamente proporcionado, envolve-nos num ambiente de austera religiosidade para o qual contribui a cor e a simplicidade da silharia.
As obras manuelinas vieram acrescentar elementos de elaborado decorativismo sem, no entanto, perturbar o sabor monástico; a elas se refere, com demonstração da beleza plástica da arte manuelina, Aarão de Lacerda: "...os arcos das portas, os do cruzeiro e do coro e a cachorrada da cornija".
Mas duas encantadoras peças escultórias enriquecem particularmente a valia estética da igreja. Uma delas mede pouco mais de um palmo de altura, delicado marfim que representa Nossa Senhora de Cárquere. A outra, de Nossa Senhora-a-Branca, foi esculpida no século XIV em calcário de Ançã.
Integrada no núcleo mais antigo da igreja, a capela dos senhores de Resende contém vários sepulcos de pessoas da nobre família.
As casa que restam do antigo mosteiro, restauradas, completam aprazível e belo conjunto arquitectónico.
*Texto transcrito d' "As mais belas igrejas de Portugal", vol. II,  de Júlio Gil e Nuno Calvet, colecção Património, Editorial Verbo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Moleiros recuperam tradição do jogo do pião*


O Grupo de Danças e Cantares “Os Moleiros” de Cárquere realizou um “Convívio”, pelo terceiro ano consecutivo, no passado dia 17 de março, com o objetivo de recuperar e reativar os jogos tradicionais da cavilha e, sobretudo, do pião.
Compareceram à iniciativa, que decorreu na antiga escola primária de Passos, sede da Associação, cerca de duas centenas de pessoas, provenientes da região, que não quiseram perder a oportunidade de recordar memórias e tradições de um tempo não muito distante. Uma oportunidade, também, de convívio social, numa época em que os brinquedos tecnológicos substituíram os jogos tradicionais. “Muita da gente que saiu da escola a jogar o pião só agora, com estas iniciativas, o volta a fazer, regressando às suas origens”, refere Alberto Pinto, Presidente da Direção dos Moleiros.
Se a maioria das pessoas veio para assistir à iniciativa, outros prepararam-se para uma competição saudável, que estimula o desenvolvimento de habilidades variadas, como a capacidade de concentração, a coordenação motora, a agilidade dos reflexos e a criatividade.
O torneio oficial, à volta da escola, com prémios simbólicos, começou. Compreende-se, desde logo, porque este é um jogo de rapazes. Para além da habilidade e perícia, é necessário muita pontaria e, sobretudo, força… “– É à malhão!”, ouve-se repetidamente, em contraponto com o “saca baraça”, de quem prefere lançar o pião de uma forma mais lúdica.
Os participantes envolvem o pião a partir do ferrão com uma baraça apertada, metida no dedo médio, seguram-no na mão, com o bico voltado para cima, e lançam-no ao chão com um forte impulso, tentando acertar e fazer mossa nos que já lá estão. Depois é pegar o pião de “funil”, de “tesoura” ou à “machado”, pondo-o a girar na palma da mão, recordando um gesto simples que animou e entreteve gerações.
Os grandes vencedores deste ano foram Arnaldo José Pinto Portela e José Pinto Lourenço, que conseguiram uma volta à escola sem irem à forca, acertando consecutivamente nos piões adversários, sem que os seus deixassem de girar.
O jogo terminou, depois de uma tarde de convívio são e da partilha de muitas histórias divertidas. Os piões são religiosamente guardados para novas contendas, fazendo jus à letra da música tradicional: “Eu tenho um pião, um pião que dança / Eu tenho um pião, bem na minha mão / Gira que gira o meu pião / Mas não to dou, nem por um tostão”.
Para combater o cansaço que começa a invadir participantes e espetadores, a organização ofereceu uma refastelada feijoada, ficando no ar a promessa de um novo convívio, para o próximo ano.

O artista dos piões
Jorge Costa, de 50 anos, residente no lugar de Tulhas, é o artista dos piões. Das suas mãos surgem todo o tipo de miniaturas em madeira, como moinhos, canastros e, claro, os famosos piões, feitos nos tempos livres, uma vez que é funcionário na Câmara Municipal de Resende.
Desde a infância que dar vida aos piões não tem segredos para Jorge Costa. “Na escola, já fazia piões. No monte da P’reira, aqui perto, desprendia as trepas dos pinheiros, de preferência com nós, para que o pião fosse mais resistente às canicadas. Depois, em casa, com a ajuda de uma foicinha, pois as facas eram escassas, modelava-os. Metia-se um prego e já estava”, descreve.
Hoje, as condições de “fabrico” são outras. Construído num torno, o pião é de madeira rija, de lodo ou cerejeira, redondo na parte superior, afunilado para baixo, terminando no “ferrão”, de ferro, preparado antecipadamente. “O segredo está na forma como se mete o ferrão, o mais direito possível, para o pião andar bianço, direitinho… Os piões escravinhotos e chincharos, que saltam muito, são mal feitos…”, relata à medida que gira a madeira, no torno, dando-lhe vida e forma. Para fazer girar o pião é indispensável o seu acessório, a baraça de lã, de várias cores, que se enrola à sua volta.
A construção de um pião, com o material já devidamente preparado, pode durar cerca de uma hora. No final, surgem pequenos objetos a rondar os 10 cm por 6,5 cm de diâmetro.
“Ainda há pouco tempo, vendi 25 para França”, conclui o artesão.

Memórias perdidas no tempo
Manuel Lourenço, de 77 anos, residente na Arrifana, é o decano da companhia e um dos mais ativo e participativos no jogo e nas memórias de um passado que lhe deixou saudades.
“Cada jogo tinha a sua época: o do pião era na Quaresma”, recorda. Os rapazes reuniam-se nos intervalos das aulas ou aos domingos à tarde para jogar ao canico, à forca ou ao sovelo”, recorda. Um dos jogos mais conhecidos consistia em traçar no chão um círculo, para dentro do qual os jogadores lançavam os piões. Quando um não saísse do traçado, ficava prisioneiro, suportando os efeitos dos golpes desferidos pelos piões dos outros jogadores até que, obrigado pelas pancadas, acabava por sair do círculo.
Quando se conseguia, de um golpe, rachar ao meio o pião do adversário era uma “algazarra” que, não raras vezes, era seguida de uma “cena de pancadaria” entre os intervenientes.
Outras vezes, dada a violência do arremesso, aconteciam os acidentes: uma “cabeça partida, um sobrolho aberto”… Algumas das maleitas eram feitas pelos piões mais pequenos, as piascas ou bilrinhas, pequenos em dimensão mas muito “perigosos e certeiros”, diz Manuel Loureiro. Qualquer um deles eram muito estimados, porque “quem ficasse sem pião teria muita dificuldade em arranjar outro…”, lembra.
Outros tempos em que se desmanchavam as velhas camisolas para fazer as baraças. “Uma vez, por volta dos 10 anos de idade, roubei um casaco à minha mãe para fazer uma. O pior foi quando ela descobriu que já não tinha casaco…”, conta.
*Texto da autoria de Paulo Sequeira, publicado no Jornal de Resende, edição de Abril de 2013. Foto da Foto Ideal 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Entrevista a Ana Correia, vice-presidente do Rancho Folclórico e Etnográfico de Cárquerere*

 O Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Cárquere (RFESMC) organizou, no dia 19 de agosto, o XXV Festival de Folclore, um evento que se repete anualmente no 3.º domingo de agosto. O Jornal de Resende (JR) aproveitou a comemoração desta data marcante de uma das principais coletividades do concelho, que se dedica a divulgar a cultura e as tradições populares das gentes de Resende, para entrevistar a sua vice-presidente, Ana da Conceição Correia (AC).

Entrevista conduzida por Paulo Sequeira

Jornal de Resende (JR): O Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Cárquere foi fundado em 1981, embora as pesquisas e recolhas etnográficas só se iniciassem em 1983. Quem esteve na sua origem?
Ana Correia (AC): A bandeira da Associação tem a data de 1975 mas a escritura pública é de 10 de março de 1981. Na sua fundação, esteve um conjunto de sócios liderado pelo Dr.º Albino Brito de Matos, que se manteve como Presidente da Direção até 2011.

JR: O Dr.º Albino Brito de Matos, sócio fundador e presidente de 1981 a 2011, teve um papel fundamental…
AC: O Dr.º Albino Brito de Matos é o grande responsável por tudo o que a Associação fez durante a sua existência. Foi e continuará a ser o pilar e a força que nos move para darmos continuidade à nossa missão de defender os valores, princípios e tradições de um povo cuja história queremos preservar.

JR: Como foram os primeiros tempos?
AC: A partir de 1983, entendeu-se que era necessário tratar o folclore duma forma mais séria. Iniciou-se, então, a pesquisa e recolha dos usos, costumes e tradições antigas, através de entrevistas às pessoas mais idosas, da recolha e do estudo de testemunhos que permitissem a reconstituição do modo de viver das pessoas da nossa terra, em finais do século XIX e princípios do século XX. Com esta base, e com o aval da Federação do Folclore Português, estudámos e selecionámos os nossos trajes, as nossas danças e cantigas, que nos identificam e que procuramos divulgar com todo o respeito e a dignidade que merecem.

JR: Quando organizaram o 1.º Festival de Folclore?
AC: O 1.º Festival realizou-se no dia 31 de julho de 1988. O 3.º domingo de agosto foi a data escolhida nos 24 anos que se sucederam até ao presente.

JR: Que razões levaram à sua organização?
AC: Foi sobretudo uma grande vontade em iniciar um percurso de apresentação e divulgação das tradições da nossa terra. Contámos com o incentivo e o apoio técnico da FFP, através do seu Presidente, o saudoso Sr. Augusto, e do Conselho Técnico, na pessoa da D. Cândida, responsável pelo Rancho das Pias (Cinfães), que foi o nosso Padrinho no 1.º Festival.

JR: Em 1989, o Rancho foi Federado. O que foi necessário para atingir esse estatuto?
AC: Ser um rancho federado significa obter um estatuto de qualidade, que passa pelo cumprimento e aceitação de um vasto conjunto de procedimentos e regras que a FFP propõe aos grupos filiados. Para um rancho atingir esse patamar, é necessário estar no folclore com muita seriedade e responsabilidade, com humildade, honestidade e muita força de vontade e trabalho. Foi o nosso caso.
O nosso 1.º Festival foi supervisionado pelo Presidente da FFP, que, no dia seguinte, nos convidou para viajar para França no prazo de uma semana para participar num Festival Mundial de Folclore. Isto significava que tínhamos passado no teste e ele estava a dar-nos um presente que pretendia, mais uma vez, pôr-nos à prova. Penso que também passamos neste teste e ao fim de um ano, em 1989, depois de realizarmos o 2.º Festival, fomos finalmente federados.

JR: Quais são os trajes e utensílios típicos do Rancho?
AC: Os trajes e utensílios típicos retratam os usos e costumes da nossa terra em finais do século XIX e princípios do século XX.
As pessoas do rancho usam trajes de trabalho: de pastor, da malha, da rega, da ceifa, de vindimador do Douro, de inverno e outros. Todos estes trajes são pobres e simples e são confecionados em tecido de riscado, cotim, chitas, tal como era uso. Também há alguns trajes usados em dias de festa, de feira, ou romaria, domingueiro, os noivos e o lavrador abastado. Estes são mais ricos, mais coloridos e vistosos.
Os utensílios usados são alguns adereços que completam o traje e que se utilizavam nos trabalhos do campo, tais como a crossa, a breza, a enxada, o engaço de madeira e outros.

JR: Mais tarde, em 2009, o Rancho obteve a Declaração de Utilidade Pública…
AC: Esta foi uma aspiração que levou alguns anos a concretizar. Foi um processo moroso, pois tivemos que instruir o pedido de adesão por várias vezes. Para o efeito, beneficiámos dos pareceres favoráveis emitidos por várias entidades a nível local e nacional e, felizmente, atingimos esse patamar em 2009.

JR: Quantas atuações fizeram no estrangeiro?
AC: Três. Em França, em 1988, e em Itália, por duas vezes: na Sardenha (1991) e na Sicília (2006). As viagens dos ranchos ao estrangeiro são sempre recheadas de histórias inesquecíveis e originam momentos únicos de diversão, de camaradagem e de grande cumplicidade entre as pessoas.

JR: A nível nacional, para além da participação em inúmeros festivais, estiveram em programas de televisão e de rádio…
AC: A nível televisivo, estivemos em direto na RTP Internacional, aquando da nossa participação no Festival do Algarve, em setembro de 1994, bem como na “Praça da Alegria” (RTP1), num programa sobre a Festa da Cereja de Resende. Participámos, também, num programa para uma televisão holandesa, na Quinta das Carvalhas, em representação do folclore do Douro. A nível radiofónico, estivemos na Emissora Regional de Resende, na Rádio Renascença, na Antena 1 e na Rádio Montemuro, entre outras.

JR: Também participaram numa produção luso-brasileira, o “Rio do Ouro”…
AC: Essa experiência foi muito interessante, para além do privilégio de contracenar com o famoso ator brasileiro Lima Duarte. Alguns elementos do nosso Rancho foram escolhidos para participarem como figurantes em algumas cenas gravadas em S. Martinho de Mouros, em Mesão Frio e em Porto de Rei. No filme, há uma cena de um arraial popular em que se ouve a música da nossa dança “Se eu fosse ladrão roubava…”

JR: Destas vivências, no âmbito do folclore, há sempre histórias engraçadas…
AC: Recordo, com muito carinho, uma cena relacionada com uma pessoa muito especial, a nossa jovem de quase 70 anos, a senhora Mariana, no Festival do Algarve. Estávamos 18 grupos para dançar e como o festival era transmitido em direto pela televisão, o tempo de atuação dos ranchos era controlado com muito rigor. Quando chegou a nossa vez de dançar fomos empurrados para o palco com tanta pressa e foi tudo tão rápido que a Sra. Mariana nem teve tempo de calçar os tamancos e colocou-os sobre a cabeça e assim esteve, muito quieta, durante os três minutos e meio que durou a nossa apresentação. Foi muito divertido ver depois a gravação…

JR: A chula Rabela é a dança ex-libris do Douro e do Rancho Folclórico e Etnográfico de Santa Maria de Cárquere. O que a distingue das chulas de outros Ranchos, nomeadamente do Rancho Folclórico e Etnográfico de Paus?
AC: A chula rabela é a dança que melhor representa o Douro e era a única que, nesta região, se dançava em fila. Era acompanhada pela “rabeca chuleira” e cantada em jeito de desafio por um homem e uma mulher.
Há muitas variantes da chula e todas elas são especiais, apesar de diferentes. O Rancho de S. Pedro de Paus dança a sua chula tal como o fizeram, outrora, as pessoas que viveram na encosta por onde se estende a freguesia. A nossa chula é a chula rabela de outras gerações e tem o ritmo e a marcação do Douro.

JR: Presentemente, estão empenhados na conclusão da sede social e do Museu Etnográfico. Qual é o ponto da situação?
AC: A nossa casa, como gostamos de lhe chamar, é um sonho tornado realidade, embora os custos da sua construção sejam muito elevados. A parte da obra da sede social e salão de festas do rancho está quase concluída. Falta-nos, ainda, o mobiliário e o equipamento da cozinha. Estamos empenhados em tentar encontrar ajuda financeira para podermos continuar a obra e iniciar a construção do Museu Etnográfico. Este espaço é fundamental para podermos guardar e expor, em boas condições de conservação, muitos dos artefactos e peças antigas que recolhemos e que merecem ser divulgadas e preservadas para as gerações futuras.

JR: Com quantos elementos conta, atualmente, o rancho e quantas vezes se reúnem para os ensaios?
AC: Frequentam, mais assiduamente, o rancho cerca de 50 elementos, embora na totalidade dos componentes e dirigentes o número seja superior a 60. Todas as semanas, normalmente aos sábados, e nas vésperas das saídas, juntamos todos os elementos do rancho para fazer os ensaios.

JR: Têm outras atividades de cariz recreativo, para além do folclore e da etnografia?
AC: Organizámos várias atividades, ao longo do ano, como por exemplo os convívios e festas, magusto, ceia de Natal, baile de Carnaval, karaoke, torneios de malhas e de cartas, a festa das papas, entre outras.

JR: De que forma divulgam as atividades?
AC: Temos um site (ranchocarquere.com.sapo.pt) e também usamos o facebook como forma de dar a conhecer as nossas atividades.

JR: Na freguesia de Cárquere, há outra associação, o Grupo de Danças e Cantares “Os Moleiros” de Santa Maria de Cárquere, que tem por temática o folclore e a etnografia. Qual o tipo de relação entre este e outros Grupos existentes no concelho?
AC: Cada um dos grupos concelhios, à sua maneira e de formas diferentes, procura desenvolver a sua atividade como lhe é possível, atendendo a que muitas vezes enfrentam limitações e entraves de vária ordem que é necessário ultrapassar. Penso que todos procuram dar o seu melhor. O relacionamento entre os grupos de folclore existentes no concelho é muito limitado, pois raramente existem oportunidades a nível concelhio para que haja intercâmbio e convivência entre os grupos. Em Cárquere, o relacionamento com os nossos conterrâneos Moleiros é de maior proximidade devido à existência de laços de amizade e relações de parentesco que ligam os elementos de ambos os grupos.

JR: Como auguram o vosso futuro e o do Folclore nacional?
AC: O nosso rancho tem 31 anos de existência. Ao longo deste período, fomos construindo um historial que nos enriquece e nos dá vontade de seguir em frente, continuando a trabalhar para dignificar o folclore e divulgar a nossa terra. Temos, entre nós, gente empenhada e disposta a trabalhar e, por isso, o futuro só poderá ser melhor do que foi o nosso passado. Espero que este rancho cresça ainda mais e possa afirmar-se como um defensor acérrimo das raízes e das tradições populares.
*Publicada no Jornal de Resende, n.º de Setembro de 2012

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ao café com …o Presidente da Junta de Cárquere: Na esplanada do café-bar Aquas Calidas com Amadeu Vasconcelos*

Quem é o presidente da Junta da Freguesia de Cárquere

Nasceu em Cubal/Angola em 1 de Janeiro de 1978. Devido aos tempos conturbados que então se viviam em Angola, a família veio para Cárquere, de onde o pai era natural e que tinha deixado com cerca de trinta anos. À excepção do irmão mais velho que ficou em Angola, vieram os pais e nove irmãos. Tem ainda mais cinco irmãs do lado do pai, fruto de uma relação anterior à sua ida para Angola.

Concluiu a 4.ª classe na escola de Cárquere, frequentou a então escola preparatória de Resende, onde fez o 2.º ciclo, e a escola secundária D. Egas Moniz, onde concluiu o 12.º ano. Após a conclusão do ensino secundário, matriculou-se numa escola de línguas em Lisboa, mas acabou por desistir. Achou que tinha mais apetência por uma área ligada à matemática, tendo efectuado a matrícula e frequentado o curso de contabilidade e administração na Escola Superior de Tecnologia de Viseu, que espera concluir daqui a uns anos. Trabalha nesta área, já que é um dos colaboradores do gabinete “Coelho e Diogo, Contabilidade e Serviços, Lda.”.

Sempre se integrou bem em todos os locais e instituições por onde passou, fazendo amizades com facilidade. Foi jogador do Grupo Desportivo de Cárquere e integrou os respectivos órgãos sociais, onde mostrou ser um jovem conciliador e de grande dinamismo.

É casado e espera o primeiro filho para Setembro próximo.

Fez parte da Assembleia de Freguesia no mandato correspondente a 2001-2005, integrando a lista do PS, mas não sendo cabeça de lista. Nas eleições autárquicas de 2005, candidatou-se como cabeça de lista, tendo o PS conquistado 5 lugares e o PSD 2 lugares. Foi eleito com 27 anos, o que fez dele um dos autarcas mais jovens do país. Em 2009, candidatou-se a um segundo mandato, tendo o PS obtido 6 lugares e o PSD 1 lugar.

Esta escolha foi uma aposta do actual presidente da Câmara Municipal, que viu nele um jovem com o perfil adequado para ganhar a Junta de Freguesia de Cárquere para o PS, o que veio a acontecer.

O que fez e o que espera fazer por Cárquere

Uma das realizações de que se orgulha é ter contribuído para a elevação do nível das habilitações escolares e profissionais da população adulta da freguesia, através de cursos de educação e formação (cursos EFA). Para isso, tomou a iniciativa de promover a realização de diversos cursos, em parceria com entidades formadoras, o que fez com que cerca de cem pessoas obtivessem o diploma dos 6.º, 9.º e 12.º anos. Por este motivo, em Cárquere, as pessoas com a 4.ª classe constituem um número bastante reduzido.

Além dos trabalhos de regularização e limpeza de vias e manutenção do Carvalhal, aos quais procura responder de forma permanente, há duas benfeitorias dos seus mandatos que importa realçar: a requalificação da sede da Junta de Freguesia, que a tornou mais funcional, e a abertura de 5 quilómetros de via florestal, em parceria com a Câmara Municipal.

Há um conjunto de obras julgadas necessárias para a freguesia, para cuja concretização irá envidar esforços junto da Câmara Municipal. A mais premente é a pavimentação com asfalto de três caminhos. Apresenta-se também como um projecto de grande importância a requalificação da Mata do Carvalhal, que integra a construção de um traçado delimitador do percurso da procissão, talvez em calçada à portuguesa, a instalação de iluminação e o arranjo dos coretos e da escadaria. Além disso, há ainda a necessidade de alargar o cemitério e de construir uma Casa Mortuária.

Amadeu Vasconcelos considera que a recente integração do Município na Rota do Românico do Vale de Sousa e Tâmega vem dar mais peso à necessidade de uma intervenção na zona do Mosteiro de Cárquere, exigindo em consequência uma maior preocupação com o património românico existente no concelho.

Refira-se que o atendimento à população na sede da Junta de Freguesia é feito às quartas-feiras, durante a manhã, e aos sábados, durante a tarde. Além de assuntos cuja resolução pertencem à Junta, Amadeu Vasconcelos tem-se mostrado disponível no apoio às pessoa no que se refere a informações e ao cumprimento de obrigações administrativas, como o preenchimento de impressos.

Questionário de respostas breves

  1. Onde passou as últimas férias?

No Algarve

  1. Compra preferencialmente português?

É-me indiferente

  1. Quais os seus passatempos?

Internet, ler e ver televisão

  1. Qual o momento mais feliz da vida?

O dia do meu casamento

  1. E o mais triste?

A morte do meu pai

  1. Que faz para ultrapassar as “neuras”?

Afastar-me das situações problemáticas

  1. Qual o seu prato preferido?

Anho assado com arroz no forno

  1. Qual a obra mais necessária para o futuro do concelho de Resende que falta fazer?

A ligação à A24 e A4

  1. O que mais admira nos outros?

Sinceridade

  1. O que mais detesta nos outros?

Falsidade

  1. Qual é a festa que lhe dá mais gozo comemorar?

Dia da paróquia, no último domingo de Julho, em que se reúnem as famílias no Carvalhal

  1. Quais os locais do concelho para onde costuma ir passear?

Caldas de Aregos, Porto de Rei e Serra de Montemuro

  1. Tem algum objecto que guarda com particular predilecção?

Não

  1. De que mais se orgulha?

Integração numa equipa que ajudou e continua a ajudar a desenvolver o concelho

  1. Quais as três obras mais importantes para o concelho feitas após o 25 de Abril?

A construção dos Centros Escolares, a construção da Ponte da Ermida e a aquisição das Termas das Caldas de Aregos pela Câmara Municipal

  1. Acredita que a construção da estrada Resende/Bigorne irá arrancar brevemente?

Tenho algumas reservas

  1. Que é que acha que o Eng. António Borges irá fazer após a saída da CM?

Descansar, mas apenas daqui a muitos anos

  1. Associa a palavra Resende a..?

Tranquilidade

  1. Já foi multado por infracção ao código da estrada?

Por estacionamento indevido

  1. Concorda que o Estado limpe as matas de quem não o fizer e mande a conta?

Concordo

  1. Que áreas deverão ser privilegiadas para criar emprego em Resende?

Áreas ligadas ao turismo

  1. Refira dois nomes que mais contribuíram para o desenvolvimento de Resende?

Eng. António Borges e Dr. Brito de Matos

23. É favorável à redução do número de autarquias, designadamente de freguesias?

Acho que esta questão deve ser discutida. Sou favorável à abertura para a definição de um novo mapa respeitante à reorganização das freguesias, desde que este processo não ponha em causa a identidade das existentes.

*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende, número de Julho de 2011

sábado, 21 de junho de 2008

SANTA MARIA DE CÁRQUERE, EM RESENDE:

Santa Maria de Cárquere, em Resende: A "cura milagrosa" do nosso primeiro rei e os "primeiros passos" da nossa história


(Comunicação na Academia Portuguesa da História, pelo Pe. Dr. Joaquim Correia Duarte, em 09 de Abril de 2008)

Ex. ma Senhora Presidente da Academia

Senhores Académicos e ilustríssimos confrades

Minhas Senhoras e meus Senhores

Como São Paulo aos Coríntios, também eu subo pela primeira vez a esta tribuna ansioso e “a tremer deveras” [1]. Tenho consciência das minhas humildes raízes, pois nasci e sempre tenho vivido nas encostas do Douro, entre o rio húmido e a serra agreste, sem grande tempo para frequentar Bibliotecas e Arquivos e sem condições para o trabalho intelectual de investigação, como se espera dum membro da Academia Portuguesa da História.
No entanto, ocupo hoje este lugar, porque há pouco mais de um ano, exactamente a 14 de Fevereiro de 2007, fui eleito Académico Honorário por votação unânime dos senhores Académicos de Número então presentes, na sequência do parecer favorável do Conselho Académico e depois de feita a apresentação do meu currículo pelo P. Henrique Pinto Rema, meu honrado conterrâneo, que muito estimo e profundamente admiro.
É uma honra que muito prezo e um privilégio que nunca poderei olvidar.
A única promessa que lhes posso fazer, e que é também sinal da minha enorme gratidão, é que irei tirar das minhas fraquezas força, para honrar e prestigiar a nossa ilustre e aureolada Academia, em todos os lugares e em todas as circunstâncias.

Bem hajam!

Minhas senhoras e meus senhores:

De novo ao jeito de Paulo de Tarso, quando chegou à culta Atenas e subiu ao alto estrado do Areópago, venho falar-lhes hoje de uma ”terra desconhecida” [2], não obstante a sua riqueza em história, a sua cópia de lendas e tradições, a sua generosidade em proveitos e em bens e a sua exuberância em belezas naturais.
Refiro-me a Cárquere, a Santa Maria de Cárquere, no meu muito querido concelho de Resende.

Situação Geográfica e antiguidades de Cárquere

Cárquere é uma das quinze freguesias do actual concelho de Resende e uma das 217 paróquias da diocese de Lamego.
Situada na meia encosta, entre a doçura e a pacatez actual do Douro e aspereza da serra do Montemuro, a 520 metros de altitude, a freguesia tem oito quilómetros quadrados de área geográfica e habitam-na cerca de mil almas.
O “Medorno” ou “Medorro” de Cárquere – assim se denomina um outeiro situado nas proximidades da igreja e do mosteiro – tem todos os sinais indicativos da existência de um antigo castro pré-celta.
Os romanos, chegados aqui no século II a. C., terão aproveitado a referida “citânia” para aí estabelecerem um “oppidum”.
Dos tempos da colonização romana os vestígios são tão abundantes em Cárquere, que bem se pode considerar o local uma das mais ricas estações arqueológicas do noroeste português.
Os vestígios mais ricos, mais notáveis e mais abundantes são as moedas e as lápides funerárias.
O jesuíta Eugénio Jalhay deslocou-se a Cárquere em 1950, a fim de estudar essas lápides. Num opúsculo (separata da revista Brotéria) o competente investigador refere ter visto nas cercanias da igreja 12 estelas funerárias com inscrições em latim. Comunicado o achado à Junta Nacional de Educação, Eugénio Jalhay e o seu companheiro Afonso do Paço receberam ordens para voltarem a Cárquere, estudarem melhor o assunto e encaminharem as 12 estelas para o Museu Etnológico Português, onde já estavam depositadas 42, provenientes também de Cárquere [3].

Para além das lápides, o P. Jalhay refere ainda que, na sua visita a Cárquere, o pároco lhe mostrara “mais de cem moedas romanas”, quase todas do Baixo-Império.
Esta abundância de vestígios da romanização em Cárquere não é difícil de explicar. Segundo Gil Mantas, nas proximidades de Cárquere passava a famosa “Via Caurium”, que subia de Mérida para Braga, seguindo pelas Caldas de Aregos que fica logo a seguir a Cárquere, e, já a norte do Douro, por Tongóbriga, actual lugar do Freixo, em Marco de Canavezes [4].
Mais importante ainda, para o tema que hoje nos ocupa, é uma estatueta de Diana que Frei Teodoro de Melo, em manuscrito de 1733, nos diz ter sido achada por uns “rústicos” nos passais dos padres Jesuítas em Cárquere.

Dando-nos referência da inscrição que nela havia, diz-nos Teodoro de Melo que numa das duas partes que resultaram da fractura se podia ler DIANA SACOELO FLAVA e na outra, CARCAV F. A. LXXV.

A interpretação do religioso foi então a seguinte:

“…e sendo ambas uma pedra da altura de cinco palmos e dois de largo, em que se deixa ver de relevo, ainda que um pouco polida, a figura de Diana que estava no seu pequeno templo ou capela sem tecto, que é o que significam as primeiras palavras, significando as segundas Carcavellus a fez anno de 75” [5].

Sendo assim, temos nessa estatueta uma importante referência ao culto de Diana em Cárquere e à existência de um pequeno e rude templo, erguido em honra da deusa das florestas e da caça.

Os princípios do Cristianismo
Embora o primeiro anúncio do Evangelho e as primeiras adesões ao Cristianismo tenham acontecido na Península Ibérica nos finais do século I ou princípios do século II da nossa era[6], eu penso que a organização intensa das comunidades cristãs rurais no noroeste peninsular, e mais concretamente na região de Resende, só terão acontecido ao longo do século VI, já no domínio dos Suevos convertidos à fé cristã por São Martinho de Dume.
A atestar esta hipótese, há a presença de Sardinário - o primeiro bispo de Lamego com existência documentada - no II Concílio de Braga, em 572, assinando as actas [7].

Ora, parece que a principal actividade e preocupação do referido bispo na diocese consistiu na multiplicação das paróquias com administração própria, algumas de carácter monástico [8].
Tudo isto nos ajuda a suspeitar que a primeira comunidade cristã organizada em Cárquere e a construção do primeiro templo cristão se devam situar na época suevo-visigótica.

Porque não substituir então aí o culto de Diana, filha de Júpiter, uma das mais perfeitas divindades do Olimpo e a mais pura e mais casta das divindades, pelo de Maria, a Imaculada, a Eleita de Deus e a Mãe do Redentor?

O orago da igreja é Santa Maria de Cárquere

A corroborar tudo o que fica dito, note-se a existência em Cárquere de minúscula e preciosíssima escultura em marfim, de 29 mm de altura e 14 de base, cujas formas e expressões denunciam um trabalho de muita antiguidade. A escultura representa uma Senhora com o Menino sentado sobre o joelho esquerdo, de coroa encordoada e denticulada. O Menino segura um livro na mão esquerda e abençoa com a direita.
Vergílio Correia que viu a imagem em 1929, pergunta se não estamos perante uma imagem visigótica, e comenta assim:

“Como nos sentimos impressionados sob as arcadas de uma igreja primitiva, perante uma imagem vista e adorada por reis, richomens e povo de séculos remotos, que foi talvez levada como talisman, no seu minúsculo relicário de prata, para o meio das refregas contra os mouros, que correu por ventura as sete partidas do mundo, de um mundo que nós não conhecemos, nem conheceremos nunca?·9]

A Igreja e o Mosteiro

Cárquere insere-se no contexto do actual concelho de Resende, local que teve uma singular importância nos primórdios da nacionalidade, nomeadamente os três maiores centros populacionais do nosso tempo.
São Martinho de Mouros recebeu foral de Fernando Magno em 1057, depois de o célebre monarca ter reconquistado o seu castelo aos Mouros, juntamente com o de Lamego. Tal foral, renovado por Afonso VI de Leão, veio a ser confirmado pela Condessa D. Teresa, em 1121, nas vésperas da sua contestada e irregular união com Fernando Peres de Trava. A famosa “Honra de Resende”, que abrangia Cárquere em grande parte, recebeu privilégios de Honra e Couto logo depois da Batalha de São Mamede; Caldas de Aregos, antiquíssimo julgado medieval que abrangia então alguns lugares de Cárquere, foi contemplado com uma preciosa Carta de Foral, assinada por D. Afonso Henriques em 1183, dois anos antes da sua morte, por interferência do “alvasil” Nuno Sanches, então “tenente” da “terra” de Aregos por nomeação do próprio Fundador.
Da igreja actual de Cárquere, que tem capela-mor gótica e corpo quase todo manuelino, fazem parte três importantes estruturas com sinais indiscutíveis do românico: o Conventinho, a torre sineira que abunda em siglas, e a capela funerária dos senhores de Resende, descendentes de Egas Moniz de Ribadouro e seus sucessores na posse da famosa Honra do mesmo nome. Esta última, fria e arcaica, tem no seu interior quatro arcas tumulares de granito, rudes, pesadas, trapezoidais, com as armas dos “Resendes” esculpidas nos tampos.
Entre parêntesis, não resisto a lembrar-lhes que Eça de Queirós, escolhendo Resende para cenário de quatro das suas mais conhecidas obras, se refere a estes túmulos, na “Ilustre Casa de Ramires”, nos seguintes termos:

“Para os fundos do vale, clara também no luar, era a igrejinha de Craquede – Santa Maria de Craquede – resto do antigo mosteiro em que jaziam, nos seus rudes túmulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Afonsinos”
[10].
Muitos autores, observadores atentos de estruturas tão arcaicas e conhecedores das Crónicas do século XVI e XVII, afirmam que a igreja e o mosteiro são obra de Egas Moniz ou mesmo do Conde D. Henrique; e dizem que estes as terão mandado construir em agradecimento à Senhora de Cárquere, pelo milagre que Ela fez em favor de Afonso Henriques, quando ele era ainda um pequeno infante de quatro ou cinco anos.
Chegamos assim ao ponto central e mais importante desta humilde e despretensiosa comunicação.

É tradição local, que vem correndo de pais a filhos ao longo dos séculos, sem nunca se ter perdido, que o filho do Conde D. Henrique, sendo ainda criança, fora curado por Nossa Senhora de Cárquere.

Diz o povo que D. Egas Moniz, preocupadíssimo com a deficiência congénita do príncipe (que lhe fora entregue pelo Conde seu pai para ele o criar e educar), rezava fervorosamente à Virgem Mãe, a pedir a cura do menino. Até que um dia, estando o aio no seu Paço de Resende, a Senhora lhe apareceu em sonhos e lhe disse que subisse a Cárquere, pusesse o príncipe em cima do Seu altar e Lhe acendesse duas velas. Cansados da subida e adormecendo na vigília, só o Príncipe se deu conta de que uma das velas, caindo, pegara o fogo às toalhas e ao altar. Tendo-se esforçado ele próprio por evitar o incêndio, e erguendo-se para o conseguir, sentiu-se logo curado e chamou alegremente pelos demais, e todos deram graças a Deus pelo sucedido.

Sempre em Cárquere e em Resende os pais e os avós contaram esta história aos filhos e aos netinhos. A tradição não se perdeu, e julgo que nunca se perderá.

Para além desta constante tradição do povo, o “milagre” encontra-se referenciado em diversos cronistas do século XVI e XVII, nomeadamente Duarte Nunes de Leão na “Crónica do Conde D. Henrique” [11] , Faria e Sousa em “Europa Portuguesa” [12], Baltazar Teles na “Crónica da Companhia de Jesus” [13] , Agostinho de Santa Maria no “Santuário Mariano” [14], Nicolau de Santa Maria na “Crónica dos Cónegos Regrantes de S. Agostinho” [15], Pais Viegas na “Vida de El-Rei D. Afonso Henriques” [16], António de Vasconcelos na “Descriptione Regni Lusitanni” [17], Duarte Galvão, na “Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques” [28], Frei Leão de S. Tomás na “Benedictina Lusitanna”[19], Frei Bernardo de Brito na “Crónica de Cister” [20] e Frei António Brandão na “Monarchia Lusitana” [21].

Todos os citados relatos do “milagre” têm sido postos em causa.
E
fectivamente, (pese embora o seu pioneirismo de tentarem pela primeira vez em Portugal redigir uma história geral da nação, ultrapassando os historiógrafos dos séculos XV e XVI que se limitavam a escrever as crónicas dos acontecimentos ligados a uma ilustre personalidade), quer os épicos seiscentistas, quer os historiadores de Alcobaça, motivados pelo seu amor à pátria (que então se encontrava humilhada e mesmo amordaçada), e influenciados pelo mito sebastianista que augurava para Portugal um destino glorioso e eterno, caíram frequentemente na tentação de misturar a história com as lendas, e mesmo de inventar documentos ou apresentar como factos o que não passava de produto de imaginações exuberantes.

Os autores que põem em questão o “milagre” e o negam em absoluto baseiam-se nos seguintes argumentos:

1.º Os textos que referem o “milagre” foram escritos nos séculos XVI e XVII, quatro ou cinco séculos depois do suposto milagre ter acontecido;

2º As crónicas que narram o “milagre” foram redigidas por frades ou monges pertencentes a famílias monásticas que estiveram na posse do Mosteiro de Cárquere;

3º É muito estranho que um facto tão importante na História de Portugal não tivesse sido anotado nos documentos da época, já que dele dependia de certo modo o futuro da Nação: um rei com uma deficiência tão incapacitante nunca poderia levar Portugal à independência e muito menos afastar a moirama e alargar o território até ao sul.

4º Tanto a narração dos cronistas como o relato oral do povo envolvem algumas contradições de datas, tais como a afirmação de que o príncipe foi curado aos cinco anos e que o seu pai levantou a igreja em memória do milagre, quando a “Crónica dos Godos” atesta que o Conde D. Henrique faleceu quando o filho tinha apenas dois anos.

5º Alguns autores, valendo-se de outro recurso, negam que Egas Moniz tenha sido senhor de Resende e que o Príncipe aí tivesse estado alguma vez.

Com base nos argumentos que acabo de enumerar, os estudiosos concluem que a narração do famoso “milagre” se deve atribuir apenas à fecunda imaginação dos monges do mosteiro, interessados no engrandecimento da Ordem e no desejo de atrair peregrinos e romeiros ao lugar.

Face a tudo isto, analisemos atentos e desapaixonados os seguintes dados:

1º Não encontrei nenhum estudioso (mesmo os que contradizem o milagre em absoluto) que negasse a deficiência do príncipe, o que é verdadeiramente notável. Como souberam de tal deficiência? Porque razão nela acreditam?

2º Não era de esperar que o milagre, a ter acontecido, fosse logo passado a escrito, em tempos tão remotos, difíceis e conturbados. Sabemos que, ao tempo, não havia ninguém incumbido de escrever as crónicas do reino. Tal só aconteceu em 19 de Março de 1434, quando o rei D. Duarte encarregou Fernão Lopes “ de poer em caronyca as estorias dos Reys que antigamente em Portugal foram”…[22]

3º Ninguém nos garante que algum relato escrito do milagre tivesse existido e se perdesse com o tempo, como aconteceu com tantos outros documentos de grande interesse.

4º Muito (ou quase tudo) do que nós sabemos sobre os primeiros tempos da nossa história vem-nos pela mesma via do “milagre”: Nobiliários, hagiógrafos e cronicões do século XIV e cronistas dos séculos XVI e XVII.

5º Se as crónicas do século XVII não merecem todo o crédito (o que é verdade), a veracidade dos Livros de Linhagens e dos Cronicões de trezentos não é maior. Nem sequer a dos “cronistas por ofício” de quinhentos é assim tão indiscutível, se considerarmos que eram remunerados pelo seu trabalho e que foram diversas vezes cumulados de honrarias por aqueles cujos feitos narraram ou cujas personalidades exaltaram. Pelo menos, em boas condições de serem verídicos, não estavam seguramente.

E, já agora, quanto ao crédito dos historiadores de Alcobaça da era de seiscentos, não podemos medi-los a todos por igual. Se Bernardo de Brito não merece grande crédito como historiador, o mesmo não acontece com António Brandão, geralmente considerado um homem cuidadoso na investigação da verdade. Ele próprio, no prólogo dos seus trabalhos, depois de dizer que “a verdade he a alma da Historia” e de atestar que, em matéria de factos históricos, se não deve admitir coisa alguma sem a conferir com os documentos, afirma ter gasto perto de dez anos “em buscar e & ler as Doaçoens, Privilegios, Escrituras, & Livros dos principaes Archivos das Sés, & Mosteiros deste Reyno, e alguns das Cidades, & Villas delle, & principalmente o Chartório da Torre do Tombo que he o Archivo Real & está no Castello de Lisboa” [23].

Aliás, como todos sabemos, Alexandre Herculano, para redigir a sua História de Portugal, serviu-se dos trabalhos de Frei António Brandão, a quem chama “um ilustre restaurador da história pátria”, e a respeito do qual afirma que foi “o homem que mais atingiu o espírito da ciência histórica, exceptuando António Caetano do Amaral e João Pedro Ribeiro”[24]. Já não diz o mesmo em relação a Bernardo de Brito, caracterizando a sua obra como “altamente ridícula.”[25].

6º António Brandão, quando se refere ao “milagre de Cárquere”, cita duas antiquíssimas “Comemorações” em louvor de D. Afonso Henriques que ele próprio teve em mão e que eu reputo da maior importância neste caso: uma, escrita em pergaminho, viu-a no Mosteiro de Lorvão; a outra, no Mosteiro de Alcobaça.

Diz textualmente o cronista: “Deste milagre temos notícia (além do dito nas nossas Chronicas, & da tradição recebida) em hua commemoração antigua do Mosteyro de Alcobaça, ordenada pelos Padres daquelle Convento em louvor do gloriofo Rey Don Afonso Henriquez…com as palavras seguintes: “Qui mox a puero in fide beatae Virginis Matris Dei, dominae nostrae susceptus, cujus oraculo et patrocinio tibiarum sanitatem recepisti”. Querem dizer: que el Rey Dom Afonso Henriquez, logo desde Menino, foy posto debaixo do amparo da Bemaventurada Virgem May de Deos Senhora Nossa, por cuja revelação e intercessão alcançou a saude das pernas”[26].

Ora, o argumento aduzido quanto à hipótese dos monges de Santa Cruz terem “forjado” o milagre para dar notoriedade ao mosteiro e atraírem mais romeiros, cai assim por terra, já que, nem Lorvão nem Alcobaça tinham alguma coisa a ver com Cárquere; e até pode perguntar-se, com alguma pertinência: Como é que em Lorvão e em Alcobaça se sabia do “milagre”, tantos anos antes de ele ter sido “inventado” pelos cronistas? Aliás, a tal “Comemoração” de Alcobaça tinha de ser muito, muito antiga, sabendo-se que o “culto” a D. Afonso I cedo começou a morrer, sendo portanto muito anterior às Crónicas do século XVII.

7º Pergunta-se: o pretenso “milagre”, a ser verdadeiro, teria acontecido por volta de 1114, tendo o Conde D. Henrique morrido dois anos antes, ou seja, em 1112? A ”Crónica Gothorum” diz que, à data da morte de seu pai, o Infante tinha dois ou três anos [27]. As datas que acabo de referir, a serem verdadeiras e indiscutíveis, punham em questão os últimos conselhos e as derradeiras recomendações do Conde ao Infante seu filho na hora de morrer, e que constam do Nobiliário de D. Pedro [28] e das “Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra” [29].

Sabendo D. Henrique que o menino era bebé, doente, enfezado e incapaz (a acreditar nas Crónicas, o “milagre” ainda não acontecera nessa altura), como lhe confiou tarefas tão nobres e tão complicadas?
Sobre esta questão, eu ouso perguntar: Quem nos garante que o príncipe tinha apenas dois ou três anos quando o Conde faleceu e que o milagre só aconteceu quando o pequeno já tinha cinco anos? Não havendo documentos coevos, todas essas datas são discutíveis.

Não sendo nenhum dos documentos contemporâneo dos factos, e sabendo-se que “quem conta um conto lhe acrescenta sempre um ponto”, quem nos diz que a cura do menino não aconteceu pouco depois de ter sido desmamado por D. Ausenda e que, à hora de o conde falecer, não seria já um pequeno adolescente capaz de entender as falas e de apreender, aceitar e guardar a mensagem do conde moribundo?

Duarte Galvão diz-nos na sua “Chronica” que, à morte do Conde, era o príncipe “já de tal idade que nas guerras e fadigas supria os carregos de seu pai.”[30] Camões, n’ Os Lusíadas, referindo-se ao Conde D. Henrique, escreve assim: “quando chegado ao fim da sua idade, o forte e famoso húngaro estremado….o s’prito deu a quem lho tinha dado, ficava o filho em tenra mocidade…” [31] E quem nos garante também que tais recomendações do ilustre pai são mesmo verdadeiras e não foram inventadas?

Eu penso que o ocorrido é uma coisa - que se foi transmitindo de geração em geração - e que os pormenores de datas, de ditos e de idades são outra coisa bem diferente, que se foi imaginando e inventando a gosto de cada um. Daí as contradições. Basta confrontar os investigadores que escreveram sobre D. Afonso I, para encontrarmos as maiores divergências, praticamente em tudo o que a ele se refere, nomeadamente a data e o lugar do nascimento, e quem foi o seu “criador” e “educador”.

Quanto à data do seu nascimento e ao local onde terá nascido, optarei por 1109 e pela cidade de Guimarães, preferidos pela maior parte dos actuais investigadores. [32] Ora, por volta de 1109, “o honrado e bem-aventurado D. Egas Moniz de Ribadouro” (assim o caracterizam os Nobiliários medievais), a mando do Conde D. Henrique, teria dominado e controlado algumas revoltas da população árabe na região de Lamego, onde o futuro aio possuía grandes bens patrimoniais. Parece que foi também a partir daí que o fidalgo se tornou o homem da confiança do Conde e da sua mulher, adquirindo na corte um papel primordial, sendo-lhe inclusivamente entregue um pouco mais tarde o príncipe, para ele o criar e educar·[33].

Terá sido nessas circunstâncias que Egas Moniz o recebeu em sua casa, deslocando-se frequentemente com ele e com a sua família para os seus “paços” ou “quintãs” do Douro, nomeadamente, Cresconhe (no actual concelho de Cinfães), Britiande (junto a Lamego) e Resende, o meu concelho, onde também tinha o seu “Paço”.

A estadia do príncipe em Resende, posta em causa por alguns estudiosos, é afirmada por Frei António Brandão, [34] por Frei Leão de S. Tomás, [35] por Rodrigo Mendes da Silva, [36] por Frei Teodoro de Melo [37] e, muito recentemente, por Freitas do Amaral e Augustina Bessa –Luís. [38]

A ser verdadeira a estadia de Afonso Henriques em Resende, no Paço de Egas Moniz, mais razoável é toda a tradição do povo que refere a difícil e íngreme subida de Egas Moniz de Resende a Cárquere, depois de a Virgem lhe ter aparecido em sonhos.

9º Vários cronistas do século XVII estabelecem relação entre a fundação do Mosteiro em Cárquere e o tão discutido “milagre.

Gonçalves da Costa, que foi um ilustre membro desta Academia e escreveu a “História do Bispado e Cidade de Lamego”, em 6 volumes, diz que a primeira comunidade religiosa se deve ter instalado em Cárquere ainda durante a monarquia suevo/visigótica e que, depois da Reconquista destas terras aos Mouros, se deve ter reorganizado sob a direcção de um prior à maneira dos Monges de Santa Cruz de Coimbra, começando então a designar-se por Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, por viverem debaixo da sua Regra. [39]

Esta afirmação parece-me bastante provável, já que, seguindo-a, conseguimos encaixar, como num “puzzle” perfeito, diversas realidades de Cárquere que passo a expor sucintamente:

a) Antes de mais, a minúscula e preciosíssima imagem da Senhora de Cárquere, em marfim, que já atrás referenciei, e a história popular que fala do seu casual achamento na altura da Reconquista. Havendo em Cárquere um centro tão intenso de espiritualidade, é compreensível que tal imagem da Virgem ali fosse venerada com especial devoção e a tivessem escondido algures, na confusão das invasões sarracenas.
b) Da nave da igreja de Cárquere faz parte uma velha parede de granito que separa o templo do antigo Conventinho, tipicamente românica como a torre, enquanto tudo o mais é do século XVI, de características claramente manuelinas, o que não é difícil de compreender: quatrocentos anos depois, bem podia a nave do templo apresentar sinais de degradação ou de ruína.
Bem ao contrário, toda a capela-mor é gótica dos séculos XIII/XIV, o que já não é tão fácil de explicar: não é plausível que, sendo a igreja toda uma construção do século XII, cem anos depois já fosse preciso substituir ou remodelar toda a capela-mor. A explicação razoável parece estar mesmo na existência de um pequeno templo suevo-visigótico dos séc. VI/VII que, setecentos anos depois, fosse substituído pela capela-mor que ali se vê.

E com esta explicação se coaduna perfeitamente a preciosa imagem da Senhora com o Menino. Além disso, os pilares da capela-mor me parecem de estrutura e gosto muito mais antigos que o próprio gótico.

c)
Quando, em 1994, se desmontou o retábulo barroco do altar-mor para limpeza e recuperação da talha com subsídio da Secretaria de Estado da Cultura através do IPAR, ficou à vista uma enorme pedra em forma de mesa, rude, chanfrada nos dois ângulos frontais, com uma espécie de cofre cavado na parte superior, a meio, e coberto com uma pequeno naco de madeira. O cofre estava vazio, mas aquela grande pedra bem pode ter sido a mesa do altar da igreja primitiva (porque não do templo suevo-visigótico?), altura em que não se fundava nenhum lugar de culto sem a presença das relíquias dos mártires. E, se assim for, esse pequeno templo visigótico bem pode ter sido aquele que, embora muito degradado e talvez abandonado, existia em Cárquere quando D. Egas ali trouxe o Infante. E não nos será permitido imaginar até, que aquela mesa tosca de granito agora descoberta possa ter sido também o altar referido nas crónicas, onde o menino foi colocado como Nossa Senhora mandou?
Estou quase a concluir. Não o farei, porém, sem antes fazer uma referência a uma estranha hipótese que se divulgou rapidamente pelo país, sendo hoje conhecida e usada por muito boa gente, para contradizer o milagre. Refiro-me a um artigo escrito por Santana Dionísio n “O Primeiro de Janeiro” de 12 de Janeiro de 1969, que passo a transcrever nos seus três últimos parágrafos, que são os que nos interessam:

“À distância de quase nove séculos desse prodigioso evento, que poderemos nós, homens ressequidos deste século duro, pensar ou dizer acerca do mesmo?

É caso para profunda e tácita meditação.

A única palavra que talvez nos seja lícito pronunciar é a de que a estranha transmutação da criança enfermiça e sem porvir, na predestinada criança rosada e fortíssima que iria ser fraterno companheiro de correrias e diabruras do futuro Espadeiro (fraterno e quem sabe se irmão sanguíneo?) é um intrigante mistério que bem poderia ser objecto de discreto debate num possível Symposium ecuménico dos mais argutos detectives do mundo, tendo talvez como tema esta simples legenda: “A estranha incógnita de um presumível infanticídio, bem intencionado e perfeito
”. [40]
No texto, como é fácil de ver, pretende levantar-se um véu de muitos séculos, para, a medo (e para negar o “milagre”), sugerir que o príncipe deficiente foi eliminado num abrir e fechar de olhos e habilmente substituído por um qualquer saudável e robusto filho de Egas Moniz, sendo o “milagre de Cárquere”, neste caso, apenas uma invenção artificiosa para encobrir tal substituição.
Depois de Santana Dionísio, outros lhe seguiram o encalço. Omitindo propositadamente o título dum livro publicado em 2007 e o nome do seu autor (por me parecer mal escrito e demasiado indecoroso, a raiar até as fronteiras da obscenidade), anotarei apenas o que Augustina Bessa-Luís escreveu para “Fama e Segredo na História de Portugal”[41].

Cito apenas três passagens da “2ª ópera” da referida brochura:

“A criança raquítica, embora bela e prendada de muitas graças, deu lugar a um guerreiro como não houve outro na nossa História. Dá para pensar que Egas Moniz o fez substituir por um dos seus próprios filhos ou pelo filho de algum rico-homem de pendão e caldeira, como se dizia.”

“Uma nota arrepiante fica no rodapé da História. Que foi feito da criança aleijada que Egas Moniz levou nos braços, arrebatando-a à sua ama D. Ausenda?”

A versão que agora corre, e a mais vulgarizada, fala apenas de uma habilidosa troca de crianças, ficando D. Egas com o enfermiço do Conde, e o Conde com um possante rebento de D. Egas.
A minha opinião é a seguinte: Mesmo que ponhamos em causa todas as crónicas e relatos do milagre (e é compreensível, legítimo e razoável que o façamos), muito mais podemos e devemos pôr em causa esta estranha hipótese de Sant’Ana Dionísio e de todos os que a aceitaram e a usam depois dele, pela simples razão de que as crónicas dos séculos XVI e XVII têm atrás de si e a seu favor uma tradição oral passada de pais a filhos através de incontáveis gerações, podendo os cronistas ter-se limitado a passá-la a escrito na hora em que dela tiveram conhecimento (admitamos que, com algum exagero de pormenores), enquanto a recente hipótese, que vem apenas de 1969 (segundo eu sei), nada tem atrás de si, parecendo-me por isso mesmo inteiramente falaciosa e gratuita, para além de vir contrariar a proverbial honestidade de Egas Moniz nunca posta em causa por ninguém. Não me parece razoável e credível que homens tão honestos e honrados como foram Egas Moniz e o Conde Henrique, trocassem os filhos um com o outro, e muito menos se prestassem a matar uma inocente criança que acabava de nascer, fosse pelo que fosse.
Para além de que, não sendo fácil tal crime ou falcatrua passarem despercebidos, podem imaginar-se as reivindicações do poder que não haveria por parte de outros filhos de D. Henrique, e sobretudo por parte de D. Teresa, que obviamente sabia de tudo. Como podemos acreditar que a Condessa se calasse na ocasião do recontro de S. Mamede, sabendo que o porta-bandeira da revolta não era o filho verdadeiro de D. Henrique, mas tão só um dos filhos de D. Egas? E também não é difícil imaginar como seria aproveitada uma tal fraude por bobos e jograis para tema de cantigas e romances, que haveriam de correr de terra em terra e de chegar até nós como chegaram os relatos dos “milagres”.

Nos tempos que correm, não sei se por snobismo se por desejo de protagonismos ou lucros fáceis, usa-se levantar suspeitas de tudo e em relação a quase tudo, parecendo pretender-se ás vezes “descobrir a pólvora”, contradizendo tudo o que se disse ou ensinou ao longo de séculos e que foi considerado como verdade por muitas e sucessivas gerações. Basta pensarmos de relance nos temas da morte do papa João Paulo I, da virgindade e da ressurreição de Jesus, e em todos os best-sellers relacionados com tais questões, procurados e devorados com alguma sofreguidão pela nossa sociedade, na sua avidez insaciável de novidades, escândalos e sensacionalismos.

Não digo que se não devam pôr outras hipóteses, por mais afastadas ou contraditórias que sejam do que sempre nos foi dito. A ciência começa por aí. Tais hipóteses, entretanto, não passam disso mesmo, enquanto se não conseguirem provar, com exames sérios, documentos credíveis e argumentos insofismáveis.

Uma tradição, mesmo que não suficientemente provada, não pode ser destruída de um dia para o outro por uma mera hipótese baseada em suspeições e desprovida de qualquer prova razoável. Inventar suspeições e formular hipóteses, é o que há de mais fácil. E, pelos vistos, em nossos tempos, até é rentável. Altamente rentável, em fama e em proveito.

Vou concluir:

No nosso caso, por tudo o que hoje sabemos, ninguém pode afirmar o milagre, mas também ninguém o pode negar.

Como vimos, os argumentos a favor ainda parecem ser os mais credíveis. Só que a história faz-se com documentos autênticos e indiscutíveis…e esses não existem, sobretudo por não serem contemporâneos dos factos que estão em causa. Não existem neste caso, mas também em muitos outros relacionados com os primeiros tempos da nossa existência como povo livre e como nação independente, e que nós, afinal, até aceitamos sem grande reserva.

Efectivamente, nós não podemos dar como indiscutivelmente falsas todas as informações que chegaram até nós por via dos nobiliários, dos cronicões ou dos cronistas. Algumas podem ser (e são por certo) fruto da invenção de feitos maravilhosos muito do gosto dos escritores de todos os tempos e muito mais dos cronistas de seiscentos. Mas também nada se opõe a que sejam fruto de uma tradição segura e continuada (ainda que enriquecida com pormenores pouco credíveis), de que se perdeu a fonte documental.

Entre parêntesis, e apenas para ilustrar o que agora afirmei, refiro o famoso feito de Martim Moniz na tomada de Lisboa aos Mouros, mencionado no Nobiliário de D. Pedro [42] e negado em absoluto por Alexandre Herculano,·43] por não haver documentos contemporâneos do mesmo. Ora, Alfredo Pimenta, em “Fontes Medievais da História de Portugal”, [44] fala-nos de uma escritura em pergaminho encontrada por ele nos Arquivos da Torre do Tombo, com a data de 1258, onde se dá como referência de uma propriedade a “porta da cidade de Lisboa que dizem de Martin Moniz”, o que nos mostra que, 111 anos depois da conquista de Lisboa, já era tradicional o povo chamar-lhe assim. Consequentemente, conclui o referido investigador, o autor do Nobiliário não inventou o feito ou a façanha, mas apenas captou e registou uma tradição que já tinha mais de duzentos anos.
A minha opinião sobre o ”milagre de Cárquere” é a seguinte: Pode não ter havido um milagre assim tão claro, tão aparatoso, tão radical e tão rápido; pode e deve haver ampliação e exagero, tanto no que aconteceu como no modo como as coisas ocorreram, mas alguma coisa se passou, e muito séria, e com isso se relaciona Cárquere, a sua Igreja e o seu Mosteiro. E o povo, indiferente a provas e documentos, sempre contará a história do milagre que vem de longe, de muito longe, e vai permanecer pelos séculos fora. Uma coisa é certa: se reduzirmos os nossos conhecimentos e os nossos informes a factos cientificamente provados com suportes documentais indiscutíveis e exames laboratoriais evidentes, a nossa vida pode vir a tornar-se demasiado glacial e insípida, para não dizer prosaica, monótona, e até desengraçada. Quando o maravilhoso (mesmo que o seja) já não tiver lugar em nossas vidas e na vida das nossas crianças, deixaremos todos de sonhar, de recordar e de viver. Se não tivermos a certeza do que afirmamos por não poder provar-se documentalmente (e excluindo naturalmente publicações de carácter científico) julgo que devemos continuar a dizer e a repetir: “Conta-se que, um certo dia, já lá vão muitos anos…”
Aliás, foi assim que procedeu Freitas do Amaral no seu livro “D. Afonso Henriques”, que, avisadamente, se limitou a transcrever sobre o assunto o texto de Duarte Galvão, sem negar nem afirmar o que quer que fosse. [45]

Não me é proibido, além disso, pensar que os relatos do “milagre”, escritos nos séculos XVI e XVII, possam ser apenas o registo escrito de uma tradição que vinha dos primórdios e que nunca se perdeu. E a tradição, não sendo absolutamente válida como fonte histórica, é, mesmo assim, um canal de transmissão de factos e de verdades que não podem ser simplesmente ignorados ou desprezados por quem faz investigação.

Aliás, é bem interessante a alusão de António José Saraiva, quando, no seu curioso estudo sobre a IV Crónica Breve de Santa Cruz, defende que existiu, sem qualquer dúvida, uma tradição épica sobre Afonso Henriques, quiçá um poema jogralesco, que pode remontar ao último quartel do século XII, cantado talvez pelos jograis nas praças das vilas e nos festins dos castelos, baseada em testemunhos orais contemporâneos ou um pouco posteriores aos acontecimentos que faziam o seu tema. E o mesmo historiador afirma ainda que os cronistas se habituaram a citar os relatos dos jograis, apontando-os algumas vezes como fontes históricas. E a verdade é que, na “Crónica Geral de Espanha” de Afonso X, escrita no século XIII, se dá um largo acolhimento a histórias tradicionais, entre elas a dos “Sete Infantes de Lara”, ocorridos em 974. [46]

Os historiadores que negam os milagres narrados nas “Crónicas” (o de Cárquere e o de Ourique) e lhes chamam invenções devotas, explicam tais invenções dizendo que foram escritas numa época em que a moral do povo português se encontrava de rastos (época do domínio filipino) e era necessário erguer bem alta a bandeira dum povo eleito e predestinado pela Providência Divina, desde o seu início, para cumprir um destino de glória, na independência, na liberdade e no êxito. Mas afinal, mesmo que assim tenha sido, o nosso imortal Herculano, dois séculos mais tarde, no seu famoso romance histórico “O Bobo”, também explica a nossa vitória em S. Mamede como um êxito messiânico e providencial. Diz o romancista: “No progresso da civilização humana, nós tínhamos uma missão a cumprir. Era necessário que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de actividade e vigor…um povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envolto em temporal, e cujos destinos era conquistar para o cristianismo e para a civilização três partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a glória.”…”Que sejam agora as memórias da pátria, que tivemos, o Anjo de Deus que nos reboque à energia social e aos santos afectos da nacionalidade”. …”No meio de uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral, é uma espécie de sacerdócio”. “Exercitem-no os que podem e sabem, porque não o fazer é um crime”. [47]
Assim sendo, e por todas as razões que apontei, Resende e Cárquere têm muito a ver com Portugal, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Com milagre ou com uma simples graça de recobro na saúde, foi em Cárquere que, na pessoa do seu primeiro líder e do seu mais forte cabouqueiro, Portugal começou a dar os seus “primeiros passos” e se desenvencilhou duma paralisia congénita que nunca o deixaria ser livre e construir o seu futuro.
Permitam-me que eu conclua estas desajeitadas palavras, citando o tomarista Teodoro de Melo, no seu gongórico manuscrito de 1733:

“Podendose gloriar Rezende de ser nas nossas Espanhas o venturoso principio, e manancial fonte, e inexhausta origem de toda a sua ou quase toda a mais qualificada e melhor Nobreza, e mais avultada; e sendo grande glória esta para uma terra tão pequena, não é menos gloria para a mesma, o haverse nella creado, e milagrosamente feito apto, não o sendo por nascimento, e saindo della para o Reyno, o primeiro, e o mais valleroso Rey dos Portuguezes”.

“E jactese muito embora Guimaraens de lhe dar o nascimento, mais que em júbilos envolto em lágrimas, pello seu nativo defeito que lhe concedemos com racional inveja das mais terras não pequena, que em Rezende, sem jactância, foi o jubilo perfeito, as lágrimas gostoso agradecimento do remédio, e toda a esperança da bárbara expulsão que nelle se fez complecta na mesma terra; da qual saindo vigoroso, e prodigiosamente sem o impedimento com que nascera, o mayor prodígio em armas daquelles e de outros muitos tempos, a todos, e a todo o mundo por sy, e por seus descendentes, encheu de triunfos e victórias, de Coroas, Ceptros e Diademas”. [48]
Termino, exprimindo um desejo sincero e formulando um voto fervoroso: Gostaria que alguma vez esta Ilustríssima Academia se deslocasse a Cárquere, a Santa Maria de Cárquere, para apreciar “in lo-co”, ao menos uma vez na vida, o que acaba de ser dito e que eu logro felizmente todos os dias, sempre com a mesma surpresa e igual encantamento.
Muito obrigado
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Nota: Omitimos listagem da longa bibliografia.
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